Quando revejo a frequência com que escrevia por aqui, sempre vem a mim a mesma pergunta: o que mudou? Bem, com o fim do curso de História se aproximando, restando apenas a monografia e o estágio final, parece-me que eu redigi muito para ele e pouco para os meus sentimentos. Concluo, depois de construir artigos e relatórios (que exigem uma grande revisão depois), que a inspiração e o ânimo para fazer o que fazia antes no blog esgotaram-se antes mesmo de eu começar a ter uma ideia. Ou... Há alguma outra coisa? Muito mais profunda? Seria simplesmente porque perdi o estímulo de outrora, da mulher apaixonada por pessoas e por assuntos inquietantes? A intensidade move-me, isso é certo. Preciso de um coração partido, de um amor intenso, vivido e sofrido. De fato, hoje sinto-me sem muito entusiasmo, como em um limbo estranho, azul e pálido. Que esquisito, não é mesmo?!
Porém esse sentimento de quietude é angustiante. O coração começa a cicatrizar, mas, paralelamente, ele caminha para uma não intensidade assustadora. Com 36 anos, eu gostaria de estar em um tipo de enredo em que as paixões não cessam, só mudam o foco e o objeto desejado e consumido, numa perspectiva feminina mais intimista, prazerosa, longe dos anseios e ardência juvenis e muito, muito distante da morte decretada do sentimento, como no filme 40 Carats com a Liv Ullmann (Deus, que filme delicioso!), em que posso resumir a um gosto de cafezinho quente em um final de tarde do frio tropical.
Estou perto de ser uma historiadora (e professora de História). Sinto bastante segurança nisso. Diferente da Astronomia e Física, que deixavam-me a sonhar, motivada, para depois terminar num fosso escuro e sem volta. Só que, em minha vida inteira, eu sonhei com os telescópios do Deserto do Atacama e não com museus em casarões de pedra e cal. E essa constatação faz-me suspeitar da ligação disso com essa minha falta de paixão pelo outro. Contudo, eu não posso decretar o fim da minha alma assim. Tudo bem... Eu tenho dores crônicas e fibromialgia. Não é fácil manter-me como antes nessas condições. Uma parte dessa apatia é própria da tristeza que eu acumulei. Tenho culpa, é claro. Medos e um gosto amargo me possuem. Não sou mais aquela que viu a constelação de Órion abrir-se como um cego que volta a enxergar. Nem por isso tenho que me condenar a marchar para o destino de uma vida de uma nota só, com medo da fome e da pobreza do corpo e do espírito.
De vez em quando, pego-me a pensar no rapaz dos olhos azuis da cor do oceano tempestuoso. Eram momentos em que eu era mais interessante para mim mesma. E, mesmo assim, eu não quero voltar no tempo. Preciso de cafeína, analgésicos, ópio e um psiquiatra.
Mia Farrow e Jeff Daniels em A Rosa Púrpura do Cairo/1985
Eu poderia ser a Cecilia de A Rosa Púrpura do Cairo agora. Só que eu quero um final melhor. Será que eu consigo aceitar esse novo eu que vem mostrando-se ao longo de 11 anos? Os outros podem enxergá-lo na essência? Ou simplesmente só aceitam a juventude, num ciclo sem fim de rotatividade? E por que eu tenho que esperar por eles? Por que eu estou falando disso...?
Espero, ao menos, continuar a escrever por aqui. Quem sabe, com uma diferente inspiração. Mesmo que seja do mundo bizarro de David Lynch.
S..., 12 de outubro do ano de 2019. Saudações. Bom, por qual parte começar? Um mês inteira afastada; praticamente fagocitei setembro. Não se tratou de um desligamento da escrita. Jamais! Entretanto digo que o curso de História tem exigido muito de mim: compromissos, lecionar para as crianças do nono ano, estudos, algumas noites de insônia e uma certa dose de loucura e episódios de surtos.
E essa é uma parte complicada. Na última segunda-feira estive praticamente à beira de um colapso mental, com direito a um choro estrondoso, lamentos e quase um ranger de dentes bíblico. O motivo pode parecer o mais banal dentro do cenário em que os jovens universitários estão mergulhados em um oceano de desinteresse, portando-se como figuras patéticas e bufantes, que não sabem se expressar na língua materna, pensam apenas em beber algo muito vagabundo e extremamente barato em lugares nos quais a vulgaridade é uma senha principesca. Contudo não poderia sê-lo para mim. Perdi um fichamento no maldito Word e entrei em desespero. Foi a cereja de um bolo que assa em estresse, tarefas e muito pouco dinheiro. E mesmo ao recuperá-lo no momento final, o estrago mental já estava feito. Estou presa em um universo em que a única coisa que me pertence é o próprio curso de História e qualquer ponto fora do planejamento é motivo para um verdeiro apocalipse.
Sim. Vivo em um limbo. Ninguém mais é interessante, nem mesmo desperta aquela admiração que é necessária para cotidiano, que alimenta a alma e causa um sabor na boca igualzinho ao de maçãs com coalhada. É uma espécie de filme verde, um tanto sujo, desesperançoso. Por isso sigo otimamente na solidão. E não pense que é uma queixa; ponho mais como uma questão de que esses sapatos calçam melhor.
Assim, no último sábado, fui assistir ao Coringa do Joaquim Phoenix. Meu Deus do Céu! Fazia tanto tempo que eu não via algo que parecesse um pouco com o cinema que gosto: com filtros que gradualmente saem desse tom musgo, azul envelhecido e marron para as cores sádicas e eufóricas da loucura do amarelo e vermelho. Ao final, aplaudi em pé.
Hannah Arendt
Só que essa experiência pediu uma outra apenas comigo mesma. Ontem fui na primeira sessão vespertina rever o filme. Comprei um ingresso para a cadeira mais espetacular de todas: a da segunda fileira - 13B, que praticamente traga o telespectador e é evitada pela massa em geral. Peguei pipoca doce (a minha favorita) uma super Coca-Cola e fiquei lá embaixo como se não houvesse o amanhã e ninguém a mais além de mim e Arthur Fleck.
Eu realmente deveria fazer isso mais vezes.
Para o fechamento do dia, comprei um belíssimo livro da Hannah Arendt chamado As Origens do Totalitarismo. É mais um para o curso de História e que irá fazer companhia para o ótimo Peter Burke.
Penso em gravar um podcast... Como nos velhos tempos... Talvez saia essa semana. Será sobre o lado psicológico do filme Coringa ou Cinema e História (no contexto historiográfico).
Essa é mais uma carta de notícias. Espero que chegue tão logo aos seus olhos.
Até muito em breve.
T.S. Frank
P.S: envio-te a música do Cream. Você entenderá tão logo (ou isso até mesmo já aconteceu!).
Guarde isso: - Olha o que você fez! A cidade está queimando por sua causa! - Eu sei. É lindo, não é?
Kidding é um magnífico e sublime retrato de que a vida perfeita e esfuziante deságua sempre no abismo cruel da realidade quando as câmeras são desligadas. As pessoas gentis vão sofrer, pois esse é o destino. E não deixe-se enganar: essa brincadeira infantil é para adultos!
Aproveitando que o Globo de Ouro foi por esses dias (e que as indicações ao Emmy desse ano ainda não saíram), trago um dos indicados da noite: Kidding (Showtime/EUA - melhor série de comédia ou musical e melhor ator de comédia ou musical).
Essa é a história de Jeff Piccirillo (Jim Carrey), mais conhecido como Mr. Pickles, um querido apresentador de televisão infantil, apreciado por crianças e pais. Ele tem um verdadeiro império multimilionário, porém enfrenta uma tragédia pessoal e uma vida familiar difícil. Eis que temos, então, um homem sensível em um mundo cão, que recusa-se a acreditar na ignorância, na falta de boas maneiras e na existência de pessoas ordinárias e aproveitadoras. Entretanto tudo tem um limite e ele é uma bomba-relógio que está só esperando a hora de explodir e mandar todos para o inferno. Só que essa pintura nua e crua da natureza humana levará um certo tempo para se concretizar.
E enquanto isso não acontece, somos levados por uma estrada sutil com destino a um colapso inevitável, com lampejos de esperanças seguidos por quedas vertiginosas. E é quando Jeff age como um completo bobo, aceitando de bom grado ser pisado pela vida e tirando sempre o melhor da lição, que os momentos mais reflexivos surgem. Às vezes tem-se uma vontade de dizer: "Ei, cara, acorde para a vida!". Contudo isso dura pouco, pois uma personalidade contida tem muito a mostrar quando atinge um certo nível de desgraça.
O elenco é de extrema competência, comoFrank Langella que faz o pai controlador e que gerencia todos os negócios, que só pensa na marca e na boa imagem que precisa manter de Mr. Pickles. É claro que o destaque fica com Jim Carrey. Seria difícil não falar o quão ótimo ator ele é, sendo um gênio na transição da comédia para o drama (e que só essa semana assisti uns cinco filmes dele). Em Kidding, Jim entrega uma das suas melhores atuações, deixando o pastelão de lado e indo mais fundo em um universo sombrio paradoxalmente colorido.
[ADENDO: Jim Carrey sumiu por uns tempos e ficou quase um recluso. Tudo começou em 2015, quando sua ex-namorada Cathriona White cometeu suicídio e deixou uma carta com um conteúdo perturbador (os detalhes deixo para a pesquisa de cada um de vocês). Houve muita confusão, o marido da moça tentou processar Carrey, depois descobriu-se que algumas coisas que ela falou poderiam não ser verdade e o processo foi arquivado. Ele está com novos pensamentos e outra filosofia de vida, uns muito bons sobre o lado espiritual e outros muito nocivos (como a velha história de que as vacinas fazem mal). Ele agora faz tirinhas contra o Trump (o que é ótimo) e você pode ver o excelente trabalho dele aqui no twitter oficial. Sugiro que assista Jim & Andy, documentário da Netflix sobre os bastidores proibidos das filmagens de O Mundo de Andy/1999. É incômodo e ao mesmo tempo revelador, principalmente pelo brilhantismo de Carrey e seu depoimento de como mudou após o filme.]
Voltando...
São dez episódios que passam rápido (com trinta minutos de duração). Será fácil maratonar a temporada completa, pois ela realmente induz a isso.
Um lembrete para você, querido (a) leitor (a): essa é uma série para ADULTOS. Tem sexo explícito e nudez. Dado o aviso, não deixe de assistir. É uma das melhores séries de 2018.
Número de Temporadas: 1 Número de episódios: 10 Locações: Vancouver, British Columbia, Canadá.
Altered Carbon não é para família e nem para as grandes audiências. É um mundo para adultos, especialmente os fascinados por Blade Runner e toda a cultura do Cyberpunk.
O ano de 2018 chegou e trouxe a produção mais cara da NetFlix - Altered Carbon, série baseada no livro de mesmo nome (que é seguido por Broken Angels e Woken Furies) de Richard K. Morgan e criada por Laeta Kalogridis.
Assim que o livro saiu, Kalogridis adquiriu os direitos de adaptação com a intenção, primeiramente, de um longa metragem. Mas a complexidade da trama afastou os investimentos dos estúdios e, assim, lá foram-se longos 15 anos até que o projeto virasse realidade pelas mãos (e dinheiro) da Netflix, que a encomendando somente em 2016.
Passaram-se alguns bons dias até que eu assistisse a série. Não porque o enredo sugerisse algo desinteressante, pelo contrário, e sim porque a Netflix (não sei se só a versão em Português) tem o péssimo hábito de não fazer boas e instigantes sinopses, fugindo, muitas vezes, da essência do próprio trabalho, além de não dar o nome de todos os atores e, o pior, não coloca boas fotos promocionais. Só depois de ler a segunda sinopse e ver que o Joel Kinnaman era o principal que eu parti para o primeiro episódio.
A história gira em torno de Takeshi Kovacs (o original é interpretado por Will Yun Lee e a nova capa por Joel Kinnaman), um ex-soldado das forças especiais que fazia parte do projeto Envoy. Após uma missão fracassada, Kovacs foi para uma prisão digital. Ele foi libertado por Laurens Bancroft (James Purefoy), membro da elite dos Matusas. Bancroft está intrigado porque foi assassinado em sua própria casa e acredita piamente que não cometeu suicídio. A missão de Kovacs é achar o verdadeiro culpado.
Há, também, muitas subtramas e envolvimentos, destacando-se o círculo próximo que se formará em torno de Kovacs, com a a policial Kristin Ortega (Martha Higareda), Poe (Chris Conner) e Vernon Elliot (Ato Essandoh).
Mas Altered Carbon vai muito além. Seus melhores pontos residem nas bases sociais em que a narrativa central foi construída... Então, vamos entendê-las!
A partir de agora entra o selo de:
O mundo em Altered Carbon
A série passa-se 350 anos no futuro, no ano 2384...
(um adendo para as primeiras perguntas: Que futuro? Porque se for contar de 2018, somando-se esses 350 anos, daria o ano de 2368, um diferença de 16 anos. Ou estamos falando do futuro do ano de 2034 ou essa contagem no tempo tem que passar para 334 anos no futuro... Você escolhe!)
Então, nesse tempo, as memórias de uma pessoa, na sua forma mais pura, podem ser passadas para um dispositivo em forma de disco chamado cartucho cortical (isso mesmo, uma espécie de pendrive com o backup do nosso cérebro), que é implantado nas vértebras da parte de trás do pescoço, em um processo de codificação e armazenamento chamado Frente Digital Humana - FHD. Esse cartucho é colocado quando a pessoa é ainda criança, por volta de 1 ano de idade.
Quando há algum dano grave a essa constituição física, este cartucho pode ser colocado em um novo, digamos, receptáculo, chamado de capa, um ser clonado a partir do corpo original ou outros corpos que estiverem disponíveis. Também pode-se voltar ao corpo original, restaurado ou não. Tudo isso dependerá de quanto é possível pagar para ter a vida de volta. A capa é substituível, o cartucho não. E a não ser que tenha-se muitos backups espalhados por aí, uma vez que esse dispositivo tenha sido destruído, a morte é real.
Esta possibilidade só foi possível graças a uma tecnologia alienígena vinda de um povo chamado Elders e que já está extinto.
As diferenças de classes sociais
As capas não são criadas de forma igual. Os ricos podem dispor de clones aparentemente infinitos de si mesmos, distribuidos por cofres trancados e altamente seguros em torno da galáxia. Assim surge-nos os Matusas, pessoas poderosas que efetivamente tornam-se imortais. Entretanto a maioria das pessoas não escolhe sua nova capa, devendo, ser quiser viver novamente, usar o que estiver disponível. Isso significa que pode-se ter uma criança colocada no corpo de uma pessoa idosa ou acabar em uma raça ou gênero diferente. Então, de onde vêm as capas dos pobres?
Esta é até fácil de deduzir: daqueles ainda mais pobres que não podem pagar sequer para manter o corpo original. Porque se a capa sofreu um dano grave, esta pode também ser, dependendo da complexidade, restaurada. Se o antigo dono, representado por sua família, não puder pagar, então outra pessoa torna-se dona do seu corpo. E tem outras possibilidades... O caso dos prisioneiros
Nesse universo, não há mais prisões como conhecemos hoje. Elas tornaram-se digitais e, sendo assim, os condenados têm os cartuchos removidos e seus antigos corpos são colocados a disposição. Se a família puder arcar com as despesas de manutenção até o cumprimento da pena, o detento terá seu corpo de volta, senão, haverá a permuta.
O caso da realidade virtual
Se o dinheiro não deu para manter a capa, então há a possibilidade de permanecer em uma Realidade Virtual, onde amigos e familiares poderão conectar-se para passar o tempo com a pessoa.
O caso dos corpos sintéticos
Por que não apenas colocar o cartucho em um corpo sintético ou um androide? Sim, é possível. Todavia é o meio menos usado. Imagine acordar em uma boneca ou boneco, mesmo que ele/ela seja uma cópia fiel da capa anterior? Muito esquisito será não poder comer, nem beber e nem sentir estímulos. Foi assim que o Serial Killer Charles Lee Ray ficou ao transferir-se para o boneco Chucky, só que ao invés de vudu, temos a tecnologia.
Eu não sou o dono do meu corpo?
A capa da primeira vida é, basicamente, um empréstimo. Se não puder pagar pela segunda vida no mesmo corpo, o governo vem e leva-o embora. É como comprar uma casa pelos bancos (considerando que as prestações da casa sejam infinitas). Pense que viver é o período que abrange o pagamento das parcelas. Parou de pagar (a morte), o banco vem e abre a possibilidade de renegociar (manter o corpo e voltar nele), se não tem mais meios de continuar o vínculo... Lá vai a casa para leilão.
E existem hospitais? Sim. Como dizem todos os médicos, melhor prevenir do que remediar. Só que não há mais hospitais públicos ou privados, apenas um tipo de hospital onde quem tem dinheiro entra na frente, ganhando membros reforçados e tratamentos caros, enquanto, não importando a gravidade, os pobres podem morrer na fila de antedimento (o que já é real aqui e agora...).
Reencarnação ou Ressuscitação?
A discussão em torno da Religião é um dos pontos mais fortes da série. Assim, aqueles que não querem viver para sempre, optam pelo bloqueio (com a codificação Neo-C) ou destruição do seu cartucho. O Neo-C (Neo-Catolicismo) é uma religião que sustenta a crença de que os seres humanos não devem ser trazidos de volta à vida após a morte.
Alguns podem fazer uma confusão com a Reencarnação. Contudo ela não se encaixa aqui. A Reencarnação e um processo natural, misterioso, baseada na lei do Carma. É uma nova vivência, de fato, de uma mesma alma (você pode dizer até mesmo que a alma é o cartucho). Mas a antiga vida, no princípio da Reencarnação, foi deixada para trás (porém é sabido que lembranças podem ficar, assim como nos casos documentados de vidas anteriores). Para que a tecnologia usada em Altered Carbon chegasse um pouquinho perto do que considera-se Reencarnação, além da nova capa, todas as memórias deveriam ser apagadas, sobrando apenas os traços de personalidade, ou o que chamamos de essência. O que é a Resolução 653?
A Resolução 653 é uma proposta legal que altera a lei para permitir que as vítimas de assassinatos possam ser ressuscitadas com o intuito de testemunharem contra os criminosos. Ela não possui nenhuma restrição quanto a religião.
Entretanto pela lei vigente, um Neo-C não pode ser ressuscitado para esse caso.
A 653 é de suma importância para a construção da história da série, pois Reileen (Dichen Lachman), a irmã de Takeshi, aproveita-se disso para fugir das acusações dos assassinatos ocorridos em seu bordel, o Head in the Clouds, onde os clientes podem matar os profissionais do sexo.
Seu artifício é o de mudar ilegalmente os códigos dos seus empregados para Neo-C para que não haja processos criminais que exijam a ressuscitação dos mesmos.
Mas a 653, sem restrições, caminha para ser aprovada na ONU. Por isso ela resolve armar para o Matusa mais poderoso. Depois de ser drogado no Bordel, Laurens Bancrofts assassina uma jovem. Com isso, ele é chantageado para que barre a aprovação da 653.
Mas, cheio de culpa, Laurens se mata antes que seu cartucho completasse a atualização com as memórias do crime.
É desse ponto que começa Altered Carbon.
Altered Carbon é um pós Blade Runner ou um Doctor Who Cyberpunk?
A comparações com Blade Runner são inevitáveis, principalmente pelo universo cyberpunk - a melancolia, mundo poluído e sujo contrastando com o colorido das luzes da alta tecnologia. Se você gosta de ligar obras anteriores à atuais, pode considerar o enredo da série como uma continuação de Blade Runner (1982) e Blade Runner 2049 (2017).
Cabe aqui dizer que a história das capas assemelha-se muito ao enredo de Doctor Who, pois, ao invés de termos apenas um Senhor do Tempo que troca de corpo de tempos em tempos, temos vários deles que, dependendo da condição financeira, podem optar pela capa que mais lhe agrada e mantê-la para sempre.
Quero morrer junto com meu corpo!
As questões éticas e de liberdades individuais também são um ponto forte dessa trama. Imagine morrer ou ser preso e seu corpo passar de pessoa para pessoa? Ou ficar com a mente presa em uma realidade virtual? Ou em um corpo sintético? Onde acaba a vida? Onde começa outra nova? O seu corpo não era você? Por que o Governo tem o direito sobre ele após o desligamento da sua consciência?
São essas questões um verdadeiro nó de marinheiro, pois todos temos um tipo de posicionamento a respeito. Só que qualquer uma dessas opiniões encontrará sempre uma contrapartida duríssima para reflexão.
Por exemplo, se seu corpo é somente seu, então você escolhe o que fazer com ele - doar órgãos ou doar a capa. Entretanto se o conceito de posse for considerado uma vontade egoísta que fere o princípio de convivência igualitária em uma sociedade? E se uma vida for perdida por puro capricho alheio? São a Terra ou o Fogo mais importantes do que um semelhante? O Governo, que supostamente deve cuidar do bem estar dos cidadãos e protegê-los, não deve intervir nessa questão?
Altamente complicado, não?
A série Altered Carbon teve Whitewashing?
O whitewashing, ou embranquecimento, significa substituir personagens fictícios ou históricos, de origem estrangeira, por atores norte-americanos ou de cor branca.
Nesse caso, claro que não ocorreu isso na série. O próprio livro dá espaço para que um protagonista oriental seja, depois, um caucasiano. E o trabalho traz os dois, na vida passada e presente, dando espaço para as duas etnias. Aliás, uma coisa que Altered Carbon não pode ser acusada é de não ter diversidade. Todo o resto em torno dessa polêmica é intriga da oposição...
Afinal, por que diabos a série chama-se Carbono Alterado?
Nem os três livros e muito menos a série dão-nos uma resposta clara e objetiva, apenas alguns subentendimentos com frases que trazem essa expressão.
O que pode-se supor é que Carbono Alterado seja uma expressão para a própria capa que foi mudada para abrigar novamente uma vida, pois os seres humanos são constituídos por carbono e, nesse processo de reciclagem, essas cadeias precisam ser refeitas ou até mesmo modificadas. Quase um produto transgênico de hoje.
Oh, Meu Deus, que mundo horrível esse...
Sim, por isso que temos um exemplo claríssimo de DISTOPIA.
As distopias são geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo, por opressivo controle da sociedade e grande desigualdade social.
Altamente despretensioso e baseado, praticamente, na interação entre dois personagens. Mas não se engane por sua simplicidade - é um filme bem interessante.
O senso comum quase sempre aponta a coqueluche do terror e do suspense para as produções americanas. Entretanto, há alguns poucos anos, esse cenário vem mudando. Trabalhos independentes de vários outros países ganham mais destaque. Foi assim, recentemente, com os ótimos Boa Noite, Mamãe (Ich Seh Ich Seh/Áustria/2014) (crítica do CQeSherlock aqui) e Invasão Zumbi ( 부산행 Busanhaeng/Coréia do Sul/2016). Também pode-se dizer, com propriedade, que as produções de língua espanhola, no circuito Argentina-México-Espanha, possuem grandes méritos e são uma escola de referência.
E junta-se a essa lista os britânicos, com seus filmes não muito longos, com cenários modestos, campestres, usando o próprio cotidiano e um orçamento baixo que dá muita ênfase as boas atuações e a roteiros de qualidade. Vide o excelente Extermínio (28 Days Later/2003) (crítica do CQeSherlock aqui). E é nesse âmbito que aparece-nos Soulmate (Reino Unido/2013), uma grata surpresa para quem não prende-se somente ao famoso jump scare (a tão banalizada técnica do susto a qualquer custo).
Anna Walton
Temos uma construção de enredo até bem simples - Audrey (Anna Walton), uma mulher devastada pela perda de seu marido em um acidente de carro, tenta o suicídio. Entretanto é salva por sua irmã Alex (Emma Cleasby). Depois desse fato, ela decide que o melhor é isolar-se por um tempo no campo. No primeiro dia, Audrey encontra dois moradores locais, Theresa (Tanya Myers) e o marido, Dr. Zellaby (Nick Brimble), que falam sobre o proprietário anterior da casa, Douglas (Tom Wisdom), que suicidou-se há 30 anos. Logo a nova residente do imóvel começa a ouvir ruídos estranhos e percebe uma porta trancada. Ao conversar novamente com o Dr. Zellaby, ela descobre que essa está fechada desde a morte de Douglas. Eventualmente os ruídos tornam-se mais fortes. Então, ao abrir a porta, Audrey encontra vários pertences do antigo morador, incluindo as cartas de sua noiva Nell (Rebecca Kiser). Neste ponto, Douglas começa a manifestar-se dentro da casa, revelando-se a Audrey. Os dois são capazes de conversar um com o outro, estabelecendo um vínculo emocional, mesmo que não possam interagir fisicamente. No entanto, com o passar dos dias, surgem dúvidas sobre as verdadeiras intenções de Douglas - ele pode ser apenas uma alma parecida com Audrey ou uma manifestação sinistra e maquiavélica.
Tom Wisdom
Confesso que assisti, a princípio, por causa do Tom Wisdom, um ator muito bom, requintado e que tem uma bela presença cênica (ele é mais conhecido, injustamente, pela série do canal Sci-Fi, já cancelada, Dominion). Foi complicado conseguir uma cópia, pois é considerada rara aqui no Brasil. E não para por aí - dublagem ou legendas (mesmo em inglês) não estão disponíveis em parte alguma deste planeta. Tentei, depois de saborear a minha cópia do submundo, comprar o streaming com legendas na língua inglesa pela Amazon Prime dos Estados Unidos e não deu certo de jeito nenhum - precisa-se de um cartão de crédito e endereço de lá. Mas importar o DVD está nos meus planos.
Finalizo com uma certeza: um horror britânico, de classe, que recomendo firmemente!
***
Trívias sobre o filme Alma Gêmea (Soulmate /2013)
Cena removida do filme!
A versão britânica do filme teve a cena de abertura original, em que Audrey (personagem de Anna Walton) tenta se matar, retirada. Isso ocorreu por conta da British Board of Film Classification - BBFC achar que isso poderia ser um incentivo ao suicídio. A película levou quatro anos para ficar pronta. Mas as filmagens deram-se em apenas 24 dias. O ator que interpreta o marido morto de Audrey é o Fotógrafo da Produção. Nick Brimble (que interpreta o Dr. Zellaby) só se juntou à produção uma semana antes dela começar a ser rodada, substituindo um ator que foi contrato anteriormente. O Diretor de Fotografia original abandonou o projeto um mês antes das filmagens. O papel de Audrey foi escrito tendo Anna Walton em mente. Diversos diretores passaram pelas etapas de filmagem. Nick Brimble filmou seu papel em 6 dias. Nick Brimble ficou perplexo com os aspectos do personagem do cachorro. O cachorro, à proposito, chama-se Anubis e sua dona é a diretora Axelle Carolyn. Emma Cleasby (que interpreta Alex) filmou seu papel em 2 dias. Neil Marshal (Produtor Executivo e sim, esse mesmo, diretor dos filmes Centurião/2010, Abismo do Mesmo/2005, o novo Hellboy e de muitos episódios de séries famosas, como Game of Thrones...) fez uma breve aparição na película (o famoso termo cameo). Neil Marshal, na época, era casado com a diretora/escritora do filme, Axelle Carolyn (estão, neste momento, em processo de divórcio). Tom Wisdom juntou-se, após um breve comunicado, ao elenco. A escolha original havia desistido. A escritora/diretora Axelle Carolyn tinha uma coluna regular em uma revista americana dedicada aos fãs de Terror, a Fangoria. Muitos membros do elenco juntaram-se a produção em diversas etapas das filmagens, para desistirem de participar logo em seguida.
Bill Paxton sempre será, para mim, o HOMEM do TEMPO, o cara que conseguia saber os pensamentos de um TORNADO, o grande STORMCHASER (Caçador de Tornados) do filme Twister/1996.
Ele é o único ator do mundo que foi morto, nos filmes, pelos três maiores monstros de todos os tempos do Cinema:
Pelo Exterminador/T-800 - O Exterminador do Futuro (The Terminator/1984)
Pelo Alien - Em Alien 2 (Aliens/1986)
Pelo Predador - Em Predador 2 (Predator/1990)
- Estou solteira porque, aparentemente, os únicos homens bons são os fictícios.
(Jane Hayes em Austeland, 2013)
Antes que este tenebroso ano de 2016 acabe e que as costumeiras mensagens de Natal e Ano Novo apareçam, trago duas resenhas sobre Austenlândia (Austenland) - o livro e o filme.
Uma das novidades é que este livro foi o primeiro que li no meu novo e-reader - o Kindle Paperwhite (uma resenha inteira será dedicada a ele em breve). No mais, para as leitoras e leitores que gostaram da postagem mais popular do CQ&Sherlock até aqui, Por que queremos um Mr. Darcy?, esse é o meu presente de Natal para vocês!
Mas antes...
Eu vi primeiro o filme na Netflix e depois li o livro no Kindle.
A opinião no blog será uma das poucas, senão a única, na internet que expressa a preferência ao filme. Isso não significa que o livro seja ruim. Mas há paixões que vão contra a corrente...
Filme Austenlândia (Austenland/2013)
Se você gosta de Orgulho e Preconceito, personagens caricatos, belas paisagens e sente-se, também, um pouco Darcymaníaca (o), este filme é como uma mão em uma luva da Era Vitoriana. Vestir a pele de Jane Hayes não será incomum – Keri Russell dá voz e corpo a cada traço de personalidade das heroínas de Austen neste filme que mais parece uma sátira do livro homônimo - o que é ótimo!
Austenlândia (Austenland/USA/UK/2013), com direção da estreante americana Jerusha Hess, é um daqueles filmes para ver descompromissadamente, quando há a vontade de assistir algo leve, romântico e doce como um merengue.
A comédia romântica é certeira no quesito divertimento e entretenimento. Outros aspectos, como os personagens caricatos, causam divergências de opiniões - ou você ama ou odeia. Particularmente, sobrou-me amor. Tanto que já vi o filme umas 15 vezes.
O enredo fala sobre Jane Hayes (Keri Russell), uma mulher com mais de 30 anos de idade, que não consegue encontrar um namorado, pois nenhum homem parece à altura de seu grande ídolo - o Mr. Darcy (personagem criado por Jane Austen no romance Orgulho e Preconceito). Um dia ela decide gastar todas as suas economias e voar para o Reino Unido, onde existe um resort especializado em acolher as mulheres apaixonadas pelas histórias de Austen. Lá, ela descobre que o homem dos seus sonhos pode se tornar uma realidade.
Há de se destacar a atuação deKeri Russel como Jane Hayes, que é leve e simpática, muito da personalidade da atriz, que também passa essas características em outros trabalhos. Outro destaque é para o ator JJ Feild (que é americano, mas mudou-se para Londres quando era apenas bebê), que faz o Henry Noble, o residente Mr. Darcy. Sua interpretação de um homem de poucos amigos e de ar emburrado que depois revela-se um perfeito cavalheiro com uma voz suave e um jeito encantador é na medida.
Outro bom ponto é a trilha sonora, com músicas dos anos 80, como, por exemplo, Bette Davis Eyes (1981), deKim Karnes, e Heaven Is A Place On Earth (1987), de Belinda Carlisle.
Uma dica é assistir pós-THE END - há boas surpresas - Austenlândia virou um parque temático sob a direção de Mr. Charming, o, agora, casal Jane e Henry aparecem para passear no novo lugar e outros finais são mostrados. Nos créditos, há um clipe com os personagens fazendo uma coreografia para a música do rapper Nelly - Hot in Herre.
Definitivamente, sendo você, leitor (a), fã de Austen ou apenas de comédias românticas, este filme é uma ótima pedida. É como comer uma caixa de chocolates quando deseja-se: não há como enjoar. Recomendadíssimo!
Livro Austenlândia (Austenland/2009)
O livro que tenho é da: Editora Record Formato: e-book E-reader: Kindle Ano: 2014 ISBN: 978-85-01-03296-6 (recurso eletrônico) Edição: 1 ª edição Número de páginas: em um e-book o número de páginas é relativo. Trata-se de um livro curto. Autor (a): Shannon Hale (trad. Regiane Winarski) Preço-faixa na Amazon: R$ 18,90
Austenlândia, da autora americana Shannon Hale, é um livro despretensioso, cujo o maior intuito é divertir os românticos e os obcecados por Mr. Darcy que não pertencem ao grupo dos xiitas austenianos. Na proposta que lhe cabe, sai-se muito bem.
O enredo gira em torno de Jane Hayes, uma mulher de 33 anos que mora em Nova York. Bonita, inteligente e com um bom emprego, ela guarda um segredo constrangedor - é obcecada pelo Mr. Darcy, (personagem criado por Jane Austen). Com uma vida amorosa lamentável, Jane decide aceitar seu destino - noites solitárias no sofá assistindo a Colin Firth em Orgulho e preconceito. Contudo, ao ganhar uma viagem de férias para Austenlândia, um misterioso lugar onde todos devem se portar como se estivessem em uma obra da consagrada escritora, Jane tem a chance de viver o romance que sempre sonhou.
O livro é curto, de fácil leitura e que pode ser terminado em um piscar de olhos. Agradável e bem desenvolvido no limite de seu próprio universo.
Vale a pena uma conferida.
Algumas diferenças entre o filme e o livro
No filme, Jane vende o carro para comprar o pobre Pacote Cobre para Austenlândia em uma agência de turismo. No livro, ela recebe a viagem de sua tia-avó Carolyn como herança.
No livro, a mãe de Jane é Shirley. No filme, ela não é mencionada.
A tia-avó Carolyn não é mencionada no filme.
A melhor amiga de Jane, Molly, no livro, tem gêmeos. No filme, ela aparece apenas grávida.
No livro, Pembrook Park, o local de Austenlândia, tem poucas informações na internet. Há um contrato de privacidade que não pode ser quebrado nem pelos usuários e nem por funcionários. No filme, Austenlândia tem até propaganda na televisão.
No filme, Jane encontra Miss Charming no aeroporto, na chegada a Londres. No livro, esse encontro acontece somente em Austenlândia.
No Filme, Henry Noble é, de fato, sobrinho de Mrs. Wattlesbrook, dona de Austenlândia. Ele é professor universitário de História e foi parar lá por causa de uma decepção amorosa. Ele não é ator. A primeira semana dele no resort é também a primeira semana de Jane no local. No livro, Henry Noble é na verdade Henry Jenkins, ator com formação também em História. Ele é divorciado. Ele já trabalhava em Austenlândia antes.
No filme, Henry Noble tem olhos azuis. No livro, ele tem olhos marrons.
No filme, Martin é um ator que naquela temporada faz papel de jardineiro. No livro, ele é apresentado primeiro como Theodore, na parte em que Jane é preparada para as danças da época, e depois como Martin, o jardineiro.
No filme, Martin tem olhos marrons. No livro, eles são azuis.
No filme, Mrs. Wattlesbrook é a anfitriã também na casa principal, tendo um marido chamado Mr. Wattlesbrook. No livro, a casa fica a cargo de Tia Saffronia e seu marido John Templeton. Esses dois personagens não existem no filme.
No filme, Jane não tem criada. No livro, o nome dela é Matilda.
No filme, a história fictícia da Sra. Amelia Heartwright é um pouco diferente no livro.
No livro, Henry Noble/Henry Jenkins diz que Andrews é gay. No filme, isso fica apenas subentendido.
No filme, Miss Charming, ao final, compra Austenlândia e transforma em um parque temático. No livro, isso não acontece.
O cenário do desfecho do filme é diferente no livro. Nele, Henry Jenkins acaba por comprar uma passagem e pegar o mesmo avião em que Jane toma para voltar para Nova York. No filme, depois que há a briga no aeroporto e que Jane diz para Henry Noble que ele foi perfeito, mesmo sendo somente uma atuação, há a passagem em que ela chega em casa e desaustenriza o quarto. O desfecho romântico é dado quando Henry Noble, sendo realmente Henry Noble, vai até a casa de Jane para devolver um caderno com os desenhos que ela fez dele. Este é o melhor final.
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Caro leitor (a), se você gostou dessa postagem, poderá se interessar também por estas no CQ&Sherlock:
Pois bem, pois bem, eis como nos primórdios do CQ&Sherlock...
Então é o mês das folhas que caem, das paisagens amarronzadas com aroma de madeira e canela e... Não, não é nada disso! Por aqui somente um calor escaldante dos trópicos, com um céu cegamente azul e uma sede sem fim. Penso que qualquer um desses dias será mais do mesmo - nenhuma gota de chuva e tampouco nuvens cinzas que façam-me sentir como nos velhos tempos do belos temporais que vinham do leste. Nossa, que saudade daqueles tempos imemoriais...
Mais do mesmo também é meu cotidiano. Estou tentando terminar o curso de Física, uma notícia mais velha que o próprio Matusalém.
- Senhor, como está difícil!
São apenas duas cadeiras e dois cenários tão distintos e discrepantes que uma confusão e discussão mental fazem-me sair da sala em pensamento: um professor muito rígido, mas que mantém o diálogo um pouco mais aberto. O outro, um senhor que não sei bem como foi parar no magistério acadêmico. Um tédio absoluto em ambas - a primeira disciplina é tão abstrata que não sei por onde começar. E isso não me incentiva a abrir o livro, que por desventura é em inglês, para tentar entender. É como antecipar um futuro já sabido por todos - aquilo é extremamente complicado para se aprender e não há uma viva alma para concordar comigo; a segunda, pateticamente tão mal ministrada que não merece nenhuma linha a mais desta conversa. Das intempéries desse semestre, não sei mais o que profetizar. É apenas uma questão de espera.
No final do mês haverá o IV Simpósio de Estudos Celtas e Germânicos dos meus colegas do curso de História. E sim, escrevi-me nele sem pudores - será uma escapadela da realidade mórbida que cerca o meu prédio de exatas. Digo a muitos (e poucos compreendem) que é como cruzar o portal para dois mundos extremos - em apenas uma travessia de passarela, ou escadas, desvencilho-me do ar pesado e sabichão dos arrogantes para adentrar em uma reunião dos seresteiros, cancioneiros e trovadores da noite. Pode parecer vadiagem sem precedentes, mas eu prefiro assim.
Continuo a tocar as minhas flautas nativas. Mas uma tem dado-me um pouco de dor de cabeça - parece desafinar em uma das últimas notas e tem um "vento" que rivaliza com o som. Conversei com o luthier, mas ele insiste em dizer que é sopro em demasia. Desanimei um pouquinho, só que irá passar.
As dores na coluna vão e voltam. Eu não tenho hérnia de disco, apenas degeneração discal. Acho que já estou bem acostumada a esse ritmo. Claro, nos dias de dores, tudo parece sem esperança. Ajuda muito a piorar esse quadro a TPM, esses sim são péssimos momentos. E conversando com o meu médico, optei por fazer pilates e fitdance (a famosa zumba) e tomar alguns medicamentos menos agressivos. Tudo isso foi cuidadosamente pensado depois que ele passou-me um antidepressivo que também age nas dores crônicas e juro, depois de tomado um comprimido apenas, a morte parecia mais perto do que nunca. É como não sentir-se mais a mesma pessoa, uma sensação de letargia, respiração quase parando, o mundo girando e pensamentos infernais. Resultado: o ortopedista concluiu que sou uma pessoa demasiadamente sensível a antidepressivos.
Depois de completados 30 anos... A contagem já não importa mais.
Estou endividada até a alma (ha, ha, ha). Tive que cortar o plano de saúde e minha boa vida acabou. Estou procurando um emprego e, pelos céus, como está intricada esta parte. Esta cidade é estranha para quem quer entrar no mercado de trabalho depois de muito tempo. Resolvi tentar o setor das aulas particulares, mas também é um cenário difícil. Depois de 4 anos fora de órbita, vivendo apenas com as bolsas de iniciação científica, não há mais como sobreviver desta maneira. Depois da última bolsa, em que o Professor chamou a mim e outros colegas de vagabundos que não queria trabalhar, decidi que é melhor ir para outro ramo.
Estou viciada nos documentários do Investigação Discovery. Os programas que mais assisto são A Sangue Frio e Casos Arquivados. É uma sensação de alívio saber que os assassinos foram punidos com o rigor da lei no final de cada episódio - algo que não teria espaço aqui no Brasil - o país mais escrachado, nesse aspecto, de todos.
Estou quase acabando (de verdade!) Moby Dick Volume I, faltam apenas 24 páginas. E como já relatei em outras postagens, isso tornou-se uma saga de quase 3 anos. E o Volume II promete seguir a mesma rota.
São dias calmos, bem tranquilos, eu diria. Quando você toma conhecimento da sua quebra financeira e encara isso de frente, não há mais ansiedade e compulsividade, ou mesmo ira. É um fato consumado e ponto final. Claro, todos pensam em sucesso e dinheiro para mostrar o poder adquirido alguma vez na vida ou em toda ela - não passando de uma ilusão neon; a nobreza encontra-se na simplicidade. A palavra mais adequada para nossas ambições seria estabilidade, porém, para a maioria, esta não tem validade se não for uma vaca gorda que jorre leite espumante em bicas. Talvez percamos muito tempo em uma busca desenfreada pelo ter para satisfazer apenas caprichos, deixando essa passagem incompleta e levando lacunas para a próxima. Só que não estou dizendo que quero viver dependente dos outros, como estes filhos que acomodam-se. Longe de mim! A procura diária do saber quem eu sou levou-me por caminhos mais místicos. Percebo que a vida é mais promissora para aqueles que tentam desprender-se das imposições da sociedade, um monstro faminto e impiedoso - prepara o indivíduo para ser devorado, fazendo-o acreditar que o que a nutre também o nutrirá, quando na verdade, a criatura não passa da próxima refeição.
Tenho mais passatempos agora - traduzo legendas do Inglês para o Português de minisséries, séries e peças de teatro inglesas ou de outras línguas que são raríssimas de encontrar no Brasil. Eu já traduzi e aprontei uma legenda para o filme dinamarquês O Jovem Andersen (que fiz a crítica aqui), agora trabalho com duas obras - todas com o ator que amo, Sir Derek Jacobi (que eu falei aqui) - Little Dorrit, de Charles Dickens, de 1988, e a peça Hamlet, de Shakespeare, de 1980 - ambas da BBC. Tais legendas são extremamente dificultosas. Quando você trabalha como legender, percebe a diferença entre um bom trabalho e um péssimo. Little Dorrit tem 6 horas de duração, divida em duas partes, e Hamlet tem 3 horas, sendo assim, a pressa não tem vez. Nesses casos, traduzir bem também significa conhecer as obras e um pouco do universo do autores. E boas legendas podem demorar até dois meses para ficarem prontas. No caso de Hamlet, com uma linguagem altamente rebuscada em inglês, tenho que usar livros, duas traduções em Português (Brasil e Portugal), e a peça no original, em Inglês, para saber o que foi utilizado e o que foi cortado para em seguida passar para as legendas. É como um grande quebra-cabeça que monta-se dia após dia.
Tenho dois temas para escrever nos próximos dias - A série Stranger Things, que já havia prometido, e o Nobel do Bob Dylan. Talvez o tema Dylan saia primeiro, pois foi um burburinho sem sentido para algo que eu considero fantástico e totalmente justo - eu sempre quis falar sobre os trovadores e eis uma bela oportunidade.
Lembre-se: "Se não há vento para seu barco, reme!". E dito isso, desejo-te, leitor (a), uma ótima e agradável noite.
Vicious é a minha companhia da noite ou daqueles momentos mais melancólicos que eu preciso rir despretensiosamente. E por quê? Por que ela é hilária e possui o enredo e as tiradas das comédias que eu aprecio. Se eu for contar quantas vezes vi todos os episódios das duas temporadas dessa sitcom inglesa, muitos números farão parte desse índice.
Há séries que ficam guardadas na memória e outras que vão além disso: ficam guardadas para serem assistidas a qualquer momento. Vicious é uma delas. Depois de The Mentalist e Fringe, não pensei que iria achar uma série para fazer parte desta família sentimental assim tão facilmente. Só que foi amor no primeiro episódio.
Vicious é puro talento. Não por menos, afinal, o casal principal da série britânica é composto por dois monstros sagrados da interpretação: Sir Ian Mckellen e Sir Derek Jacobi. E não é nenhum exagero: eles são tesouros nacionais, como dizem os britânicos.
O enredo da série gira em torno do casal Freddie Thornhill e Stuart Bixby. Há 50 anos juntos, eles vivem uma verdadeira relação de amor e ódio, dessas que a gente conhece das histórias de todos os dias.
Freddie é um ator com um excesso de confiança extremo. Ele trabalha, geralmente, em papéis pequenos. Já Stuart é um ex-gerente de um bar, dedicado a casa e até bem mais paciente que seu companheiro. Os dois vivem a trocar farpas, numa espécie de jogo. Mas no fim, um não pode viver sem o outro.
Lógico, como pede a estrutura e enredo de uma sitcom, há também os amigos e parentes que entram nos conflitos e cotidiano do casal:
Violet Crosby (Frances de la Tour), uma amiga muito próxima do casal. Vi (como muitas vezes é chamada por Freddie e Stuart), vive saindo e entrando em relacionamentos bizarros, metendo-se em situações extravagantes. Muitas vezes comporta-se como uma ninfomaníaca e tem uma queda pelo vizinho dos amigos, Ash.
Elenco da série Vicious
Ash Weston (Iwan Rheon), é o vizinho jovem e atraente do casal. Ele tem uma complicada situação familiar, com pais criminosos que estão presos. Mas isso não abala tanto a sua confiança. Vez ou outra ele aparece com um emprego estranho e novas namoradas. Contudo isso não impede as investidas de Violet.
Penelope (Marcia Warren), uma velha amiga de Freddie e Stuart que está sempre muito confusa sobre as coisas mais simples. Já teve um brevíssimo relacionamento de duas noites com Stuart na juventude. Para Freddie, ela não passa de uma louca.
Mason Thornhill (Philip Voss), é o irmão genioso de Freddie. Está sempre a queixar-se das mesquinharias do casal (pura falta de dinheiro mesmo!). Sempre aparece na casa acompanhado por Penelope, quando essa não esquece dele...
Mildred Bixby (Hazel Douglas), a mãe de Stuart. Todos os dias ele liga para saber como ela está, porém isso nem sempre é feito de bom grado. Ela acredita que um dia o filho se casará e terá um filho e que Freddie é apenas o colega de apartamento do Stuart. Segundo Freddie, nem mesmo Jesus quer passar um tempo com a Sra. Mildred.
Balthazar, o cãozinho quase múmia da casa. Às vezes é necessário borrifar água para que ele reaja a algum acontecimento.
Vicious é da ITV, foi criada por Mark Ravenhill e Gary Janetti, escrita por Gary Janetti e dirigida por Ed Bye.
Ela esteve no ar de 2013 a 2016, com duas temporadas e dois especiais.
Primeira temporada
Sir Ian Mckellen e Sir Derek Jacobi Freddie e Stuart
1 Wake - 29 de abril de 2013
2 Cheat - 06 de maio de 2013
3 Audition - 13 de maio de 2013
4 Clubbing - 20 de maio de 2013
5 Dinner Party - 03 de junho de 2013
6 Anniversary - 10 de junho de 2013
7 Christmas Special - 27 de dezembro de 2013
Segunda temporada
1 Sister - 01 de junho de 2015
2 Gym - 08 de junho de 2015
3 Ballroom - 15 de junho de 2015
4 Stag Do - 22 de junho de 2015
5 Flatmates - 29 de junho de 2015
6 Wedding - 06 de julho de 2015
7 Special - 19 de junho de 2016
Vicious é nostalgicamente engraçada e divertida. Não é difícil apaixonar-se por ela. Basta uma olhada e os sorrisos e gargalhadas começam a aparecer.
Recomendadíssima!
A habitual troca de farpas entre Freddie e Stuart (Sem legendas, áudio em inglês)
Erros de gravação (Sem legendas, áudio em inglês)
Agora vamos falar sobre Sir Ian Mckellen e Sir Derek Jacobi...
Ian e Derek nos tempos de Cambridge
Bem, Sir Ian Murray Mckellen (nascido em 25 de maio de 1939, Burnley, Lancashire, Inglaterra, 77 anos) é conhecido pelos personagens Gandalf e Magneto. Mas isso é apenas para quem limita-se a explorar essa ínfima parte de sua história como ator.
O Jovem Mckellen
Ele já foi indicado ao Oscar pelos filmes Deuses e Monstros (Gods and Monsters) de 1998 e Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring) de 2001. Já ganhou um Globo de Ouro, 4 BAFTAS e teve 5 indicações ao Emmy Award. Entretanto essa não é nem de longe a parte grandiosa pela qual ele é considerado um tesouro nacional.
Sir Ian Mckellen
Ian Mckellen é um monstro sagrado dos palcos. Já ganhou 6 Laurence Olivier Awards e 1 Tony Award. Sua especialidade é Shakespeare.
Ele é abertamente homossexual. Conhece Sir Derek Jacobi há tempos. Ambos estudaram em Cambridge, onde Ian ganhou uma bolsa para o curso de Inglês e Literatura. Os dois conheceram-se em 1958 e, na época, Mckellen admite que tinha uma queda pelo amigo, mas não era correspondido.
Uma entrevista de Mckellen, em 1984, por Brian Linehan
(legendas somente em inglês, áudio em inglês)
E a minha parte favorita...
Jacobi é o meu querido. Sim, isso mesmo. E vou explicar o porquê.
Derek em Hamlet, 1980
Sir Derek George Jacobi (nascido em 22 de outubro de 1938, Leytonstone, Londres, Inglaterra, 77 anos) é uma lenda dos palcos. Seu papel mais aclamado na televisão é a estupenda série Eu, Claudius (I, Claudius, adaptada pela BBC, em 1976, da série de livros do escritor inglês Robert Graves), onde fez o papel título e por ele recebeu o BAFTA. Tem outros sucessos na televisão, como Cadfael (1994-1998), Last Tango in Halifax (2012-2014), Breaking the Code (1996; no teatro, em 1986, teve o mesmo papel, interpretando Alan Turing) e Little Dorrit (1988) - este com o também espetacular ator inglês Alec Guinness.
Só que sua consagração veio através do teatro, tornando-se referência em Shakespeare, tendo dois Laurence Olivier Awards, 1 Tony Award e 1 Primetime Emmy Award.
Formou-se em História no St. John's College/Cambridge.
Jacobi é, também, abertamente homossexual.
Derek como Claudius em Eu, Claudius, 1976
Minha paixão por Derek Jacobi é enorme; claro, começou por causa de Vicious. Ele é extremamente charmoso e quando mais novo, era muito bonito. Hoje é um senhor bem apessoado, de cabelos brancos, cor-de-rosa e muito elegante.
Seu jeito de falar e expressar-se hipnotiza, como na expressão "sair algodão de sua boca". Sua voz pode ser tanto eloquente, que poderia, facilmente, reger trovões, como ser suave e meiga, como um leve toque aveludado, que faz o coração derreter-se.
E eu fiquei tão ávida por ele, que comecei uma maratona dos seus trabalhos, partindo de Eu, Claudius, para, somente agora, terminar Little Dorrit. E tem muito ainda pela frente...
Sempre estou a procurar novas e antigas atividades de Jacobi. Por exemplo, em uma entrevista (material bônus do Box de Eu, Claudius), ele fala sobre os papéis mais importantes para ele. O curioso é que apenas um pertence a televisão, que é justamente a adaptação dos livros Robert Graves. O restante é todo de teatro - ele é um homem dos palcos e vive para isso.
Sir Derek Jacobi
Só que mesmo os grandes nomes e lendas da atuação não estão a salvo dos problemas que podem abalar suas carreiras. Depois de uma turnê mundial de Hamlet, em 1980, o ator sucumbiu ao que chamou de verme da dúvida e começou a ter medo dos palcos e foi assim por dois anos. Como ele mesmo disse em uma entrevista ao Jornal The Guardian, em 25 de julho de 2016:
"Eu estava cansado e não estava mais apreciando aquilo por um tempo. Houve um verme da dúvida na minha cabeça. Eu simplesmente não podia mais fazer aquilo. E eu não entrei nos palcos por dois anos."
Quando ele estava em Munique, no fim desse período de dois anos, recebeu um convite para interpretar Benedick na peça shakespeariana Muito Barulho Por Nada. Ele aceitou e foi através dela que veio a salvação para perder o medo de entrar novamente nos palcos.
Bom, sorte a nossa que esse momento difícil foi superado. E, dessa maneira, podemos ver suas maravilhosas interpretações com a maestria que somente ele possui.
E vida longa a estes dois gênios!
Derek Jacobi em fragmento de Hamlet, Príncipe da Dinamarca, BBC, 1980 Ser ou Não Ser - Ato 3, cena 1
(Sem legendas, áudio em inglês)
Uma copilação de cenas com Derek Jacobi no filme Henrique V, de 1989, onde ele é o narrador. Sua interpretação é memorável nesta película!
(Sem legendas, áudio em inglês)
Entrevista com Derek Jacobi (material bônus do Box de Eu, Claudius), em 2010.
(Com legendas em Inglês e Português, tradução por T. S. Frank, áudio em inglês)