terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Carta ao amigo desconhecido e de paradeiro longínquo





S..., 05 de fevereiro de 2019, em uma madrugada fria e de dores.



Querido amigo desconhecido, como tens passado? Espero que estejas com boa saúde. E deixo aqui, de antemão, meus sinceros desejos de bem-estar e harmonia.

A Velha Cidade anda muito animada, preparando-se para as festividades do Carnaval, que está bem longe, sim, eu sei. Entretanto não seriam estes filhos da Madre se não juntassem a Natividade com os Pierrôs e Colombinas.

Nem tudo está em seu devido caminho, sinto dizer-lhe. Mal começou o ano e as decepções assolam-me. Muito mais ligadas às pessoas eruditas, antes admiráveis, e seus vícios. Há casos e casos, repetições de cenas já vistas tantas vezes. Porém não menos aterrorizantes. É como o despertar de Mr. Hyde quando quer-se somente a sabedoria de Dr. Jekyll. Esta semana que passou foi palco de um enorme conflito interno, de uma agonia interior... De uma tristeza profunda. A iconoclastia feriu-me quase que mortalmente. Se pudesse contar-te todos os pormenores cheios de espinhos, seria muito mais frutífero. No momento, contento-me apenas em escrever-te esta folha, mesmo que seja tão enigmática e cheia mais de pesar do que de explicações coerentes.

A vida acadêmica está muito boa. É claro que há certas minúcias, dessas que somente as pessoas com um pouquinho mais de trinta anos passam (principalmente as mulheres) quando o mundo possui mais jovens do que empatia. Intelectualmente é um caminho solitário bem eficaz. Portanto não queixo-me da minha capacidade, talvez a única que mereça minha confiança.

Por outro lado, sinto-me injustiçada no campo do trabalho. É como se todas as portas tivessem sido fechadas. E suspeito que essa seja a fonte do meu tormento psicológico que potencializa as minhas dores na coluna. Há dias insuportáveis à base de remédios e gelo. Estou sempre sonolenta. E, às vezes, não gostaria nem mesmo de acordar. Ao dormir, vivo sem o martírio de sentir esses ossos frágeis. É um atenuante para meu crônico sofrimento.

Hoje tudo piorou, pois o meu pagamento de um trabalho para uma empresa privada está em atraso. Como é um dinheiro considerado pífio, pareço mais um desses servos da Idade Média, que fica ao bel prazer do Senhor. As cobranças dessa tarde deixaram-me para baixo.

A vida é um grande farsa. Tu não achas? O ser humano é medido pelo status. Mesmo que seja bom e culto, se não tiver uma boa posição social e um ótimo emprego, não vale um vintém; não podendo emitir opiniões, sendo alvo de escárnio dos parentes e servido como comparativo de fracasso.

Não irei estender-me, prometo; ao menos dessa vez.

Espero que essa carta chegue o quanto antes. Não exigirei resposta. Se chegar a ler a mesma, já estará de bom grado para mim. E para não perder o costume, envio um disco com a trilha sonora de Dr. Zhivago por Maurice Jarre. Quando escutares o Tema Principal (Main Title) lembre-se de mim. Quem sabe um dia a dancemos em um desses casarões oitocentistas, ou, melhor, a escutaremos bebendo um belo café da tarde num desses lugares bucólicos, cheios de saudade e amores.

Com carinho, 

T.S. Frank.

domingo, 20 de janeiro de 2019

O legado romano cotidiano - Legatum e Legatus - Um pouco de Etimologia, Latim e História

Hoje, um dia frio e cinzento, com um pouco de dor na coluna, café e pão com cerejas, estava eu a refletir sobre meu próprio legado. Pensei até mesmo nesses acumulados de escritos (que podem desaparecer a qualquer momento pela vontade de terceiros) e até mesmo em minhas futuras aulas e palestras de História. Não pensei em filhos, nem em amores ou família, pois não me deu vontade alguma. A minha utopia (apesar de meus mestres insistirem sempre no sentido coletivo dessa palavra) é um dia recuperar aquela alma que acreditava na figura das paixões. 

Dito isso, vamos ao LEGADO e todas as suas explicações.

De acordo com o Dicionário Michaelis, temos DOIS TIPOS DE LEGADO: 

Legado - Parte I

JURÍDICO: disposição, a título gracioso, por via da qual uma pessoa confia a outra, em testamento, determinado benefício de natureza patrimonial; doação causa mortis.

JURÍDICO: parte da herança deixada pelo testador a quem não seja herdeiro por disposição testamentária nem fideicomissário.

HISTÓRIA, MILITAR: na Roma Antiga, era o comandante de uma legião.

[adendo: apesar da etimologia latina apresentada pelo dicionário está correta, para esse tipo específico de militar romano antigo, a denominação em Latim é LEGATUS, ou melhor, LEGATUS LEGIONIS, ou seja, O LEGADO LEGIONÁRIO. BUNSON, Matthew, A Dictionary of the Roman Empire, 1995, p. 228]

FIGURATIVO: aquilo que se passa de uma geração a outra, que se transmite à posteridade.

ETIMOLOGIA: Latim: legatum.

Legado - Parte II

Que ou o que é encarregado de qualquer missão diplomática.

[adendo: aqui chamaremos pelo GENITIVO de legatus, LEGATI, e que pode ser dividido em duas classes: 1) Legati ou embaixadores enviados para Roma por nações estrangeiras; 2) Legati ou embaixadores enviados de Roma para as nações estrangeiras e para as províncias. Esse sentido é que é usado para a designação eclesiástica citada abaixo. MURRAY, John. A Dictionary of Greek and Roman Antiquities. 1875, pp. 677-679]

ECLESIÁSTICO: 1) Aquele que desempenha a função de embaixador extraordinário da Santa Sé. 2) Prelado, geralmente cardeal, encarregado dessa embaixada.

DIPLOMÁTICO: na Roma Antiga, funcionário do Senado que se encarregava da administração das províncias.

[adendo: aqui temos o LEGATUS AUGUSTI PRO PRAETORE, nome dado a um homem de confiança que assumia uma província de Roma, significando O LEGADO DO IMPERADOR COMO PRETOR. MURRAY, John. A Dictionary of Greek and Roman Antiquities. 1875, pp. 677-679 ]

ETIMOLOGIA: Latim: legatus.

Agora... O que podemos perceber de ligação entre legatum e legatus? 

Que ambos, etimologicamente, tem o mesmo radical da palavra latina LEGO. Ou seja, derivam da mesma.

Abaixo fiz um esquema com o significado de lego e suas relações:



Espero que o meu legado aqui tenha contribuído um pouquinho para o legado de vocês, queridos (as) leitores (as).

Ah, e não CONFUNDA o LEGO LATINO com o LEGO DE BRINCAR. Esse último deriva da abreviação de duas palavras dinamarquesas "leg godt", que significa "jogar bem".


Fontes:

Etimologia e Latim:

Gramática Latina - Napoleão Mendes de Almeida - 30ª Edição - Editora Saraiva, 2011.
Dicionário Escolar Latino-Português - Ernesto Faria - MEC.
Dicionário Português-Latim - F. Magalhães - LEP - 1959.


História:

A Dictionary of the Roman Empire - Matthew Bunson. Google Books. Em inglês.
Legatus, um artigo por Leonhard Schmitz. Parte do livro A Dictionary of Greek and Roman Antiquities de William Smith. Universidade de Chicago. Em inglês.


Curiosidade



sábado, 12 de janeiro de 2019

Kidding - uma obra de arte para a TV

Kidding é um magnífico e sublime retrato de que a vida perfeita e esfuziante deságua sempre no abismo cruel da realidade quando as câmeras são desligadas. As pessoas gentis vão sofrer, pois esse é o destino. E não deixe-se enganar: essa brincadeira infantil é para adultos!

Aproveitando que o Globo de Ouro foi por esses dias (e que as indicações ao Emmy desse ano ainda não saíram), trago um dos indicados da noite: Kidding (Showtime/EUA - melhor série de comédia ou musical e melhor ator de comédia ou musical).

Essa é a história de Jeff Piccirillo (Jim Carrey), mais conhecido como Mr. Pickles, um querido apresentador de televisão infantil, apreciado por crianças e pais. Ele tem um verdadeiro império multimilionário, porém enfrenta uma tragédia pessoal e uma vida familiar difícil. Eis que temos, então, um homem sensível em um mundo cão, que recusa-se a acreditar na ignorância, na falta de boas maneiras e na existência de pessoas ordinárias e aproveitadoras. Entretanto tudo tem um limite e ele é uma bomba-relógio que está só esperando a hora de explodir e mandar todos para o inferno. Só que essa pintura nua e crua da natureza humana levará um certo tempo para se concretizar.

E enquanto isso não acontece, somos levados por uma estrada sutil com destino a um colapso inevitável, com lampejos de esperanças seguidos por quedas vertiginosas. E é quando Jeff age como um completo bobo, aceitando de bom grado ser pisado pela vida e tirando sempre o melhor da lição, que os momentos mais reflexivos surgem. Às vezes tem-se uma vontade de dizer: "Ei, cara, acorde para a vida!". Contudo isso dura pouco, pois uma personalidade contida tem muito a mostrar quando atinge um certo nível de desgraça. 

O elenco é de extrema competência, como Frank Langella que faz o pai controlador e que gerencia todos os negócios, que só pensa na marca e na boa imagem que precisa manter de Mr. Pickles. É claro que o destaque fica com Jim Carrey. Seria difícil não falar o quão ótimo ator ele é, sendo um gênio na transição da comédia para o drama (e que só essa semana assisti uns cinco filmes dele). Em Kidding, Jim entrega uma das suas melhores atuações, deixando o pastelão de lado e indo mais fundo em um universo sombrio paradoxalmente colorido. 

[ADENDO: Jim Carrey sumiu por uns tempos e ficou quase um recluso. Tudo começou em 2015, quando sua ex-namorada Cathriona White cometeu suicídio e deixou uma carta com um conteúdo perturbador (os detalhes deixo para a pesquisa de cada um de vocês). Houve muita confusão, o marido da moça tentou processar Carrey, depois descobriu-se que algumas coisas que ela falou poderiam não ser verdade e o processo foi arquivado. Ele está com novos pensamentos e outra filosofia de vida, uns muito bons sobre o lado espiritual e outros muito nocivos (como a velha história de que as vacinas fazem mal). Ele agora faz tirinhas contra o Trump (o que é ótimo) e você pode ver o excelente trabalho dele aqui no twitter oficial. Sugiro que assista Jim & Andy, documentário da Netflix sobre os bastidores proibidos das filmagens de O Mundo de Andy/1999. É incômodo e ao mesmo tempo revelador, principalmente pelo brilhantismo de Carrey e seu depoimento de como mudou após o filme.]

Voltando...

São dez episódios que passam rápido (com trinta minutos de duração). Será fácil maratonar a temporada completa, pois ela realmente induz a isso.

Um lembrete para você, querido (a) leitor (a): essa é uma série para ADULTOS. Tem sexo explícito e nudez. Dado o aviso, não deixe de assistir. É uma das melhores séries de 2018. 

Recomendadíssima!



terça-feira, 1 de janeiro de 2019

É mais um ano!

Cá estou eu, em mais um ano, neste espaço de escrita. E lá vão-se, agora e realmente, quase dez anos de pequenos relatos, esses que podem ser, muito bem, a minha Micro História, um conceito novo que aprendi no curso de História. E, falando nele, digo que das minhas realizações acadêmicas iniciais, é a que até agora foi a mais feliz e saborosa, com um gostinho de torta de maçã e cafezinho da tarde.

Esse caminho de estudos leva-me a concretizações ainda muito particulares, assim como a muitas brigas para impor o meu ego (sim, muito grandioso). Entretanto é a primeira vez que eu sei que esses embates tornam-me segura de mim mesma, pois (não culpe-me por minha arrogância) sei como posso ser capaz e melhor. E, de antemão, o que pode impedir-me de ser reconhecida é o favorecimento dado a outros não tão merecedores (o que já, infelizmente, mostrou-se tão cedo). 

Ah... Criei trabalhos incríveis: falei sobre os manuscritos iluminados, explorei o meu inglês, passei madrugadas com pesquisas extraordinárias, impus a minha voz, debati sobre a Fome da Batata, na Irlanda, falei sobre o Cinema e suas concepções históricas, aprendi que não podemos fazer dos filmes documentos isentos de ideologia, entretanto podemos utilizar os mesmos para entender a sociedade na qual eles foram concebidos. Mostrei para a sala o James Dean e sua Juventude Transviada e também o David Lynch. Aprendi um pouco de Libras e conheci pessoas mais novas, muitíssimo mais novas. Um dos poucos momentos de tristeza nesse curso e que causou um específico desconforto espinhoso deu-se quando um certo jovem da sala, em conversas informais comigo, foi muito enfático ao falar da minha solteirice e meus trinta e três anos (não posso queixar-me do meu formato, foi dado-me um rosto muito bom!). Foi como se ele dissesse: "Eu tenho vinte anos e você está perto da morte e longe do despertar dos amores..." ou algo do gênero. Inquietou-me pensar que se fosse um HOMEM nas minhas condições, ele seria celebrado como um verdadeiro Deus, cobiçado em forma, pensamento e idade. O machismo, infelizmente, não está longe de acabar, mesmo entre os botões frescos de cravo.

Ainda continuo a trabalhar com mapas mentais e também sou bolsista do PIBID (Programa de Iniciação a Docência), acompanhando uma escola da rede estadual.

O novo governo nacional é um grande pesadelo, uma verdadeira distopia. É como mergulhar no terror. Passarei a tarde assistindo a filmografia e a nova série do Jim Carrey, Kidding. Estou agora mergulhada no universo dele. Ele é um ator excepcional e sua trajetória de vida merece um estudo. 

Passou-se mais um ano em que amei ninguém. Senti saudade da intensidade e fervor daqueles de outrora preenchidos por esse sentimento, mesmo que, na grande maioria, fosse unilateral, platônico e um fruto caramelizados da minha mente. Isso sim foi muito estranho. Será que estou no oceano da desilusão? Uma naufraga esperando apenas a morte? Ou falta-me a paciência e a limpeza dos rancores, a queima das recusas, o esquecimento das trocas e desprezo? São as reflexões que podem levar-me as respostas que preciso.

Por aqui, então, termino. E deixarei a primeira música que escutei nesse dia de muitos outros que foram enebriados pelas promessas e imaginação.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Aos amigos que nunca os foram - uma carta de despedida







S..., 09 de dezembro de 2018, em uma manhã estranha de um clima indeciso. 





Queridos (as) mestres (as) do cênico, espero que estejam todos (as) com boa saúde (o máximo que posso deseja-lhes). 

Não me vou demorar, serei breve.

Este é o meu adeus para vocês que participaram da estrada da minha vida apenas pelos motivos mais nefastos, desaguando assim nas baías mais profundas do fingimento, ingratidão e descompromisso. É chegada a hora de retirá-los (as) definitivamente dos meus pensamentos e reflexões sobre a negra alma humana. 

Após esses anos de convivências, desconvivências, reaparecimentos e posteriores desaparecimentos, a verdade não tardou a aparecer, pela boca daqueles (as) que vocês menos imaginam. Pelo que pude apurar, seus (suas) algozes disseram-me, enfaticamente, que nossos relacionamentos (de naturezas variadas) foram mais um nome na lista, daquelas quantitativas, que é usada pela falta de algo mais interessante. Soube também das suas artes no campo da esperteza e de conseguirem feitos inimagináveis para suas limitadas capacidades simplesmente por fisgarem as pessoas certas. Parabenizo-os (as) por isso, pois a dissimulação não é mesmo para todos. 

Bem... Espero que nossos caminhos nunca mais cruzem-se. Seria, para mim, muitíssimo desconfortável olhar seus rostinhos tão dóceis e angelicais (e enganadores tal como Satã). O que posso dizer é que, uma vez, depositei-lhes muita fé e que, agora, minha boa opinião foi perdida para sempre. Não há reparação. 

E é desse modo que nossas vidas caminharão daqui para frente e, do fundo da minha alma, desejaria muito apagá-los (las) das minhas lembranças. Entretanto só posso enterrá-los (las) no fundo da minha mente e é exatamente isso que faço neste momento.

A única coisa que peço é que o destino trate de não nos reunir em outra vida. 

Estou pegando o trem de volta para encontrar-me longe de todos (as) vocês, anunciadores (as) da desilusão, iconoclastas das boas intenções e semeadores (as) das ervas daninhas. 

Até um breve inexistente. 

Com todo o escárnio,

T.S. Frank


terça-feira, 20 de novembro de 2018

Das paixões e seus substratos

Merry-Go-Round, 1916, de Mark
Gertler. Tate Britain.
"A mulher apaixona-se através de seus ouvidos e o homem através de seus olhos." (Knowing that women fall in love through their ears and men through their eyes. Confessions of an optimist‎ - Página 186, de Woodrow Wyatt - Publicado por Collins, 1985 - 364 páginas.)

É mais uma dessas tardes abafadas e mórbidas passadas excepcionalmente em minha casa. Estou mergulhada em um tédio abissal e minha alma reclama insistentemente pela falta das figuras apaixonantes, dignas de olhares e desejos secretos. É, de certa forma, preocupante chegar à conclusão de que, mesmo mergulhada neste cotidiano jovial e vivaz, meus olhos padeçam pelo desnudar pulverizante de corpos quando estes mesmos abrem a boca. É como se toda a animação fosse estrangulada e deixada numa cena odiosa de um crime sanguinolento. 

Então lembrei-me dessa frase acima do britânico Woodrow Wyatt (1918-1997) e que caiu tão bem nessa situação como luvas de seda feitas sob medida. 

A paixão é uma espécie de feitiço poderoso que opera distintamente entre os sexos. Os homens deixam-se levar pelas formas, contornos, e perdem-se debilmente pela beleza padrão de sua época ou por aquela dos seus sonhos eróticos. Mais tarde, quem sabe, analisam a figura de seu deleite pela ótica da ideologia e, se não houver compatibilidade, colocam-lhe fita na boca e tudo estará certo. Já as mulheres encantam-se por palavras (de uma forma ou de outra). E como elas... Assim também sou.

Os seres humanos apaixonantes e dignos de adoração fazem das palavras dentes-de-leão que flutuam suavemente no ar para depois acariciarem a pele do rosto numa tarde de verão.  E agem ardilosamente por meio de seus sorrisos cativantes, gestos sensuais levemente camuflados e discursos românticos preenchidos de cultura e forte personalidade. É através deles que renasce a esperança de que o prazer não está mergulhado na lama da vulgaridade, das extravagâncias, dos músculos, ou corpos torneados. Essas mesmas pessoas são gentis por natureza, entretanto não lhes fogem, pelo próprio egoísmo e vaidade, arroubos de superioridade, vez ou outra, que nunca passam de deliciosas e crepitantes manifestações de seus espíritos. Suas companhias preenchem os vazios da monotonia, inspiram e aceleram o coração. O amor talvez nasça dessa maneira, suponho eu. Contudo afirmo veementemente que o prazer em sua essência mais mítica é alcançado dessa forma.

E assim a vida torna-se um moinho de vento, esperando sempre a próxima lufada para continuar a movimentar-se. E é aí que mora o grande perigo, pois as paixões desse tipo não produzem apenas felicidade, satisfação e êxtase. Essa equação também fornece suas impurezas: tristeza, desesperança, desilusão e saudade. Usa-se o que é nutritivo e saboroso primeiro para depois cair no abismo da abstinência.

Sim, eu estou nessa fase sombria, com todas as pessoas transformando-se em rabiscos mal desenhados, que proferem emaranhados de letras intraduzíveis e que se liquefazem ao pôr do Sol.

A solidão mais estranha é aquela que consegue, mesmo entre as multidões, impor sua presença e destruir qualquer protótipo de paixão ao mostrar avalanches de iconoclastia.

Poderia mergulhar sem restrições em um mundo mais simplista nesse quesito. Mas isso não será possível, pois fugiria de mim mesma e entraria em negação. 

Respiro um saudosismo corrosivo. Porém a vida seria tão diferente se eu aceitasse uma tola paixão? 

Muda-se o cenário, os atores... E a história continua a mesma. Não adianta enganar-se, porque a vida é cíclica como a valsa energética de um carrossel, as estrelas impossíveis de Quintana e a sentença de Wyatt. 



sábado, 3 de novembro de 2018

Canção de Ninar (Sleepsong) - Secret Garden

Dentre as preciosidades simples da vida, há, pois sim, a música. E são encantadoras as canções melódicas que embalam sonhos doces juvenis, desses que guardamos longe, e desesperançosos, da triste vida adulta. E que voltam, vez ou outra, para mostrar-nos que, apesar dos dissabores e desenganos, a vida ainda continua...

Lay down your head
And I'll sing you 

a lullaby
Back to the years
And I'll sing you to sleep
And I'll sing you tomorrow
Bless you with love
For the road that you go...

Deite sua cabeça
E eu cantarei para você 
uma canção de ninar
Voltando no tempo
E eu cantarei para você dormir
E eu cantarei para você amanhã
Abençoarei você com amor
Para o caminho que você trilhará...

(Sleepsong por Secret Garden, álbum Earthsongs/2005, 
compositores: Brendan Graham e Rolf Lovland)


sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Horizonte negro, dantesca multidão

"Os costumes são a hipocrisia das nações." (Les mœurs sont l'hypocrisie des nations - Physiologie du mariage ou Méditations de philosophie éclectique sur le bonheur et le malheur conjugal: Nouv. éd.‎ - Página 39, de Honoré de Balzac - Publicado por Charpentier, 1838 - 408 páginas)

As previsões catastróficas confirmaram-se. E não seria para menos. O mundo é governado por uma incrível roda que movimenta toda a energia ao redor de si. E, de tempos em tempos, essa força vital traz paz e quietude, amor e liberdade, para que mais tarde estejamos mergulhados nas trevas escabrosas de um brilho acetinado de toda a cretinice imunda da essência humana, travestida pela moral e os ditos bons costumes. Somos obrigados a presenciar o desvelar das minúcias patéticas de pessoas extremamente religiosas, gananciosas e que tentam expiar seus próprios pecados através de mentiras que assustariam até mesmo o pobre diabo.

Os velhos tempos repulsivos e letais estão de volta, banhados pelo sangue de um vermelho vivo sem precedentes. Esse mesmo vermelho que trouxe dias de glórias, o bem dos pobres e o escárnio dos burgueses. Sim, uma cor tão temida, mal interpretada, mal cuidada e mal administrada. E, mesmo assim, a teimosia não deixa-me afastada dela. Tenho sonhos, mas não mais utopias.

A História anda bem; pelo menos a minha, aquela que vou de encontro todas as tardes desse verão escaldante (e algumas manhãs também quando tenho reunião da minha bolsa de iniciação à docência). Poderia estar melhor, é claro, se meu ego não fosse tão grande e seletivo (e vaidosamente digo que é bem válido ser desse modo).

O meu descontentamento crônico faz eu sentir falta daqueles que tem a minha idade e que entendem quando falo de Simon & Garfunkel ou tomam um café comigo recomendando documentários e álbuns do Nat King Cole, por exemplo.

Padeço pela solidão da falta dos meus iguais.

A juventude não amedronta-me, porém deixa-me muito entediada.

Talvez o Sol nasça daqui para frente com um tom de laranja atômico queixoso e ponha-se levando muitas lágrimas azuis de arrependimento.

Jazem todos os bons sentimentos em covas rasas, assassinados esses por ditadores da vida alheia e das pregações divinas.

E estou aqui... Com o amargor de quem perdeu-se nessa dantesca multidão.

sábado, 6 de outubro de 2018

O sistema, a desconstrução e a desilusão resultante

"Covardia é o medo consentido; coragem é o medo dominado." (la lâcheté, c'est de la peur consentie; et le courage n'est souvent que de la peur vaincue - Nos filles et nos fils: scènes et études de famille‎ - Página 66, de Ernest Legouvé, Gabriel Jean B. Ernest W. Legouvé, Paul Philippoteaux - Publicado por Hetzel, 1878 - 346 páginas)

Hoje foi um dia de duas faces... E eu pensava nos vários acontecimentos e sentimentos estranhos que enebriavam o meu ser enquanto eu caminhava de volta para a minha casa nesse final de tarde tingido pela suavidade dos tons pastéis. 

Minha mente estava enegrecida por conta de uma desilusão extremada, cheia de um pesar melancólico e agoniante. Naquele momento eu só conseguia engolir um pouco de café e determinar que o mundo não passa de uma aberração que leva-me a essa esperança inútil de que finalmente eu tenha encontrado algo que valha as minhas forças. E, num golpe mortal, quando menos espero, fatos do sistema aparecem e a minha vida cai em lamúrias por uma desgraça intelectual sem precedentes. 

Talvez eu seja apenas uma pessoa que tem, de certo modo, uma segurança desnecessária com as palavras, o que pode ser bem o meu fim e a minha desqualificação. Antes eu lidava com números, cálculos e uma infinidades de impessoalidades e restrições e isso criou-me um anseio de mergulhar em algo mais criativo. Agora, com tudo o que eu sei (mais uma vez) dos bastidores, parece que todo o meu trabalho presente e vindouro estará sempre condenado a julgamentos de primeiros e terceiros e nunca (e sem exageros!) terá uma excelência.

Estarei eternamente condenada a essa tão rápida decepção? Coloquei (sem dar-me conta) uma venda nos olhos por causa do ânimo do espírito? Assim como um vendaval que é anunciado pelas nuvens carregadas do leste e ignorado imediatamente pela beleza da imagem de seu mensageiro?

Sim, uma parcela da culpa provém da minha ousadia em achar que a maioria das críticas sobre mim são injustas ou feitas por pessoas não dignas. É da minha natureza raramente concordar em primeira instância e viver à beira do abismo do sentido contrário. Enquanto isso, os mais ressabiados tendem a escolher a estrada mais fácil do obedecer. Sim, a covardia é fruto de um medo ainda indomado e que espalha-se entre os mais jovens pela imposição dos mais experientes, donos de um certo tipo de controle. Bem sei que estou longe de conter todos os meus receios, mas alguns estão devidamente atenuados. Não temo mais as represálias que são comentadas pelos corredores. O acovardamento é deveras odioso para que eu aguente o seu peso. Entretanto salvaguarda-me põe-se necessário quando o entorno é só terror.

Eu bem queria ser um desses cavalos livres que andam pelo deserto, sem identificação, peso e conflitos aparentes; apenas vivendo o dia após dia.

Desejo não lembrar meu nome e nem mesmo quem eu sou. E essa negação de mim mesma é o pior dos desencantos, pois é o produto do maldito resquício da dominação alheia.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Monocromia

São as madrugadas mais quentes do ano. E o estilo veraneio estabeleceu-se de forma estridente. Dizem, então, as boas e más senhorinhas que é primavera, mas cá estou a duvidar muito, pois nem mesmo vejo as tão brancas flores e muito menos as coloridas, aquelas mesmas do campo, do sertão, que brotam nas estradas da vida e do consolo das lágrimas.

Não posso estender-me muito, pois sim. Tenho muitos afazeres e toda uma carga intelectual para absorver.

Saudades batem à minha porta; de quem? Bem eu não sei ao certo. Muitos rostos foram embora. E agora as faces são muitos jovens e fora do meu próprio contexto. Lá estão todos em uma linha muito à frente do meu horizonte.

Preciso de um ídolo, uma imagem de adoração, daquelas para desejar a carne e unir o espírito, sem nenhuma amarra dessas que prendem muitos seres humanos a dogmas e preceitos que apenas afastam e deixam muito amargor.

Tudo não passa de frivolidade e falta de berço. A polidez esvaiu-se e nem uma gotícula sobrou. Ou as moças bonitas são pura perfídia ou cristalina insipiência.

E o reino dos doidivanas e lunáticos continua simplesmente o mesmo.

Entretanto... Deixo para o final uma dessas canções, que, se fosse em outro mundo, já teria dado-me uma dança ou uma boa conversa a luz do luar. Só que aquele outro homem bonito, de outrora, de rosto faceiro, foi-se e nunca mais fez-se figura.

Só resta-me mesmo o desalento e o dissabor de uma vida monocromática adiante. 




quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Boemia de todos os dias...

Estou um pouco afastada das atividades da escrita. Pois sim, são tempos um pouco trabalhosos, de andanças e mais andanças. O curso de História começou e com ele apareceram as grandes responsabilidades.

Não posso dar-me o luxo de apenas estudar como meus outros bons e jovens colegas assim fazem. Preciso trabalhar, apesar de pagarem-me bem abaixo do que espera-se. Ganhei uma bolsa para uma iniciação a Docência. Um pouco de sorte, diria você. Considero-me uma mulher que tem dois empregos e ganha o salário ínfimo de um só.

O Brasil anda muito estranho. Com essas pessoas de valores antiquados, pregando os preceitos de uma família cristã de uma fornada da Idade Média. Assusta-me mais as mulheres que apoiam um candidato que as desfavorece em tudo. Contudo o comportamento dessas não me é tão distante. Tenho um exemplo claríssimo de uma parente bem próxima. Suas atitudes refletem sua pouca autoestima e sua própria falha em manter algo que desde o começo destinava-se ao fracasso retumbante, com direito a humilhações perpétuas advindas daquele que ela diz amar. Esses tal conceito familiar serve apenas para aqueles (e bem aquelas) que têm medo de suas próprias vidas, embaçam sua percepção e tentam possuir o que não podem ter. São fracos, dados a uma ambição desmedida, cobertos de dívidas e entre outros descalabros recorrentes nesses 'cidadãos de bem' cobertos pela lama espiritual.

E assim os dias vão passando...

E sinto aquela saudade que aperta o peito arduamente. São rostos que faltam-me. Por onde andam aquelas formas que ressoavam pelos fins de tarde de vento suave e acetinado? Tem-se em mim apenas essa época sombria, de uma gente que emana ódio, pouca sabedoria e muito menos o conhecimento acerca da própria razão de ser do mundo e dos seres que aqui vivem.

Na semana que passou vi e falei com alguém que lá atrás fez parte, mesmo que muito pouco, da minha vida. Deixo aqui registrado seu jeito brejeiro único, de sorriso avassalador e uma timidez bem proposta. Não poderei nunca queixar-me dos próprios erros que cometi por julgamentos insensatos, levados, em partes, por falsas amizades, líquidas e diabólicas. Quem sabe, um dia, perdoe a mim mesma por ter deixado escapar a admiração que aquele moço bonito sentia. Porém sei, perfeitamente, que nunca mais serei digna de tal afeição novamente.

[Escuto Nelson Gonçalves]... E a minha boemia de todos os dias faz-se. E bebo (somente café, devido a minha fraqueza de saúde) a todos aqueles que um dia gostei verdadeiramente.

Desejo ver-me novamente de forma bonita. Mas custa-me acreditar em uma beleza partida de alguma parte desse corpo e mente. Entretanto, mesmo que seja uma afronta, anseio novamente por um endeusamento ingênuo, ou mesmo aquelas paixões febris, das mulheres tolas dos folhetins.

Apagou-se meu Sol minúsculo. Poderia achar outro e faltam-me forças. E agora assisto à vida dos outros... E assim resgato as lembranças de alguém que um dia eu almejei ser.

sábado, 11 de agosto de 2018

Piers Paul Read - De um livro da adolescência para a descoberta de um machista escritor

Capa de O Oportunista/1973
Não é fácil ser uma mulher. E é assim desde os tempos de Eva, Jezabel, Madalena e outras figuras do escárnio bíblico. Mesmo com o movimento feminista a todo vapor, a empatia da maioria dos homens é quase ínfima perto do que poderia ter-se a essa altura.
Eu não odeio o sexo oposto. Entretanto, ao longo dos anos, ele passou do status de delicatesse para uma figura invasiva, ávida por penetrações e satisfação do próprio ego e falo. Os homens, na grande maioria das vezes, tornam-se patéticos por pensar que são os únicos indivíduos que saciam nossos desejos. A ignorância e má vontade são seus piores inimigos.

Pois bem, já que estamos falando do machismo, cabe aqui dizer que nem mesmo a minha coleção literária escapa ilesa. É certo dizer que algumas obras favoritas cairão no limbo, empurradas pela revelação das ideologias nefastas de seus escritores.

E foi assim com Piers Paul Read e um dos livros da minha adolescência - O Oportunista (The Upstart/1973), lançado aqui lá pela década de 1980 e que só fui ler quase nos anos 2000. Ele estava esquecido até outro dia, pois o primeiro exemplar esvaiu-se com as inúmeras mudanças de casa e cidades. Contudo o saudosismo não me deixou esquecer de Hilary (um homem, pois sim!) e suas desventuras. Comprei um exemplar usado pelo site de sebos Estante Virtual. E lá fui procurar mais sobre o autor...

Piers é, antes de tudo, um católico britânico fervorosíssimo e que deixaria qualquer horda de beatos Os Sobreviventes - A Tragédia dos Andes (Alive: The Story of the Andes Survivors/ 1974) e que virou o filme Vivos (Alive/1993/Com o Ethan Hawke).
Contracapa de o Oportunista/1973
no chinelo pelo grande apego as suas convicções. Nascido em 1941, foi educado por monges beneditinos e formou-se em História por Cambridge, onde obteve também seu grau de Mestre. É responsável por

A religiosidade fanática sempre foi e será um empecilho para a aceitação de que as mulheres são iguais aos homens em intelecto, força e potencial. E são por bravatas como essas abaixo que, por mais erudita que seja a pessoa, qualquer traço de admiração por seu trabalho é mirrado:

"Você não encontra qualquer evidência de que as mulheres estão insatisfeitas com a sua condição antes do século XVIII [...]. Eu acho que as mulheres viam como ordem natural o fato de que o homem deveria ser o chefe da família, o que foi também aprendido com os ensinamentos cristãos. Por isso elas desempenhavam este papel doméstico. E eu acho que as feministas provocaram um ressentimento contra os homens que persiste até hoje." (Piers Paul Read , 18 de julho de 2010, The Guardian)

"Independentemente da teologia ou dogma, eu acho as crianças muito vulneráveis ​​e eu acho que elas são as vítimas do triunfo do feminismo à medida em que ele é parcialmente culpado pelas enormes estatísticas da separação de pessoas que não casaram. Eu diria que a educação das crianças é mais importante do que qualquer outra coisa, e eu acho que é muito difícil para as mulheres seguirem uma carreira e criarem filhos. [...] Eu não acredito que o feminismo tenha feito as mulheres felizes..." (Piers Paul Read , 03 de julho de 2010, The Guardian)

Há muito para analisar...

Livro: Os Sobreviventes
A Tragédia dos Andes/1974
Vejamos a primeira declaração. Um historiador que afirma que as mulheres antes do século XVIII estavam plenamente satisfeitas com seu papel de parideiras e gerenciadoras de refeições é de uma percepção assustadoramente idiota. Afinal, que ser humano não teria medo de, um vez colocado o seu total desgosto com sua própria condição, ser: separado dos filhos, posto em um manicômio, ter um apedrejamento moral e físico (o que acontece até hoje), entrar para a classe dos párias, além de assassinatos pela tal defesa da honra (masculina) e outras perversidades? Ele, usando muito bem a construção de argumentos para deturpar, faz de sua condição de estudioso da área um atestado de que TODAS AS MULHERES eram donas de casa por um prazer quase nirvânico. Seria bom que ele aceitasse que as feministas não provocaram sentimentos ruins contra os homens. É que a modernidade trouxe também um conceito talvez bem novo para este senhor: o direito das mulheres.

Já a segunda sentença... Meu Deus... Todos são culpados pela separação de um casal: as mulheres, o cachorro, os jornais, os livros, o remédio, a TPM, o psiquiatra, a falta de psiquiatra, menos, é claro, os homens! Como ele pode dizer que o feminismo não deixou as mulheres felizes? Isso seria mais uma vez o mansplaining do escritor gritando? Chega a ser engraçado o fato dele ignorar que as crianças não são educadas apenas pela mãe, que há um pai que tem mãos, boca e cérebro não só para espalhar sua testosterona territorial. Gostaria muito que ele falasse isso diante de todas as mulheres que criaram seus filhos trabalhando (com ou sem um pai presente) e sobreviveram bem, assim como as proles, e desempenharam um papel ótimo.

Essa tal felicidade proporcionada pelo amor e proteção dos homens parece um daqueles slogans cafonas e antiquados da antiga URSS para promover os grandes feitos da nação. Colocando minhas próprias experiências na mesa, digo que meus momentos mais infelizes e miseráveis foram ao lado de homens. Nenhum deles me proporcionou prazer algum, todos tão enfadonhos e medíocres em seus mundinhos pequenos de machos alfa. Neste ponto concluímos que boa parte deles espera de relacionamentos estáveis e casamentos, além do famoso transar para fazer filhos (porque depois vem as amantes e prostitutas), uma outra mãe, pois eles não suportam a ideia de viverem por conta própria. Isso sim pode explicar uma das origens da famigerada ordem natural das coisas.
Senhor simpático: Piers Paul Read

Depois de todo esse desvelar, pergunto-me qual será a minha reação ao olhar novamente aquele livro que devorei há tantos anos. É um tanto quanto desolador esse tipo de iconoclastia: não se trata apenas de quebrar uma imagem. A luta para não matar toda uma uma obra é a parte mais difícil. 

De qualquer maneira, nunca mais verei a criatura e o criador da mesma forma. O machismo é realmente um ceifador feroz: destrói corpos, vidas e boas lembranças literárias. 
As mulheres estão felizes por deixar as feministas serem duramente criticadas: poucos estão preparados para defender o movimento que deu direitos às mulheres. É por isso que o Piers Paul Read pode atacá-lo sem ser desafiado. Artigo em inglês - The Guardian Eletrônico



domingo, 22 de julho de 2018

A escabrosa vulgaridade

Eis que do comum, das massas e das multidões, emerge uma palavra espinhosa e intragável -  a tão temida vulgaridade. Entretanto engana-se o pobre ser humano que acha-se no direito de assumir a posição de que essa malfadada característica é única e exclusivamente daqueles menos abastardados financeiramente. Uma tolice das grandes!

Afirmo que não há nada menos segregante do que esse arranjo de letras. Suas mãozinhas enegrecidas tocam as almas mais iludidas para que depois personifiquem a figura do horror em trejeitos e linguajar. E por mais que esses corpos banhem-se em ouro e nobres tecidos, a fantasia não tarda a esvair-se, revelando um poço sem fundo do mais desprezível que existe: para pobres e ricos, igualmente.

O mais escandaloso nessa constatação é o quão fácil é cair nessa terra lamacenta. Porque é laborioso começar a raciocinar de forma inteligente e a alimentar-se de ensinamentos que levem a um nível mais sublime, desapegado e menos material.

A vulgaridade não está nem aí se a criaturinha tem riquezas ou vem de um berço de alta estirpe.

Coloco nesse meio aqueles que pensam e agem como intelectuais de taverna, homens e mulheres, às vezes tão jovens, que interpretam pobremente o papel que escolheram para si mesmos. É degradante, porém um divertimento diabólico para os que observam atentamente tais bufões.

O senso comum também tende a achar que a baixeza atinge as classes menos favorecidas apenas porque essas vestem-se com trajes mais baratos e de gosto duvidoso. Contudo, nisso tudo, apenas muda-se o cenário, os atores e a quantidade financeiramente investida. Pegue alguns da elite e analise-os por um certo período. A maioria estará mergulhada na indignidade, mediocridade e obscenidade em formas gourmetizadas. Chega a ser extremamente patético. Já do outro lado, as classes menos favorecidas podem muito bem mostrar exemplos de requinte. E entre esses dois universos, se for para apostar nesse digladiar, prefiro a horda comum, verdadeira e de raiz. Não aguentaria, além do já exposto, presenciar vômitos de uma nobreza aguada que contém uma gente sórdida que se acha a nata do refinamento.

O contemporâneo tornou-se bem raso e incolor. Por isso refugio-me em mundos imaginativos. Porque nessa infame realidade, até mesmo a vulgaridade está sentindo vergonha deste mundo. 

domingo, 15 de julho de 2018

Novo curso: História - Um recomeço para vida acadêmica




Bem, PASSEI e estou DEVIDAMENTE MATRICULADA NO CURSO DE HISTÓRIA. 

Voltei para a mesma universidade pública e federal de antes...

Se uma porta foi fechada, eu tinha, então, que abrir uma janela.

De modo algum desistiria de tentar obter uma segunda graduação e ter a possibilidade de mestrado e doutorado em uma área que tivesse afinidade.

Pensei primeiramente em Letras. Entretanto logo repensei... O curso nesta cidade não oferece uma opção de turno noturno, algo que a História já possui. Assim que arrumar um emprego CTPS, farei os trâmites legais para a migração, sem o prejuízo da perda de cadeiras (já que é o mesmo curso, só muda o horário).

O turno vespertino facilitará o meu trabalho home office (quando tiver demanda, se houver...), pois não tenho muito ânimo para sair de casa com os primeiros raios de Sol. Por fim, o curso de História é uma área que pode englobar, perfeitamente, muito da Literatura (a parte mais atrativa de Letras para mim).

Terei, claro, uma bocado de trabalho pela frente: montanhas de leitura, estudos e exigência de uma escrita rica. E isso lembra-me: QUE ÓTIMO QUE EU FIZ LATIM!

E que seja um caminho calmo, laborioso e cheio de recompensas!


quinta-feira, 12 de julho de 2018

Desligamento voluntário - Física Bacharelado - Finalmente!!!

Livre estou, livre estou!
Bem, hoje finalmente pedi meu desligamento voluntário do curso de Física Bacharelado. Então, estou oficialmente fora dele, sem vínculo algum com a universidade, a não ser pelo bacharel em Ciências Contábeis, que terminei com êxito por lá há alguns anos.

Nesse tempo, desde do cancelamento da matrícula, passando pela recusa do famigerado e incompetente colegiado (formado por professores que mais parecem bufões da Idade Média e mais instigantes que sopa rala de orfanato) até a saída final, chegaram-me fatos bem interessantes. Soube, outro dia, que quase todos que tiveram recusados os pedidos de matrícula entraram com novos recursos por outro colegiado (o chamado de centro) e voltaram. Dos que voltaram pelo método clássico (apesar de muitos estarem no curso pelo tempo de dois cursos inteiros), veio-me, também, que um deles (o caso mais bizarro de todos) SEQUER está frequentado as aulas. Outra, mais esperta, que também teve seu processo deferido para o plano de estudos, foi chamada para uma nova vaga pelo SISU 2018.1 e um ex-colega, vendo que a chance que lhe deram não seria suficiente para que terminasse, já tratou de ver novas possibilidades para entrar novamente.

Ou seja... Pelo que pode-se concluir, tudo não passou de uma ENORME FACHADA fadada ao fracasso. É óbvio que muitos não conseguirão cumprir o prazo do tal bilhete de ouro da segunda chance. Entretanto todo esse CIRCO serviu para constatar:

1. Os professores de física (a maioria) são incompetentes, altamente ignorantes e não conseguiriam redigir um texto que pudesse ter o mínimo de cultura e respeitabilidade. Sabem um pouco do que estudaram e recusam-se a ensinar decentemente, talvez por medo da concorrência e por essa fantasia quase sexual de que tudo nesse entulho de equações não pode ser apreendido por ensinamentos (por telepatia ou osmose quem sabe).

2. Os que ficaram são pobres iludidos...

3. A Universidade não jubilou ninguém. Um blefe daqueles. Simplesmente quem não pedir desligamento voluntário (e não tem mais um pingo de interesse de ficar nessa casa da mãe Joana), ficará para sempre no LIMBO DE SER VINCULADO E PROIBIDO DE FREQUENTAR AS AULAS.

A minha parte, já fiz... Agora é esperar por melhorias e seguir com a vida.

Como diria Carlota Joaquina - "Dessa terra, não quero nem o pó!" Incluindo muitos dos ex-colegas (e até formados!) que são interesseiros (puxadores de tapete e xeleléus) e mais falsos que uma nota de três reais.

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Saiba o começo dessa história em:

Partidas & Reflexões - Uma carta de despedida para Ciência