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quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Fadó

Em gaélico irlandês fadó significa uma vez. É muito utilizado nos contos de fada da língua irlandesa. E isso lembrou-me de fatum, a palavra latina para destino e que nos dá a fatalidade do Português e o fatality do inglês, por exemplo. E não se pode esquecer, jamais, da fada, que também pertence ao mesmo grupo. Latim, Gaélico Irlandês, Português, Inglês... Todas trazem um radical comum para o imaginário milenar e ancestral dos seres humanos. Carregam, num conjunto de letras, os anseios e as loucuras que interligam povos de culturas diferentes, porém com o mesmo manancial de pensamentos sobre os caminhos misteriosos de nossas vidas. 

Bem... Após essa introdução, tenho que admitir que demorei por demais a escrever. São dias estranhos, parecidos com os filmes de Lynch. Ultimamente preocupo-me mais com os fatores financeiros. Preciso da minha independência o quanto antes. Entretanto estudar para esses fatigantes concursos públicos é uma tarefa enjoativa, emaranhada de pensamentos turvos. O vislumbre de uma futura vida de migalhas tira-me o pouco da paz e, talvez, cause-me essa dor de cabeça que pesa como uma bolota de chumbo. 

Por outro lado, minha vida acadêmica anda bem. Esse é o  futuro que almejo para mim: uma carreira dentro da universidade como historiadora, voltada para o lado intelectual. Porém o meu eu é muito vaidoso, padecendo quando há alguma crítica infundada dos professores. Poderia afogar-me no mar do meu próprio sangue fervilhante e colérico em decorrência desses episódios. Agora (precisamente amanhã) rumo para o terceiro ciclo. E assim faltarão apenas cinco para que eu possa começar minha vida profissional nesse ramo. É claro que ainda há o mestrado e o  doutorado e esses são os cumes da montanha que estou escalando.

Outro dia Júpiter estava alto no céu, ao lado de uma Lua Cheia plena no horizonte sudoeste. Às vezes lembro da Astronomia profissional que deixei em um passado muito doloroso. A última conversa que tive com um astrônomo, ainda no curso, foi péssima. Tratava-se de um homem muito ríspido e de poucos amigos em uma dessas palestras da Física. Usava uma camisa do Doctor Who e que, diante da minha pergunta sobre se ele gostava do Peter Capaldi no papel, comportou-se como um desses bobalhões que veste esse tipo de roupa para parecer um geek.

Semestre passado fui monitora de História Medieval. Foi um ótimo começo e será uma boa referência no meu currículo. Contudo com a enfermidade que acometeu o Professor nas últimas aulas, não sei se poderei ter o meu certificado.

Minhas dores continuam, é a minha cronicidade. Estou na entendiante fisioterapia, com umas moças incompetentes. Queria uma varinha mágica só para pedir que meu corpo fosse refeito. Sou um amontoado de genes mal costurados.

Sinto saudades dos cafés aromáticos do final da tarde e de pessoas que façam-me rir de uma maneira que eu sinta o cheiro do crepúsculo. Sinto falta das nuvens leste que prenunciam as chuvas, carregadas com uma brisa suave de tempestade, raios e trovões, abraçando tudo em volta e compondo um quadro de tons belamente cinzas.

Preciso de conversas inteligentes, de um ser humano para adoração para que assim eu possa devotar meus desejos. Meu templo está vazio e esfacelado.

Quero uma aventura e excitação; escapadas noturnas, densidade de corpo e alma.

E aqui fica o registro que vai além de uma estória. É, de fato, uma prece.


terça-feira, 1 de janeiro de 2019

É mais um ano!

Cá estou eu, em mais um ano, neste espaço de escrita. E lá vão-se, agora e realmente, quase dez anos de pequenos relatos, esses que podem ser, muito bem, a minha Micro História, um conceito novo que aprendi no curso de História. E, falando nele, digo que das minhas realizações acadêmicas iniciais, é a que até agora foi a mais feliz e saborosa, com um gostinho de torta de maçã e cafezinho da tarde.

Esse caminho de estudos leva-me a concretizações ainda muito particulares, assim como a muitas brigas para impor o meu ego (sim, muito grandioso). Entretanto é a primeira vez que eu sei que esses embates tornam-me segura de mim mesma, pois (não culpe-me por minha arrogância) sei como posso ser capaz e melhor. E, de antemão, o que pode impedir-me de ser reconhecida é o favorecimento dado a outros não tão merecedores (o que já, infelizmente, mostrou-se tão cedo). 

Ah... Criei trabalhos incríveis: falei sobre os manuscritos iluminados, explorei o meu inglês, passei madrugadas com pesquisas extraordinárias, impus a minha voz, debati sobre a Fome da Batata, na Irlanda, falei sobre o Cinema e suas concepções históricas, aprendi que não podemos fazer dos filmes documentos isentos de ideologia, entretanto podemos utilizar os mesmos para entender a sociedade na qual eles foram concebidos. Mostrei para a sala o James Dean e sua Juventude Transviada e também o David Lynch. Aprendi um pouco de Libras e conheci pessoas mais novas, muitíssimo mais novas. Um dos poucos momentos de tristeza nesse curso e que causou um específico desconforto espinhoso deu-se quando um certo jovem da sala, em conversas informais comigo, foi muito enfático ao falar da minha solteirice e meus trinta e três anos (não posso queixar-me do meu formato, foi dado-me um rosto muito bom!). Foi como se ele dissesse: "Eu tenho vinte anos e você está perto da morte e longe do despertar dos amores..." ou algo do gênero. Inquietou-me pensar que se fosse um HOMEM nas minhas condições, ele seria celebrado como um verdadeiro Deus, cobiçado em forma, pensamento e idade. O machismo, infelizmente, não está longe de acabar, mesmo entre os botões frescos de cravo.

Ainda continuo a trabalhar com mapas mentais e também sou bolsista do PIBID (Programa de Iniciação a Docência), acompanhando uma escola da rede estadual.

O novo governo nacional é um grande pesadelo, uma verdadeira distopia. É como mergulhar no terror. Passarei a tarde assistindo a filmografia e a nova série do Jim Carrey, Kidding. Estou agora mergulhada no universo dele. Ele é um ator excepcional e sua trajetória de vida merece um estudo. 

Passou-se mais um ano em que amei ninguém. Senti saudade da intensidade e fervor daqueles de outrora preenchidos por esse sentimento, mesmo que, na grande maioria, fosse unilateral, platônico e um fruto caramelizados da minha mente. Isso sim foi muito estranho. Será que estou no oceano da desilusão? Uma naufraga esperando apenas a morte? Ou falta-me a paciência e a limpeza dos rancores, a queima das recusas, o esquecimento das trocas e desprezo? São as reflexões que podem levar-me as respostas que preciso.

Por aqui, então, termino. E deixarei a primeira música que escutei nesse dia de muitos outros que foram enebriados pelas promessas e imaginação.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

The Gael - Main Theme from The Last of Mohicans (O Último dos Moicanos/1992) - Flauta Nativa Americana - NAF

Capa da Trilha Sonora Regravada pela
Royal Scottish National Orchestra/2000
O tema principal do filme O Último dos Moicanos (The Last Of Mohicans/1992) contou com a música The Gael, do cantor e compositor escocês Dougie MacLean, do seu álbum de 1990, The Search.

Os compositores são Trevor Jones e Randy Edelman e os condutores são Daniel A. Carlin e Randy Edelman.

Curiosamente o tema incorpora a cultura gaélica (própria da região da Escócia) e, apesar das diferenças entre os povos, caiu bem para a trilha de um filme que aborda a cultura nativa americana.

Gael (Goidel) é um termo que designa os falantes de uma das línguas gaélicas e célticas: irlandês, escocês gaélico e manx.

Gael também pode ser um nome de uma pessoa (com a variante feminina Gaelle), onde é escrito Gaël (feminino Gaëlle). Sua etimologia é incerta, pois há possibilidade de relacionar-se ao etnônimo (gentílico) Gael (Goidel) e, alternativamente, também a uma variante do nome Gwenhael (de um santo bretão do século VI).

Vale lembrar que o filme é uma adaptação de O Último Dos Moicanos (The Last Of The Mohicans: A Narrative Of 1757), um romance histórico de James Fenimore Cooper que foi lançado em 1826. Baseia-se em acontecimentos relativos à Guerra Franco-Indígena (1754-1763), aos quais foram adicionados elementos ficcionais. É uma das obras mais representativas do romantismo estadunidense.


***


Esta é uma gravação minha em minha NAF. Espero que gostem!

O Gaélico - Tema Principal de O Último dos Moicanos
Flauta (em bambu) Nativa Americana, chave em F, pentatônica
Tocada por T.S. Frank

The Gael - Main Theme from The Last of Mohicans
Native American Bamboo Flute, Key F, pentatonic, 
Performed by T.S. Frank















Trilha Principal do Filme




Canção Original 



Trilha Sonora na Íntegra no Spotify




Fontes:



domingo, 29 de maio de 2016

Icarus

Ícaro e Dédalo de
Charles Paul Landon

Antigamente, muito antigamente, eu olhava o céu do meio-dia com suas nuvens em sombras douradas, mergulhadas em um branco de calmaria infinita... Passavam elas lentamente. E eu estava naquele piso, da casa do interior, com olhos brilhantes de esperança. Afinal, tudo iria mudar, pois ao crescer, todas as metas tornariam-se realidade. Esta é ainda uma lembrança vívida... Lembranças de momentos tolos sempre são os mais presentes.

O tempo foi passando e nada foi acontecendo. Não, ao menos, no meio material. Foram muitas mudanças para casas ruins, estudos enfadonhos, empregos degradantes. A família entrou em colapso e pessoas nefastas ao redor multiplicaram-se como os peixes de Jesus. Era uma pintura cinza e imunda aquele cenário. Um escárnio diário, uma agonia sem precedentes.

De vez em quando um brilho tênue, muito débil, pairava sobre minha vida. Daí eu dei-me conta que era só um reflexo da vida alheia. Afinal, nada daquilo pertencia a mim. Eram minhas projeções que criavam personagens - os mesmos dos livros que tanto amei (os responsáveis pela minha sobrevivência até o presente momento.).

A linha da minha vida é escarnecida e muito desfiada ao longo do percurso. Essa é uma definição mais do que clara até aqui. Eu errei muito. Minha pele parece que encolheu e agora espreme meus ossos.

Há um certo tempo eu tenho saudade daquele brilho tênue e muito débil. E isso é tristemente doloroso, pois sinaliza bem mais do que o fundo do poço da minha própria alma.

Apesar desse trajeto excruciante, eu ainda tenho muitos amores, os verdadeiros, os que não podem ser retirados de mim e que dependem somente da minha existência. Há uma incessante sede de voar, de ser livre, não ter mais corpo e espalhar-se mundo afora, ser o próprio aroma de todas as manhãs - bastar-se!

Mas nós, mulheres, temos uma tendência a ser um Ícaro.

Uma mulher tem o coração enorme. Suporta tantas injustiças e tantos desamores. É explorada, objetificada, traída inúmeras vezes... Os homens, em seu machismo e egoísmo, sempre tentam justificar seus erros aumentando os nossos. Raramente culpam a própria alma mimada.

O voo de Ícaro de Jacob Peter Gowy
Queremos ir mais alto e podemos. Mas cortaram nossas asas. E nossa inteligência criou um mecanismo de fuga, tecido com enorme zelo. E em nosso próprio desespero e encantamento, esquecemos de nos blindar e tomar cuidado. E o Sol, nosso inimigo, derreteu nossas asas. Frustradas, caímos para nossa própria morte.

Na contramão, eu não consigo entender essas mulheres de coração enorme - talvez porque o meu diminuiu. Por que perdoam? E amam infinitamente? E esta fé inabalada de que o amado vai mudar, ou de que tudo irá ser justo? Tão mais fortes e sensíveis, deveriam enxergar que elas são o suficiente para si mesmas (caso seus relacionamentos apenas subtraiam de seu amor próprio). Nesta vida, eu suponho, nunca obterei uma resposta e concluo que o mundo é um teatro de quinta categoria, vulgar, opaco, feito mesmo para o sadomasoquismo dos sócios majoritários.

Eu aprendi de muitas maneiras difíceis. E isso não significa que fiquei mais forte. Estou, a propósito, muito atônita com tudo isso que acontece.

Eu já dediquei muitos textos para aqueles que gostei. Mas em minha vida, no fundo, amei duas vezes. A primeira, há tanto tempo, na adolescência quase imemorial. A outra, bem... Foi o meu próprio céu, aquele que eu criei, e o inferno, o que realmente ele pode oferecer-me. E, agora, essas são partes inexoráveis de minha vida

Até agora falei apenas em decepções, desamores, falta de dinheiro, humilhações... Porém, analisando, todas essas têm participações que fogem do meu domínio. Existem outras pessoas ali, pouco preocupadas comigo. Eu sou a única que pode importar-se com o mais precioso: eu mesma.

O lamento por Ícaro de Herbert James
Draper
Então, o que realmente vale a pena a ponto de empregar-se a vida inteira? O que não podem me tirar? O que posso proporcionar-me? São para essas perguntas que eu preciso buscar respostas urgentes.

E essas respostas, mesmo incompletas, trazem a calmaria do barulho do mar. E isso agrada-me tanto que poderia morrer escutando as ondas que batem nas pedras. A última imagem captada por meus olhos, ainda com um sopro de vida, poderia ser das nuvens cinzas, enormes e macias que formam-se no horizonte, cheias de uma chuva gelada que toca a pele como um choque celestial. Seria um lugar frio, mas ao mesmo tempo acolhedor. Nada de Sol, com seu brilho cego e falso e um calor escaldante. Nada de um céu azul esfuziante como propaganda de margarina.

Não almejo uma vida cheia de dinheiro e montanhas de bens materiais. Com o tempo, aprendi que posso lutar para tê-los, se eu gastar muito da minha vida nessa empreitada, mas correrei o enorme risco de não ter muito do que realmente preciso.

Destruição de imagens em Zurique/1524
Retirado de Panorama de la Renaissance de
Margaret Aston



A vida é sim uma iconoclastia. E os fragmentos resultantes não poderão ser restaurados nem com a maior fé universal. Talvez, lavoisiando, esses cacos sejam transformados em lições e frutifiquem, espalhando sementes de aprendizado.

Hoje tenho a sensação do fracasso e da impotência, da servidão e do não reconhecimento. Tudo realmente está errado e fora de lugar. E eu poderia muito bem apagar tudo e todos da minha mente, sem nenhum arrependimento. Todavia não posso e não é possível.

Este peso que carrego em meu coração é um aviso cotidiano para fortificar as minhas asas: o presente está corroído e o futuro poderá ser um painel dos ossos que quebrei na minha jornada.


domingo, 15 de maio de 2016

Historinhas de gregos


Céu do sudeste - representação artística das Constelações
Das 88 Constelações reconhecidas pela União Astronômica
 Internacional - IAU, mais da metade foi descrita, primeiramente,
pelo antigos gregos, como Ptolomeu e Hiparco
Software Stellarium

"Lá fora, o céu conta-nos diversas fábulas. Eis que Marte, em sua fúria vermelha, passeia com divindade pelas garras do Escorpião. Seu brilho cega e hipnotiza-me! Antares, o antagonista e rival, observa-o, com quietude, pois não há nada que possa fazer para tirar-lhe o fulgor. Nesta jornada, o véu da madrugada, tecido em finíssimos grãos de sono, traz a trilha de Saturno. E, a Oeste, já adormece Júpiter. E quando a Aurora chegar, em luz e resplendor, Vênus brindará os amantes que completaram mais um ciclo juntos." 

Vez ou outra, pedaços de memórias e sensações voltam. E hoje, ao olhar toda a beleza do céu, lembrei-me da época do meu próprio e incauto desejo maior.

Ah, a vida era boa e as expectativas giravam como moinhos em plena atividade. E disso tudo sobraram-me apenas fragmentos.

A vida traça caminhos tortuosos. E esses podem ser espinhosos a ponto de destruir nossos pés. E arrastar-se não é tão louvável como nas belas e trágicas histórias.

O curso de Física levou boa parte das minhas esperanças e alegria. Culpa minha, sim. Nunca o desejei, mas remendos são feitos quando os ávidos precisam alcançar o sentido da vida. Errei e padeço... E, conclusivamente, nunca mais serei a mesma.

Nesta jornada de auto mutilação, muitas histórias bizarras são vividas e a beleza deste firmamento trouxe, neste momento, uma delas...

Assim que ingressei no curso, entrei em um programa de bolsa estudantil para pesquisa. Para minha alegria momentânea, ilusoriamente, tratava-se de Astronomia. E foi um martírio do começo ao fim.

Céu do Sudeste - Marte em Escorpião, seguido por Saturno
15 de maio de 2016
Software Stellarium
Neste período de limbo, certa vez, um rapaz, participante da mesma bolsa, estava a fazer seu trabalho escrito quando disse-me, no mais alto e bom tom de desdenho, que Astronomia não passava de "historinhas de gregos". A petulância deste ser com sua falta de discernimento sobre a importância histórica dos Gregos na Ciência foi tão impactante que fiquei meses remoendo esta grosseira fala nos meus pensamentos. Passados mais de de três anos deste nefasto fato, o sentimento de incredulidade ainda não se dissolveu.

Afinal, eu estava no curso de Física e disparates desse tipo não podiam ser reais. Mas eram e massivamente. E foi o começo da minha ruína.

Tipos como este colega citado e seus pensamentos estapafúrdios estão agora na pós-graduação e serão os futuros professores e pesquisadores desta casa em que estou hoje. Exaltam seus mestrados e doutorados, desfilando como pavões pelos corredores, impressionando uma parcela tão vazia quanto eles mesmos.

Sinto-me a peça de outro jogo. E nada faz sentido.

Todos os dias ouço histórias relacionadas a esse curso - gente a gabar-se, a falar mal das deficiências de aprendizado dos colegas, mentindo sobre notas e aumentando seus feitos, professores estúpidos e grosseiros, alunos que apoiam esses professores, religiosos fanáticos, notas sobre tentativas de suicídios, depressão, choros... E eu, do outro lado, pensando em milhares de outras possibilidades... Em como escrever, por exemplo, sobre Federico Garcia Lorca. Falta-me empatia.

Nesta balbúrdia, o que preocupa-me é a minha pobreza e a possibilidade de ser jogada na sarjeta. Ou seja, meu futuro profissional e como sustentar-me com dignidade.

Em meu egoísmo imenso, raiz intrínseca do meu ser, a liberdade vem em primeiro lugar. E todos estão tão presos a sua própria ignorância que julgo-os como a pior das inquisidoras. Eis meu pecado e confesso-o.

Estou deslocada neste cenário. Não ensaiei esta peça e nem pretendo decorar as falas. Rendo-me a mim mesma - prefiro ler vários livros e aprender mais sobre as historinhas de gregos.


Fontes:

Conhecendo as Constelações - UFMG - Observatório Astronômico Frei Rosário - por Ariana França Clávia

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Eu o encontrarei

Se os ventos do Norte soprarem
Em terras distantes, muito além
E todos os caminhos negarem-se
De alguma maneira, atravessarei...
... Essas areias distantes do tempo...

... Que contam cada vida
Cada uma com um alento
De todos aqueles que amei.

São as passagens de outrora
Enterradas sobre metáforas
E lembranças esquecidas
De caminhadas vívidas.

Outra parte de mim
Em algum lugar está
Perto, longe, aqui
Ou acima do luar..

Universum: representação do Universo elaborada
e usada pelo astrônomo Camille Flammarion na obra
"L'atmosphère: météorologie populaire", Paris/1888.
Separados
Mortos
Vivos
Anos
Ou momentos

Algum dia
Eu o encontrarei
E saberei sobre tudo
Aquilo que almejei.

T. S. Frank








quarta-feira, 13 de abril de 2016

É solitário andar por entre a gente

Chega-se a uma certa idade e constata-se que todos os ideais morreram, pelo menos aqueles tenros juvenis que alçavam voos altíssimos como os de Pegasus.

Não amar mais é o limbo, o próprio, este descrito com palavras fortes em muitos livros que citam seres moribundos. 

Não confio e não interesso-me. 

E os dias passam em telas embaçadas, um filme em filtro azul, frio e angustiante. 

Decepção e todas as mazelas de uma alma inquieta em busca da vividez humana não me surpreendem mais - puro cotidiano! Depois de alguns anos, descobre-se as mentiras, as bocas retorcidas, o orgulho e a soberba. Todos os sinais estavam piscando em amarelo, violeta e laranja. Porém a cegueira dos sentimentos tratou esta paisagem infernal com um photoshop descarado. 

Não quero mais estar onde estou - este solo infértil, vil e ordinário. 

Este sabor amargo, ácido, corroendo a minha garganta, sufoca-me e lacera o meu interior. 

A solidão é um estado de espírito (ouvi em algum lugar...). E não há nada e ninguém que possa preencher este vazio abissal. 

Todos os dias escuto histórias. E concluí que as pessoas procuram-me para desabafar, falar sobre seus anseios e desejos, muitas vezes indignações e constatações sobre a realidade cruel. Ouço-as atentamente - como seus lábios mexem-se nervosamente, construindo cada frase, derramando cada gota salina de lágrima. Se sou o consolo de cada uma, isso enaltece-me e, como uma maquiagem, preenche, por algumas horas, a lacuna que eternamente existirá. Há uma parte egoísta, obviamente, nesse ínterim - tenho alguém que deseja compartilhar algo - e todos esses contos são uma distração para minha mente cansada. 

Mórbida é esta vida sem prazeres, sem ação, sem mistérios a serem resolvidos, sem risos desprendidos, sem cumplicidade, sem café da tarde que cheira a menta. 

Metade de mim morreu. Há quanto tempo? Não sei.

É solitário andar por entre a gente - percebemos todas as migalhas de atenção que recebemos, as caminhadas tristes e o escutar para não ser ouvido. 

Sinto-me amarrada, presa pela ponta dos pés. Minha voz continuamente é abafada. Há muita raiva gratuita, sentimentos controversos, desejos inertes e sem esperança. 

Daqui há algum tempo, depois das vozes que se silenciam para cantarem em outras árvores, todas as andorinhas pousam suavemente para visitar o gato ranzinza. E, depois que o véu da noite surge, desaparecem, voltando para suas vidas prioritárias. 

Hoje é um dia triste. E, por si só, aqui tem-se toda a explicação. 

E lamentos podem ser ouvidos em forma de miados abafados.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Música Celta: Greg Joy

Greg Joy
A primeira postagem do ano de 2016 começa com amor. E dos meus muitos amores, a música Celta é a mais presente. 


***

Descobri Greg Joy através de um aplicativo na minha Smartv, o Calm Radio Multimix (aplicativo também para Android). Ele contém inúmeras playlists com músicas do mundo inteiro e uma delas, claro, é a Celtic Music.

Depois de escutá-lo pela primeira vez, adquiri toda a discografia. E, depois do Luar Na Lubre (a minha banda favorita), é o que estou escutando diariamente.

Em sua discografia há inúmeras interpretações magistrais de canções famosas do folk escocês, irlandês e inglês. Só pra citar algumas no cenário das series, por exemplo: há Skye Boat Song, música folk escocesa, tema de abertura série Outlander - A Viajante do Tempo Unquiet Grave, música folk inglesa, cantada no último episódio da terceira temporada de Penny Dreadful pela necromante Hecate.

Biografia

Greg Joy nasceu em Victoria/Canadá, em 1954. Seu principal instrumento é o violão - o de 6 e 12 cordas. Toca também dulcimer e bandolim O amor pela música folk das ilhas britânicas levou-o ao Victoria Music Conservatory, no final dos anos 70, para estudar violão clássico. Ele já fez inúmeras apresentações com vários grupos celtas e de music world.

Discografia

1986 - Textures
1991 - Tapestries
1993 - Celtic Secrets
1995 - Touching Hearts [& Brock Tully and Ginnie Doidge]
1996 - Celtic Secrets II
1997 - Celtic Impressions
1999 - A Magical Celtic Christmas [& Mark Brake]
1999 - Celtic Enchantment
2002 - Winds of Change
2003 - Celtic Dancer
2004 - Visions of Paradise
2005 - Celtic Echoes [Celtic Passion]
2010 - Enchanting Celtic Christmas
2014 - The Minstrel and the Maiden
2015 - Shades of Blue and Gold


Algumas faixas dos álbuns de Greg Joy...








Fontes: 

Encartes dos álbuns de Greg Joy

Para escutar:


Para comprar 


domingo, 27 de dezembro de 2015

Natal e Ano Novo - A constatação dos dissabores anuais

Florbela Espanca
O meu talento!... De que me tem servido? Não trouxe nunca às minhas mãos vazias a mais pequenina esmola do destino. Até hoje não há ninguém que de mim se tenha aproximado que me não tenha feito mal. Talvez por culpa minha, talvez... O meu mundo não é como o dos outros, quero de mais, exijo de mais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê! (Florbela Espanca, Desafinado Desconcerto: Contos, Cartas, Diários. Iluminuras, 2002. P. 271)

Florbela é uma achado. Assim como Augusto dos Anjos e sua poesia cortante e realista em metáforas negras, ela aproxima-se de mim com a alma parecida, uma vida de angústia e decepções.

E, nesse final de ano (com o Natal que passou e o Ano Novo que aproxima-se), mais constatações da minha vida: minuciosamente detalhada em seus poemas.

Veja o destaque, frase perfeita, avassaladora e ratificadora: Até hoje não há ninguém que de mim se tenha aproximado que me não tenha feito mal. Talvez por culpa minha, talvez... E assim o é - sem delongas e sem drama, apenas a verdade nua e crua. 

Natal é uma época para a família. Sim, aquelas de comercial ou das pessoas felizes e bobas, satisfeitas com o raso, o multicolorido instantâneo e suas vidas recheadas com sopa de orfanato. A felicidade parece bombom de quinta comprado com moeda de um centavo. 

Natal também lembra-me esperança, o menino Jesus, os desenhos católicos e o catecismo. Era a época em que eu podia ser tudo, claro, na imaginação. Quando somos pequenos, mesmo com as mazelas do dia a dia, as perseguições, pobreza e o destrato na escola (bullying de hoje), o espírito inquietante e a esperança são o mais tenro combustível da alma. Poderíamos, para sempre, ser infantes, ou, ao menos, ter um ínfimo do brio de outrora só para sobrevivermos com o mínimo de dor. Porém crescemos e enxergamos o mal, o preconceito, o descaso e o descarte.

As ceias, antes esperadas, só mostram agonia, problemas domésticos, queixumes. A grande maioria das pessoas que amo e gosto, e que gostaria que estivesse ao meu lado nesse momento, tem outras prioridades, outros amigos mais importantes, outros amores. Muitos deles enganaram, viram apenas algo passageiro, um número, uma nota musical solitária para coleção particular. 

Foi um ano terrível, cheio de tristeza e pesar. Apunhaladas, fofocas, pessoas insanas, coração partido e toda sorte de desgosto. Seres humanos ruins foram coroados, idolatrados e elogiados. E vivem agora seus contos de fada - com beleza, riqueza, belos rebentos, atenção e glorificação. 

Amar tornou-se difícil. E os fracassos apareceram - controle, crítica e dizeres para alimentar a baixa auto estima. Não amei este ano - foram 365 dias estéreis. E não lembro-me de uma época assim. E espero não ter nada parecido por anos. 

Sinto-me presa. Aliás, sempre estive. Sou escrava das convenções, dos dramas alheios, das imposições dos outros. Não tenho dinheiro e nem um rumo certo. Vivo de lampejos de felicidade imaginária e sorrisos soltos. Estes, aliás, causados por pessoas não próximas; talvez, as melhores e mais sensatas que já entraram em minha vida. 

A vida como ela é - cinza. 

Mas quero chuva. Porque ela possui o mais belo céu, o cheiro enebriante de terra gotejada, frio, eletricidade e, antes, bem antes, o arco-íris da infância, cheio de Matemática e Física. Portal de frenesi, palco de cores em tons pastéis. É um espetáculo raro por estes tempos.

Há apenas raios cegantes de sol, com cores vivas e artificialmente alegres, enjoativas. Sem bases e discussões. 

[Fale-me de Beatles, dos Celtas, qualquer ato sólido e artístico. Tire-me desse mar de lama alheio! Ofereça-me uma café com leite quente e um bolinho boliviano. Seja um estranho encantador, alguém para sempre, mesmo por instantes.]

Hoje, pós-natal, e depois que todos comeram como animais, pensando em Papai Noel (minha época favorita ainda é a Páscoa, ao menos, lembram de Jesus), estou com mais um episódio forte de dor nas costas. Existem dias com menos dor, porém ela sempre está lá - companheira inseparável. A cronicidade do meu dia a dia.

Das coisas boas, uma descoberta incrível: um musicista celta - Greg Joy. Também voltei a assistir Arquivo-X e tem sido muito divertido. Agora toco Flauta Nativa Americana - NAF que amo e acalma-me (ninguém nunca me deu forças para tocá-la e assim que o fiz, muitas críticas vieram, não porque eu toco mal, pelo contrário, e sim desdenhos ou o velho descaso, fora que ela é considerada um objeto que ocupa espaço, muito indesejável no começo). 

O curso de Física continua um show de horrores, claro, para mim (porque NUNCA vão dizer algo parecido, afinal, cada um cuida da sua própria vida acadêmica e esses assuntos são terminantemente proibidos. A premissa é que somente os fortes sobrevivem, pois fazem parte disso o egoísmo e também a falta de apoio). Contudo é como disse um amigo e jovem escritor certa vez para mim - Termine isso! E tire sua bunda daí! Não há nada que te segure, não há raízes, não há nada espetacular e forte. Só que é bem difícil manter-se na linha e focada. São tantos problemas, tanta desarmonia e a falta de uma figura para admirar. Episódios recorrentes de desrespeito acontecem, a última, e que me abalou muito, eu já contei em uma postagem anterior.

Vista área de Newgrange - Irlanda
Uma vez terminada toda essa jornada excruciante, poderei começar uma nova vida, longe, muito longe daqui, sem levar nada e ninguém na bagagem. Sem laços, sem história, apenas a vontade de
recomeçar. 

Essa é minha única promessa para o novo ano. Difícil? Exato. É a chave da minha liberdade, minha chance de renascer e poder ter fé em mim, no meu talento. O preço é alto, nada mais que o esperado. Aqui, agora, não há pessoas que acreditem em mim. Essa tarefa é somente minha.

Raio de luz em Newgrange, Solstício de Inverno
Desejo a todos (as) os leitores (as) um ano mais calmo e produtivo. A paz é a lacuna a ser preenchida e a saúde, pois bem sei, é essencial. Do resto, cada um precisa ter ou arrancar da alma, mesmo que seja dolorido. 

E, dessa forma, que as nossas vidas possam ser como a luz que entra em Newgrange a cada Solstício de Inverno - o lembrete da esperança que nunca falha!





Uma linda música celta de Greg Joy!


terça-feira, 3 de novembro de 2015

Manuscritos Iluminados – Tesouros da Idade Média

Cena do filme O Nome da Rosa/1986
"Basicamente eu diria que as iluminuras estavam lá não como uma explicação, ou até mesmo como uma ilustração, mas como um modo de adicionar valor a Palavra de Deus." (Professora Germaine Greer, Universidade de Cambridge, documentário Illuminations Treasures of the Middle Ages - BBC)

Os livros modernos são uma comodidade. Cada texto é reproduzido mecanicamente em larga escala - um objeto reivindicado para o consumo das massas. Mas há muito tempo, quando cada livro era único e feito à mão, a palavra tinha uma espécie de magia e poder sobre ele. Por mais de 1000 anos, os manuscritos iluminados trouxeram estórias de mitos e lendas para a vida. Suas páginas brilhantes preservaram ideias das crenças religiosas e muitos mistérios sobre a Idade Medieval. E eles são muito importantes, pois contêm a maior parte da arte requintada medieval e cultura da Europa antes do século XVI.

1. Primórdios

Cena do filme O Nome da Rosa/1986
Quando o Cristianismo chegou até Roma, foi perseguido. Porém, gradualmente, a Religião Cristã cresceu no interior do próprio Império do século IV. Esse Cristianismo já não era mais o das pequenas comunidades, como no início - estava hierarquizado e modificado. Com o Edito de Milão (313 D.C., com o Imperador Constantino), foram asseguradas a tolerância e liberdade de culto para todos os cristãos no território do Império Romano. Em 380 D.C., o Imperador Teodósio decretou que a religião oficial do Império seria o Cristianismo e o mesmo, antes de morrer, em 395 D.C., instaurou duas capitais do Império – Constantinopla, no Oriente, com a Língua Grega - E Roma, no Ocidente, com a Língua Latina.

Quando o Império Romano do Ocidente esfacelou-se, apenas o Cristianismo Romano, na forma da Igreja Católica, sobreviveu. Com as Invasões Bárbaras, uma nova questão foi colocada – como cristianizar esses povos? Eles não eram analfabetos, eles simplesmente eram ágrafos – não tinham escrita. Então a necessidade de evangelizar esses povos tornou-se urgente. Paralelo a este movimento, alguns cristãos afastaram-se do mundo, concentrando-se em monastérios, com regras e trabalhos permanentes. Foram os monasticistas que dedicaram sua vida a religião, ao culto, as privações, as obrigações de voto e, principalmente, aos manuscritos iluminados.

2. Os primeiros mosteiros

O primeiro mosteiro apareceu no Egito, no deserto, com Santo Antão, no século IV (350 D.C.). E o primeiro mosteiro na Europa surgiu na parte Ocidental, no Monte Cassino, Itália, por São Bento de Núrsia, em 529 D.C., originando a Ordem dos Beneditinos.

Evangelhos de Lindisfarne - Iluminura
insular - Mosteiro da Inglaterra na
Ilha de Lindisfarne (hoje Holy Island) – 

Nortúmbria
No interior desses mosteiros, apareceu uma manifestação artística de monges feita para monges – as Iluminuras. E essas não tinham nenhuma finalidade de proselitismo. Eram cópias feitas para adornar os altares e para serem vistas pelos olhos de Deus – a Glorificação da Divindade.

3. As Iluminuras

O termo iluminura está ligado ao verbo latino illuminare (iluminar). O termo, no século IX, começou a ser utilizado pelos autores medievais para designar qualquer tipo de ornamentação ou ilustração de manuscritos. Neste sentido, illuminare significa destacar (tornar luminoso), através da imagem que determina certos aspectos do texto (para alguns autores este termo só é aplicado quando é utilizado o ouro ou a prata na pintura.). A palavra iluminura também é chamada de miniatura por alguns estudiosos que a fazem derivar da palavra latina minium (vermelho) e do verbo miniare que significa escrever a vermelho.

3.1 Do papiro ao códice

O papiro surgiu no Egito e era feito de fibras vegetais (há papiros desse material datados do século 27 A.C., achados na cidade de Tebas). E foi este papiro que chegou, no século 7 A.C, na cidade grega Pérgamo (hoje Bérgamo, na Turquia). No século 3 A.C., surgiu, então, o pergaminho (em homenagem a cidade) - um suporte para a escrita feito com couro de animais jovens (geralmente carneiro, cabra ou vitelo), tratado com água de cal, esticado ao sol e depois raspado com pedra vulcânica.

A vantagem do pergaminho em relação ao papiro é que o primeiro suportava a inscrição no verso e podia-se apagar também. Para escrever usava-se plumas, geralmente de gansos.

Entre o século III e IV D.C., esse pergaminho chegou na Europa Ocidental e foi utilizado nos mosteiros para cópia e ilustrações de livros. No século IV D.C., ele foi transformado em páginas retangulares e depois costurado. Assim surgiu o códice, que revolucionou o processo de transmissão da escrita, facilitou o transporte, a produção e conservação de imagens, já que no rolo as camadas de pintura estalavam frequentemente com o sucessivo enrolamento dos manuscritos.

[Até o século XV, o grande suporte para ilustração e escrita era o pergaminho. Só depois que o papel apareceu na Europa Ocidental, trazido pela expansão árabe. O papel já existia na China desde o final século I.]

3.2 Manuscritos iluminados – arte monástica

O Cristianismo é, efetivamente, a religião dos livros. Com essa definição, os mosteiros foram responsáveis pelas ilustrações destinadas aos livros do Catolicismo - as iluminuras.

No interior dos scriptorium (local do mosteiro destinado a criação dos manuscritos.) existiam carteiras, tinteiros, tintas pretas e tintas vermelhas de diversas origens. A preta, por exemplo, era originária da excrescência dos ovos de insetos deixados nas folhas dos carvalhos e posteriormente maceradas. Também era utilizado pigmentos de ouro ou folhas de ouro, a chamada crisografia, e pigmentos de prata ou folhas de prata, a argentografia.

Os monges que trabalhavam nas iluminuras eram classificados como: monge copista (antiquari), monge ilustrador (miniator – que, progressivamente, passa a designar todo aquele que executava qualquer ornamentação.) e monge rubricador - que se dedicava a fazer as letras capitulares das Iluminuras (Rubrica vem do latim rubrica, que significa vermelho, porém nem todas as capitulares eram dessa cor.).

3.2.1 O Manuscrito de Kells

O Livro de Kells (800 D.C) é o mais importante e maravilhoso objeto (apesar de não concluído) da chamada Arte Insular a sobreviver desde os primeiros séculos da Cristandade Celta. Cada página é magnificamente ornada com elaborados padrões decorativos e animais míticos que refletem a influência da tradição do trabalho com metais que marcou o período.

Escrito em latim, o Livro de Kells contêm os quatro Evangelhos do Novo Testamento, além de notas preliminares e explicativas, e numerosas ilustrações e iluminuras coloridas.

Monograma da Encarnação
Deus vivo e encarnado - Iniciais de Cristo
em grego - Livro de Kells
Ele deve seu nome a Abadia de Kells, situada em Kells, no condado de Meath, Irlanda. Os monges eram originários do Mosteiro de Iona, localizado numa das Ilhas Hébridas, situado em frente à costa oeste da Escócia. Iona possuía uma das comunidades monásticas mais importantes da região desde São Columba, o grande evangelizador da Escócia. Devido a multiplicação das incursões vikings, Iona tornou-se perigosa e a maioria dos monges partiu para Kells, levando o manuscrito para lá.

Tamanha era a fantasia materializada nessas iluminuras pelos escribas e monges do Mosteiro de Kells que sua obra foi considerada por um cronista do século XIII “não o trabalho de homens, mas de anjos.”.

O livro encontra-se exposto permanentemente na Biblioteca do Trinity College de Dublin – Irlanda.

3.3. Mudança – Arte Carolíngia

Enquanto as ilustrações ocorriam nas ilhas, no continente europeu, o chefe dos francos, Carlos Magno, através de uma série de vitórias militares, consegue centralizar o poder na Europa. Depois, em 800 D.C., ele é coroado pelo Papa o Rei Cristão do Ocidente.

Nesse período, há um esforço para recuperação dos padrões clássicos da arte da Roma Antiga - o que foi chamada Arte Carolíngia. As iluminuras ganharam traços da cultura romana clássica. E os monges passaram a trabalhar nos palácios.

3.3.1 O Livro Vermelho de Montserrat

O Llibre Vermell de Montserrat (O Livro Vermelho de Montserrat) é um manuscrito iluminado contendo canções do final da Idade Média. Foi escrito em torno de 1399. Seu nome provém da encadernação vermelha que recebeu no século XIX. Originalmente possuía 172 fólios duplos, dos quais 32 se perderam. 
Canção Stella Splendens
Livro Vermelho de Montserrat

As 10 composições que restam são todas anônimas. O Mosteiro foi um famoso local de peregrinação católica naquele tempo, possuindo um santuário da Virgem de Montserrat. As músicas do manuscrito são, na maioria, louvações a Virgem. Os textos das músicas são em catalão e latim e o estilo musical sugere que datam de bem antes da ocasião em que foram compiladas. 

Ele, hoje, está no Mosteiro de Montserrat, nos arredores de Barcelona, na Espanha.

Sua relativa simplicidade e belo desenho melódico fizeram com que as canções fossem gravadas por conjuntos contemporâneos dedicados à música medieval. 

Músicas

1. Canção: O virgo splendens (fol. 21v-22) (Oh Virgem esplendorosa)
2. Virelai: Stella splendens (fol. 22r) (Estrela esplêndida)
3. Canção: Laudemus Virginem (fol. 23) (Louvemos a Virgem)
4. Virelai: Mariam, matrem virginem, attolite (fol. 25r) (Louvemos Maria, nossa Virgem Mãe)
5. Virelai: Polorum Regina (fol. 24v) (Rainha dos pólos)
6. Virelai: Cuncti simus concanentes (fol. 24) (Cantemos juntos)
7. Canção: Splendens ceptigera (fol. 23) (Rainha esplêndida)
8. Balada: Los set gotxs (fol. 23v) (Os sete gozos)
9. Moteto: Imperayritz de la ciutat joyosa/Verges ses par misericordiosa (fol. 25v) (Imperatriz da cidade feliz/ Virgem, se por misericórdia)

10. Virelai: Ad mortem festinamus (fol. 26v) (Nos apressamos para a morte)

3.4 Fim de um período

Todo esse mundo veio abaixo com o nascimento das primeiras universidades no século XIII, onde os estudantes necessitavam de livros que fossem produzidos mais rapidamente, mesmo que fossem menos bonitos. Com a prensa de Gutemberg, em 1455, o declínio das iluminuras se iniciou.

No século XVI, as luzes dos manuscritos iluminados apagaram-se de vez. Na Inglaterra, com Henrique VIII e a fundação da Igreja Anglicana, muitos deles foram queimados e monastérios dissolvidos.

Alguns conseguiram preservar os livros que foram proibidos e trouxeram, assim, a história dessa rica arte para os dias de hoje.

A Universidade de Cambridge possui uma das maiores coleções de manuscritos iluminados do mundo - uma gama de diferentes tipos de livros religiosos.

Graças a perseverança dos antigos monges e técnicas de conservação avançadas, podemos testemunhar também o que, antes, era reservado somente para os olhos de Deus.

Recomendações

Filme

O Nome da Rosa (1986) - uma das obras primas de Umberto Eco que virou filme pelas mãos do diretor Jean-Jacques Annaud (Guerra do Fogo/1981). Através de misteriosos assassinatos em uma abadia, o cotidiano dos monges e as iluminuras são mostrados em seu esplendor. Com Sean Connery, Cristian Slater e F. Abraham Murray.

Livro

Idade Média, Bárbaros, Cristãos e Muçulmanos - Umberto Eco - Umberto Eco, com a colaboração dos mais importantes medievalistas de diversas disciplinas, nos leva em uma viagem envolvente e surpreendente através da sociedade, arte, história, literatura, música, filosofia e ciência deste período intenso da história da civilização europeia.

Disponível para compra em: Livraria Cultura (clique aqui)

Música

Jordi Savall & Hespèrion XX - Llibre Vermell de Montserrat (2010) - através de Jordi Savall, compositor e regente catalão, especialista em música antiga, e seu grupo, Hespèrion XX (agora Hespèrion XXI), este álbum traz uma performance energética e sofisticada das canções do Livro Vermelho de Montserrat.

Disponível para compra em: Google Play (clique aqui)

Luar Na Lubre – Les Set Gotxs/Faixa do álbum Mar Maior (2014) - O grande grupo galego mostra uma versão ainda mais energética e animada da canção que faz parte do Livro Vermelho de Montserrat.



Fontes

Meio eletrônico - Documentários e aulas

Illuminations Treasures of the Middle Ages - BBC. Ano 2008. Em Inglês.
História da arte II - UNESP - Iluminuras medievais: arte monástica - Parte 1. 
História da arte II - UNESP - Iluminuras medievais: arte monástica - Parte 2.
História da arte II - UNESP - Iluminuras medievais: arte monástica - Parte 3.

Meio eletrônico - E-books

Dicionário da Idade Média. Organizado por H. R. Loyn. Google Livros. Várias páginas consultadas. Em Português.

Livros 

Idade Média, Bárbaros, Cristãos e Muçulmanos. Umberto Eco. Várias páginas consultadas. Editora D. Quixote Books. ISBN 9789722049924. Em Português.
1000 Lugares para Conhecer Antes de Morrer. Patricia Schultz. Página 42. Editora Sextante/Gmt. ISBN 8575422162. Em Português.

Meio eletrônico - Artigos e Postagens

À descoberta da cor na iluminura medieval com o Apocalipse do Lorvão e o Livro das Aves - Departamento de Conservação e Restauro - Faculdade de Ciência e Tecnologia - Universidade Nova de Lisboa - Arquivo Digital - Iluminura Medieval. Em Português.
A luz e a sombra da iluminura - História, imagem e narrativas. No 15, outubro/2012 - ISSN 1808-9895. Em Português.

Outros

Constantino Promulga o Edito de Milão - Opera Mundi - Uol.
Livro de Kells - Wikipédia em Português.
Livro de Kells - Wikipédia em Inglês.
Carlos Magno - Wikipédia em Português.
Arte Carolíngia - Wikipédia em Português.
Livro Vermelho de Montserrat - Wikipédia em Inglês. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Cheiros e saudades

Era um tempo imemorial.

E bem lá no fundo, onde as lembranças mais intocáveis moram, notas de um cheirinho de pré-escola eram gotas de alegria - Mabel e suco de laranja!

Sou só saudade, esse enorme conjunto de átomos dessa matéria dolorosa.

Era um tempo bom... E eu não sabia. Nunca sabemos. 

Tempo dos livros de capas vermelhas, cheios de histórias, guerras, princesas, reinados e lutas. 

Era o fim do mundo. Porém só meu.

Hoje só há lama, fragmentos de corações dilacerados, amizades perdidas, confianças extraviadas, mal entendidos, chateações e pensamentos que deveriam ser guardados.

Todos os amores deveriam ser platônicos e eternos, juvenis e brilhantes. E só amamos assim uma vez. Os outros sempre serão aquém, cheios de lágrimas e sofrimentos, ou monótonos, ou errados, pelas pessoas erradas e situações tortuosas. 

Um dia eu tive meu oceano azul. E agarrei-me a ele com apreço. E esta memória é o calmante para o caos de sentimentos desse presente ingrato e catatônico.

A vida tornou-se cinza, sem graça. E as pessoas desinteressantes, todas elas! Onde estão seus rostos vívidos, cheios de perguntas e cores saltitantes? Perderam-se dentro de mim. São apenas faces e fábricas de palavras.

Saudades das nuvens que profetizavam chuvas magníficas vindas do leste e que traziam o cheiro das folhas verdes e dos espíritos das florestas. Portais eram abertos através do arco-íris. Sentava na praça e elas [as nuvens] eram de todas as cores, rosas, azuis, amarelas... Uma sinfonia harmoniosa no final de tarde. A felicidade estava ali com seu véu e eu não sabia. 

A noite, o mais lindo céu - o caminho brilhante e leitoso da Via-Láctea . Ali depositei meus sonhos. E eles ainda estão lá, mas perdidos, pois eu também me perdi.

Era tudo esperança. 

É agora tudo que resta é o pó daqueles tempos cheios desejos.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

O som das águas (O son das augas)*

"Abriu-se uma porta... Era um novo mundo distante deste tão cheio de amarguras incuráveis, de sangue vívido, de pudores e mais vergonhas. Não há mais motivo para esconder a minha própria face. Todas as lembranças esvaíram-se e todos foram esquecidos. Uma nova vida avança, utópica, cristalina e tão reluzente como brasa incandescente. É a tranquilidade dos cantos da aurora. 
Sim... É só um sonho longínquo desse tempo que vivo. E dele alimento-me para sobreviver dia após dia. Teci uma colcha com meus desejos. Esta agora recobre minha alma ainda ferida."


Por entre migalhas caminhei
E não mais hei de usá-las
Meu canto triste guardei
E dele fiz águas passadas.

Verde arboreto com pedras
Um caminho novo, sim!
É delas feita uma orquestra
Com notas em sol carmim.

Tilintar de gotas diamantes
Alvejantes
Entre dois amantes.

Não há mais dor
E muito menos dissabor
És teu tempo, óh, Amor!

                                                       Por T.S. Frank

*Frase em galego para 'som das águas'. É também título de uma das faixas mais bonitas do álbum de 2007, Camiños Da Fin Da Terra, do grupo galego Luar Na Lubre. 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Sereia

Sereia, lá onde a lua banha-se
Calmamente, um dia ouviu-se
Seu canto, puro e pujante
A enfeitiçar jovens viajantes.

Olhares perdidos nas procelas
São dias sem sol e sem velas
O vento cá não sopra mais
O silêncio das ondas é voraz...

[Esta pedra cinzenta é a lembrança
Das lendas entardecidas
Nos contos de criança]

“A bela azul espuma do mar virou
Sacrificou-se em prol de um amor
Que sempre a menosprezou.”

                                                       T.S. Frank




Se você ficou curioso sobre as ilustrações do vídeo... Tratam-se de três obras de John William Waterhouse (1849-1917), pintor inglês. 1. The Mermaid/1901; 2. The Siren Circa/1900; 3. Hylas and the Nymphs/1896. A última ilustração do vídeo não é do pintor.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Recomendação musical especial - Luar Na Lubre



É com muito prazer que trago a vocês, queridos (as) leitores (as), um dos meus grupos musicais favoritos – Luar Na Lubre.

Luar Na Lubre é um grupo de folk galego, criado em Corunha (Coruña) em 1986. O nome vem do galego Luar - resplendor da lua – e Lubre – espécie de bosque sagrado para os celtas, onde seus rituais aconteciam.

(Entre linhas – folk galego é um gênero musical tradicional de uma das regiões da Espanha conhecida como Galiza (ou Galícia em espanhol). Pela Constituição Espanhola, ela é uma comunidade autônoma, ou seja, entidade territorial dotada de autonomia legislativa e competências executivas. Corunha é justamente a capital da Galiza e nela fica Santiago de Compostela (quem é leitor de Paulo Coelho e debruçou-se sobre O Diário de um Mago tem uma ideia geral) – lugar de peregrinação e atmosfera mística, onde acredita-se que os restos mortais do apóstolo Santiago foram levados. Possui uma das mais belas catedrais barrocas do mundo. Por lá, falam o galego – mais parecido com o português do que o próprio espanhol de hoje – que pode ser considerado uma evolução do galego-português - falado em Portugal e na Galiza na Idade Média, que originou o português de Portugal e o galego de hoje)

O Luar Na Lubre também tem raízes célticas, afinal, a Galiza, na Idade do Ferro, foi povoada pelos celtas.

É considerado o maior grupo de música folk galega (ou música celta da Galiza) e um dos grandes representantes do gênero celta. O grupo é dono de inúmeros prêmios, ótimas críticas e fama mundial.

Em 1992, Mike Oldfield – compositor e músico inglês, com influências que vão do rock a música étnica (ouça Tubular Bells/1973) – 'globalizou' o octeto quando fez sua própria versão de O Son do Ar (do álbum de 1988 do Luar Na Lubre – O Son do Ar). O rearranjo feito por Oldfield saiu no álbum de 1997 – Plenilunio – e foi disco de ouro.

Luar Na Lubre é espiritual, cultural, brisa suave, aconchego e harmonia. E, sem nenhuma parcialidade, digo a vocês, uma vez experimentado, é como alcançar o sétimo céu, ou melhor, a sensação de terminar, como muitos relatam – o caminho de Compostela.

Membros & Instrumentos (Atualizados - 2017)

Antía Ameixeiras

Belém Tajes  voz;
Xan Cerqueiro – flautas;
Xulio Varela – bouzouki (tradicional grego), trompa, tarrañola (tradicional galego) e pandeireta (tradicional espanhol – semelhante ao nosso pandeiro, só que menor);
Belém Tajes
Patxi Bermúdez – bodhran (tradicional irlandês – semelhante ao tamborim), tambor e djembê (tradicional africano);
Antía Ameixeiras – violino;
Bieito Romero – gaitas, concertina (acordeão diatônico) e sanfona;
Pedro Valero – guitarra acústica, elétrica e espanhola, bouzouki (tradicional grego) e baixo pedal (linha de baixo que permanece numa nota durante uma mudança harmônica);
Xavier Ferreiro – percussão latina e efeitos.

Membros anteriores

Ana Espinosa – voz (1986-1996)
Rosa Cedrón – voz e violão celo (1996 – 2005)
Sara Louraço – voz (2005 – 2011)
Eduardo Coma – violino (1998-2016)
Paula Rey – voz (2012-2017)

Discografia (Atualizada - 2017)

O Son do Ar (voz: Ana Espinosa) – 1988
Beira Atlántica (voz: Ana Espinosa) – 1990
Ara Solis (voz: Ana Espinosa) – 1993
Plenilunio (voz: Rosa Cedrón) – 1997 (disco de ouro)
Cabo do Mundo (voz: Rosa Cedrón) – 1999 (disco de ouro)
XV Aniversario (voz: Rosa Cedrón + convidados) – 2001
Espiral (voz: Rosa Cedrón) – 2002
Hai un Paraíso (voz: Rosa Cedrón) – 2004
Saudade (voz: Sara Louraço) – 2005
Camiños da Fin da Terra (voz: Sara Louraço) – 2007
Ao Vivo (voz: Sara Louraço + convidados) – 2009 (2CDs + DVD)
Solsticio (voz: Sara Louraço) – 2010
Mar Maior (voz: Paula Rey) – 2012
Sons da Lubre nas Noites de Luar (misto: todas as vocalistas anteriores + convidados) – 2012 (3CDs + DVD)
Torre de Breoghán  A Luz dos Milésians – com a Orquestra Sinfónica de Galicia (voz: Paula Rey) – 2014 (2CDs + DVD)
Extra:Mundi – (voz: Paula Rey) – 2015
XXX Aniversario – Selección Especial de Temas – (misto: todas as vocalistas anteriores + convidados e novos arranjos para algumas músicas anteriores) – 2016 (2CDs)

Longa metragem

Un Bosque de Musica – 2004 – dirigido por Ignacio Vilar

Lista por T.S. Frank

Separei 10 músicas para você conhecer melhor o trabalho deste fantástico grupo.

1. O Son do Ar (vídeo aqui)
2. Roi Xordo (vídeo aqui)
3. Romeiro ao Lonxe (Sara Louraço & Diana Navarro) (Scarborough Fair) (vídeo aqui)
4. Galaecia (vídeo aqui)
5. Chove en Santiago (Rosa Cedrón) (vídeo aqui)
6. Costa da Morte (vídeo aqui)
7. Cantigas de Alfonso X (Rosa Cedrón no Celo) (vídeo aqui)
8. Canto de Andar (Sara Louraço) (vídeo aqui)
9. A Carolina (Schiarazulla Marazulla) (Paula Rey) (vídeo aqui)
10. Memoria da Noite (Rosa Cedrón) (vídeo aqui)

Adicionais (2014)

11. Sereas  (vídeo aqui)
12. Son das Augas (Sara Louraço no teclado) (vídeo aqui)
13. Cantiga do Neno da Tenda (Sara Louraço) (vídeo aqui)
14. Vía Láctea (vídeo aqui)
15. Santa María Loei (Paula Rey) (vídeo aqui)
16. Les Set Gotxs (Paula Rey) (vídeo aqui)

Adicionais (2015)

16. La Molinera (Paula Rey)



Adicionais (2016)

17. Dun Tempo Para Sempre - Nuevo Arreglo (part. Irene Cerqueiro)



Fontes:

Luar Na Lubre - Wikipédia Galega 
Luar Na Lubre - Wikipédia Espanhola
Site oficial do Luar Na Lubre

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