sábado, 9 de maio de 2020

Covid-19 e seus desafios: muito mais do que manter a própria vida

Quando eu era mais nova, lembro-me de assistir diversos filmes na Tela Quente da Globo. Um deles foi o Epidemia (Outbreak/1995). Naquela época, o mundo tinha medo do Ebola (considerada a doença mais mortal, mas não mais mortal que a Raiva, por exemplo!). A vida era cheia de um imaginário distante. Enquanto o cinema mostrava-nos um cenário catastrófico apenas como uma obra intelectual, o meu universo particular estava triste, porém cheio de desejos e amor platônico. O céu leitoso salpicado pela Via Láctea era o começo de uma felicidade utópica. O engraçado é que sinto saudades dessa alegria ilusória e tola e da melancolia real juvenil - um campo de ópio de verdade.

O tempo passou. A infelicidade tornou-se tão presente quanto as decepções. A morte não está somente lá fora, com o corona vírus, a nova peste, o divisor de águas para o fim do século XX; o ceifeiro anda lentamente dentro da minha própria casa. O mundo está em crise. Já o meu desmanchou-se há tempos.

Eu estava tentando a minha reconstrução através do curso de História. E jamais imaginei que pudesse amá-lo muito mais do que a Astronomia. Sinto-me nele mais segura intelectualmente. Pois antes enterrava a minha própria inteligência e sanidade num profundo mar de desapontamento. Contudo é uma batalha árdua, complicada. Eu não sou um homem, que, infelizmente, é privilegiado pela maioria dos professores. Falo e desafio os professores em suas desinformações sobre os conteúdos em geral. Tenho coragem, curiosidade e foco. Mas abandona-me a sorte por buscar o meu reconhecimento merecido.

Lentamente vou perdendo as esperanças mais brilhantes e que tinham a potência de um ecstasy. A vida é ameaçada de todas as formas - socialmente, intelectualmente, politicamente e, principalmente, fisicamente. Não luto apenas contra fascistoides ou machistas que impregnam as universidades em altos cargos e pequenos estudantes. Do outro lado há as falsas feministas que defendem professores opressores baseadas no alinhamento dos planetas, cirandeiros que são contra o EAD porque não são capazes de sair de seu próprio mundo de vícios e de preguiça. É como estar entre Cila e Caríbdis. Não quero nenhum e nem outro. São extremistas complementares. Prefiro mesmo morrer se for para escolher entre o impossível para o meu caráter. 

Ficar em casa não se compara a ficar doente. Isso é uma medida de sobrevivência. Também não é um oásis de tranquilidade. Estou com picos de dores na coluna (a dor crônica que é minha sombra) e mais irritada do que o normal. Às vezes eu só queria as conversas de anos atrás. Hoje nada faz mais tanto sentido no lado das interações sociais. Não gostar de absolutamente ninguém é uma calmaria muito monótona. É ser um pouco morto. 

Depois de tanto tempo voltei a escrever. Uma vontade que oscila por essa época. Porém preciso. Tentarei mais. Posso falhar. Contudo é o que resta. 



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Enterre o meu coração na linha do horizonte


"Se eu pudesse morrer e voltar de imediato..." Com essa certeza, desejaria não mais que quietude e um amor duradouro. Mas não um desses que se consome fervorosamente, desgastando-o com mordidas de rancor e paixão que misturam-se até formarem um só ente. Contentaria-me com conversas, cumplicidade e o querer lento das paixões platônicas.

É um dos mais terríveis tempos de solidão e tristeza, uma mistura angustiante que tira-me os prazeres cotidianos. Talvez eu esteja levemente deprimida e caminhando para uma dessas faltas de reações químicas cerebrais que levam as pessoas à boca do enorme Leviatã. De fato, eu não sei muito agora de mim própria, pois esse eu está quebrado por dentro e tem que sorrir e manter-se como antes para evitar as conversas e as indagações do meu entorno. Esse entorno que faz-me ainda mais taciturna. É uma distância tão grandiosa e que mostra-me um limbo cheio de almas que flagelam-me com suas presenças. 

É extremamente complicado, longe daqueles descritos na Literatura. 

"Se eu pudesse voltar no tempo..." Aproveitaria mais as antigas conversas, os antigos amores e até mesmo as feições juvenis dessas ardentes paixonites dos bancos da universidade. Naquela época, eu era um pouco melancolia e um tanto de esperança. Tinha o coração partido pelos sonhos ameaçados e pelos sentimentos e beijos que ficaram no Verão. Entretanto amanhecia para uma nova sensação e, o mais importante, o meu coração estava aberto para todas as possibilidades. 

Estou às voltas com alguém muito próximo que definha a cada dia. É como se o ceifeiro jogasse uma espécie de xadrez. Pode ser algo muito grave ou mesmo um trauma de uma experiência anterior. Não se sabe, nem mesmo os médicos. Muito dinheiro gasto, nenhuma resposta e o tempo passando. Discussões, lágrimas da madrugada, desespero. Posso não ser a pessoa de 34 anos mais infeliz do mundo, contudo sou muito mais do que esperaria ou mereceria ser. 

Sinto-me pobre e fraca, e bem isolada. Incapaz e inútil. E levo comigo as discórdias. Não posso me calar, todavia deveria. E muito. Outros com a mesma atitude poderiam ser louvados. Eu não posso. Estrago tudo pelo caminho. O que carrego parece uma maldição. 

Os anseios e sonhos viram pó de desvario ou mesmo de petulância. Por que eu deveria ter pensado em um dia ir para a Irlanda ou Galícia? Conhecer muitas pessoas, sorrir e falar e escutar. Seria essa vivência uma penitência por pecadores anteriores? 

Ultimamente tenho lido muito sobre Herman Melville. E como ele só há outro: Van Gogh. Tenho esse interesse por figuras com grandes obras e que em vida viveram na completa miséria ou na linha da pobreza, vivendo à custa de parentes e que perderam tudo por causa de um objetivo. Decepcionaram-se e foram desacreditados. As vidas infelizes atraem-me por serem assim parecidas com a minha. Não é só uma miséria material. É sobretudo a espiritual. 

Melville tem uma frase que mostra o quanto ele sabia de todo o seu infortúnio: “Though I wrote the Gospels in this century, I should die in the gutter.” (Why Read Moby Dick?, Nathaniel Philbrick, Chapter: The Gospels in the Century. E-book, 2011), ou seja: "Embora eu tenha escrito os Evangelhos neste século, eu deveria morrer na sarjeta." E assim foi. Melville só foi reconhecido tempos depois como um grande, um dos maiores. Contudo ele mesmo morreu achando que Moby Dick foi um fracasso. O que parece muito mais do que injusto. Trata-se de um grande horror. Tornou-se imortal só para aqueles que nunca poderá sequer trocar uma palavra. E essa frase dele poderia muito bem expressar toda a dor de quem empolgou-se com uma obra em vida, deu tudo de si e viu o não reconhecimento e também serviria para aqueles que pensam que poderiam ser mais reconhecidos, mas que, por alguma razão, o futuro só oferece o descaso e pouco ou nenhum dinheiro. 

Aliando-se a tristeza e a solidão, soma-se a impressão de não proteção. E é por isso bebo muito café quente: uma das poucas coisas que esquenta o meu peito e o cobre como um cobertor. 

"Se eu pudesse ter um pedido..." Gostaria que o meu então coração fosse enterrado na linha do horizonte - onde o mistério paira sobre os olhos e o maravilhoso esconde-se. Assim, ao voltar como uma outra pessoa, as alegrias fantasiosas estariam intrínsecas no espírito e não permitiriam que o meu ser morresse de tristeza como hoje.


domingo, 2 de fevereiro de 2020

O crônico e mórbido desânimo

Às vezes penso que a vida é um desses infortúnios eternos, que repetem-se em ciclos de existências. Esse parece ser o meu caso.

Dias complicados estendem-se em mim, alcalinos e sem graça. E são tantos os motivos para que eles sejam desse modo. Entretanto não são novos. Trata-se de uma grande árvore de dissabores, já anciã, ganhando novas folhagens com os problemas de cada época e com as respectivas pessoas de cada uma.

É difícil quando alguém importante está doente. Principalmente se esse já passou por uma fase preocupante há muito tempo. Mas dessa vez o diagnóstico demora muito e teme-se por más notícias. Esse definhamento físico é uma parte avassaladora. Sem uma causa detectada, não se pode agir para a cura ou para o alívio, ou mesmo para preparar-se para o mais temeroso. É um limbo.

Acordei hoje pensando no exame que foi feito e que sairá na segunda. Como comportar-se com um resultado devastador? Ou mesmo para um que não diz absolutamente nada e coloca-nos de volta no mistério? E assim vão passando-se os dias imersos em uma profunda tristeza.

Não há ninguém para conversar. Não há ninguém desse momento com que eu queira fazer isso. Talvez as minhas esperanças de viver um pouco mais alegre estão se esgotando e não deveriam sequer ter existido.

Preocupa-me a minha situação financeira. Às vezes penso que nunca vou conseguir um bom emprego nessa cidade. Só há concursos. Só há exploração. Agrava meu estado saber que só serei alguém (no sentido literal mesmo) quando falar que possuo um emprego estável. Ainda há o fator idade. A cada aniversário, é como envelhecer 10 anos, olhando-me no espelho e vislumbrando um ser disforme, derretido, quase repugnante. Tenho medo da miséria. Por isso não consigo mais iludir-me com o melhor. Parte de mim morreu em um tempo imemorial.

Antigamente ficava a pensar nas pessoas que eu poderia conhecer. Isso, hoje, tornou-se um desvario. Todos que olho e converso transformam-se em uma peça que não se encaixa. Alguns irritam-me com assuntos desagradáveis. Também há os jeitos, as bobagens de vida, a pouca idade... Sou tomada por um emaranhado de sentimentos frios como o resto de café do fim da tarde. A solidão é ainda mais sórdida em seu intuito quando joga-me em uma multidão incompatível. Esse sim é um dos piores modos de vivê-la.

A negatividade impera quase o tempo todo. E penso que terei que buscar uma compreensão mais efetiva e profissional sobre esse crescimento de melancolia. Entre altos e baixos, digo, somam-se uns oito anos. De fato, esse blog nasceu desse começo de perda de fé. Por isso tenho que escrever; para registrar sonhos trincados e os desencantamentos com o mundo, com o meu próprio.

Meus problemas com o sono continuam. Durmo muito de dia, às vezes não saio da cama. E isso tem me causado dor na coluna e nos quadris. E acomete-me, pela madrugada, a falta dele associado a uma angústia feroz. Há uns 35 dias apresento vertigem ao mover a cabeça (que começou quando descobri que uma pessoa da antiga escola particular que eu estudava possuía doutorado e um ótimo emprego. E isso me mostrou como custou-me o curso de Física. Possivelmente também a minha vida inteira. Como fui infeliz, parece que nunca vou recuperar-me disso!).

Fui ao oftalmologista. Encomendei um novo óculos. Era um dia chuvoso. E só conseguia sentir tristeza ao ver o meu rosto com aquela armação.

O dia mais próximo do normal (e até um pouco alegre) deu-se quando fui assistir 1917. Uma certa liberdade, longe de casa, e com uma das poucas coisas que ainda gosto. Todavia é um prazer muito caro. E mesmo que eu saia para almoçar ou tomar um café, ultimamente, não consigo afastar-me desse amargor de viver o agora.

Antes pedia remédios para a dor. Hoje sei que nem eles podem ajudar-me.

O mundo real é um mar turvo, cheio de perigos e desgostos.



terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Crítica da Semana - 1917/2019

1917 é uma obra-prima. Feito para ser visto no cinema em toda a sua grandiosidade. Sam Mendes leva-nos a uma viagem em dois grandes atos, cada um sem cortes aparentes. Uma única missão para dois jovens soldados dentro da I Guerra Mundial. As trincheiras nunca foram retratadas de maneira mais fiel e dimensional. É uma imersão dentro de um inferno dantesco e um espetáculo de iguais proporções.

Lanço essa crítica antes de escrever definitivamente sobre Coringa (Joker/2019) e que fui assistir quatro vezes no cinema com o mesmo entusiasmo inicial. Pensei que igual sensação não pudesse mais atingir-me. Que engano! 1917 é um dos melhores filmes que eu já vi em toda minha vida. E digo isso com a premissa de que filmes sobre guerra são difíceis para mim (apesar de ter apreciado muitos deles ao longo da minha vida), pois sou acometida, durante semanas, por um sentimento de que a vida é somente tristeza, morte e sofrimento, no qual reinam a barbárie e as decepções, todas envoltas pela injustiça. É difícil expor isso quando eu estou em um curso para ser uma futura historiadora. Entretanto sim, meus caros (as) leitores (as), enfrentar a Historiografia é uma tarefa que pode causar lágrimas constantes, pois o passado é cheio de sangue.

Só que 1917 traz consigo algo diferente. Primeiro, por ter como base a I Guerra Mundial, a Grande Guerra. Não há muitos filmes do circuito americano especificadamente sobre esse marco historiográfico. As exceções podem ser encontradas no cinema russo, como o bom trabalho Battalion (Батальонъ/2015) sobre as mulheres russas no front da I Guerra Mundial. Segundo, o filme de Sam Mendes é direto e sem rodeios. Começa e termina com uma determinada missão. Não existe mais do que isso: "Em 06 de abril de 1917, o general Erinmore (Colin Firth) informa a dois jovens soldados britânicos, Tom Blake (Dean-Charles Chapman) e William Schofield (George MacKay), que a inteligência, por meio de reconhecimento aéreo, verificou que os alemães não estão em retirada como se pensava antes, mas que um recuo tático havia sido feito para uma nova área de defesa. Com as linhas telefônicas de campo cortadas, Blake e Schofield são obrigados a entregar em mãos uma mensagem ao 2º Batalhão do Regimento de Devonshire, para cancelarem o ataque que poderá custar a vida de 1.600 homens.

Porém o mais impressionante é a parte técnica. Só para efeitos de comparação: se o Coringa de Todd Phillips é o que é pela atuação de Joaquim Phoenix, 1917 é igualmente por causa de seu diretor, Sam Mendes. Vale ressaltar que, apesar de toda a concepção voltar-se para a I Guerra Mundial, o arco central é baseado em histórias que o avó do diretor, Alfred Hubert Mendes (o sobrenome não nega, os Mendes têm raízes em Portugal), contava. Ele foi soldado na Grande Guerra e, muitas vezes, serviu como mensageiro por ser pequeno, rápido e ágil. Então trata-se de uma película ficcional, aprimorada com fatos históricos pela roteirista (junto com Sam Mendes) Krysty Wilson-Cairns. Com a história então em mãos, a monumental construção do cenário procurou reproduzir quilômetros e quilômetros de trincheiras em campos reais, espalhando efeitos feitos na raça e na coragem, indo de explosões, poços de lama, reproduções de cavalos mortos e cadáveres.



O Épico de Guerra de Mendes foi feito em One Shotum grande e já conhecido trunfo do cinema, para que o filme parecesse exatamente uma grande sequência dentro de uma específica linha temporal. É o famoso Plano-Sequência. A definição de AUMONT e MARIE é exatamente essa: "trata-se de um plano bastante longo e articulado para representar o equivalente de uma sequência (Dicionário Teórico e Crítico de Cinema, Campinas: Papirus, 2001, p. 231)." Desse modo, 1917 tem dois aparentes planos-sequência, mas que, de fato, trata-se da junção de alguns costurados em pontos específicos do filme (ao adentrarem lugares escuros). Menciono dois porque você saberá exatamente onde estará essa passagem quando assisti-lo. Curiosidade: em língua inglesa o filme é chamado de ONE SHOT no modo LONG TAKE. E o pioneiro nesse sentido foi Alfred Hitchcock e seu Festim Diabólico (Rape/1948).

Depois de assistir ao filme (e somente após isso!), as várias reportagens e vídeos sobre a produção do filme darão a dimensão do árduo fazer dessa jornada cinematográfica. Você se sentirá dentro da missão de Blake e Schofield graças ao esforço da equipe de filmagem que coloca o telespectador na narrativa em terceira pessoa, em primeira pessoa e em travelings (deslocamento espacial de câmera nos trilhos) sem nunca quebrar a sequência, passando por muros, cercas, subindo e descendo, com gente correndo e andando dentro da trincheira, com carros acima dessa com mais filmadoras e seus operadores. Devido ao ambiente apertado das locações, as câmeras em HD tiveram que ser adaptadas para serem as mais leves possíveis e assim facilitar toda a ação. Em entrevista ao programa do Jimmy Fallon, o ator George MacKay disse que os ensaios antes da filmagem levaram 6 meses. Isso mesmo. O filme é uma grande coreografia!

O filme e tão voltado para o realismo que até os ratos parecem de verdade. Assisti a um crítico falando que a película é tão imersiva que na hora do aparecimento dos roedores ele pensou: "Poxa, deve ter dado um trabalhão treinar esses ratos!" E esse é um pensamento momentâneo que nos acomete ao ver a obra, pois aqui sim os efeitos visuais são utilizados para ajudar e não para deixá-lo com cara somente do jogo Battlefield 1.

A fotografia é um ponto alto. A direção de Roger Deakins, que é um veterano da área com 15 indicações ao Oscar (contando com a de 1917), é um primor. As cenas noturnas captam o horror, a agonia e a beleza envenenada pela destruição, na qual as luzes deslizam suavemente pelas ruínas. É um trabalho deslumbrante. Se a fotografia é assim, a trilha sonora de Thomas Newman, também um veterano com 14 indicações a estatueta (incluindo 1917), é grandiosa e bela. Para se ter uma noção, a cena da corrida final de Schofield pelas trincheiras é acompanhada pela composição de Newman e ela torna-se ainda mais memorável com a sonoridade.

Além disso, as atuações são muitos boas. Das grandes estrelas, temos pequenas e importantes aparições, como as de: Benedict Cumberbatch (Sherlock/Jogo da Imitação), Andrew Scott (Sherlock/Fleabag), Richard Madden (Cinderella/Bodyguard) e o já mencionado Colin Firth (Orgulho e Preconceito/Discurso do Rei). Porém são as ótimas atuações dos garotos principais, MacKay e Chapman, desconhecidos* do grande público, que nos levam com seriedade a essa odisseia (*unknown tem sido mais utilizado nas mídias para falar dos protagonistas e considero um termo bastante complicado, uma vez que quem acompanha a BBC, ITV e mais emissoras britânicas já viu muito trabalho dos dois. Só nesse final de semana assisti dois filmes com MacKay, Amor em Tempos de Ódio/Where Hands Touch/2018 e Capitão Fantástico/Captain Fantastic/2016).

Um alerta! Os cartazes já revelam que uma hora a missão será apenas de um homem só. Portanto é Schofield que nos guiará até o destino final. Outro destaque são os figurantes, extremamente interessantes e que atuam maravilhosamente (pois não há nada mais frustante que um figurante apático olhando o horizonte, fazendo cara de paisagem).

No que diz respeito ao contexto historiográfico, pode preparar-se! Muita gente vai falar besteira sobre a I Guerra Mundial e o filme. Portanto vou citar uma crítica que você DEVE EVITAR, mesmo depois de assistir ao filme: a do canal OMELETE TV. Além das falhas técnicas, eles não sabem nada sobre a história desse período e apresentam argumentos fraquíssimos. Por outro lado, pessoas de peso também terão suas reclamações acerca do roteiro dentro da Grande Guerra. Por exemplo, do Waldemar Dalenogare Neto, que é professor universitário, com formação acadêmica na área de história e pós-graduação em cinema, além de membro da Academia Brasileira de Cinema. Ele mesmo deu nota 7 à obra. A crítica dele eu coloquei abaixo. São argumentos muito bons e bem fundamentados. E como estudante de História, vou deixar dois livros sobre a I Guerra Mundial. São eles de autores renomados e muito indicados dentro do próprio curso.

Sim, 1917 é tudo isso: grande, majestoso, épico. É bem feito, bem dirigido, bem ensaiado. Vale muito a pena assistir no CINEMA, pois é para tela grande, para um ótima poltrona e som de primeira qualidade. Faça um favor a si mesmo esse ano: NÃO PERCA POR NADA! É uma EXPERIÊNCIA inesquecível. Uma obra que ficará para a posterioridade e para ser sempre lembrada. 

NOTA: 
10 cafezinhos


Trailer:



Por trás da produção de 1917, trilha sonora, entrevista e críticas sobre 1917:












Para saber mais sobre as técnicas empregadas em 1917:


Livros para começar a entender a I Guerra Mundial:

HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos. O Breve Século XX 1947-1991. São Paulo: Companhia da Letras, 1995.

GILBERT, Martin. A Primeira Guerra Mundial: Os 1.590 dias que transformaram o mundo. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2017.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Relembrando o jovem Ismael

Pois é madrugada. Triste. Sonolenta. Inquietante. Dizem que não há descanso para os ímpios. E, talvez, eu esteja entre os piores.

Nesse mar sinistro e taciturno, de águas turvas amargamente esverdeadas, recordei-me de um texto em que descrevi um momento saboroso, com um desses rostos saudosos de outrora. Não poderia ser menos feliz, pois tratar-se de um contexto advindo de Moby Dick. De lá para cá, já terminei de ler o grande clássico mundial e o mesmo tornou-se um dos meus livros favoritos. E para acalmar o meu pesado coração, cheio de mágoas e incertezas, deixo aqui esse escrito. Uma lembrança de um momento simples e delicioso.

P.S: clique abaixo para ler. 

Ismael (Charlie Cox). Moby Dick Minissérie/2011


quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

A Vida é um Cabaret!

"Comece admitindo
que do berço ao túmulo
Não é uma jornada assim tão longa.
A vida é um Cabaret, meu amigo.
É só um Cabaret, velho amigo.
E eu amo um Cabaret." (Cabaret ou Life is a Cabaret/1966 por John Kander e letra de Fred Ebb)


O ano de 2020 começou há um tempo. Grande acontecimento? Duvido. Há uma certa instabilidade pairando sobre as nossas cabeças em forma de um ar enegrecido, com tons de lodo ruidoso, bolorento e garras secas e afiadas. Entretanto criam-se bolhas cheias de vícios, pouco prazeres imediatos, inércia e esquecimento. Eis o nosso Cabaré. Porém trabalhamos para o dos outros. E eles enriquecem com isso: uma maldição daquelas! Pobreza agora é o crime da vez, segundo a família mafiosa reinante, juntamente com os outros parasitas. E vão tentar, também, trancar todos os jornalistas (proteja-se, Greenwald!).

A vida política atual é um inferno sem precedentes. Não há esperança onde planta-se o ódio. E essas religiões (ou qualquer uma delas) caçadoras de bruxas ou supostas outras entidades malignas (pobres de nós, os de pele vermelha!) ditam as regras. A coletividade esvaiu-se com seus propósitos. E sobraram apenas sonhos gananciosos de enriquecer rapidamente, mostrando-se um verdadeiro desprezo pelo o que é verdadeiramente intelectual, livre e criativo. 

E é a minha vida que continua um filme do David Lynch. Pensei em não mais escrever. Isso muito seriamente. Repensei. Esse aqui é um registro de longos anos de minha personalidade e vivência. E é isso que poderá ajudar a reconstruir um eu do futuro, ou simplesmente mostrar quem eu fui nessa existência. Não. Tenho que continuar. De alguma forma.

Todos aqui em casa estão doentes: fisicamente e mentalmente. Fato. Uma atmosfera em preto e branco, com uma suave capa de neve. Nossos agasalhos são panos velhos de uma luz débil e todos os sortilégios parecem cair entre nós. Sinto que as minhas mãos estão amarradas e que não há ninguém para conversar de um modo satisfatório e delicioso (como coalhadas e maçãs). E esse ponto merece umas linhas a mais.

Achar pessoas para conversar é uma tarefa simples. O problema é que elas são demasiadamente desinteressantes e causam um pavor reprimido. Tenho sorte por conseguir estudar História. Contudo há uma vasta gama de dissabores pelas beiradas. Não é fácil aguentar essa nova geração espantosamente tola, infantilizada, sem charme e muito menos sabor. Até mesmo os mais próximos ou são bobos ou uma mistura disso com umas boquinhas que fazem umas críticas sem propósito, voltadas somente para a minha estrutura óssea, digamos assim. Já tive que aguentar falatórios sobre as minhas olheiras, sobre o meu cabelo (porque sempre vai ter alguém que vai dizer que ele está arrepiado), sobre a minha aparência às vezes cansada e sem maquiagem (porque estudar dá trabalho, óh!) e mais alguns outros impropérios. Nesse curso dessa universidade pública em particular não há uma vida social ou artística que possa ser partilhada; não para ser degustada e provocar regozijo. Posso ensinar uma ou outra pessoa e mostrar-lhe algo relevante. E tudo terminará em um poço de insatisfação. O que me conforta é somente a História e minha caminhada independente. Necessito achar pessoas que possam permitir-me sentir o prazer só de vê-las (e não ao contrário), por exemplo. 

Sinto saudades do frisson, dos delicados rostos juvenis capciosos, dos olhares brejeiros e sedutores, da beleza da forma física como notas harmoniosas de uma sinfonia. 

Ao meu redor só há um bléh

Sigo em frente nesse mar e sua névoa. Mas dessa vez eu tenho um farol. Consigo guiar, consigo manter-me em linha reta. Gostaria de mais saúde, de mais cafés sem culpa, de admirar os queridos de outrora, de sentir-me um pouco mais viva. Bem, poderia até dizer que falta-me dinheiro, um emprego (digno). E sim, isso é desesperador. Só que para esse item só restar-me correr atrás, só por mim e por mim. 

Talvez eu escreva mais esse ano, consiga um emprego, possa ir para a Galiza e chegar a Finisterra. Depois para A Corunha e visitar a Torre de Hércules e, finalmente, cantar em galego e recitar García Lorca bem alto, só para o mar. 

São sonhos tão diferentes dos demais. Nada daqui pertence-me. O que preciso pode estar muito além, atravessando o oceano. Uma árdua realidade e muito a se fazer.

Há uma boa sensação no meu coração desses deleites que ficam guardados por muito tempo. Portanto tenho que enfrentar todo esses desprazer de agora. 

E refugio-me no meu Cabaret, cantarolando Sally Bowlles.



segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Céu crepuscular de dezembro, com Vênus à sudeste e Cassiopeia ao Norte

Foram-se o aniversário de trinta e quatro anos e outras particularidades. Sobraram-me demasiadas perguntas: posso considerar-me ainda uma pessoa atrevida ou sou agora a decadência de um espírito desvairado que é averso às delicatesses juvenis? O amor e os desejos nesse campo tornaram-se navios longínquos, banhados pelos raios rubis do Pôr do Sol que servem apenas para serem apreciados ou relatados em livros com capas de tecido.

Anseio por uma viagem a Irlanda. Por quê? Ao certo, não sei dizer. Apenas acredito que lá há alguma dessas respostas que parecem fragmentos de vivências marcantes. Pela Galiza tenho o mesmo sentimento. E esse vazio que reside em mim assemelha-se muito mais a uma busca que não pode ser iniciada e que possui o temor de transferir-se para uma nova existência, em um outro corpo.

Permaneço presa, longe de algo que nunca será encontrado aqui. É uma sensação cortante de perda constante de alegrias genuínas, de amores puros e de uma paz nunca antes experimentada.

Pessimismo, sim. Eu admito. E com razão.

Deixei de escrever por longos dois meses. Isso não é uma displicência. Trata-se mais de cansaço e de uma leve e crônica tristeza. Entretanto o curso de História tornou-se um horizonte mais instigante e que permite uma certa liberdade de estudos. Ultimamente é um conforto e um consolo. É uma das poucas esperanças que tenho para começar a investigar o meu próprio eu.

Não deixei de pensar na Astronomia. Ela estava em algum lugar. Porém causava uma dor suave e uns batimentos mais acelerados. Portanto tive que usar um truque mental e trancá-la no fundo da minha própria mente. Metade de mim morreu depois da perda da batalha. Porque eu tinha construído uma vida inteira baseada em ser feliz através dela.

E foi assim... Que meu primeiro grande (e talvez) único amor juntou-se a esse imaginário: com os os olhos azuis de um céu crepuscular de dezembro, com Vênus à sudeste e Cassiopeia ao Norte. Por muito tempo felicidade era simplesmente tecer a colcha de promessas e de vontades de viver intensamente os prazeres intelectuais e carnais.

Todavia a iconoclastia veio furiosa e estraçalhou tudo. Não passavam de sonhos infantis e devaneios. As paixões jamais serão como antes e só tiveram sentido naquela época.

Guardei os pedaços em um baú. E vivo agora só pela metade. Reinventei-me. E tenho prazeres momentâneos que se desfazem pelo dissabores passados. Não envelheci só pela idade.

Condenei-me a sentir pesar a qualquer momento. A satisfação irá embora com a aurora. Se não desejo-me, então estão todos proibidos de tentarem-me.

Minha metade morta jaz na realidade. E a restante trasportou-se para um novo lugar imaginário.

A fantasia é a minha única salvação: meu sangue, meu oxigênio.


sábado, 12 de outubro de 2019

Coringa, Cinema & História - o cotidiano solitário no meio de uma multidão incompatível

S..., 12 de outubro do ano de 2019.

Saudações.

Bom, por qual parte começar? Um mês inteira afastada; praticamente fagocitei setembro. Não se tratou de um desligamento da escrita. Jamais! Entretanto digo que o curso de História tem exigido muito de mim: compromissos, lecionar para as crianças do nono ano, estudos, algumas noites de insônia e uma certa dose de loucura e episódios de surtos.

E essa é uma parte complicada. Na última segunda-feira estive praticamente à beira de um colapso mental, com direito a um choro estrondoso, lamentos e quase um ranger de dentes bíblico. O motivo pode parecer o mais banal dentro do cenário em que os jovens universitários estão mergulhados em um oceano de desinteresse, portando-se como figuras patéticas e bufantes, que não sabem se expressar na língua materna, pensam apenas em beber algo muito vagabundo e extremamente barato em lugares nos quais a vulgaridade é uma senha principesca. Contudo não poderia sê-lo para mim. Perdi um fichamento no maldito Word e entrei em desespero. Foi a cereja de um bolo que assa em estresse, tarefas e muito pouco dinheiro. E mesmo ao recuperá-lo no momento final, o estrago mental já estava feito. Estou presa em um universo em que a única coisa que me pertence é o próprio curso de História e qualquer ponto fora do planejamento é motivo para um verdeiro apocalipse. 

Sim. Vivo em um limbo. Ninguém mais é interessante, nem mesmo desperta aquela admiração que é necessária para cotidiano, que alimenta a alma e causa um sabor na boca igualzinho ao de maçãs com coalhada. É uma espécie de filme verde, um tanto sujo, desesperançoso. Por isso sigo otimamente na solidão. E não pense que é uma queixa; ponho mais como uma questão de que esses sapatos calçam melhor. 

Assim, no último sábado, fui assistir ao Coringa do Joaquim Phoenix. Meu Deus do Céu! Fazia tanto tempo que eu não via algo que parecesse um pouco com o cinema que gosto: com filtros que gradualmente saem desse tom musgo, azul envelhecido e marron para as cores sádicas e eufóricas da loucura do amarelo e vermelho. Ao final, aplaudi em pé. 

Hannah Arendt
Só que essa experiência pediu uma outra apenas comigo mesma. Ontem fui na primeira sessão vespertina rever o filme. Comprei um ingresso para a cadeira mais espetacular de todas: a  da segunda fileira - 13B, que praticamente traga o telespectador e é evitada pela massa em geral. Peguei pipoca doce (a minha favorita) uma super Coca-Cola e fiquei lá embaixo como se não houvesse o amanhã e ninguém a mais além de mim e Arthur Fleck

Eu realmente deveria fazer isso mais vezes. 

Para o fechamento do dia, comprei um belíssimo livro da Hannah Arendt chamado As Origens do Totalitarismo. É mais um para o curso de História e que irá fazer companhia para o ótimo Peter Burke

Penso em gravar um podcast... Como nos velhos tempos... Talvez saia essa semana. Será sobre o lado psicológico do filme Coringa ou Cinema e História (no contexto historiográfico). 

Essa é mais uma carta de notícias. Espero que chegue tão logo aos seus olhos.

Até muito em breve.

T.S. Frank

P.S: envio-te a música do Cream. Você entenderá tão logo (ou isso até mesmo já aconteceu!). 
Guarde isso:  - Olha o que você fez! A cidade está queimando por sua causa! - Eu sei. É lindo, não é?




quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Fadó

Em gaélico irlandês fadó significa uma vez. É muito utilizado nos contos de fada da língua irlandesa. E isso lembrou-me de fatum, a palavra latina para destino e que nos dá a fatalidade do Português e o fatality do inglês, por exemplo. E não se pode esquecer, jamais, da fada, que também pertence ao mesmo grupo. Latim, Gaélico Irlandês, Português, Inglês... Todas trazem um radical comum para o imaginário milenar e ancestral dos seres humanos. Carregam, num conjunto de letras, os anseios e as loucuras que interligam povos de culturas diferentes, porém com o mesmo manancial de pensamentos sobre os caminhos misteriosos de nossas vidas. 

Bem... Após essa introdução, tenho que admitir que demorei por demais a escrever. São dias estranhos, parecidos com os filmes de Lynch. Ultimamente preocupo-me mais com os fatores financeiros. Preciso da minha independência o quanto antes. Entretanto estudar para esses fatigantes concursos públicos é uma tarefa enjoativa, emaranhada de pensamentos turvos. O vislumbre de uma futura vida de migalhas tira-me o pouco da paz e, talvez, cause-me essa dor de cabeça que pesa como uma bolota de chumbo. 

Por outro lado, minha vida acadêmica anda bem. Esse é o  futuro que almejo para mim: uma carreira dentro da universidade como historiadora, voltada para o lado intelectual. Porém o meu eu é muito vaidoso, padecendo quando há alguma crítica infundada dos professores. Poderia afogar-me no mar do meu próprio sangue fervilhante e colérico em decorrência desses episódios. Agora (precisamente amanhã) rumo para o terceiro ciclo. E assim faltarão apenas cinco para que eu possa começar minha vida profissional nesse ramo. É claro que ainda há o mestrado e o  doutorado e esses são os cumes da montanha que estou escalando.

Outro dia Júpiter estava alto no céu, ao lado de uma Lua Cheia plena no horizonte sudoeste. Às vezes lembro da Astronomia profissional que deixei em um passado muito doloroso. A última conversa que tive com um astrônomo, ainda no curso, foi péssima. Tratava-se de um homem muito ríspido e de poucos amigos em uma dessas palestras da Física. Usava uma camisa do Doctor Who e que, diante da minha pergunta sobre se ele gostava do Peter Capaldi no papel, comportou-se como um desses bobalhões que veste esse tipo de roupa para parecer um geek.

Semestre passado fui monitora de História Medieval. Foi um ótimo começo e será uma boa referência no meu currículo. Contudo com a enfermidade que acometeu o Professor nas últimas aulas, não sei se poderei ter o meu certificado.

Minhas dores continuam, é a minha cronicidade. Estou na entendiante fisioterapia, com umas moças incompetentes. Queria uma varinha mágica só para pedir que meu corpo fosse refeito. Sou um amontoado de genes mal costurados.

Sinto saudades dos cafés aromáticos do final da tarde e de pessoas que façam-me rir de uma maneira que eu sinta o cheiro do crepúsculo. Sinto falta das nuvens leste que prenunciam as chuvas, carregadas com uma brisa suave de tempestade, raios e trovões, abraçando tudo em volta e compondo um quadro de tons belamente cinzas.

Preciso de conversas inteligentes, de um ser humano para adoração para que assim eu possa devotar meus desejos. Meu templo está vazio e esfacelado.

Quero uma aventura e excitação; escapadas noturnas, densidade de corpo e alma.

E aqui fica o registro que vai além de uma estória. É, de fato, uma prece.


sábado, 20 de julho de 2019

Anseios da madrugada

São madrugadas quentes, abafadiças, com lâmpadas amareladas. Um cheiro de remédio para sempre, insônia e dissabores. Não há declarações, nem bilhetes, nem ataques salpicados de ciúmes.

Bem que eu gostaria de uma xícara de café com um gosto que fugisse do óbvio das manhãs requentadas ou das elites falsificadas. Pretendo escapar, como minha voz imaginária, desses dias cotidianos.

Pensei em muitos cenários. Uma vida com um enredo mais instigante. Um jogo de detetives, um céu estrelado, rádio dos anos 60, festas dos anos 80. Os amores dos anos 90.

Eu quero ser uma Sabrina ou Carol, um pouco de dramaticidade, um pouco de comédia. De fato, eu só desejo mais ousadia, não de minha parte. Isso, talvez, eu já tenha de sobra. Está apenas guardada.

Se por um lado eu experimento um prazer intelectual solitário, com arroubos de mestres egocêntricos, machistas, tresloucados, parados no tempo... Por outro, estátuas de cera cercam-me: sem malícia, cheio de suas religiões hipócritas, esperando mulheres-escravas que possam parir doces famílias azedamente cristãs. Há uma juventude com um gosto pubo, virginal, demagogo. Cansei das feministas de farmácia, com seus movimentos sociais que levam ao vômito. Preciso das mulheres de verdade, com um feminismo real, culto, como o espírito dos anos 70. Chega das proibições da extrema esquerda, chega das loucuras fascistas da extrema direita. Chega, chega, chega!

Eu só quero a verdade, o prazer. Risos descompromissados. Um pouco da Via Láctea nas minhas mãos e boca.

Faça-me um milk-shake de chocolate com chantilly, com fundo de frutas em calda e uma cereja em cima. Faça-me cafés das manhã com waffles. Faça-me elogios decentes. Faça-me sua poesia.

E minha mente é atravessada por ondulações de devaneios, como em águas do mar.

Sou loucura que vai de encontro ao marasmo. Sou solidão que vai de encontro ao vazio de mil companhias. Sou apenas eu, em cores vívidas...

... Sou technicolor.



segunda-feira, 17 de junho de 2019

Quando Ficares Velha - Por William Butler Yeats

Circe Invidiosa (1892)
John William Waterhouse.
São dias estranhos: saem das sombras, e sem pudores, as pessoas mais invejosas, jovens e de almas negras como a noite do mais impiedoso inverno. São dias também de covardia, de falta de personalidade, rostos aguados e prosas falaciosas dos inúteis movimentos sociais de fachada.

Bradam, a plenos pulmões, por um mundo melhor, gritando politicagens. Entretanto o próprio entorno é desconsiderado. Alguns tentam juntar os desunidos e sofrem eles com as calúnias e venenos.

Não é fácil ser corajoso. É para os que preferem as dores e a morte ao invés de uma vida calma de superficialidade e podridão. E é por isso que estou aqui; um pouco viva, um pouco morta. Mas não temo dizer: sou eu, com a mesma pele, com as mesmas feições, os mesmos pensamentos e um coração bem quentinho.

Só queixo-me dos meus ossos e seus latejares. Todos os meus pecados residem neles.

Mantenho-me na estrada, com foco e vontade. Persigo a cátedra. E para aqueles que pairam seus olhos devoradores de ciúme e invídia e clamam por Ftono, digo-lhes: também rogo a Atenas.

E alimento-me de poesias.

Cena do filme A Sétima Maré (The Seventh Stream/2011)
O momento da leitura da poesia. 
E isso traz-me um filme que assisti um dia desses. A temática irlandesa e suas lendas... A Selkie, a foca que também torna-se humana. Chama-se A Sétima Mare (The Seventh Stream/2001). E lá estava uma bela poesia do irlandês William Butler Yeats.

No meio dessa lama, preciso (mais do que nunca) dos versos, das estrofes, do sonho da Irlanda, do místico, do divino, da inteligência e sabedoria.

Que os deuses livrem-me dessa gente! Que Eles tragam-me a fortuna e os sabores agradáveis das vitórias!

Quando Ficares Velha
William Butler Yeats
1903
Por Alice Boughton.

(When you are old)


Quando ficares velha, grisalha e sonolenta
When you are old and grey and full of sleep,
E te aqueceres à lareira, pega neste livro

And nodding by the fire, take down this book,
E lê-o devagar, sonha com o olhar meigo
And slowly read, and dream of the soft look
E com as sombras profundas outrora nos teus olhos;
Your eyes had once, and of their shadows deep;
Quantos amaram os teus momentos de feliz encanto

How many loved your moments of glad grace,
E a tua beleza com amor falso ou autêntico,
And loved your beauty with love false or true,
Além daquele homem que amou em ti a alma peregrina
But one man loved the pilgrim soul in you,
E as tristezas que alteravam o teu rosto;
And loved the sorrows of your changing face;
E curvando-te mais sobre a lareira ao rubro

And bending down beside the glowing bars,
Murmura, um pouco triste, como o Amor se foi
Murmur, a little sadly, how Love fled
E caminhou sobre as montanhas lá no alto
And paced upon the mountains overhead
E escondeu o rosto numa multidão de estrelas.
And hid his face amid a crowd of stars.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Do que não se pode ter (e nunca se terá)

Houve um tempo em que desejei somente alcançar o meu mundo ideal. Posso dizer que muito da minha vida foi baseada em uma utopia de libertação, com sentimentos avassaladores, aventuras douradas nos confins do espaço, ou, melhor dizendo, de dentro de uma cúpula na qual todo o céu abriria-se perante meus ávidos olhos, num desvelar mortal, um nirvana.

Por isso fui um baú nebuloso, guardiã de sentimentos, ressentimentos, lágrimas, esperanças, um pouco de vingança (talvez até mais do que possa ser relatado), amores não correspondidos, desilusões e muitos pedaços de mim. Esperei justamente pelo triunfo, o final de uma grande saga, a vitória dos humilhados e do coração partido. E foi dessa maneira que não resolvi o que deveria, não revidei, escondi a coragem, sufoquei de amargura. Esperei por um navio, que até veio, branco, grandioso, feito apenas de promessas, e que, mais adiante, naufragou, sucumbiu às rochas além, representantes divinas da realidade esmagadora.

O meu erro foi o de uma jovem mulher que almejou o que não poderia ter. Não era para ser, não me pertencia. Busquei um salvador. Basta deles! Estão mortos como assim quis o destino.

Foi-se o tempo das paixões. E tenho saudades do frisson, do frio na barriga, das madrugadas vistas pelas frestas da janela de madeira. Dos olhos azuis, das nuvens do leste, do céu cortado pelo caminho lácteo, do Arquivo-X, Sky Trackers, Espaçonave Terra...

Mas eu não me queria. Aspirava ter outra carapaça. Sempre infeliz, com quantidades astronômicas de defeitos. Nada de paz e quietude.

Passou-se o tempo e fiz-me por retalhos. Recebi migalhas, muitas. Esperei por conversas minguadas, por telefonemas, por mensagens. Um encontro qualquer. Gostei de muitos, recebi o nada. Enganei outros, disse inverdades, enterrei o asco e desfiz-me desses humanos como quem apenas livra-se de uma pedra no sapato.

Fechei a porta.

Às vezes aparecem os inocentes, patéticos, que não valeriam nem mesmo uma noite qualquer.

Hoje olho-me com mais aceitação, ainda longe do ideal. Engordei e estou tentando desfazer-me da imagem de que pareço um pequeno mostro-bola; o que são 5 quilos a mais? As celulites são apenas celulites.

A História tem-me ocupado por demais. É um desafio prazeroso, cheio de espinhos, de conflitos e que sigo como um cão fiel.

Só posso ter eu mesma, disso agora eu sei. Estou treinando para bastar-me, como deve ser. E, ao final, quem sabe, poderei ganhar um universo cheinho de mim em diversas outras versões.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Do curso de rios já vazios

Sketch of Circe, John William Waterhouse
1911-1914
Muito poderia dizer agora. Entretanto chega o momento em que o pouco brilho esvaiu-se de forma lenta e cortante, como pequenas folhas de outono sobre a pele que procura abrigo embaixo das árvores envelhecidas. Penso que viver é um deleite para poucos e uma grande maldição para muitos. E assim, desses prazeres que escolhem apenas uns poucos enobrecidos, o amor pulsa longinquamente, como um farol no cabo do fim do mundo, avisando aos navegantes infelizes que a sua procura acarretará sofrimento imenso antes da morte derradeira.

Ser triste é uma realidade que os tolos otimistas ignoram. São eles apenas espíritos enjoativamente alegres que merecem a máxima distância: comem rosas e regurgitam poesias baratas. O ser humano vil e decadente está por todos os cantos, isso sim, procurando vítimas perfeitas, que acreditam que a lama pode mostrar a lótus com a paciência devida. E essas penosas almas servem apenas como uma válvula de escape e de experiência para chegar-se ao maior nível de dor infligindo.

Pois bem, travesti-me com rochas. Mas desnudei-me para tentar voltar a sentir o frescor do mundo, deixando o meu interior para lançar-me por rios esvaziados, que trazem memórias borradas de um eu fantasioso e que alegrou-me apenas com a imaginação.

Como o canto das harpias, os avisos são muitos para não mais ter-me com essa esperança.

Feri-me, como o previsto por todos os oráculos. E voltei, mais uma vez, para minha concha de pedras com o dissabor das intrigas e das odiosas mentiras.

Em mim sobrou apenas um sentimento de humilhação profunda e de que não posso mais ficar em espaços em que existem tantas diferenças.

Se antes o meu mundo era um filme de David Lynch com personagens de mesma linha, hoje sou a própria reflexão da velhice de Ingmar Bergman.

Perdi-me e não posso mais ser o que planejei nos tempos imemoriais. Os sonhos e as paixões sucumbiram, voltaram-se para olhos mais jovens e belos. Serei, portanto, Circe.

Talvez tenha eu apenas a simples vontade de ficar para sempre em mim mesma e sepultar-me, sem honras, até que a poeira alimente-se da última gotícula de minha alma. Esse seria o meu final digno.

domingo, 28 de abril de 2019

O desalento irradiado em tons cinzentos

Há pouco tempo para escrever agora. Os cenários naturais são até favoráveis: nuvens cinzas ao leste, raios,  trovões e tempestades da madrugada. Entretanto sobra-me trabalho quase franciscano, desalento e gotas alternadas de tédio.

Quando chega-se para lá dos trinta anos, todos os seres humanos ao redor, particularmente os bem mais jovens, tornam-se extremamente desinteressantes. É como olhar um cenário vazio falante que tende a tagarelice odiosa. Deus, é como morrer todos os dias sufocada pelo fútil e despretensioso!

Ao contrário do que possa parecer, meus olhos não envelheceram. Porém não mais conseguem enxergar a beleza de outrora nas pessoas, aquelas esfuziantes e que despertavam os sentimentos dourados de que a vida era um mistério divino, digno de ser vivido, com um gosto de maçã e coalhada.

Tudo foi-se, ao menos, o humanamente palpável ao redor.

A vida necessita de intensidade, mistério, histórias instigantes, poesia e céus estrelados de antemanhãs frias. Existem muitas formas de achá-los, entretanto tenho que contentar-me com o passado, do mais recente aos resquícios de outras vidas.

A saudade não é, até aqui, fruto de uma dor somente do que foi perdido. É muito mais do que eu mesma posso compreender.

Esta existência traça linhas cinzas, de pouco fulgor, longe das histórias magníficas que eu costurei em um tempo de inocência.

Continuo a esperar algum reverso maravilhoso, uma viagem, um novo lugar e novas pessoas para que eu possa exercitar novamente a minha mais saborosa atividade: a observação.

Vivo dias de dor, de calmaria e de nenhuma aventura.

Motiva-me o futuro, apesar de tudo. Talvez lá encontre o meu eu vagante, numa outra terra, ou mesmo numa nova roupagem. Eis a eterna roda da existência e o sentido de precisar ser quem eu sou.


sábado, 6 de abril de 2019

A morte de mim mesma

Não posso ter tudo. De fato, nem ao menos possuir o mínimo. E assim passam os dias, cheios de compromissos, pouco dinheiro, desprestígio e uma convulsiva sensação de que o meu tempo foi-se.

E para onde? Talvez, e provavelmente, para um lugar inatingível.

Confesso que a falta do desejo dos outros corrói-me como ácido. E essa fonte de inspiração secou tão de repente que eu mal percebi. A solidão tornou-se um tanto quanto estranha, de um sabor suavemente amargo.

É uma época estressante. Faço muito para alcançar o que, tardiamente, decidi seguir. Muitas vezes parece que não passo de uma dessas caricaturas ingratas, acinzentadas, no meio de um ambiente em que as pessoas não estão sintonizadas comigo.

Quero arrancar minha pele, rasgar os meus músculos e queimar os meus ossos. Almejo recomeçar das cinzas, com uma nova aparência e identidade física. Assim, quem sabe, percebam a minha alma, minha essência, meu próprio eu que, arrisco, é digno de cafés, longos passeios, prazer e risos; histórias, camas, calor e tantas outras coisas essencialmente humanas.

Ontem esforcei-me demais, tive dor de cabeça e ânsias. Imagens de escárnio percorreram meus pesadelos. Através de uma janela vislumbrei a minha própria decadência, eu estava envelhecida em um limbo.

É uma dessas maldições de séculos com gosto de vermelho, tons de azul melancólico e o negro das profundezas.

Estaria eu morta para toda a humanidade?

Não. Estou morta para mim mesma. Eu só preciso reconhecer e aceitar.