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quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Crítica da semana: O Jovem Andersen (Unge Andersen/2005)

Andersen construiu os mais lindos e delicados personagens infantis através do seu dom de contar histórias. As asas da sua imaginação levaram-no ao céu da imortalidade, bem longe e muito longe do sofrimento, descrédito e miséria em que estava mergulhado em sua tenra idade. Sua juventude, ricamente detalhada, mostra sua fragilidade e inocência, ao mesmo tempo em que uma incrível força de vontade e teimosia nunca cessam - eis o mérito principal deste incrível filme!

Não é de hoje que comento minha paixão por dois escritores: Oscar Wilde e Hans Christian Andersen. Histórias de Fadas (1888) (crítica no CQ&Sherlock aqui), de Wilde, é recomendação primordial na literatura infanto-juvenil, enquanto Andersen é referência mundial neste gênero.

É quase certo que todos conhecem a adaptação de A Pequena Sereia, de autoria de Andersen (a história é tão importante para a Dinamarca que uma estátua de Ariel, em bronze, está localizada no porto principal da Copenhague), da Disney. Eu mesma gosto muito da animação. Porém ela não faz jus a história original. Contos de Fadas não foram feitos para serem felizes para sempre - eles são para educar e emocionar. E o filme para TV (que originalmente foi divido em duas partes, como uma minissérie) O Jovem Andersen (Unge Andersen/Dinamarca/2005) mostra exatamente onde floresceu a primorosa escrita do grande contador de histórias dinamarquês - na pobreza extrema e preconceito - traços marcantes em seus contos.

Com direção de Rumle Hammerich, o filme retrata a juventude de Andersen (nascido Hans Christian Andersen, Odense, 2 de abril de 1805 e falecido em 4 de agosto de 1875 em Copenhague) e sua luta para ter uma chance como escritor de peças de teatro. Rejeitado por todos por sua aparência paupérrima, origem humilde e jeito infantil, sua única salvação foi sua própria insistência (ao ponto de tornar-se chacota nos círculos de escritores). Só conseguiu algo substancial por intermédio de Jonas Collin e da boa vontade do Rei da Dinamarca, Frederico VI, que viu um possível potencial nele. E nesse ponto começa toda a jornada de sofrimento do jovem Andersen (com apenas 17 anos), ingressando no prestigiado Colégio Interno de Meisling, fora de Copenhague. A princípio, foi privado de escrever suas poesias e educado para ser apenas um auxiliar de escritório, para depois, gradualmente, quase mergulhar na loucura nas mãos do implacável diretor Meisling. A sua amizade com o empregado do diretor da escola, o garoto Tuck, é um dos principais focos da narrativa - cumplicidade, tristeza, injustiça e impotência permeiam esse laço. Em uma das cenas mais bonitas, onde a história entra no ápice, surge a narrativa que tornou Andersen o pai dos Contos de Fadas - A Pequena Sereia:

"Far out in the ocean the water is as blue as the petals of the loveliest cornflower, and as clear as the purest glass. But it is very deep too. It goes down deeper than any anchor rope will go, and many, many steeples would have to be stacked one on top of another to reach from the bottom to the surface of the sea. It is down there that the sea folk live..."

"Bem no fundo do mar, a água é azul como as pétalas das mais bonitas centáureas e pura como o cristal mais transparente. Mas é tão profundo, mais tão profundo do que qualquer âncora pode alcançar. Seria preciso empilhar uma quantidade de torres de igreja, umas sobre as outras, a fim de verificar a distância que vai do fundo à superfície. Lá é a morada do povo do mar..."


Com uma fotografia muito boa e um roteiro eficiente, O Jovem Andersen envolve-nos como um abraço e nos angustia como nossas próprias dores. Não foi por menos que ganhou, em 2005, o Emmy de Melhor filme para TV ou minissérie e o Robert Festival de Melhor Figurino e Melhor Maquiagem. Em 2006 ganhou o Shanghai International Film Festival na categoria de Melhor Direção e Melhor Figurino.

Trata-se de um filme altamente recomendado e digo eu: necessário, assim como as histórias de Hans Christian Andersen. Não importa a idade, no filme e contos, chorar não é um desafio, é o caminho natural da beleza que toca o nosso coração. E essa é a essência inexorável dos Contos de Fadas.


sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Livro da Semana - Histórias de Fadas (Textos Escolhidos) - Oscar Wilde

O livro que tenho é da: Editora Nova Fronteira
Volume 2 - Clássico da Literatura Universal
Ano: 2001
ISBN: 85-209-1225-7
Número de páginas: 48
Autor: Oscar Wilde (trad. Barbara Heliodora)
Programa: Literatura em Minha Casa/Ministério da Educação/FNDE/Biblioteca da Escola
Preço-faixa: Distribuição gratuita

Este é um daqueles livros pequenos, porém gigantesco em histórias sensíveis, tecidas cuidadosamente com a riqueza do bom gosto. Seu autor, o dândis Oscar Wilde, não é tão lembrado por esta obra (muitas vezes negligenciada ao extremo). Seu Dorian Gray permanentemente vaga intrínseco pela sua história e nome.

Histórias de Fadas (The Happy Prince and Other Tales/Maio de 1888) é capaz de exercer nos adultos e crianças a força da "moral da história" que fez das Fábulas de Esopo e La Fontaine referências nesse campo - alertar sobre os perigos e percalços da vida. É bom enfatizar que esses ensinamentos, também, são marcas registradas nos contos dos irmãos Grimm (Jacob e Wilhelm) e nas preciosas histórias de Hans Christian Andersen.

As dores do amor e os sentimentos mais profundos (nem sempre com finais felizes) fazem-se presentes em alto grau na obra. Wilde usa a arte do sacrifício como ferramenta de descrição e apresenta narrativas cheias do elemento da ingratidão e não reconhecimento (a vida como ela é!). E de todas as passagens, a que mais dói, sem sombra de dúvida, é O Rouxinol e a Rosa.

O interessante é que Wilde não escreveu os contos com o intuito primário de ganhar o público infantil. As temáticas abordam conteúdos típicos da vida adulta, como os problemas de ordem moral, as tragédias modernas, o egoísmo, a insensibilidade, os vícios e as virtudes. Tudo isso com uma estética que prima, principalmente, pela suavidade e o aprumo.

Genial, crítico e amargo, ao mesmo tempo, educador e um baú de esperanças. Sim, um livro altamente recomendável.

Este mundo de agora, tão fútil, enjoadamente colorido, cheio de instantaneidade, não precisa ser apresentado nu e crú para a geração a ele pertencente. Para desfazê-lo, os pais precisam ensinar aos pequenos os valores de cada momento da vida: as dificuldades, o trabalho, a bondade, a vivacidade. Necessitam mostrar que cair e levantar fazem parte do processo de crescimento. E as histórias seculares infantis são um grande aliado nessa caminhada.

A leitura precisa sim ser requintada, fina e poética. E, além do talento dinamarquês e a irmandade alemã, Oscar Wilde brinda-nos com o que sabe fazer de melhor.

Se nós, os adultos, enxergamos isso, nossas crianças, como antigamente, aprenderão com os melhores e mais sábios mestres.

Contos

1- O Príncipe Feliz (The Happy Prince)
2 - O Gigante Egoísta (The Selfish Giant)
3 - O Amigo Dedicado (The Devoted Friend)
4 - O Rouxinol e a Rosa (The Nightingale and the Rose)

Curiosidades

Histórias de Fadas não é a única do gênero no cânone de Oscar Wilde. Em 1891 publicou a coletânea Uma Casa de Romãs (A House of Pomegranate) que segue a mesma linha da primeira obra. Infelizmente não há tradução em português.


***

Tão lindo e triste... (a autora dá-se o direito de derramar uma lágrima pelo mais belo conto existente na literatura infanto-juvenil) - em inglês - O Rouxinol e a Rosa.




Fontes