Galego e Português encontram-se como parentes separados por um oceano. E conversam, às vezes, sobre as suas nobres origens do Latim. E não muito distante disso, Ariano Suassuna disse, certa vez, ao grandeCarlos Núñez, músico galego, que gostava muito do som de sua língua. E numa prosa muito frutífera, puseram-se os dois frente à frente, entre toques de gaita, num entendimento perfeito. Eis aí um pouco do meu amor por esse idioma, que inspirou também Garcia Lorca, em Seis Poemas Galegos, de 1935.
Não vou me por a fazer um tratado sobre a língua galega a uma hora dessas da madruga. Aqui só quero expressar um pouco desse sentimento saudosista, de cheiros, gostos e do por vir. Esse último tão promissor e amedrontador por ser, também e agora, um não acontecer.
Para lá, depois do imenso mar, tem-se o Caminho de Santiago, místico e destino. E para cá, no sertão, também assim se chama; herança dos tempos coloniais de ganhos, perdas e transformação.
E a cada nome que eu descubro e que leio nessa língua, vejo a vastidão das possibilidades imaginárias. Assim é um mirar belo, de Mirabella, da canção que traz o conto melódico do amor e do temor do descaminho. É ela um ser do maravilhoso, numa narrativa dentro do mirabillis, que, no final, é o próprio Latim.
Um ótimo nome que guardarei, bem como as jornadas galegas de Ariano e Carlos e a voz sussurrante e calma de Rosa Cédron.
A São Luís de hoje não me promete mais nada. Porém a de tempos imemoriais é tudo: estranhamente inquietante, fantasmagórica, doente, pueril, bucólica, campestre e em ruínas; longe do meu eu físico e perto dos meus sonhos. Oferece-me histórias e deixa que eu crie rostos e corpos, que trace suas moradias e suas vidas. Ela não pode ferir-me como a cidade de agora, em que cada face é um inimigo, uma intriga, um olhar de desdém. Deixo-me envenenar por suas promessas não cumpridas.
Vislumbro um enorme vazio, cinza e bolorento, uma sordidez sem precedentes. Tenho um sentimento de apatia, de desesperança e de escárnio travestido em roupas chamativas, discursos vazios e pautas esquecíveis de todas as cores.
A minha infelicidade aqui é a pura fome: de pessoas, de ânimo, de sentimento. Bebo o insípido cotidiano urbano. Olho o contraste entre os apartamentos luxuosos, dos homens e mulheres na pequenez da atrasada burguesia, e o Reviver, com seus humilhados e explorados, igualmente esquecidos e somente notados através das folhas de algum panfleto partidário, de alguma secretaria do estupor.
Preocupo-me com o respeito que eu não possuo e com a dignidade que me falta, e que vem somente com o barulho de muitas moedas. Eu sou um produto das oportunidades natimortas e roubadas. Fui violentada com palavras pelos filhos daqui: pelos homens-crianças de todas as classes: da elite fétida e improdutiva até aqueles que hoje reivindicam algum posto de alicerce cultural.
Sinto há muito tempo o vento frio do descontentamento. Tenho sede e fome de unicidade, que não cessa e só aumenta. E sabe o que mais eu tenho? Uma coleção de conversas tediosas, de seres fracos e deprimentes, que não me servem nem mesmo para um amor casual e despreocupado em uma madrugada de qualquer dia do calendário. São todos eles sujos. Incapazes de suprir o mínimo e merecedores de uma nota de assassinato a sangue frio, numa revista feita do cheiro pútrido da decadência intelectual e moral que ecoa no ar. São as falas pornográficas, devassas e com gosto de plástico que mais enojam-me.
Malditos sejam aqueles livros e filmes que me criaram! Deram-me o melhor para, no final, eu ter somente o mundo cão.
E se for para ser sempre assim... Que eu abrace de vez a solidão. Pelo menos ela é autêntica e sua promessa de prazer triste é confiável.
Houve um tempo em que desejei somente alcançar o meu mundo ideal. Posso dizer que muito da minha vida foi baseada em uma utopia de libertação, com sentimentos avassaladores, aventuras douradas nos confins do espaço, ou, melhor dizendo, de dentro de uma cúpula na qual todo o céu abriria-se perante meus ávidos olhos, num desvelar mortal, um nirvana.
Por isso fui um baú nebuloso, guardiã de sentimentos, ressentimentos, lágrimas, esperanças, um pouco de vingança (talvez até mais do que possa ser relatado), amores não correspondidos, desilusões e muitos pedaços de mim. Esperei justamente pelo triunfo, o final de uma grande saga, a vitória dos humilhados e do coração partido. E foi dessa maneira que não resolvi o que deveria, não revidei, escondi a coragem, sufoquei de amargura. Esperei por um navio, que até veio, branco, grandioso, feito apenas de promessas, e que, mais adiante, naufragou, sucumbiu às rochas além, representantes divinas da realidade esmagadora.
O meu erro foi o de uma jovem mulher que almejou o que não poderia ter. Não era para ser, não me pertencia. Busquei um salvador. Basta deles! Estão mortos como assim quis o destino.
Foi-se o tempo das paixões. E tenho saudades do frisson, do frio na barriga, das madrugadas vistas pelas frestas da janela de madeira. Dos olhos azuis, das nuvens do leste, do céu cortado pelo caminho lácteo, do Arquivo-X, Sky Trackers, Espaçonave Terra...
Mas eu não me queria. Aspirava ter outra carapaça. Sempre infeliz, com quantidades astronômicas de defeitos. Nada de paz e quietude.
Passou-se o tempo e fiz-me por retalhos. Recebi migalhas, muitas. Esperei por conversas minguadas, por telefonemas, por mensagens. Um encontro qualquer. Gostei de muitos, recebi o nada. Enganei outros, disse inverdades, enterrei o asco e desfiz-me desses humanos como quem apenas livra-se de uma pedra no sapato.
Fechei a porta.
Às vezes aparecem os inocentes, patéticos, que não valeriam nem mesmo uma noite qualquer.
Hoje olho-me com mais aceitação, ainda longe do ideal. Engordei e estou tentando desfazer-me da imagem de que pareço um pequeno mostro-bola; o que são 5 quilos a mais? As celulites são apenas celulites.
A História tem-me ocupado por demais. É um desafio prazeroso, cheio de espinhos, de conflitos e que sigo como um cão fiel.
Só posso ter eu mesma, disso agora eu sei. Estou treinando para bastar-me, como deve ser. E, ao final, quem sabe, poderei ganhar um universo cheinho de mim em diversas outras versões.
Há pouco tempo para escrever agora. Os cenários naturais são até favoráveis: nuvens cinzas ao leste, raios, trovões e tempestades da madrugada. Entretanto sobra-me trabalho quase franciscano, desalento e gotas alternadas de tédio.
Quando chega-se para lá dos trinta anos, todos os seres humanos ao redor, particularmente os bem mais jovens, tornam-se extremamente desinteressantes. É como olhar um cenário vazio falante que tende a tagarelice odiosa. Deus, é como morrer todos os dias sufocada pelo fútil e despretensioso!
Ao contrário do que possa parecer, meus olhos não envelheceram. Porém não mais conseguem enxergar a beleza de outrora nas pessoas, aquelas esfuziantes e que despertavam os sentimentos dourados de que a vida era um mistério divino, digno de ser vivido, com um gosto de maçã e coalhada.
Tudo foi-se, ao menos, o humanamente palpável ao redor.
A vida necessita de intensidade, mistério, histórias instigantes, poesia e céus estrelados de antemanhãs frias. Existem muitas formas de achá-los, entretanto tenho que contentar-me com o passado, do mais recente aos resquícios de outras vidas.
A saudade não é, até aqui, fruto de uma dor somente do que foi perdido. É muito mais do que eu mesma posso compreender.
Esta existência traça linhas cinzas, de pouco fulgor, longe das histórias magníficas que eu costurei em um tempo de inocência.
Continuo a esperar algum reverso maravilhoso, uma viagem, um novo lugar e novas pessoas para que eu possa exercitar novamente a minha mais saborosa atividade: a observação.
Vivo dias de dor, de calmaria e de nenhuma aventura.
Motiva-me o futuro, apesar de tudo. Talvez lá encontre o meu eu vagante, numa outra terra, ou mesmo numa nova roupagem. Eis a eterna roda da existência e o sentido de precisar ser quem eu sou.
Não posso ter tudo. De fato, nem ao menos possuir o mínimo. E assim passam os dias, cheios de compromissos, pouco dinheiro, desprestígio e uma convulsiva sensação de que o meu tempo foi-se.
E para onde? Talvez, e provavelmente, para um lugar inatingível.
Confesso que a falta do desejo dos outros corrói-me como ácido. E essa fonte de inspiração secou tão de repente que eu mal percebi. A solidão tornou-se um tanto quanto estranha, de um sabor suavemente amargo.
É uma época estressante. Faço muito para alcançar o que, tardiamente, decidi seguir. Muitas vezes parece que não passo de uma dessas caricaturas ingratas, acinzentadas, no meio de um ambiente em que as pessoas não estão sintonizadas comigo.
Quero arrancar minha pele, rasgar os meus músculos e queimar os meus ossos. Almejo recomeçar das cinzas, com uma nova aparência e identidade física. Assim, quem sabe, percebam a minha alma, minha essência, meu próprio eu que, arrisco, é digno de cafés, longos passeios, prazer e risos; histórias, camas, calor e tantas outras coisas essencialmente humanas.
Ontem esforcei-me demais, tive dor de cabeça e ânsias. Imagens de escárnio percorreram meus pesadelos. Através de uma janela vislumbrei a minha própria decadência, eu estava envelhecida em um limbo.
É uma dessas maldições de séculos com gosto de vermelho, tons de azul melancólico e o negro das profundezas.
Estaria eu morta para toda a humanidade?
Não. Estou morta para mim mesma. Eu só preciso reconhecer e aceitar.
Estou um pouco afastada das atividades da escrita. Pois sim, são tempos um pouco trabalhosos, de andanças e mais andanças. O curso de História começou e com ele apareceram as grandes responsabilidades.
Não posso dar-me o luxo de apenas estudar como meus outros bons e jovens colegas assim fazem. Preciso trabalhar, apesar de pagarem-me bem abaixo do que espera-se. Ganhei uma bolsa para uma iniciação a Docência. Um pouco de sorte, diria você. Considero-me uma mulher que tem dois empregos e ganha o salário ínfimo de um só.
O Brasil anda muito estranho. Com essas pessoas de valores antiquados, pregando os preceitos de uma família cristã de uma fornada da Idade Média. Assusta-me mais as mulheres que apoiam um candidato que as desfavorece em tudo. Contudo o comportamento dessas não me é tão distante. Tenho um exemplo claríssimo de uma parente bem próxima. Suas atitudes refletem sua pouca autoestima e sua própria falha em manter algo que desde o começo destinava-se ao fracasso retumbante, com direito a humilhações perpétuas advindas daquele que ela diz amar. Esses tal conceito familiar serve apenas para aqueles (e bem aquelas) que têm medo de suas próprias vidas, embaçam sua percepção e tentam possuir o que não podem ter. São fracos, dados a uma ambição desmedida, cobertos de dívidas e entre outros descalabros recorrentes nesses 'cidadãos de bem' cobertos pela lama espiritual.
E assim os dias vão passando...
E sinto aquela saudade que aperta o peito arduamente. São rostos que faltam-me. Por onde andam aquelas formas que ressoavam pelos fins de tarde de vento suave e acetinado? Tem-se em mim apenas essa época sombria, de uma gente que emana ódio, pouca sabedoria e muito menos o conhecimento acerca da própria razão de ser do mundo e dos seres que aqui vivem.
Na semana que passou vi e falei com alguém que lá atrás fez parte, mesmo que muito pouco, da minha vida. Deixo aqui registrado seu jeito brejeiro único, de sorriso avassalador e uma timidez bem proposta. Não poderei nunca queixar-me dos próprios erros que cometi por julgamentos insensatos, levados, em partes, por falsas amizades, líquidas e diabólicas. Quem sabe, um dia, perdoe a mim mesma por ter deixado escapar a admiração que aquele moço bonito sentia. Porém sei, perfeitamente, que nunca mais serei digna de tal afeição novamente.
[Escuto Nelson Gonçalves]... E a minha boemia de todos os dias faz-se. E bebo (somente café, devido a minha fraqueza de saúde) a todos aqueles que um dia gostei verdadeiramente.
Desejo ver-me novamente de forma bonita. Mas custa-me acreditar em uma beleza partida de alguma parte desse corpo e mente. Entretanto, mesmo que seja uma afronta, anseio novamente por um endeusamento ingênuo, ou mesmo aquelas paixões febris, das mulheres tolas dos folhetins.
Apagou-se meu Sol minúsculo. Poderia achar outro e faltam-me forças. E agora assisto à vida dos outros... E assim resgato as lembranças de alguém que um dia eu almejei ser.
Isso mesmo, resolvi voltar com as atividades da categoria AUDIOPOST.
Não é a primeira vez que eu gravo a minha voz aqui. Tem um material marcado como Audiopost (clique aqui) no blog. E são mais antigos. O último (de autoria própria) foi em abril de 2011. E não estranhe, fui escutar a minha voz nas gravações passadas e ela está bem diferente (será que foi o passar do tempo e a chegada dos 30 anos?). Entretanto, vida que segue!
Pois bem, essa gravação de hoje traz um pincelada, com opiniões minhas e informações, pelas músicas um pouco mais antigas (muito familiares para o pessoal da década de 80 e 90) e que sempre estão tocando na programação da madrugada. Aqui eu falo sobre: Bee Gees, Smokey Robinson & The Miracles, B.J. Thomas, Peter Cetera, Procul Harum, Tears for Fears, Bangles, Toto e Nazareth.
Ah, Belchior... Agora que tu encerraste esta existência e foi preparar-te para uma outra, que será muito mais satisfatória e cheia de respostas para teus anseios, não poderia eu fugir das lembranças de tua companhia de uns oito anos atrás, tocando repetidamente A Palo Seco e por Medo de Avião em minhas madrugadas incertas e também preenchidas por conclusões nada floreadas da vida. Sim, essa realidade e essas desventuras também assolam-me, por isso tuas músicas caem-me como uma luva.
Tu fizeste-me rever João Cabral de Melo Neto hoje e este livro de capa verde que olho aqui do lado. Foi quase certo que o teu a palo seco também veio do mesmo dele. E eu fiquei refletindo sobre essa expressão tão significativa, que para ambos, representava seus navios com o mastro, mas sem vela, ou mesmo o cante flamenco unicamente com a voz, sem qualquer acompanhamento musical.
De onde tua faca veio, em forma de canto torto, também veio Uma Faca Só Lamina de nosso amigo escritor e poeta nordestino de uma Vida Severina.
Sabe... Eu também tenho medo de avião... E um montão de roupas velhas coloridas. E não possuo dinheiro no banco, muito menos parentes importantes e eu vim do interior.
Tu estás nas tuas canções e nós nelas também.
Ecoa em minha mente, com chiados daquele teu vinil numa vitrola, minha vida que começava a ser construída para meu bem e para meu mal.
E o maior prêmio literário desse ano foi para um músico, ou melhor, um trovador - um artista cujas as raízes foram o berço da Literatura como a conhecemos hoje.
Para muitos pode parecer um absurdo, algo inusitado, ou um capricho da Academia Sueca. E essas opiniões são bem estranhas, principalmente se partem dos brasileiros. Nossa Literatura tem origem em uma das mais antigas formas de arte: o canto, este instrumento de narrativa que, de forma melodiosa, conta-nos as aventuras e desventuras da nossa existência e seus cenários.
Bob Dylan é o cancioneiro americano, o nome que leva a história americana através da música, cantando a sensação e os sentimentos de uma época. E isso tudo através do gênero que conhecemos como Folk Music, que podemos comparar muito bem com a nossa antiga MPB, indo de Zé Ramalho até o grande Boêmio Nelson Gonçalves.
Nascido Robert Allen Zimmerman (Duluth/EUA, 24 de maio de 1941), Dylan, neto de imigrantes judeus russos, escreveu seus primeiros poemas aos dez anos de idade e quando adolescente aprendeu a tocar piano e guitarra sozinho. Começou na música em grupos de rock, imitando Little Richard e Buddy Holly. Porém foi na Universidade de Minnesota, em 1959, que se voltou para a Folk Music, impressionado com a obra musical do lendário cantor Woody Guthrie.Em 2004, foi eleito pela revista Rolling Stone o 7º maior cantor de todos os tempos e, pela mesma revista, o 2º melhor artista da música de todos os tempos, ficando atrás somente dos Beatles. Uma de suas principais canções, Like a Rolling Stone, foi escolhida como a melhor de todos os tempos. Em 2012, foi condecorado com a Medalha Presidencial da Liberdade pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.
Bob Dylan Nobel Media/2016
Junta-se a este Nobel um Oscar e um Globo de Ouro (o primeiro em 2000 e o segundo em 2001, pela canção Things Have Changed, do filme Garotos Incríveis - Wonder Boys/2000), 13 Grammys (um deles Pelo Conjunto da Obra em 1991) e um Pulitzer Especial de 2008; 6 de suas músicas estão no Hall of Fame e 5 estão no Rock Roll of Fame, dois doutorados honorários em música e mais outros prêmios e induções.
Mas se você ainda está se perguntando como um músico pode ganhar um Nobel de Literatura, ou se concorda, porém ainda não sabe as razões mais profundas dessa láurea, então é melhor buscar uma xícara de café e preparar-se para descobrir, pois assim como a história do folclore e suas manifestações, essa postagem vai ser longa...
Vou basear este artigo nas justificativas que a Academia apresentou para dar o prêmio a Bob Dylan:
“por ter criado uma nova expressão poética dentro da grande tradição norte-americana da canção”. (Mensagem geral da Academia Sueca)
“Ele é o grande poeta, um grande poeta dentro da tradição da língua inglesa. Um autor original que carrega com ele a tradição e está há mais de cinquenta anos inovando e se renovando. [...] Se olharmos milhares de anos atrás, descobriremos Homero e Safo. Eles escreveram textos poéticos feitos para serem escutados e interpretados com instrumentos. O mesmo acontece com Bob Dylan. Pode e deve ser lido.” (Sara Danius, secretária permanente da Academia Sueca)
Então, senta que lá vem a história...
***
1. O que é a Folk Music e o que o Bob Dylan tem a ver com isso?
O jovem Bob Dylan
Folk, segundo uma das definições do Dicionário de Cambridge, é um adjetivo que expressa o tradicional ou o típico de um determinado grupo ou país, especialmente um onde as pessoas vivem principalmente na zona rural, e, geralmente, é transmitido de pais para filhos durante um longo período de tempo; exemplo, cultura popular. Ou seja, é o nosso bom e velho Folclore, que é expressado de todas as formas, Música, Literatura e Artes em geral.
[no Inglês, também chamamos um grupo de pessoas de folks, "o pessoal, o povo, etc... Como no final do desenho Pernalonga, da série Looney Tunes e Merrie Melodies, That's all folks! - Isso é tudo, pessoal!]
E uma das vertentes do Folk é a Folk Music, representada pelo Blues e suas ramificações, a Música Nativa Americana, Jazz e afins. Ela é tudo isso e Bob Dylan é um dos grandes nomes desse gênero, suas letras expressam a vida e um sentimento de um povo, através da poesia musicada, que nada mais é do que a própria música.
Veja um exemplo na música Mr. Tambourine Man:
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
Hei! Senhor Tocador de Pandeiro, toque uma canção para mim, I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Não estou dormindo, e não há lugar onde eu possa ir. Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
Hei! Senhor Tocador de Pandeiro, toque uma canção para mim, In the jingle jangle morning I'll come followin' you.
No treme-treme da manhã, eu procurarei você.
Esta canção de Dylan foi lançada em 1965 e regravada por inúmeros artistas. Ela tornou-se famosa, em particular, por seu imaginário surrealista, influenciada por artistas tão diversos quanto o poeta francês Arthur Rimbaud e o cineasta italiano Federico Fellini. As interpretações vão desde uma Ode ao LSD até o religioso. Uma letra que passa a sensação e os pensamentos dos anos 60 - o movimento hippie entrava em cena.
2. A Literatura também engloba a música? Foi por isso que Dylan ganhou o prêmio?
Comecemos pela definição de Literatura no Dicionário Aurélio:
sf. 1. Arte de compor trabalhos artísticos em prosa ou verso.
2. O conjunto de trabalhos literários dum país ou duma época.
Ou como o meu bom e velho Livro de Português do Ensino Médio fala:
"A arte da literatura existe há alguns milênios. Entretanto sua natureza e suas funções continuam objeto de discussão principalmente para os artistas, seus criadores, [...]. A literatura, como qualquer outra arte, é uma criação humana, por isso sua definição constitui uma tarefa tão difícil. [...] Literatura é a arte que utiliza a palavra como matéria-prima de suas criações." (Emília Amaral et al, Português Novas Palavras: literatura, gramática, redação, p. 17. São Paulo, 2000)
Só com essas podemos entender muito sobre a premiação literária deste ano. Mas iremos além - vamos revisar uma parte importante da Literatura, a chave para compreender definitivamente todo esse cenário - é hora de redescobrir os TROVADORES.
ADENDO: O Trovadorismo foi escolhido para melhor compreensão dos falantes da Língua Mãe. Pelas comparações com Homero e Safo, por parte da secretária da Academia, eu poderia também abordar as origens gregas; só que para fins mais práticos e objetivos, a delimitação ficou nesse gênero literário medieval português.
2.1 O Trovadorismo
Menestréis Cantigas de Afonso X de Castela
"Dizia la fremosinha:
ai, Deus, val!
Com'estou d'amor ferida!
ai, Deus, val!" (trecho de Cantiga, D. Afonso Sanches de Portugal, trovador do final do século XIII)
No trecho acima, temos uma característica importante do Trovadorismo: a simplicidade, nos moldes da tradição popular. Além, claro, de uma língua que parece irmã do nosso Português: o Galego-Português [só no século XV que surgiram o Português e o Galego como línguas distintas].
Os historiadores costumam limitar o Trovadorismo entre os anos de 1189 e 1385. Mas o importante é saber que ele corresponde à primeira fase da História Portuguesa - o período de formação de um reino independente.
Podemos dizer que Trovadorismo é o conjunto das manifestações literárias contemporâneas à primeira dinastia de Portugal - a Borgonha. Tendo algumas características históricas importantes, como o feudalismo e o teocentrismo.
Nessa época a poesia ainda não era escrita para ser lida por um leitor solitário. Ela era CANTADA (por isso o nome cantiga), geralmente acompanhada por um coro e instrumentos musicais. Não tínhamos leitores e sim ouvintes. Assim, a poesia trovadoresca é a produção poética, em Galego-Português, do final do século XII ao século XIV.
Página do Cancioneiro da Ajuda
2.1.1 O Cancioneiro
Só depois (final do século XIII) as cantigas foram copiadas e colecionadas em manuscritos (sobre um tipo de manuscrito dessa época, o iluminado, há um artigo no CQ&Sherlock aqui) chamados cancioneiros. Apenas três existem hoje e são:
1. Cancioneiro da Ajuda;
2. Cancioneiro da Vaticana; 3. Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa - Colocci-Brancuti.
2.1.2 Os autores
Os autores das cantigas são chamados trovadores. Eram pessoas cultas, quase sempre nobres, contando-se entre eles alguns reis.
2.1.3 Os intérpretes
As cantigas compostas pelos trovadores eram musicadas e interpretadas pelo jogral, pelo segrel e pelo menestrel, artistas agregados às cortes ou que perambulavam pelas cidades e feiras. Muitas vezes o jogral também compunha cantigas.
2.1.4 Os gêneros
As cantigas são classificadas em:
1. Gênero lírico
Cantigas de amigo - características: voz lírica feminina, expressão da vida campesina e urbana, realismo, simplicidade temática e formal, origem popular.
Cantigas de amor - características: voz lírica masculina, expressão da vida aristocrática, convenções do amor cortês (a idealização, a vassalagem amorosa, a coita "dor, sofrimento"), origem provençal.
2. Gênero satírico
Cantiga de escárnio - características: indiretas, uso da ironia e de equívocos.
Cantigas de maldizer - características: diretas, sem equívocos; intenção difamatória, palavrões e xingamentos.
***
Agora que você revisou o Trovadorismo, ficou mais fácil entender as razões da academia, não é mesmo?
Então vamos prosseguir...
Bob Dylan no Azkena Rock Festival, 2010
4. Dylan é primeiro músico a ganhar um Nobel de Literatura?
Não. Rabindranath Tagore (nascido em Calcutá/Índia, em 7 de maio de 1861 - falecido em Calcutá/Índia, em 7 de agosto de 1941, também chamado de Gurudev) ganhou o prêmio em 1913. Compôs mais de 2000 músicas e o hino nacional da Índia. Ele foi poeta, romancista, músico e dramaturgo. Ele participou do movimento nacionalista indiano e era amigo pessoal de Mahatma Gandhi.
A diferença, nesse caso, é que Dylan é o primeiro cantor-compositor a ser premiado sem ter uma obra, um livro lançado nos moldes formais.
5. E agora que eu entendi as razões, por que mesmo os burburinhos?
Porque as pessoas adoram uma polêmica pelos motivos errados e, no final, muitos não possuem conhecimento sobre o histórico da premiação, nem da História da Literatura e muito menos argumentos sólidos para embasar as suas críticas. Já sobre os escritores renomados, que ficaram odiosos com esse resultado, só posso entender o mesmo que escritor franco-congolês Alain Mabanckou:
"Os puristas e outros amargos rasgarão as roupas, denunciarão a degeneração do espírito de Nobel, mas me alegro de que se reconheça também a literatura na Palavra - no sentido poético do termo - em tempos em que muitos artistas pensam ser dispensados da exigência de fundo e forma em sua criação."
As justificativas, já mal cunhadas, esvaem-se de vez quando fala-se que Philip Roth merecia mais, ou mesmo Haruki Murakami ou o famoso poeta sírio Adonis. Eles merecem tanto quanto Dylan e fim de conversa. Esse fato de bradarem que a palavra escrita é Literatura e a palavra cantada não, nossa, é um descalabro de ideias sem precedentes.
Imagine só os brasileiros entrarem em desacordo com a entrega do prêmio a Dylan - seria como renegar a importância literária de Vinicius de Moraes e seus sonetos musicados, um verdadeiro trovador-menestrel das cantigas de amor, bem como Chico Buarque e seus versos dodecassílabos da canção Construção, ou ainda um dos mais belos poemas cantados - Chão de Estrelas - de Silvio Caldas. E os cordéis cantados e os repentes, seriam menos Literatura apenas pela musicalidade?
Não. Simplesmente não faz sentido.
A Literatura flui, volta ao básico e inova-se. Ela utiliza a PALAVRA, seja ela falada, cantada ou escrita. Ela é o testemunho de gerações, das graças e desgraças, das revoltas e justiças, do tempo memorial e imemorial.
O trovador apenas modernizou-se, saiu do medieval e atravessou eras, ele não só escreve, ele canta também. Suas composições continuam essencialmente falando do povo para o povo. E se Dylan hoje é Nobel, ratificando de vez sua história na Literatura e causando burburinho entre os conservadores mais xiitas e os desinformados de plantão, daqui um tempo ele estará nos nossos livros de estudos, sendo parte mais do que essencial para entendermos a nossa própria História.
ATUALIZAÇÃO 19/10/2016
O Bob Dylan anda rebelde e não falou ainda com a Academia e nem se pronunciou sobre o fato. Os membros acabaram por desistir e vão deixar as pedras rolarem até a cerimônia de entrega - se ele irá ou não, eis um mistério hamletiano.
Como sempre o capitalismo e os empresários não perdem tempo - resolveram lançar alguns livros do Dylan aqui no Brasil. Porém vale ressaltar que esses livros não tiveram peso algum no prêmio dado ao músico.
ATUALIZAÇÃO 03/11/2016
Finalmente nosso querido Bob Dylan se proncunciou sobre o Nobel. Ele pretende buscar seu prêmio pessoalmente em Estocolmo. Após duas semanas de silêncio, ele falou sobre ter ganhado o Nobel de Literatura, em entrevista ao jornal britânico The Telegraph. Um comunicado divulgado pela Academia Sueca foi publicado no dia 28 de outubro de 2018. Ao ser questionado se pretende ir à cerimônia de premiação, ele disse ao jornal - Absolutamente. Se for possível.
A Academia disse que o cantor ligou e que, na ocasião, falou - Se eu aceito o prêmio? É claro. A notícia sobre o Prêmio Nobel me deixou sem palavras. Eu agradeço muito por essa homenagem.
A Academia também pretende que Dylan cante na cerimônia.
ATUALIZAÇÃO 06/12/2016
Dylan anunciou que não irá a entrega do Prêmio Nobel de Literatura, em Estocolmo, dia 10 de dezembro de 2016, por causa de outros compromissos. Porém ele enviou um discurso para ser lido no evento. Patti Smith irá cantar A Hard Rain's A-Gonna Fall, uma das composições mais conhecidas dele.
O discurso de Dylan será lido por Horace Engdahl, da Academia Sueca, segundo a agência de notícias local TT.
ATUALIZAÇÃO 10/12/2016
Como foi dito anteriormente, Bob Dylan não foi à cerimônia de entrega do Nobel de Literatura. A honraria foi apresentada com uma performance da cantora Patti Smith e um discurso de Horace Engdahl.
Patti estava muito nervosa e cometeu alguns erros ao cantar a música A Hard Rain's A-Gonna Fall. Mas, ao final, foi muito aplaudida e compreendida pelo público presente.
***
Para encerrar, eu vou deixar a MÚSICA de Dylan que marcou a minha vida. Chama-se Don't Think Twice It's All Right, do álbum The Freewheelin' Bob Dylan, de 1963. Em 2003, o álbum foi incluído na lista da revista Rolling Stone como o nº 97 dos 500 Melhores Álbuns de Todos os Tempos. Ela é trilha sonora de um filme que amo e foi através dele que a escutei pela primeira vez. O filme chama-se Apostando No Amor (Dogfight/1991), com alguns dos meus atores favoritos, River Phoenix e a graciosa Lili Taylor (o CQ&Sherlock fez uma crítica do filme aqui).
Fontes:
Livros e dicionários
Português Novas Palavras: literatura, gramática, redação, Emília Amaral et al. São Paulo, FTD, 2000
Há alguns dias comprei uma nova NAF (Flauta Nativa Americana). Como já falei anteriormente para você, querido (a) leitor (a), eu tenho uma feita de bambu, pentatônica, ou seja, com cinco furos. Ela é mais típica dos povos andinos (frequentemente, pode-se ver o bambu empregado nas famosas e belíssimas Flautas de Pã.). Mas eu desejava também ter uma típica da América do Norte. E assim consegui realizar o meu desejo (o que me endividou até o final do ano.).
Eis my new PRECIOUS:
NAF - Diatônica - 6 furos - em madeira
Ela é também em F (assim como a de bambu). Quando a encomendei, pedi que fosse uma pentatônica. Mas o luthier convenceu-me que era melhor ter a diatônica, assim como as originais. Ele apenas colocou a faixa de couro no quarto furo para virar uma de 5 furos, assim como é feito nos Estados Unidos. Com o tempo, percebi que era melhor tirar a faixa e treinar com todos os furos. Assim saiu Annie's Song na minha flauta, cuja a gravação que eu fiz você escutará logo mais. Pois antes falarei dessa canção que eu amo que foi escrita e gravada por um músico que amo ainda mais, John Denver (que eu já falei AQUI e AQUI no blog há uns anos...).
Annie's Song
Álbum de 1974 - Back Home Again - Na foto, podemos ver John Denver e sua esposa Annie Martell Denver
Annie's Song (também conhecida como "Annie's Song (You Fill Up My Senses)") é uma canção de rock country escrita e gravada pelo cantor John Denver. Ela foi lançada como single do álbum de 1974 - Back To Home Again. E tornou-se um estrondoso e cativante sucesso. Ficou no topo dos charts de música daquele ano por meses e terminou na famosa lista cumulativa de dezembro da Bilboard Hot 100 de 1974 em#25. Ele a escreveu para sua primeira esposa, Annie Martell Denver, em 1973, em apenas 10 minutos e meio, num teleférico de uma estação de ski. Toda a beleza que viu na descida o inspiraram a escrever sobre a esposa.
John Denver Foto retirada do encarte do álbum A Song's Best Friend The Very Best Of John Denver
Milt Okun (produtor musical de Denver), no encarte do álbum A Song's Best Friend The Very Best of John Denver, de 2004, fala que:
John chegou um dia no estúdio e tocou esta canção, que chamava de Song For Annie. Eu lhe disse: - John, estes são os primeiros acordes do Segundo Movimento da Primeira Sinfonia de Tchaikovsky. Este mesmo trecho também havia sido usado, uns quarenta anos atrás, em uma canção pop chamada 'Moon Love'. John então se sentou ao piano por meia hora e modificou a música, que ficou sendo uma pequena parte Tchaikovsky e em sua maior parte Denver. John foi quem teve a ideia de fazer um refrão inteiro apenas murmurando. Naquele tempo todas as vozes tinham que ser gravadas, não havia os recursos de hoje, ao alcance de alguns botões. No fim, a parceria com Tchaikovsky acabou ficando ótima. E Annie's Song tocou vários corações ao redor do mundo.
Infelizmente, John Denver faleceu em 12 de outubro de 1997, em um acidente com seu avião experimental. Ele mesmo o pilotava no momento.
A Sinfonia No. 1 - Tchaikovsky
... Também conhecida por Sonhos Diurnos de Inverno - Pyotr Ilyich Tchaikovsky a escreveu em Sol Menor (G Minor), em 1866, logo após ter aceitado um cargo de professor no Conservatório de Moscou. E a mais antiga obra notável do compositor.
Estrutura:
1. Sonhos de uma Viagem de Inverno. Allegro tranquillo;
2. Terra da Desolação, Terra das Névoas. Adagio cantabile;
3. Scherzo. Allegro scherzando giocoso;
4. Finale. Andante lugubre - Allegro maestoso.
Minha gravação de Annie's Song
Flauta (em madeira) Nativa Americana, chave em F, diatônica
Tocada por T.S. Frank
Annie's Song Native American Flute (wood), Key F, diatonic, Performed by T.S. Frank
Performace de John Denver - Annie's Song
"Vocês sabem, é algo maravilhoso ser capaz de compartilhar-se com as pessoas. E eu encontro tanta alegria em escrever canções que o melhor que eu posso fazer sobre isso é cantar para vocês. E eu gostaria que soubessem que a melhor parte de comunicar e compartilhar-se é ser capaz de dividir o modo como se sente sobre a primeira pessoa em sua vida - esta bela mulher que eu sei que é a Annie, que apoiou-me e deu-me forças para fazer tudo o que eu queria em minha vida. Esta é sua canção..." (John Denver)
Sinfonia No. 1 - Tchaikovsky
... Por um dos meus regentes favoritos - Herbert von Karajan
Van Morrisoné uma lenda. Um dos melhores cantores do mundo e um dos meus preferidos. Por quê? A explicação está em sua discografia praticamente irretocável, em uma carreira com os melhores álbuns da história da música, como o maior de todos, diga-se de passagem, Moondance, de 1970, arrebatador em críticas em sua totalidade.
Sua maior qualidade está em retratar os amores, as paixões, aquela garota dos olhos marrons... usando cenários centralizados em sua Irlanda, como por exemplo, em Cyprus Avenue, que é uma rua de sua cidade natal, Belfast.
Sempre cercado com músicos competentes, essa é uma daquelas grandes apresentações, com versões excelentes de suas já memoráveis canções.
Este não é um shows que fãs colocam no youtube. É um projeto que vale muito a pena conhecer, chamado Music Vault, que oferece uma gama de espetáculos antológicos não só do Van The Man; muitos outros mitos da música estão nele. Abaixo da apresentação, estarão os links para conferir esse catálogo de jóias preciosas.
Aproveite! [Enjoy!]
01 • Moondance [0:00:00]
02 • Checkin' It Out [0:04:02]
03 • Moonshine Whiskey [0:07:19]
04 • Tupelo Honey [0:13:46]
05 • Wavelength [0:20:10]
06 • Saint Dominic's Preview [0:26:46]
07 • Don't Look Back [0:33:46]
08 • I've Been Working [0:38:24]
09 • Gloria [0:43:54]
10 • Cyprus Avenue [0:47:59]
... E lá para as montanhas, um dia, levarei minha alma, meu corpo e coração...
O desalento não poderia ser mais expressivo. Saudades de tantos acontecimentos nunca vividos, das músicas nunca tocadas, dos sorrisos que nunca floresceram.
Ninguém mais recita poemas e estes tornaram-se sinônimo de fraqueza. Os amores não são mais alimentados com palavras ricas, tecidas com fios de ouro. Padecem agora com onomatopeias ininteligíveis, beirando os rangidos de cães afoitos e raivosos.
A minha alma escuta em apenas uma frequência. E brilha em um espectro invisível aos outros.
Minhas histórias e peripécias pertencem a um mundo interior. E, externamente, ouço sons moribundos e entristecidos. É o estalar de ossos no frio, o frio da ignorância, do desamor, do instantâneo.
Cena do clipe High Hopes - Pink Floyd - 1994
Falta aquela animaçãozinha pelas conversas de boteco para discutir o brega bem escrito e cantado por Nelson Gonçalves. Mas que personagens entrariam nesse enredo? Pois bem, eis aqui as lacunas e os rabiscos da mente.
A vida de escritor não está nada fácil, nem dos renomados, nem dos independentes, muito menos daqueles de fim de semana.
"Não nos enxergam mais!"
Quase ninguém lê com o sabor da paixão na língua, com o sentimento do desbravamento,
da caça, do encontro e do deleite. Muitos são só números, quantidades, isto e aquilo...
Transportei-me para vales verdes encantadores. Voei para Grandes Esperanças, não as de Charles Dickens e sim as de Pink Floyd.
Sobrevivo das histórias que crio e das que escrevo (mesmo sem público), e das várias vidas que vivi e não me lembro.
Cena do clipe High Hopes - Pink Floyd - 1994
O mundo submergiu na lama da simplicidade deplorável.
E não há mais nada que possa ser feito neste século.
Um dia futuro, alguém, ou algo, olhará o céu e perguntará sobre a essência da humanidade. E sua resposta virá através de um livro manuscrito dourado e iluminado, das músicas que foram tocadas em notas de Bach, dos sorrisos que floresceram e dos amores alimentados pelas poesias - todos de uma época que, neste momento, é imemorial.
***
High Hopes - Pink Floyd - Division Bell - 1994
High Hopes - Pink Floyd - P.U.L.S.E. - 1995 (com tradução em português)
Sobre a canção do Pink Floyd - High Hopes Uma das músicas mais significativas na minha vida. Sua letra fala sobre um passado cheio de imagens, sons e pessoas. É a metáfora da saída para o desbravamento de um novo horizonte, incerto, mas cheio de esperança. É um saudosismo marcado em cada estrofe. A canção foi composta por David Gilmour (um dos mais geniais, para mim, guitarristas e uma das mais bonitas vozes do rock) e Polly Samson, sua esposa, para o álbum do Pink Floyd, Division Bell (sem Roger Waters) de 1994. É o penúltimo na discografia de estúdio do Pink Floyd.
O ano era 1994 - Copa do Mundo dos EUA - e fomos campeões.
Mas lembro-me, especialmente e muito mais, de uma das propagandas mais lindas que já vi em toda a minha vida - Sadia 50 Anos. Um trabalho formidável da agência de criação W/Brasil e direção de Julinho Xavier.
Por anos fiquei com a belíssima canção em minha mente e com todas as variadas cenas de amor e afeto que o ser humano pode demonstrar e receber.
Por morar em um quase vilarejo, só anos mais tarde descobri o nome da canção - Perhaps Love - e os cantores - John Denver e Plácido Domingo. E Denver tornou-se um dos meus favoritos
De todas as doces lembranças da infância, esta tem um significado profundo: o descobrimento de um mundo com uma qualidade musical vasta.
A Empresa Sadia
Sadia S. A. é o nome de uma empresa subsidiária de produção de alimentos frigoríficos do Brasil, fundada em 1944. Hoje, juntamente com a Perdigão S.A., faz parte do grupo Brasil Foods.
Foi Fundada por Attilio Fontana (1900-1989) em 7 de junho de 1944, a partir da aquisição de um frigorífico em dificuldades - a S. A. Indústria e Comércio Concórdia. Esta foi rebatizada por seu fundador, pouco tempo depois, como Sadia. O nome foi composto a partir das iniciais SA de Sociedade Anônima e DIA das três últimas letras da palavra Concórdia. Tornou-se marca registrada em 1947.
John Denver, Plácido Domingo e a música Perhaps Love
A parceria entre John Denver (1943-1997), cantor de country e folk americano, e Plácido Domingo (1941), tenor lírico-spinto espanhol, gerou a gravação da belíssima Perhaps Love em 1981. A música apareceu pela primeira vez no álbum de Plácido Domingos - Perhaps Love, no mesmo ano. Depois, em 1998, apareceu no álbum de John Denver - Rocky Mountain Christmas. A música foi escrita por Denver para a sua esposa Annie Martell no período em que eles estavam separados e entrando em processo de divórcio. A canção alcançou, em 1982, nos EUA, a posição #22 Adult Contemporary Chart e #59 na Billboard Hot 100.
Milt Okun (produtor musical de Denver), no encarte do álbum A Song's Best Friend The Very Best of John Denver, de 2004, fala que:
Perhaps Love mudou minha vida. Mudou a vida de John. Eu
sempre fui louco por ópera. Vinte anos atrás, eu cruzei com Plácido Domingo.
Comecei a seguir seus passos pelo mundo afora pensando que podia fazer um disco
clássico de muito sucesso com ele. Por cinco anos ele me evitou - pensou que eu
era um fã maluco, e de certa idade, de música clássica. Até que finalmente ele
concordou em gravar comigo. Houve um certo momento na carreira de John em que
seus discos não estavam vendendo tanto como antes. Eu o convenci a escrever uma
música de amor bem óbvia. John voltou para seu hotel e escreveu Perhaps Love - uma música linda, com uma letra simples, mas penetrante. Eu já estava gravando
Annie’s Song com Domingo. Mas naquela época, a gravadora pareceu não gostar
muito de Peharps Love. Então, eu a mostrei a Domingo, que disse: “É tão bonita,
com tantas imagens inesquecíveis. É claro que vou gravá-la.” Foi quando tive a
ideia de transformá-la num dueto [...].
E eu acabei gravando uma série de álbuns com o Domingo.
Curiosidades
É possível ver a atriz brasileira Mariana Ximenes, na época com 13 anos, na propaganda.
John Denver & Plácido Domingo - Perhaps Love (na íntegra)
"Lua, frio, calmaria... E lá estavam eles, jovens e sonhadores. O véu da noite envolvia-os suavemente. Foi há muito tempo. E ela simplesmente pediu uma dança. E aqueles olhos azuis cor do oceano longínquo disseram sim. Era a época do rádio e do romantismo infinito. [...] A música, então, tocou. Ele, anjo ou demônio? Não importava, pois aquele era o momento."
Minhas paixão por Oldies é algo intrínseco em minha alma. Uma marca da própria personalidade. Sinto saudade de um tempo que não me pertenceu. Foram muitas histórias costuradas e moldadas com a ajuda dos ouvidos grudados nas rádios dedicadas ao som mais doce e inocente que já existiu.
Sandy (Jonna Lee) e Phil (Lee Montgomery) dançando ao som de Devil or Angel. Filme A Hora do Terror (The Midnight Hour/EUA/1985)
A vida não anda tão amarga quanto antes. O sorriso não mascara mais lágrimas noturnas. O coração... Bem, esse continua a indagar sobre tudo o que aconteceu no passado. Ainda existem gotas cortantes, alguns fragmentos que refletem uma dor, infelizmente, ainda, substancial. O coração, partido e esmigalhado, custa a regenerar-se - é a jornada impiedosa imposta e necessária. Entretanto, sobrevivi. E já posso voltar a tecer mais contos fabulosos, embalados pelas canções românticas daqueles anos sessentistas.
... E veio, assim, não mais que de repente, o filme mais emblemático da minha jornada infanto juvenil - A Hora do Terror (The Midnight Hour/EUA/1985). Depois de muito tempo, em mil novecentos e noventa e bolinha, o Cinema em Casa(SBT) trouxe todas as belas Oldies, danças e o amor em sua mais notável inocência (quem se importava se era Halloween?!). E a trilha sonora instigou minha mente. Era o começo de um caso eternamente apaixonante.
Revi o filme, e lá estavam elas... Sea of Love, Devil or Angel, Baby, I'm Yours... Lembranças extraordinárias, equivalentes ao crepúsculo que via todos os dias da escada da minha casa. Era o meu próprio e imaculado tempo - cheio de esperança, de grandes sonhos, do amor, do oceano azul límpido que nunca esquecerei.
A jovem líder de torcida e o garoto nerd certinho - enredo perfeito para as deliciosas Oldies. Filme A Hora do Terror (Midnight Hour/EUA/1985)
Ao passo que crescia, não havia maneira de evitar os acontecimentos ruins e traumáticos. Todos diziam que é a famosa experiência de vida. E com ela chegou, também, a nuvem negra que tirou todo o brilho esfuziante de outrora. A paixão jovial esvaiu-se como latas de tintas derramadas e irrecuperáveis. E a máquina que alimenta os ventos selvagens da euforia pela vida de sonhos perdeu muita força. Lembrei, eu estou ficando velha...
E dessa constatação emergiu a importância das lembranças - as fagulhas do sacrifício de Prometeu. São essas chamas intensas, vívidas, pequeninas e eficientes que devolvem-me o sorriso por instantes.
Brindo e agarro-me a elas o quanto posso e celebro, inebriada, com um forte e aromático café revigorante.
Enquanto os pensamentos são apenas eles mesmos, ligo o meu rádio - é hora de reviver velhas histórias e voltar a desejar aquela dança...
Em meu mundo, tudo floresceu... Até mesmo os amores inalcançáveis.
***
Oldies do filme A Hora do Terror (Midnight Hour)
Quer saber mais de Oldies aqui no CQ&Sherlock? Então leia: