domingo, 20 de janeiro de 2019

O legado romano cotidiano - Legatum e Legatus - Um pouco de Etimologia, Latim e História

Hoje, um dia frio e cinzento, com um pouco de dor na coluna, café e pão com cerejas, estava eu a refletir sobre meu próprio legado. Pensei até mesmo nesse acumulados de escritos (que podem desaparecer a qualquer momento pela vontade de terceiros) e até mesmo em minhas futuras aulas e palestras de História. Não pensei em filhos, nem em amores ou família, pois não me deu vontade alguma. A minha utopia (apesar de meus mestres insistirem sempre no sentido coletivo dessa palavra) é um dia recuperar aquela alma que acreditava na figura das paixões. 

Dito isso, vamos ao LEGADO e todas as suas explicações.

De acordo com o Dicionário Michaelis, temos DOIS TIPOS DE LEGADO: 

Legado - Parte I

JURÍDICO: disposição, a título gracioso, por via da qual uma pessoa confia a outra, em testamento, determinado benefício de natureza patrimonial; doação causa mortis.

JURÍDICO: parte da herança deixada pelo testador a quem não seja herdeiro por disposição testamentária nem fideicomissário.

HISTÓRIA, MILITAR: na Roma Antiga, era o comandante de uma legião.

[adendo: apesar da etimologia latina apresentada pelo dicionário está correta, para esse tipo específico de militar romano antigo, a denominação em Latim é LEGATUS, ou melhor, LEGATUS LEGIONIS, ou seja, O LEGADO LEGIONÁRIO. BUNSON, Matthew, A Dictionary of the Roman Empire, 1995, p. 228]

FIGURATIVO: aquilo que se passa de uma geração a outra, que se transmite à posteridade.

ETIMOLOGIA: Latim: legatum.

Legado - Parte II

Que ou o que é encarregado de qualquer missão diplomática.

[adendo: aqui chamaremos pelo GENITIVO de legatus, LEGATI, e que pode ser dividido em duas classes: 1) Legati ou embaixadores enviados para Roma por nações estrangeiras; 2) Legati ou embaixadores enviados de Roma para as nações estrangeiras e para as províncias. Esse sentido é que é usado para a designação eclesiástica citada abaixo. MURRAY, John. A Dictionary of Greek and Roman Antiquities. 1875, pp. 677-679]

ECLESIÁSTICO: 1) Aquele que desempenha a função de embaixador extraordinário da Santa Sé. 2) Prelado, geralmente cardeal, encarregado dessa embaixada.

DIPLOMÁTICO: na Roma Antiga, funcionário do Senado que se encarregava da administração das províncias.

[adendo: aqui temos o LEGATUS AUGUSTI PRO PRAETORE, nome dado a um homem de confiança que assumia uma província de Roma, significando O LEGADO DO IMPERADOR COMO PRETOR. MURRAY, John. A Dictionary of Greek and Roman Antiquities. 1875, pp. 677-679 ]

ETIMOLOGIA: Latim: legatus.

Agora... O que podemos perceber de ligação entre legatum e legatus? 

Que ambos, etimologicamente, tem o mesmo radical da palavra latina LEGO. Ou seja, derivam da mesma.

Abaixo fiz um esquema com o significado de lego e suas relações:



Espero que o meu legado aqui tenha contribuído um pouquinho para o legado de vocês, queridos (as) leitores (as).

Ah, e não CONFUNDA o LEGO LATINO com o LEGO DE BRINCAR. Esse último deriva da abreviação de duas palavras dinamarquesas "leg godt", que significa "jogar bem".


Fontes:

Etimologia e Latim:

Gramática Latina - Napoleão Mendes de Almeida - 30ª Edição - Editora Saraiva, 2011.
Dicionário Escolar Latino-Português - Ernesto Faria - MEC.
Dicionário Português-Latim - F. Magalhães - LEP - 1959.

História:

A Dictionary of the Roman Empire - Matthew Bunson. Google Books. Em inglês.
Legatus, um artigo por Leonhard Schmitz. Parte do livro A Dictionary of Greek and Roman Antiquities de William Smith. Universidade de Chicago. Em inglês.

Curiosidade



sábado, 12 de janeiro de 2019

Kidding - uma obra de arte para a TV

Kidding é um magnífico e sublime retrato de que a vida perfeita e esfuziante deságua sempre no abismo cruel da realidade quando as câmeras são desligadas. As pessoas gentis vão sofrer, pois esse é o destino. E não deixe-se enganar: essa brincadeira infantil é para adultos!

Aproveitando que o Globo de Ouro foi por esses dias (e que as indicações ao Emmy desse ano ainda não saíram), trago um dos indicados da noite: Kidding (Showtime/EUA - melhor série de comédia ou musical e melhor ator de comédia ou musical).

Essa é a história de Jeff Piccirillo (Jim Carrey), mais conhecido como Mr. Pickles, um querido apresentador de televisão infantil, apreciado por crianças e pais. Ele tem um verdadeiro império multimilionário, porém enfrenta uma tragédia pessoal e uma vida familiar difícil. Eis que temos, então, um homem sensível em um mundo cão, que recusa-se a acreditar na ignorância, na falta de boas maneiras e na existência de pessoas ordinárias e aproveitadoras. Entretanto tudo tem um limite e ele é uma bomba-relógio que está só esperando a hora de explodir e mandar todos para o inferno. Só que essa pintura nua e crua da natureza humana levará um certo tempo para se concretizar.

E enquanto isso não acontece, somos levados por uma estrada sutil com destino a um colapso inevitável, com lampejos de esperanças seguidos por quedas vertiginosas. E é quando Jeff age como um completo bobo, aceitando de bom grado ser pisado pela vida e tirando sempre o melhor da lição, que os momentos mais reflexivos surgem. Às vezes tem-se uma vontade de dizer: "Ei, cara, acorde para a vida!". Contudo isso dura pouco, pois uma personalidade contida tem muito a mostrar quando atinge um certo nível de desgraça. 

O elenco é de extrema competência, como Frank Langella que faz o pai controlador e que gerencia todos os negócios, que só pensa na marca e na boa imagem que precisa manter de Mr. Pickles. É claro que o destaque fica com Jim Carrey. Seria difícil não falar o quão ótimo ator ele é, sendo um gênio na transição da comédia para o drama (e que só essa semana assisti uns cinco filmes dele). Em Kidding, Jim entrega uma das suas melhores atuações, deixando o pastelão de lado e indo mais fundo em um universo sombrio paradoxalmente colorido. 

[ADENDO: Jim Carrey sumiu por uns tempos e ficou quase um recluso. Tudo começou em 2015, quando sua ex-namorada Cathriona White cometeu suicídio e deixou uma carta com um conteúdo perturbador (os detalhes deixo para a pesquisa de cada um de vocês). Houve muita confusão, o marido da moça tentou processar Carrey, depois descobriu-se que algumas coisas que ela falou poderiam não ser verdade e o processo foi arquivado. Ele está com novos pensamentos e outra filosofia de vida, uns muito bons sobre o lado espiritual e outros muito nocivos (como a velha história de que as vacinas fazem mal). Ele agora faz tirinhas contra o Trump (o que é ótimo) e você pode ver o excelente trabalho dele aqui no twitter oficial. Sugiro que assista Jim & Andy, documentário da Netflix sobre as os bastidores proibidos das filmagens de O Mundo de Andy/1999. É incômodo e ao mesmo tempo revelador, principalmente pelo brilhantismo de Carrey e seu depoimento de como mudou após o filme.]

Voltando...

São dez episódios que passam rápido (com trinta minutos de duração). Será fácil maratonar a temporada completa, pois ela realmente induz a isso.

Um lembrete para você, querido (a) leitor (a): essa é uma série para ADULTOS. Tem sexo explícito e nudez. Dado o aviso, não deixe de assistir. É uma das melhores séries de 2018. 

Recomendadíssima!



terça-feira, 1 de janeiro de 2019

É mais um ano!

Cá estou eu, em mais um ano, neste espaço de escrita. E lá vão-se, agora e realmente, quase dez anos de pequenos relatos, esses que podem ser, muito bem, a minha Micro História, um conceito novo que aprendi no curso de História. E, falando nele, digo que das minhas realizações acadêmicas iniciais, é a que até agora foi a mais feliz e saborosa, com um gostinho de torta de maçã e cafezinho da tarde.

Esse caminho de estudos leva-me a concretizações ainda muito particulares, assim como a muitas brigas para impor o meu ego (sim, muito grandioso). Entretanto é a primeira vez que eu sei que esses embates tornam-me segura de mim mesma, pois (não culpe-me por minha arrogância) sei como posso ser capaz e melhor. E, de antemão, o que pode impedir-me de ser reconhecida é o favorecimento dado a outros não tão merecedores (o que já, infelizmente, mostrou-se tão cedo). 

Ah... Criei trabalhos incríveis: falei sobre os manuscritos iluminados, explorei o meu inglês, passei madrugadas com pesquisas extraordinárias, impus a minha voz, debati sobre a Fome da Batata, na Irlanda, falei sobre o Cinema e suas concepções históricas, aprendi que não podemos fazer dos filmes documentos isentos de ideologia, entretanto podemos utilizar os mesmos para entender a sociedade na qual eles foram concebidos. Mostrei para a sala o James Dean e sua Juventude Transviada e também o David Lynch. Aprendi um pouco de Libras e conheci pessoas mais novas, muitíssimo mais novas. Um dos poucos momentos de tristeza nesse curso e que causou um específico desconforto espinhoso deu-se quando um certo jovem da sala, em conversas informais comigo, foi muito enfático ao falar da minha solteirice e meus trinta e três anos (não posso queixar-me do meu formato, foi dado-me um rosto muito bom!). Foi como se ele dissesse: "Eu tenho vinte anos e você está perto da morte e longe do despertar dos amores..." ou algo do gênero. Inquietou-me pensar que se fosse um HOMEM nas minhas condições, ele seria celebrado como um verdadeiro Deus, cobiçado em forma, pensamento e idade. O machismo, infelizmente, não está longe de acabar, mesmo entre os botões frescos de cravo.

Ainda continuo a trabalhar com mapas mentais e também sou bolsista do PIBID (Programa de Iniciação a Docência), acompanhando uma escola da rede estadual.

O novo governo nacional é um grande pesadelo, uma verdadeira distopia. É como mergulhar no terror. Passarei a tarde assistindo a filmografia e a nova série do Jim Carrey, Kidding. Estou agora mergulhada no universo dele. Ele é um ator excepcional e sua trajetória de vida merece um estudo. 

Passou-se mais um ano em que amei ninguém. Senti saudade da intensidade e fervor daqueles de outrora preenchidos por esse sentimento, mesmo que, na grande maioria, fosse unilateral, platônico e um fruto caramelizados da minha mente. Isso sim foi muito estranho. Será que estou no oceano da desilusão? Uma naufraga esperando apenas a morte? Ou falta-me a paciência e a limpeza dos rancores, a queima das recusas, o esquecimento das trocas e desprezo? São as reflexões que podem levar-me as respostas que preciso.

Por aqui, então, termino. E deixarei a primeira música que escutei nesse dia de muitos outros que foram enebriados pelas promessas e imaginação.