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sábado, 20 de julho de 2019

Anseios da madrugada

São madrugadas quentes, abafadiças, com lâmpadas amareladas. Um cheiro de remédio para sempre, insônia e dissabores. Não há declarações, nem bilhetes, nem ataques salpicados de ciúmes.

Bem que eu gostaria de uma xícara de café com um gosto que fugisse do óbvio das manhãs requentadas ou das elites falsificadas. Pretendo escapar, como minha voz imaginária, desses dias cotidianos.

Pensei em muitos cenários. Uma vida com um enredo mais instigante. Um jogo de detetives, um céu estrelado, rádio dos anos 60, festas dos anos 80. Os amores dos anos 90.

Eu quero ser uma Sabrina ou Carol, um pouco de dramaticidade, um pouco de comédia. De fato, eu só desejo mais ousadia, não de minha parte. Isso, talvez, eu já tenha de sobra. Está apenas guardada.

Se por um lado eu experimento um prazer intelectual solitário, com arroubos de mestres egocêntricos, machistas, tresloucados, parados no tempo... Por outro, estátuas de cera cercam-me: sem malícia, cheio de suas religiões hipócritas, esperando mulheres-escravas que possam parir doces famílias azedamente cristãs. Há uma juventude com um gosto pubo, virginal, demagogo. Cansei das feministas de farmácia, com seus movimentos sociais que levam ao vômito. Preciso das mulheres de verdade, com um feminismo real, culto, como o espírito dos anos 70. Chega das proibições da extrema esquerda, chega das loucuras fascistas da extrema direita. Chega, chega, chega!

Eu só quero a verdade, o prazer. Risos descompromissados. Um pouco da Via Láctea nas minhas mãos e boca.

Faça-me um milk-shake de chocolate com chantilly, com fundo de frutas em calda e uma cereja em cima. Faça-me cafés das manhã com waffles. Faça-me elogios decentes. Faça-me sua poesia.

E minha mente é atravessada por ondulações de devaneios, como em águas do mar.

Sou loucura que vai de encontro ao marasmo. Sou solidão que vai de encontro ao vazio de mil companhias. Sou apenas eu, em cores vívidas...

... Sou technicolor.



quinta-feira, 13 de junho de 2019

Do que não se pode ter (e nunca se terá)

Houve um tempo em que desejei somente alcançar o meu mundo ideal. Posso dizer que muito da minha vida foi baseada em uma utopia de libertação, com sentimentos avassaladores, aventuras douradas nos confins do espaço, ou, melhor dizendo, de dentro de uma cúpula na qual todo o céu abriria-se perante meus ávidos olhos, num desvelar mortal, um nirvana.

Por isso fui um baú nebuloso, guardiã de sentimentos, ressentimentos, lágrimas, esperanças, um pouco de vingança (talvez até mais do que possa ser relatado), amores não correspondidos, desilusões e muitos pedaços de mim. Esperei justamente pelo triunfo, o final de uma grande saga, a vitória dos humilhados e do coração partido. E foi dessa maneira que não resolvi o que deveria, não revidei, escondi a coragem, sufoquei de amargura. Esperei por um navio, que até veio, branco, grandioso, feito apenas de promessas, e que, mais adiante, naufragou, sucumbiu às rochas além, representantes divinas da realidade esmagadora.

O meu erro foi o de uma jovem mulher que almejou o que não poderia ter. Não era para ser, não me pertencia. Busquei um salvador. Basta deles! Estão mortos como assim quis o destino.

Foi-se o tempo das paixões. E tenho saudades do frisson, do frio na barriga, das madrugadas vistas pelas frestas da janela de madeira. Dos olhos azuis, das nuvens do leste, do céu cortado pelo caminho lácteo, do Arquivo-X, Sky Trackers, Espaçonave Terra...

Mas eu não me queria. Aspirava ter outra carapaça. Sempre infeliz, com quantidades astronômicas de defeitos. Nada de paz e quietude.

Passou-se o tempo e fiz-me por retalhos. Recebi migalhas, muitas. Esperei por conversas minguadas, por telefonemas, por mensagens. Um encontro qualquer. Gostei de muitos, recebi o nada. Enganei outros, disse inverdades, enterrei o asco e desfiz-me desses humanos como quem apenas livra-se de uma pedra no sapato.

Fechei a porta.

Às vezes aparecem os inocentes, patéticos, que não valeriam nem mesmo uma noite qualquer.

Hoje olho-me com mais aceitação, ainda longe do ideal. Engordei e estou tentando desfazer-me da imagem de que pareço um pequeno mostro-bola; o que são 5 quilos a mais? As celulites são apenas celulites.

A História tem-me ocupado por demais. É um desafio prazeroso, cheio de espinhos, de conflitos e que sigo como um cão fiel.

Só posso ter eu mesma, disso agora eu sei. Estou treinando para bastar-me, como deve ser. E, ao final, quem sabe, poderei ganhar um universo cheinho de mim em diversas outras versões.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Do curso de rios já vazios

Sketch of Circe, John William Waterhouse
1911-1914
Muito poderia dizer agora. Entretanto chega o momento em que o pouco brilho esvaiu-se de forma lenta e cortante, como pequenas folhas de outono sobre a pele que procura abrigo embaixo das árvores envelhecidas. Penso que viver é um deleite para poucos e uma grande maldição para muitos. E assim, desses prazeres que escolhem apenas uns poucos enobrecidos, o amor pulsa longinquamente, como um farol no cabo do fim do mundo, avisando aos navegantes infelizes que a sua procura acarretará sofrimento imenso antes da morte derradeira.

Ser triste é uma realidade que os tolos otimistas ignoram. São eles apenas espíritos enjoativamente alegres que merecem a máxima distância: comem rosas e regurgitam poesias baratas. O ser humano vil e decadente está por todos os cantos, isso sim, procurando vítimas perfeitas, que acreditam que a lama pode mostrar a lótus com a paciência devida. E essas penosas almas servem apenas como uma válvula de escape e de experiência para chegar-se ao maior nível de dor infligindo.

Pois bem, travesti-me com rochas. Mas desnudei-me para tentar voltar a sentir o frescor do mundo, deixando o meu interior para lançar-me por rios esvaziados, que trazem memórias borradas de um eu fantasioso e que alegrou-me apenas com a imaginação.

Como o canto das harpias, os avisos são muitos para não mais ter-me com essa esperança.

Feri-me, como o previsto por todos os oráculos. E voltei, mais uma vez, para minha concha de pedras com o dissabor das intrigas e das odiosas mentiras.

Em mim sobrou apenas um sentimento de humilhação profunda e de que não posso mais ficar em espaços em que existem tantas diferenças.

Se antes o meu mundo era um filme de David Lynch com personagens de mesma linha, hoje sou a própria reflexão da velhice de Ingmar Bergman.

Perdi-me e não posso mais ser o que planejei nos tempos imemoriais. Os sonhos e as paixões sucumbiram, voltaram-se para olhos mais jovens e belos. Serei, portanto, Circe.

Talvez tenha eu apenas a simples vontade de ficar para sempre em mim mesma e sepultar-me, sem honras, até que a poeira alimente-se da última gotícula de minha alma. Esse seria o meu final digno.

domingo, 28 de abril de 2019

O desalento irradiado em tons cinzentos

Há pouco tempo para escrever agora. Os cenários naturais são até favoráveis: nuvens cinzas ao leste, raios,  trovões e tempestades da madrugada. Entretanto sobra-me trabalho quase franciscano, desalento e gotas alternadas de tédio.

Quando chega-se para lá dos trinta anos, todos os seres humanos ao redor, particularmente os bem mais jovens, tornam-se extremamente desinteressantes. É como olhar um cenário vazio falante que tende a tagarelice odiosa. Deus, é como morrer todos os dias sufocada pelo fútil e despretensioso!

Ao contrário do que possa parecer, meus olhos não envelheceram. Porém não mais conseguem enxergar a beleza de outrora nas pessoas, aquelas esfuziantes e que despertavam os sentimentos dourados de que a vida era um mistério divino, digno de ser vivido, com um gosto de maçã e coalhada.

Tudo foi-se, ao menos, o humanamente palpável ao redor.

A vida necessita de intensidade, mistério, histórias instigantes, poesia e céus estrelados de antemanhãs frias. Existem muitas formas de achá-los, entretanto tenho que contentar-me com o passado, do mais recente aos resquícios de outras vidas.

A saudade não é, até aqui, fruto de uma dor somente do que foi perdido. É muito mais do que eu mesma posso compreender.

Esta existência traça linhas cinzas, de pouco fulgor, longe das histórias magníficas que eu costurei em um tempo de inocência.

Continuo a esperar algum reverso maravilhoso, uma viagem, um novo lugar e novas pessoas para que eu possa exercitar novamente a minha mais saborosa atividade: a observação.

Vivo dias de dor, de calmaria e de nenhuma aventura.

Motiva-me o futuro, apesar de tudo. Talvez lá encontre o meu eu vagante, numa outra terra, ou mesmo numa nova roupagem. Eis a eterna roda da existência e o sentido de precisar ser quem eu sou.


sábado, 6 de abril de 2019

A morte de mim mesma

Não posso ter tudo. De fato, nem ao menos possuir o mínimo. E assim passam os dias, cheios de compromissos, pouco dinheiro, desprestígio e uma convulsiva sensação de que o meu tempo foi-se.

E para onde? Talvez, e provavelmente, para um lugar inatingível.

Confesso que a falta do desejo dos outros corrói-me como ácido. E essa fonte de inspiração secou tão de repente que eu mal percebi. A solidão tornou-se um tanto quanto estranha, de um sabor suavemente amargo.

É uma época estressante. Faço muito para alcançar o que, tardiamente, decidi seguir. Muitas vezes parece que não passo de uma dessas caricaturas ingratas, acinzentadas, no meio de um ambiente em que as pessoas não estão sintonizadas comigo.

Quero arrancar minha pele, rasgar os meus músculos e queimar os meus ossos. Almejo recomeçar das cinzas, com uma nova aparência e identidade física. Assim, quem sabe, percebam a minha alma, minha essência, meu próprio eu que, arrisco, é digno de cafés, longos passeios, prazer e risos; histórias, camas, calor e tantas outras coisas essencialmente humanas.

Ontem esforcei-me demais, tive dor de cabeça e ânsias. Imagens de escárnio percorreram meus pesadelos. Através de uma janela vislumbrei a minha própria decadência, eu estava envelhecida em um limbo.

É uma dessas maldições de séculos com gosto de vermelho, tons de azul melancólico e o negro das profundezas.

Estaria eu morta para toda a humanidade?

Não. Estou morta para mim mesma. Eu só preciso reconhecer e aceitar.

segunda-feira, 4 de março de 2019

O ritmo da chuva

Dan Fogelberg Live Greetings from the West/1991
Se eu fosse você... Escutaria esse álbum. Tem no Spotify.
Eis que são dias de carnaval. As pessoas passam, cantam, deslumbram-se, tingem-se de luz e alegria. Encontram seus amores de um para sempre que durará uns três dias. E sim, a vida é dessa maneira a cada novo ano, enjoativamente colorida.

Observar tais acontecimentos é um belo exercício para a imaginação. O que será que aguarda essas pobres almas após a quarta-feira de cinzas? O choque da desilusão cotidiana, provavelmente. Entretanto se o mundo fosse feito apenas de realidade, não existiria a Arte, nem a Literatura e muito menos o Cinema. Não haveria poesia, nem cancioneiros apaixonados, muito menos a esperança solitária daqueles que esperam os navios retornarem, dia após dia, das longas jornadas pelo mar.

Viver é demasiado espinhoso para contentar-se somente com o que os olhos podem enxergar nos dias claros ou mesmo naqueles escuros delimitados por uma luz que projeta-se no quase nada. Não condeno o Carnaval, porém prefiro tê-lo ao meu próprio modo, em um ritmo de chuva que traz o frio, boas xícaras de café e gordurinhas que derretem no verão.

E essa passagem deixou o ato de escrever um pouco letárgico. Talvez seja uma falta passageira de vontade que retornou por um breve momentos ao escutar o Dan Fogelberg ao vivo.

Contudo não se engane! Há muito a dizer para aqueles que ainda querem e estão por perto, de alguma forma.

Por enquanto... Fico com as notas macias e diamantadas das gotas de chuva.


terça-feira, 1 de janeiro de 2019

É mais um ano!

Cá estou eu, em mais um ano, neste espaço de escrita. E lá vão-se, agora e realmente, quase dez anos de pequenos relatos, esses que podem ser, muito bem, a minha Micro História, um conceito novo que aprendi no curso de História. E, falando nele, digo que das minhas realizações acadêmicas iniciais, é a que até agora foi a mais feliz e saborosa, com um gostinho de torta de maçã e cafezinho da tarde.

Esse caminho de estudos leva-me a concretizações ainda muito particulares, assim como a muitas brigas para impor o meu ego (sim, muito grandioso). Entretanto é a primeira vez que eu sei que esses embates tornam-me segura de mim mesma, pois (não culpe-me por minha arrogância) sei como posso ser capaz e melhor. E, de antemão, o que pode impedir-me de ser reconhecida é o favorecimento dado a outros não tão merecedores (o que já, infelizmente, mostrou-se tão cedo). 

Ah... Criei trabalhos incríveis: falei sobre os manuscritos iluminados, explorei o meu inglês, passei madrugadas com pesquisas extraordinárias, impus a minha voz, debati sobre a Fome da Batata, na Irlanda, falei sobre o Cinema e suas concepções históricas, aprendi que não podemos fazer dos filmes documentos isentos de ideologia, entretanto podemos utilizar os mesmos para entender a sociedade na qual eles foram concebidos. Mostrei para a sala o James Dean e sua Juventude Transviada e também o David Lynch. Aprendi um pouco de Libras e conheci pessoas mais novas, muitíssimo mais novas. Um dos poucos momentos de tristeza nesse curso e que causou um específico desconforto espinhoso deu-se quando um certo jovem da sala, em conversas informais comigo, foi muito enfático ao falar da minha solteirice e meus trinta e três anos (não posso queixar-me do meu formato, foi dado-me um rosto muito bom!). Foi como se ele dissesse: "Eu tenho vinte anos e você está perto da morte e longe do despertar dos amores..." ou algo do gênero. Inquietou-me pensar que se fosse um HOMEM nas minhas condições, ele seria celebrado como um verdadeiro Deus, cobiçado em forma, pensamento e idade. O machismo, infelizmente, não está longe de acabar, mesmo entre os botões frescos de cravo.

Ainda continuo a trabalhar com mapas mentais e também sou bolsista do PIBID (Programa de Iniciação a Docência), acompanhando uma escola da rede estadual.

O novo governo nacional é um grande pesadelo, uma verdadeira distopia. É como mergulhar no terror. Passarei a tarde assistindo a filmografia e a nova série do Jim Carrey, Kidding. Estou agora mergulhada no universo dele. Ele é um ator excepcional e sua trajetória de vida merece um estudo. 

Passou-se mais um ano em que amei ninguém. Senti saudade da intensidade e fervor daqueles de outrora preenchidos por esse sentimento, mesmo que, na grande maioria, fosse unilateral, platônico e um fruto caramelizados da minha mente. Isso sim foi muito estranho. Será que estou no oceano da desilusão? Uma naufraga esperando apenas a morte? Ou falta-me a paciência e a limpeza dos rancores, a queima das recusas, o esquecimento das trocas e desprezo? São as reflexões que podem levar-me as respostas que preciso.

Por aqui, então, termino. E deixarei a primeira música que escutei nesse dia de muitos outros que foram enebriados pelas promessas e imaginação.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Aos amigos que nunca os foram - uma carta de despedida







S..., 09 de dezembro de 2018, em uma manhã estranha de um clima indeciso. 





Queridos (as) mestres (as) do cênico, espero que estejam todos (as) com boa saúde (o máximo que posso deseja-lhes). 

Não me vou demorar, serei breve.

Este é o meu adeus para vocês que participaram da estrada da minha vida apenas pelos motivos mais nefastos, desaguando assim nas baías mais profundas do fingimento, ingratidão e descompromisso. É chegada a hora de retirá-los (as) definitivamente dos meus pensamentos e reflexões sobre a negra alma humana. 

Após esses anos de convivências, desconvivências, reaparecimentos e posteriores desaparecimentos, a verdade não tardou a aparecer, pela boca daqueles (as) que vocês menos imaginam. Pelo que pude apurar, seus (suas) algozes disseram-me, enfaticamente, que nossos relacionamentos (de naturezas variadas) foram mais um nome na lista, daquelas quantitativas, que é usada pela falta de algo mais interessante. Soube também das suas artes no campo da esperteza e de conseguirem feitos inimagináveis para suas limitadas capacidades simplesmente por fisgarem as pessoas certas. Parabenizo-os (as) por isso, pois a dissimulação não é mesmo para todos. 

Bem... Espero que nossos caminhos nunca mais cruzem-se. Seria, para mim, muitíssimo desconfortável olhar seus rostinhos tão dóceis e angelicais (e enganadores tal como Satã). O que posso dizer é que, uma vez, depositei-lhes muita fé e que, agora, minha boa opinião foi perdida para sempre. Não há reparação. 

E é desse modo que nossas vidas caminharão daqui para frente e, do fundo da minha alma, desejaria muito apagá-los (las) das minhas lembranças. Entretanto só posso enterrá-los (las) no fundo da minha mente e é exatamente isso que faço neste momento.

A única coisa que peço é que o destino trate de não nos reunir em outra vida. 

Estou pegando o trem de volta para encontrar-me longe de todos (as) vocês, anunciadores (as) da desilusão, iconoclastas das boas intenções e semeadores (as) das ervas daninhas. 

Até um breve inexistente. 

Com todo o escárnio,

T.S. Frank


terça-feira, 20 de novembro de 2018

Das paixões e seus substratos

Merry-Go-Round, 1916, de Mark
Gertler. Tate Britain.
"A mulher apaixona-se através de seus ouvidos e o homem através de seus olhos." (Knowing that women fall in love through their ears and men through their eyes. Confessions of an optimist‎ - Página 186, de Woodrow Wyatt - Publicado por Collins, 1985 - 364 páginas.)

É mais uma dessas tardes abafadas e mórbidas passadas excepcionalmente em minha casa. Estou mergulhada em um tédio abissal e minha alma reclama insistentemente pela falta das figuras apaixonantes, dignas de olhares e desejos secretos. É, de certa forma, preocupante chegar à conclusão de que, mesmo mergulhada neste cotidiano jovial e vivaz, meus olhos padeçam pelo desnudar pulverizante de corpos quando estes mesmos abrem a boca. É como se toda a animação fosse estrangulada e deixada numa cena odiosa de um crime sanguinolento. 

Então lembrei-me dessa frase acima do britânico Woodrow Wyatt (1918-1997) e que caiu tão bem nessa situação como luvas de seda feitas sob medida. 

A paixão é uma espécie de feitiço poderoso que opera distintamente entre os sexos. Os homens deixam-se levar pelas formas, contornos, e perdem-se debilmente pela beleza padrão de sua época ou por aquela dos seus sonhos eróticos. Mais tarde, quem sabe, analisam a figura de seu deleite pela ótica da ideologia e, se não houver compatibilidade, colocam-lhe fita na boca e tudo estará certo. Já as mulheres encantam-se por palavras (de uma forma ou de outra). E como elas... Assim também sou.

Os seres humanos apaixonantes e dignos de adoração fazem das palavras dentes-de-leão que flutuam suavemente no ar para depois acariciarem a pele do rosto numa tarde de verão.  E agem ardilosamente por meio de seus sorrisos cativantes, gestos sensuais levemente camuflados e discursos românticos preenchidos de cultura e forte personalidade. É através deles que renasce a esperança de que o prazer não está mergulhado na lama da vulgaridade, das extravagâncias, dos músculos, ou corpos torneados. Essas mesmas pessoas são gentis por natureza, entretanto não lhes fogem, pelo próprio egoísmo e vaidade, arroubos de superioridade, vez ou outra, que nunca passam de deliciosas e crepitantes manifestações de seus espíritos. Suas companhias preenchem os vazios da monotonia, inspiram e aceleram o coração. O amor talvez nasça dessa maneira, suponho eu. Contudo afirmo veementemente que o prazer em sua essência mais mítica é alcançado dessa forma.

E assim a vida torna-se um moinho de vento, esperando sempre a próxima lufada para continuar a movimentar-se. E é aí que mora o grande perigo, pois as paixões desse tipo não produzem apenas felicidade, satisfação e êxtase. Essa equação também fornece suas impurezas: tristeza, desesperança, desilusão e saudade. Usa-se o que é nutritivo e saboroso primeiro para depois cair no abismo da abstinência.

Sim, eu estou nessa fase sombria, com todas as pessoas transformando-se em rabiscos mal desenhados, que proferem emaranhados de letras intraduzíveis e que se liquefazem ao pôr do Sol.

A solidão mais estranha é aquela que consegue, mesmo entre as multidões, impor sua presença e destruir qualquer protótipo de paixão ao mostrar avalanches de iconoclastia.

Poderia mergulhar sem restrições em um mundo mais simplista nesse quesito. Mas isso não será possível, pois fugiria de mim mesma e entraria em negação. 

Respiro um saudosismo corrosivo. Porém a vida seria tão diferente se eu aceitasse uma tola paixão? 

Muda-se o cenário, os atores... E a história continua a mesma. Não adianta enganar-se, porque a vida é cíclica como a valsa energética de um carrossel, as estrelas impossíveis de Quintana e a sentença de Wyatt. 



sábado, 3 de novembro de 2018

Canção de Ninar (Sleepsong) - Secret Garden

Dentre as preciosidades simples da vida, há, pois sim, a música. E são encantadoras as canções melódicas que embalam sonhos doces juvenis, desses que guardamos longe, e desesperançosos, da triste vida adulta. E que voltam, vez ou outra, para mostrar-nos que, apesar dos dissabores e desenganos, a vida ainda continua...

Lay down your head
And I'll sing you 

a lullaby
Back to the years
And I'll sing you to sleep
And I'll sing you tomorrow
Bless you with love
For the road that you go...

Deite sua cabeça
E eu cantarei para você 
uma canção de ninar
Voltando no tempo
E eu cantarei para você dormir
E eu cantarei para você amanhã
Abençoarei você com amor
Para o caminho que você trilhará...

(Sleepsong por Secret Garden, álbum Earthsongs/2005, 
compositores: Brendan Graham e Rolf Lovland)


sábado, 6 de outubro de 2018

O sistema, a desconstrução e a desilusão resultante

"Covardia é o medo consentido; coragem é o medo dominado." (la lâcheté, c'est de la peur consentie; et le courage n'est souvent que de la peur vaincue - Nos filles et nos fils: scènes et études de famille‎ - Página 66, de Ernest Legouvé, Gabriel Jean B. Ernest W. Legouvé, Paul Philippoteaux - Publicado por Hetzel, 1878 - 346 páginas)

Hoje foi um dia de duas faces... E eu pensava nos vários acontecimentos e sentimentos estranhos que inebriavam o meu ser enquanto eu caminhava de volta para a minha casa nesse final de tarde tingido pela suavidade dos tons pastéis. 

Minha mente estava enegrecida por conta de uma desilusão extremada, cheia de um pesar melancólico e agoniante. Naquele momento, eu só conseguia engolir um pouco de café e determinar que o mundo não passava de uma aberração que levava-me a essa esperança inútil de que finalmente eu tivesse encontrado algo que valha as minhas forças. E, num golpe mortal, quando menos espero, fatos do sistema apareceram e a minha vida caiu em lamúrias por uma desgraça intelectual sem precedentes. 

Talvez eu seja apenas uma pessoa que tem, de certo modo, uma segurança desnecessária com as palavras, o que pode ser bem o meu fim e a minha desqualificação. Antes eu lidava com números, cálculos e uma infinidades de impessoalidades e restrições e isso criou-me um anseio de mergulhar em algo mais criativo. Agora, com tudo o que eu sei (mais uma vez) dos bastidores, parece que todo o meu trabalho presente e vindouro estará sempre condenado a julgamentos de primeiros e terceiros e nunca (e sem exageros!) terá uma excelência.

Estarei eternamente condenada a essa tão rápida decepção? Coloquei (sem dar-me conta) uma venda nos olhos por causa do ânimo do espírito? Assim como um vendaval que é anunciado pelas nuvens carregadas do leste e ignorado imediatamente pela beleza da imagem de seu mensageiro?

Sim, uma parcela da culpa provém da minha ousadia em achar que a maioria das críticas sobre mim são injustas ou feitas por pessoas não dignas. É da minha natureza raramente concordar em primeira instância e viver à beira do abismo do sentido contrário. Enquanto isso, os mais ressabiados tendem a escolher a estrada mais fácil do obedecer. Sim, a covardia é fruto de um medo ainda indomado e que espalha-se entre os mais jovens pela imposição dos mais experientes, donos de um certo tipo de controle. Bem sei que estou longe de conter todos os meus receios, mas alguns estão devidamente atenuados. Não temo mais as represálias que são comentadas pelos corredores. O acovardamento é deveras odioso para que eu aguente o seu peso. Entretanto salvaguarda-me põe-se necessário quando o entorno é só terror.

Eu bem queria ser um desses cavalos livres que andam pelo deserto, sem identificação, peso e conflitos aparentes; apenas vivendo o dia após dia.

Desejo não lembrar meu nome e nem mesmo quem eu sou. E essa negação de mim mesma é o pior dos desencantos, pois é o produto do maldito resquício da dominação alheia.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Monocromia

São as madrugadas mais quentes do ano. E o estilo veraneio estabeleceu-se de forma estridente. Dizem, então, as boas e más senhorinhas que é primavera, mas cá estou a duvidar muito, pois nem mesmo vejo as tão brancas flores e muito menos as coloridas, aquelas mesmas do campo, do sertão, que brotam nas estradas da vida e do consolo das lágrimas.

Não posso estender-me muito, pois sim. Tenho muitos afazeres e toda uma carga intelectual para absorver.

Saudades batem à minha porta; de quem? Bem eu não sei ao certo. Muitos rostos foram embora. E agora as faces são muitos jovens e fora do meu próprio contexto. Lá estão todos em uma linha muito à frente do meu horizonte.

Preciso de um ídolo, uma imagem de adoração, daquelas para desejar a carne e unir o espírito, sem nenhuma amarra dessas que prendem muitos seres humanos a dogmas e preceitos que apenas afastam e deixam muito amargor.

Tudo não passa de frivolidade e falta de berço. A polidez esvaiu-se e nem uma gotícula sobrou. Ou as moças bonitas são pura perfídia ou cristalina insipiência.

E o reino dos doidivanas e lunáticos continua simplesmente o mesmo.

Entretanto... Deixo para o final uma dessas canções, que, se fosse em outro mundo, já teria dado-me uma dança ou uma boa conversa a luz do luar. Só que aquele outro homem bonito, de outrora, de rosto faceiro, foi-se e nunca mais fez-se figura.

Só resta-me mesmo o desalento e o dissabor de uma vida monocromática adiante. 




domingo, 8 de abril de 2018

Divindade

Apolo em sua carruagem (1685)
Óleo sobre tela
Luca Giordano
Museu de Belas Artes de Boston/EUA
Meu amor não consumado
Tinha um rosto vívido,
Cabelos feitos de Sol
E olhos do Oceano.

Criou a primavera
E o outono acarvalhado
Deixou o inverno lacrimoso
E o verão de Cassiopéia.

Era um Deus do Olimpo,
Apolo em sangue e carne.
De um sorriso abrasador
E palavras reconfortantes.

Ainda lembro-te
Parado à porta
A fazer-se efígie
Imaculada e idolatrada.

Foste de outras,
Tantas outras.
E de mim
Apenas poesia.

Perdeu-se tua figura
Que era minha morada
Apagou-se tua face,
Farol de muitas caminhadas.

Findou-se a devoção,
Assim como meus sonhos
De insanos devaneios.

Vivo agora de lembranças
Daquele que nunca tive
E que não mais sei.

Sou migalhas de utopia
De uma ingrata vida
Que fez-me só solidão.

T.S. Frank




domingo, 10 de dezembro de 2017

Triste, Louca ou Má

Ainda lembro-me daqueles sonhos românticos que espalhavam-se pela névoa da manhã. Era uma época juvenil e inocente. Não culpo-me mais por um dia tê-los cultivado e não os chamo mais de ilusão. Dentro de mim, tudo era poesia, liberdade e prazer.

E este tempo findou-se. Foi selado e guardado. E culpados existem, muitos até, conhecidos e desconhecidos, com seus nomes, sobrenomes, exalando o cheiro característico dos machos.

Gravei cada frase em um registro único e mental. Eis que há de tudo, de insultos puros e diretos até o machismo velado disfarçado de gestos marcados pela singeleza e gentileza,

E nesse universo, o meu novo vício surge: a novela Do Outro Lado do Paraíso, de Walcyr Carrasco. Ela é baseada no livro O Conde de Monte Cristo (1844), do francês Alexandre Dumas.

Assim, apresento a nova heroína da teledramaturgia brasileira: Clara. Difícil não identificar-se com ela, pois carrega um pouco de cada uma de nós.

Clara foi vítima de um relacionamento abusivo. Casou-se com seu algoz que travestiu-se de príncipe encantado. Ela foi estuprada pelo marido na noite de núpcias e apanhou muito dele ao longo do relacionamento. Por ser uma moça pobre que uniu-se a um homem rico, ela constantemente culpava-se, dizendo que não estava à altura dele. Precisou conviver com seu ciúme doentio e também passou por outro tipo de violência doméstica da qual muito não se fala: a violência patrimonial. Tudo foi-lhe tirado, sua herança (uma grande mina de esmeraldas), o filho e a liberdade. Foi interditada, através da corrupção, e considerada louca. Foi jogada em um hospício. Conseguiu escapar, ganhou uma grande fortuna e agora chegou a hora da sua vingança.

(um dos meus temas favoritos nas Artes é exatamente a vingança e todos os injustiçados que a praticam têm a minha admiração. Mas este é um assunto para outra hora...)

Nossa protagonista possui um tema musical em forma de hino. E é sobre o mesmo que gostaria de falar...

... O título desse texto.

Triste, Louca ou Má, uma canção do grupo Francisco, El Hombre, é uma referência aos adjetivos recebidos por mulheres que confrontam essa noção de que o homem, a casa e a carne são as coisas que as definem. 

Eu mesma já recebi esses adjetivos.

Uma vez um determinado rapaz leu alguns dos meus escritos. Ainda ecoa a palavra triste das poucas conversas que tive com ele. Ora, uma mulher que escreve sobre suas experiências e sentimentos não pode estar procurando outra coisa a não ser o consolo de um pênis e a proteção que somente o sexo masculino pode oferecer. Em sua cabeça, meus relatos mostram-me como uma fêmea desolada e amargurada.

A palavra louca, bem, foi uma das mais empregadas. Eu sofri, durante dois relacionamentos de naturezas bem distintas, violência psicológica. O primeiro foi o mais marcante. Continuamente eu era chamada de insana, mesmo com toda a razão ao meu favor. É o que chama-se hoje de de gas lighting, uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas e seletivamente omitidas para favorecer o abusador. Há o uso de mentiras com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria mente, percepção e sanidade. Vem em minha memória certa ocasião em que perguntei a esse homem sobre o sistema operacional de um determinado aparelho celular, algo muito trivial e corriqueiro. Mal fechei a minha boca e esta pessoa começou a alterar-se e chamar-me de desvairada e incapaz de lembrar que ela tinha explicado-me sobre aquilo anteriormente. Eu entrei num estado de estupor e choque. E mesmo sabendo que nunca foi-me explicado nada sobre o assunto, comecei a pedir desculpas e a duvidar de mim mesma. Fatos parecidos com esse foram tão frequentes que eu pensava não ser tão inteligente. No meu segundo relacionamento, se eu, por exemplo, não gostava de algo que meu ex achava muito bom, ele falava sem parar que eu era um embuste. Ele também usava frases isoladas e que foram ditas em um determinado contexto por mim como uma arma de repressão. Era um ciclo sem fim de tentativas de uma espécie de lavagem cerebral. Situações bizarras aconteciam o tempo todo. Se eu tinha cólicas menstruais e reclamava disso, escutava - Você está exagerando. Nem está sentindo dor. Isso é coisa da sua cabeça!  (Falo mais sobre esses fatos nessa postagem aqui - UM NAMORO FALIDO E VIOLENTO).

Já a denotação má... Tenho uma historinha boa à respeito. Em uma ocasião eu disse que não me dava bem com crianças, que não pretendia ter filhos e que elas pareciam muito ameaçadoras. Um colega taxou-me de malvada, que parecia que eu tinha um monstro dentro de de mim.

"Triste louca ou má
Será qualificada
Ela quem recusar"


Homens rejeitados podem ser muito cruéis. Eu já lidei com alguns. E tenho tantos relatos... Um desses moços, incapaz de dá-me prazer, diante da minha sinceridade e posterior recusa, usou a masculinidade ferida para despejar - você é frígida! 

"Seguir receita tal
A receita cultural
Do marido, da família
Cuida, cuida da rotina"


Um trecho perfeito para definir a cultura maldita da sociedade patriarcal.

"Só mesmo rejeita
Bem conhecida receita
Quem não sem dores

Aceita que tudo deve mudar"

O processo de reconhecer-se vítima de violência por ser apenas mulher é extremamente complicado e doloroso. Nesse meio, muitos dirão que você, por não querer agradar a um homem, por não pintar as unhas, vestir-se e maquia-se para ele, não passa de uma MAL AMADA ou, de forma simples, como disse meu ex-namorado, não sabe o que é ser uma mulher.

"Que um homem não te define
Sua casa não te define
Sua carne não te define
Você é seu próprio lar"


Uma mulher não precisa de um homem para ser respeitada, digna e completa. Ela basta-se, reside em si mesma, seu templo sagrado. Qualquer um que diga o contrário, mesmo com juras de amor, enxerga em sua frente apenas um objeto que quer possuir a todo custo.

"Ela desatinou
Desatou nós
Vai viver só"


Um dos trechos que mais me tocou. Em meu último relacionamento, meu ex, ao perceber que o fim estava próximo e a minha distância, sempre repetia - você, sem mim, vai viver só. Nunca vai encontrar ninguém com esse seu jeito e essas ideias. Você está destinada a solidão...


"Eu não me vejo na palavra
Fêmea: Alvo de caça
Conformada vítima
Prefiro queimar o mapa
Traçar de novo a estrada
Ver cores nas cinzas
E a vida reinventar"


E é assim que cada mulher deve agir, nunca conforma-se com a violência de qualquer aspecto e natureza. 

Sim, precisamos de renascimento através das nossas próprias ruínas, ter metas e destruir a roda da opressão.

Não é um caminho fácil. Haverá dedos que apontarão e bocas que jorrarão as denominações mais nocivas. 

Um passo de cada vez, por menor que seja, será o começo de uma grande nova vida.





terça-feira, 31 de outubro de 2017

Erotismo

Álbum Lovedrive/1979
Scorpions
A madrugada abriga-nos
em beijos ardentes
com notas lascivas
de dizeres estridentes .

Consumo teu espírito
e penetras tu a minha carne
para terminamos em arcos
brilhantemente goticulados.

Nua estou
e em nuances
formo-me.

Somos a representação
da sedução das horas
mais adentro.

Venhas a mim
e mata a tua sede
toma-me em
corpo e deleite.

Mas assim
que a Aurora
despontar
de mim
nada lembrarás.

Sou apenas teu desejo
e tua utopia.

Porque no fim...
Seremos apenas
veraneios de solidão.




quinta-feira, 6 de julho de 2017

Conversa Cafeinada - Minhas novidades e algumas histórias sobre o comportamento de muitos seres humanos pequenos


Há algum tempo não venho por aqui. Então vamos, você e eu, tomar uma xícara de café quentinha, viajar no tempo e ir para uma época em que tudo era muito mais romântico e simples. 

Deixe que comece eu, por assim dizer...

Mudei de médico e agora é uma médica. Estava muito aflita pelas dores na coluna terem piorado e precisava, mesmo que fosse pagando, de palavras mais acolhedoras sobre o meu estado. Achar um bom profissional é uma loteria e nisso tenho experiência. Essas visitas para tratar a saúde são um desgaste só. Pelo menos, dessa vez, achei alguém com mais suavidade e que explicou-me com mais detalhes o que tenho.

Isso foi há quase um mês e estou bastante medicada com todos esses remedinhos coloridinhos e pomposos, dignos de uma boa hipocondríaca como eu. Uma segunda visita está agendada para semana que vem.

Essa é um das partes corriqueiras da vida e para qual não há escapatória - uma hora ou outra ela irá acontecer.

Já outras... Por Deus! São momentos bizarros protagonizados por criaturas saídas das profundezas abissais da falta de classe e de trato. Mas nem por isso deixam elas de ser as protagonistas de histórias curiosas sobre o modus operandis desses bufões modernos. Eis uma...

Em um dia qualquer, quente e enfadonho, foi-me apresentado um moço estudante de pós-graduação. E antes que eu entre nas linhas principais, não preciso dizer que sou quem sou. De nada importa-me a presença de novas pessoas, serei o mais formal possível e respeitosamente distante, observo primeiro, olhos e língua, e não vai sair de mim (a não ser que esteja sofrendo com encefalopatia espongiforme) sorrisos escancarados e expressões histriônicas (Ai, como isso é cansativo!).

Continuemos...

Depois de conversas e deste mesmo ser vivente apresentar-me um conhecido seu, nessas andanças pela busca de bons lugares para tomar um brisa fresca na face, lá pelas tantas da noite e já quase na despedida, ele fala que pareço arrogante e um tanto convencida. Que belíssimo julgamento, não é mesmo?

Você pode agora falar: "Tu mesmo gostas de sinceridade!".

Sim, é claro. Se os julgamentos forem concisos e bem fundamentados, as críticas, mesmo as mais espinhosas, não podem ser desvalidadas. Porém leia só as bases deste energúmeno, que eu digo certamente, são as mais rasas e míopes que já ouvi...

Esta pobre alma disse que eu fui muito distante, que não sorri muito, ou no popular mesmo, "Não mostrei meus dentes". E que isso era ruim e tornava-me uma pessoa prepotente. Em um único momento de lucidez nessa desfaçatez todinha, ele supôs que poderia ser um modo de defesa ou um jeito único. Ora só, temos um Sherlock!

Gente, que patacoada! Era só o que faltava, ser julgada como um péssimo ser humano apenas por não pavonear por aí... Prefiro ser odiada milhões de vezes então.

E a cereja desse bolo podre é que este mesmo homem é um desses galanteadores deslizantes esperando só uma oportunidade para fazer-se, um antagonista no quesito charme e detentor de um jeito malandro nada buarquiano.

Como diria Kurtz no livro O Coração das Trevas (Heart of Darkness/1899):

O horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror...

No mais, comprei uma camiseta com o desenho de Moby Dick e veio-me um moletom danadíssimo de feio. Enviei para troca, o que foi até descomplicado. Estou aguardando a chegada do produto ao destino para ter meu vale compras. Também tenho estudado para as primeiras provas da minha pós em Contabilidade Pública. Às vezes acho que deveria não ficar tão chateada por estar formada nessa área, afinal, eu tenho um diploma por uma universidade federal e fui uma ótima estudante nessa área, mesmo que a não queira de jeito nenhum. Talvez tenha que orgulhar-me mais dos meus feitos e parar de dar combustível para as dragas de plantão.

Esse semestre de Física está altamente desinteressante. O mais do mesmo, um bocado de gente jovem com uma personalidade tão fútil como as das irmãs Kardashians e o conhecimento mais ralo que sopa no final da madrugada. Trata-se, só pode, de uma epidemia descontrolada de pessoas assim. Parece até mau uso da modernidade, ou a preguiça reinante ou a falta de uma genética mais favorável, vai lá saber-se sobre esses mistérios nada desejáveis da vida.

O meu maior desafio tem sido controlar a minha vontade de agir como iconoclasta de algumas figuras discentes de Física - as lendas do bom coração e do humanitário e que de tão falsas fazem as declarações de inocência do Michel Temer e do Aécio Neves orações para São Francisco de Assis. Eu poderia ser o Snowden desse curso... Só que... Eu quero apenas a paz... E quem quiser sair da ilusão... Que procure desconfiar dessa benevolência desmedida.

Comprei alguns livros que há tempos tenho vontade de ler, um é Coração Desnudado, do francês Charles Baudelaire, e o outro é Música na Noite e Outros Ensaios, do inglês Aldous Huxley. Estou só esperando a Amazon entregar.

Sobre os homens, bem... Eles ainda parecem muito instigantes para observação e, vez ou outra, bons para degustação. Todavia o material ao redor, salvo uma ou duas exceções, não ajuda muito.

Das exceções, confesso que estou com saudades de observar um certo jovem, na casa de seus quase 20 anos. Ele é um desses espécimes raros, brejeiro todo, com um sorriso que faria qualquer velho e petrificado coração bater por uns bons minutinhos. Por onde quer que ande este Adônis, conserve Deus ele na aura do natural e na ignorância dessa idolatria. Aquela tez dourada não necessita de envaidecimentos e muito menos teatralização.

Comprei um DVD de um dos últimos concertos do Everly Brothers. Sim, eu ainda compro DVDs.

Por hora, é isso que tenho para contar. Espero que as suas histórias sejam menos desafortunadas e mais saborosas que as minhas.


quinta-feira, 25 de maio de 2017

No palco da dor crônica e outras tristezas cotidianas

A vida, em um dia qualquer, foi soprada em nossas narinas e, como um presente delicado e nobre, não pode ser rejeitada e muito menos amaldiçoada. E qualquer ação que a danifique por vontade do novo proprietário é vista como um ultraje dantesco, não importando que este vento motriz seja um vale cheio de estradas navalhadas, com um horizonte cinzento, árvores mortas e águas turvas de lamentações e lágrimas.

Estive pensando nessa descrição e como ela é caprichosa e cheia de mistérios nas entrelinhas. Antes de possuirmos essa consciência, talvez fervorosamente pedimos pelo renascimento e por outra chance. Contudo a hipótese mais condizente é aquela do grande empurrão inesperado para tentarmos aprender o que foi deixado de lado ou incompleto.

Dizem alguns que somos todos concebidos pelo amor. Bem utópica esta ideia, mas não há de negar-se a beleza de tal proposição. É como adentrar a história de Psiquê e o Cupido.

Sim, existem alguns afortunados originários dessa fonte - e como são eles cobertos por olhares de inveja. Porém emergimos, recorrentemente, por consequência somente do prazer alheio unilateral e egoísta. É como ser contratado, por tempo indefinido, para uma peça teatral. E nessa turnê há toda sorte de atores e atrizes, um poço de não empatia, além da encenação que pode ser uma tragédia grega ou um drama satírico.

Fiquei a repassar todo este cenário e a maneira como ele encaixa-se nesta minha atual existência.

Em qual ato está a minha dor crônica? Será que ela desaparecerá, se desaparecer, antes dos aplausos finais?

Há seis anos ela reina absoluta frente as ribaltas, regida por frenesis senoidais. E estou tão farta que eu gostaria de dissolver-me e virar, por alguns instantes infinitos, partículas douradas de luz.

Hoje estou em cartaz com este monólogo e minhas palavras atingem as vazias cadeiras. E eu chorei rios que desemborcaram em um mar rubro de angústia e medo.

O único lugar em que posso ser meu eu essencial, mesmo fragmentada, é por trás das cortinas, bem onde há os velhos caixotes. Minha imaginação e minha alma saem desse teatro em ruínas e condessam-se em uma nuvem que flutua por outros espetáculos que mostram vidas doces e normais, cheias de prazeres e sorrisos, amores e amantes, onde não há espaço para nenhum tipo de dor.

Entretanto há um grande perigo em visitar constantemente minhas próprias ilusões - elas são perfeitas e nascem do ato de vestir-me com roupas que não foram feitas para minhas medidas. A fantasia irá rasgar-se mais cedo ou mais tarde, quebrando as barreiras mal feitas da auto proteção. Rajadas de realidade ignorada matam tanto quanto a própria realidade cruel.

O meu mal crônico rasgou minhas vestes. E agora sinto-me prisioneira de um lugar repleto de veracidade que mostra manhãs de escárnio e noites de gritos sufocados.

E está proibida qualquer queixa sob pena de represálias. E falar sobre o que sente-se, segundo os diretores, é o maior sinal de fraqueza de uma atriz que enfrenta a linha tênue do fracasso e esquecimento.

E em quais outros tablados eu já pisei? Estas pessoas que conheço estavam lá? As mentes e corpos que amei também estão aqui? Amam eles, agora, outros daqui ou os que estão longe desses muros? Bem... Respostas faltam-me.

E essa dor duradoura esmaece meu coração e maltrata os pequenos brotos de sentimento. Lá estão eles, franzinos e temerosos. Famintos, precisam nutrir-se de uma confiança quebradiça que os levará ao declínio.

Eis que chega a noite com seu véu negro e brilhantemente pontilhado. Escuto o som de algumas luzes a serem desligadas. Mas há uma que nunca se apaga, mesmo envolta em grandes conflitos e males - uns chamam de felicidade... E eu de esperança.


terça-feira, 2 de maio de 2017

In perpetuum mobile

O que se faz com um punhado de felicidade?
Uns docinhos merengues coloridos
com um gosto tão enjoativo
que dá uma certa azia.

E o que se faz com um bocado de tristeza?
Uma poção azul metálica bem venenosa
de amargar toda a boca
e morrer só de desgosto.

O nada nunca será suficiente
e muito menos o tudo.
É um acabar-se de exagero
de muitos que querem o mundo.

Eu rejeito a felicidade
como um gato preto
que sabe por instinto
da morte na encruzilhada.

Eu abraço a tristeza
como um peregrino
cego em sua fé
e vazio de confiança.

Um extremo, o oriente
E na outra ponta, o ocidente.
E nunca quero eu o centro
por teimar em não desvelar.

Mas não há como negar
que se um não agir
o outro não existirá.

No fim, meu coração dramático
é um poço de alquimia
que explode todo dia.

A felicidade tem fim
e a tristeza, bem...
Quem sabe.

T.S. Frank




domingo, 22 de janeiro de 2017

De quem é a culpa?

Eu tenho muitos sonhos recorrentes. A maioria é como ver um filme do David Lynch. Eu até já descrevi um aqui no Blog (link para a postagem aqui). Só que há um cenário que entra em um modo chamado looping.

Eis o relato...

"Eu acordei bem angustiada. De fato, o sonho todo foi sufocante e intenso. Eu estava revivendo um terror juvenil – a escola. Lá estavam as mesmas pessoas que um dia transformaram minha vida em um inferno sem precedentes, deleitando-se todos em pura maldade. Tudo era igual, a sala, as árvores, as ruas... Eu estava imersa no fracasso total, questionando os métodos, não entendendo o conteúdo, odiando os professores, faltando às aulas. Eu fui uma aluna exemplar na vida real. Só que, neste pesadelo, eu era um ponto fora da curva. A sensação de inquietude e desespero reinavam. Eu estava na ponta de um abismo de conflitos existenciais. Eu tinha medo que meus perseguidores arrancassem os meus desejos, afinal, eles estavam novamente ali, tão próximos. Parecia mais um jogo sádico. E, mesmo com toda a tristeza que pesava dentro de mim, eu estava perseguindo a Lua - grande e paradoxal - que estava aproximando-se. Meus olhos não saíam do céu. E era uma espera conflitante, cheia de dúvidas. Pedi a quem estava próximo para chamar-me quando ela surgisse. Mas não fizeram isso por mim - eu mesma tive que achá-la no firmamento. Eu, finalmente, estava prestes a colocar minhas mãos naquele astro imenso e significativo - tudo que eu sempre quis. Porém, de repente, saí e deixei para os outros, pois tinha medo e uma sensação de frustração. Eu estava abandonando as recompensas de toda uma espera. Não existia mais prazer e muito menos olhos para contemplá-la."

Após despertar, eu tive um lampejo de felicidade ao constatar que não era real. Só assim todo o peso e angústia foram dissipando-se. Fiquei horas pensando no que tinha acabado de acontecer e o que tudo aquilo significava. Então eu pesquisei no Google, achando alguns significados:

Sonhar com o passado - o sonho de viver no passado indica reflexão sobre alguma coisa que não foi resolvida e que, aos poucos, vai descortinando-se na própria mente. Sonhar vivendo no passado possui o significado de uma possível regressão e de uma vida diferente.

Sonhar com pessoas do passado - ver pessoas do passado em um sonho indica incertezas profundas quanto ao futuro. Somente quando estamos preocupados com o futuro é que nos voltamos para o passado. A incerteza é uma das maiores tiranas dos homens e os persegue para sempre, posto que a única coisa que temos de concreto é que um dia deixaremos esta vida. Sonhar com pessoas do passado é desnudar anseios e vê-los diante de nós com um ponto de interrogação enorme, fazendo a velha pergunta existencial: ser ou não ser!

Sonhar com a Lua - sonhar que procura a Lua e não a encontra significa que o seu momento é de baixa e de grandes decepções. Sonhar que está contemplando a Lua significa que sua alma está sentindo-se mais livre e espontaneamente carregada de boas energias. Neste contexto, pode-se abrir um precedente que nos faz refletir sobre a capacidade de evolução.

Apesar de todo o misticismo envolvido nas interpretações, não pude deixar de notar a grande semelhança com os acontecimentos atuais e o meu próprio estado de espírito.

Há um tempo eu venho fazendo-me a pergunta: de quem é a culpa pela tristeza da minha vida que reflete-se até mesmo no sono?

Se eu fosse uma religiosa fervorosa, eu diria que a culpa é totalmente minha. Talvez se eu fosse a um psicólogo, ele diria a mesma coisa, mas de uma maneira mais suave.

Quase cotidianamente, convidam-nos a achar que somos exclusivamente o nosso próprio inimigo. E que, para aniquilar essa personalidade destrutiva, perdoar em massa é a única solução. O resto é seguir em frente. Parte dessa cartilha de martírio e desnudez é necessária sim. Mas segui-la à risca é tornar-se um bobo desnecessariamente.

É claro que perdoar e apagar as mágoas passadas retira um peso do próprio corpo. Afinal ninguém quer ser Atlas. Contudo estes dois atos devem ser feitos com cuidado e refinamento justamente para ajudar e não deixar a sensação de vulnerabilidade e de uma pessoa que esquece tudo facilmente.

Eu não posso retirar o passado e a lembrança das pessoas más de mim. Eu gostaria, entretanto não posso.

Eu consigo, somente, amenizar algumas dores e desculpar algumas que mostraram merecimento. Tolice grande é perdoar aqueles que não admitem o erro, que acham que estão certos e orgulham-se de ser opressores.

Está semana, como comentei em uma postagem anterior, estava preparando-me para conversar e pedir desculpas para alguém que há muito não falava. De fato, eu também o perdoei por uma história do passado. E sabe por quê? Pois, passados 4 anos, eu descobri os que realmente foram responsáveis por incentivarem o rancor.

E sobre as outras pessoas? Talvez eu nunca as perdoe. Por que eu trataria a mim mesma como vilã quando na verdade fui vítima? É algo que muitos fazem e eu não consigo entender. Isso é bem diferente de quando há redenção, pedido de desculpas. É uma outra história quando você sente que magoou alguém.

Hoje mantenho-me o mais longe possível daqueles que um dia fizeram-me algum tipo de mal. Eu convivo bem com a solidão. O que não suporto é a proximidade dos iconoclastas, falsos admiradores e críticos destrutivos.

Concluí que a culpa não é minha somente.

E depois do devido reconhecimento, o que fazer?

Não sei, de fato. Tudo é tão incerto. É um sabor amargo, um desprazer...

Não sintam pena, seria humilhante. Se for para sentir algo, que seja empatia e compreensão.

E é isso que todos os que são magoados precisam...

E todo mundo se magoa às vezes.
Às vezes tudo está errado. (REM, Everybody Hurts, 1992)



quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Uma tarde de outubro com Moby Dick


Capítulo único
Uma tarde de outubro


Não era um dia qualquer, de modo algum, apesar de ser mais um daqueles de calor e um céu esfuziantemente azul - eu finalizaria o Volume I de Moby Dick. Sim, este monstro adorável e seus algozes - baleeiros em uma saga em que as palavras desenham o pitoresco coração do mar.

E, não por menos, essa também era a minha saga e uma missão, afinal, livros podem ser deixados de lado por tantos motivos, incontáveis, cabe dizer; porém, inconscientemente, nunca abandonados - a alma não deixa, nem que tenha, ela própria, que levá-los para a outra existência.

Caminho eu, a criatura, com o volume azul vintage por entre os braços, para a parada de ônibus. Penso:  "Depois da aula, acharei um lugar calmo...". Por um golpe do destino, enquanto sento, secando como carne de Sol, perco o primeiro ônibus - Oh, Senhor, a aula já começou. Aquilo já é demasiadamente difícil para ficar-se a capricho de atrasos.

Depois de voltas no mundo, finalmente consigo pegar o ônibus. E assim chego na sala de aula.

E quem poderia enxergar o pequeno livro tão bem escondido e despretensioso? Os astutos olhos do Professor, ora! Aquele que tudo sabe e tudo vê.

- Professor, eu ainda posso entrar?

- Claro. E me diga... O que andas lendo? 

- Moby Dick, Senhor.

- Charles Dickens, não é mesmo?

[uma pausa dramática, pelos dois grandes nomes da Literatura confundidos graciosamente e separados, pelo nascimento, entre Inglaterra e Estados Unidos]

- Não. Charles Dickens escreveu Grandes Esperanças. Este é Herman Melville. Disse eu calmamente.

E ele parou, como quem olha uma tela imaginária, pensando, talvez, como pode ter se confundido...

- Nada a ver, nada a ver mesmo. 

E desse modo ele mesmo fechou o ato.

Depois de todas as passagens, equações e acontecimentos efervescentes que parecem desafiar o sentido da vida, a aula termina.

Pois bem, pois bem. É hora de encontrar o meu canto tranquilo e incauto: "Vamos ver se o Leviatã surgirá novamente, pois as histórias de baleias paralelas já estavam deixando-me desesperançosa de achar Ismael novamente."

Sento-me, abro e olho - o último capítulo.

“Não se assemelhava a um cachalote e, contudo, Dagoo pensou: Não será Moby Dick? O fantasma tornou a mergulhar; mas quando reapareceu..."

E neste momento eu só senti uma presença ao meu lado. Não deu tempo de saber se era Moby Dick.

- Olá... Ti... ane... [vou fazer como Dostoiévski e ocultar certos nomes]. Você está aí tão concentrada. E eu aqui estou interrompendo.

- Tudo bem. Não tem problema, sente aqui, vamos conversar...

Mas o que se seguiu foi surpreendente. Nunca imaginei que aquele seria um dos raros momentos em que um ser humano pudesse contrariar, de forma agradável, minha opinião darcyniana.

É extremamente árduo e dificultoso achar alguém para ter uma conversa balanceada, que ao mesmo tempo faça sorrir, que seja leve e conquiste a admiração. Há, na maioria das vezes, conversas desgastantes, ora pela futilidade, o que revela o verdadeiro buraco de estupidez que uma pessoa pode enfiar-se por vontade própria, ora pela arrogância que torna tudo estatístico, números e uma verdadeira chateação - uma ode aos seus próprios egos inflamados.

E como eu poderia acreditar que, no meio de um cenário regido por um padrão quase matemático, ainda existiam pessoas que afastavam-se dessa belicosa curva? Pois foi o dia perfeito para rever alguns conceitos já fincados.

Aquele jovem de aparência gentil e bonita, um tanto ingênuo pela idade, com um sorriso desprendido, tinha mais a oferecer do que uma conversa rápida sobre aulas, números e o universo masculino.

- O que está lendo? Indagou ele curioso.

- Ah, é Moby Dick. Este livro consumiu 3 anos da minha vida. Eu disse isso esperando uma grande gargalhada. O que, de fato, aconteceu, porém timidamente por parte dele.

- Eu assisti a um filme que inspirou o livro, chama-se O Coração do Mar.

- Muito interessante. Conte-me mais sobre o filme.

Então ele começou a relatar o filme, falando dos baleeiros que foram em busca de fortuna através do desconhecido, indo para mares que, na época, ninguém ousava desbravar. E lá encontraram a morte em forma de baleia branca. E que toda essa narrativa, no filme, foi feita pelo menino que sobreviveu a viagem.

E ao passo que ia falando mais e mais, ele exibia um grande grau de empolgação.

- Foi a primeira vez que ele caçou baleias.

- Quem, Ismael? Eu perguntei com um ar de negação.

- Não, o nome não é Ismael. Não lembro o nome do menino que conta a história nesse momento. Depois de ver o filme, eu fui pesquisar a história e descobri sobre Moby Dick, agora eu sei muitas coisas sobre ela.

Ele continuou a falar sobre O Coração do Mar: - É incrível como ela era enorme. Você tem uma visão de como ela parecia um monstro, como o navio ficava pequeno, como aqueles baleeiros eram presas fáceis - um ótimo filme e uma ótima aventura.

E eu somente prestava mais atenção. Aquela era uma cena que eu tinha que memorizar.

E prosseguiu:

- No livro é outro personagem, Ismael, certo? No filme, o autor foi procurar o menino, que já estava velho, para saber a história do navio e assim ter material para Moby Dick.

Eu disse em seguida:

- Sim, Ismael. Ismael que conta a história no livro. Mas, na verdade, ele já tinha ido a outras viagens com baleias. Vou assistir ao filme assim que puder. Eu assegurei.

E a conversa foi para outros setores, como futebol e aulas. Outras pessoas aproximaram-se, conversaram conosco e logo a hora do jantar chegou.

- Você não vai jantar? Ele perguntou sem demora.

- Não, não irei. Irei ao banco.

- Tudo bem. Até mais tarde.

Só que algo estava intrigando-me como um espinho de laranjeira enfiado entre os dedos. Eu não sei como surgiu essa dúvida, ela simplesmente começou a perseguir meus pensamentos depois de toda essa conversa.

 - Gente, será que Ismael já era veterano na caça às baleias?

Afinal, desde a leitura da primeira folha, lá foram-se 3 anos...

E é um tanto óbvio que eu fui reler as primeiras páginas de Moby Dick. E mais uma surpresa: o moço estava certo. Foi a primeira vez que ele, Ismael, foi à caça de baleias, quer dizer, o menino do filme, só que serviu para o livro também.

“Chamai-me Ismael. Há alguns anos - quantos precisamente não vem ao caso - tendo eu pouco ou nenhum dinheiro na carteira e sem nenhum interesse em terra, ocorreu-me navegar por algum tempo e ver a parte aquosa do mundo. [...] - Estavas pensando em embarcar? Queres embarcar? Bem vejo que não és de Natucket... Já estiveste alguma vez num bote baleeiro? - Não senhor; nunca - respondi. - Então nada sabes acerca da pesca da baleia, garanto. - Não sei nada, capitão, mas aprenderei depressa. Fiz várias viagens a serviço da marinha mercante."

Bingo! Ele nunca leu o livro, entretanto conhecia um detalhe importante contido nele. Sim, ele não estava falando propriamente do narrador central do livro, mas sabia que um daqueles personagens do filme estava fazendo uma viagem baleeira pela primeira vez.

Tive que me redimir depois, falando que ele estava correto.

Após dois dias, tive mais uma aula, a mesma disciplina. Eu pensei que Moby Dick ficaria apenas na lembrança. Só que isso não aconteceu. A baleia branca não seria deixada de lado tão facilmente, não pelo Professor.

- Como vai a leitura?

- Muito boa. Estou no volume II.

- Volume II?

- Sim, são dois volumes.

- Ótimo.

E o dia prosseguiu tão calmo quanto a visão da espuma do oceano que bate nos rochedos e das procelas quase na linha do horizonte. Não sei ao certo, talvez nunca saberei, o porquê desses pequenos momentos brilhantes em dias que só prometem mais do mesmo. Suspeito que são por essas pessoas, que nem mesmo sabem da sua importância, que tantas histórias boas são contadas.

A vida é um mar infinito repleto de mistérios. Mesmo com Moby Dicks e naufrágios, não deixa de enfeitiçar-nos os jovens Ismaéis.