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sábado, 4 de fevereiro de 2017

Crítica da Semana: A Chegada (Arrival)/2016

A Chegada não é uma a unanimidade. É como observar um lindo balão no céu que, ao alcançar o ápice, lentamente, esvazia-se até cair murcho e sem graça no chão. 

A Chegada (Arrival/EUA/2016) é um dos filmes mais elogiados do ano passado - pudera - não foi um ano bom nem mesmo para o cinema, então, qualquer película acima da média, como esta, ganharia muitos louros.

O filme narra a chegada de seres extraterrestres em doze naves que pousam em pontos diferentes da Terra. Após as autoridades americanas perceberem que eles querem fazer contato, a Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma renomada linguista, e o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner) são procurados por militares para interagirem com as criaturas, traduzir os sinais e desvendar se os visitantes representam uma ameaça ou não. O filme conta ainda com a presença do grande ator Forest Whitaker (ganhador do Oscar de Melhor Ator pelo filme O Último Rei da Escócia/2007) como general Weber.

Parece uma ótima premissa para um Sci-Fi digno de figurar ao lado de ícones como Alien - O Oitavo Passageiro (Alien/1979) e Contatos Imediatos de Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind/1977). E você, leitor (a), encontrará muitas maravilhas e honras em 90% das críticas especializadas, como o Rotten Tomatoes (94% de aprovação), e seus amigos, parentes e vizinhos também glorificarão este trabalho do diretor Denis Villeneuve. Mas aqui será exatamente o contrário. E vamos por partes.

A Trilha Sonora é o melhor do conjunto - simplesmente impactante. É uma experiência auditiva que faz jus ao Olimpo. O compositor Jóhann Jóhannsson é certeiro ao empregar um ar de suspense e apreensão que uma Ficção Científica pede. Trilhas sonoras são diferentes para Sci-Fi - elas raramente contêm hinos galopantes, como nos Épicos Históricos. Nesse aspecto, o Gênero Científico é bem mais parecido com o Terror e o Suspense, pois é o desconhecido que reina nessas partes. A fotografia é boa, com tomadas de tons frios, por exemplo, que contrastam com o laranja das roupas de proteção dos personagens. E isso faz, e muito, lembrar cenas dos astronautas de 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey/1968). O filme conta com lindas cenas aéreas, efeitos visuais decentes e um elenco digno.

O filme foi baseado no livro História da Sua Vida (Story of Your Life/1998) de Ted Chiang. O título do livro é sincero e dá uma primeira ideia do que realmente pretende. E esse é exatamente o problema do filme - ele vende algo que não é o seu objetivo e suas partes são ótimas em relação ao todo.

Narrativas que usam o argumento do artifício cíclico para encontrar chaves de linguagem não são novidade. O exemplo mais brilhante é o livro Contato (Contact/1986) do Carl Sagan (que virou filme de mesmo nome em 1997). Só que este é um Sci-Fi que trabalha também temas com relação à natureza humana, assim como vários outros do gênero. Contudo A Chegada é um filme sobre a natureza humana que usa a Ficção Científica como pano de fundo. E não há nada de errado nisso, pelo contrário. Só que neste caso, o erro foi levar a pensar outra coisa.

Em um filme que trabalha a importância do entendimento da linguagem do outro para saber seus reais propósitos, chega a ser paradoxal o fato do próprio filme não dizer a que veio antes que o espectador caia em si e sinta-se frustrado. 

Para ser mais clara - temos um filme que como Sci-Fi é um ótimo drama filosófico. 

Trailer - A chegada (Legendado em Português)


Fontes


sábado, 6 de dezembro de 2014

Quando Ouvi o Astrônomo Erudito (When I Heard the Learn’d Astronomer)

A Via Láctea pode ser vista como um grande faixa ou arco no céu 
noturno se as condições de visibilidade forem boas o suficiente.
Esta foto panorâmica foi tirada no Vale da Morte, 

Califórnia, EUA.

Por Walt Whitman*

Quando ouvi o astrônomo erudito,
Quando as provas, os números foram enfileirados diante de mim,
Quando me foram mostrados os mapas e diagramas a somar, dividir e medir,
Quando, sentado, ouvia o astrônomo muito aplaudido, na sala de conferências,
Senti-me logo inexplicavelmente cansado e enfermo,
Até que me levantei e saí, parecendo sem rumo
No ar úmido e místico da noite, e repetidas vezes
Olhei em perfeito silêncio para as estrelas.



A Via Láctea no Hemisfério Sul.
(Foto Tirada no Observatório
La Silla - Chile)

(When I heard the learn’d astronomer,
When the proofs, the figures, were ranged in columns before me,
When I was shown the charts and diagrams, to add, divide, and measure them,
When I sitting heard the astronomer where he lectured with much applause in the lecture-room,
How soon unaccountable I became tired and sick,
Till rising and gliding out I wander’d off by myself,
In the mystical moist night-air, and from time to time,
Look’d up in perfect silence at the stars.)


(Publicado originalmente no livro Folhas de Relva/Leaves Of Grass em 1855)

***

Se o astrônomo descrito (mais parecido com alguns físicos/professores que conheço) fosse mais filosófico (sim, pensou Carl Sagan, pensou bem!) que mecânico, talvez o grande Walt Whitman não tivesse saído da sala e ido conversar com as próprias estrelas. Então, como diz Olavo Bilac, "Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas..."

Sobre Walt Whitman*

"Toda revolução digna deste nome produz seu grande poeta [...] Assim, se Maiakovski é o poeta da Revolução russa, não é exagero dizer que Walt Whitman (1819-1892) é o grande poeta da Revolução Americana, ocorrida uma geração (1776) antes de seu nascimento." (Paulo Leminski em Introdução In Walt Whitman. Folhas das FOLHAS DE RELVA. Seleção e tradução de Geir Campos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1984. p. 8)

Whitman  (Huntington, 31 de maio de 1819 – Camden, 26 de março de 1892) foi um poeta, ensaísta e jornalista norte-americano, considerado por muitos o "pai do verso livre".

O que é Verso Livre?

No fazer poético, os versos livres, também chamados de versos irregulares, não utilizam os esquemas métricos, nem as rimas, ou qualquer outro padrão musical, mas preocupam-se tão somente com o ritmo e a musicalidade natural da fala ou leitura. Alguns poetas e estudiosos afirmam que os versos livres possuem afinidades com a prosa, enquanto outros enxergam uma grande autonomia e distinção nessa forma poética. De qualquer forma, é inegável que os versos livres garantem ao poeta uma maior licença para se expressar e possuir maior controle sobre o desenvolvimento da sua obra. Consequentemente, os versos livres produzirão uma poesia espontânea e individualizada.

Declamações (em inglês - língua original do poema)

Pelo astrofísico Neil deGrasse Tyson:



Na série americana Breaking Bad, Temporada 3, Episódio 6 - Sunset:



Fontes: 

Quando ouvi o astrônomo erudito - Pensador Uol

domingo, 13 de junho de 2010

Olhei para o céu e ele se abriu - percebi que era a minha vida que estava lá...


Há um trecho de um livro que, quando eu o li pela primeira vez, causou-me uma comoção extraordinária:

"Meus pais não eram cientistas. Não sabiam quase nada sobre ciência. Mas, ao me apresentar simultaneamente ao ceticismo e à admiração, me ensinaram as duas formas de pensar, de tão difícil convivência, centrais para o método científico. Estavam a apenas um passo da pobreza. Mas quando anunciei que queria ser astrônomo, recebi apoio incondicional - mesmo eles (como eu) só tivessem uma ideia muito rudimentar da profissão de Astrônomo. Nunca sugeriram que, consideradas as circunstâncias, talvez fosse melhor eu ser médico ou advogado." 
(O Mundo Assombrado Pelos Demônios, página 14, Companhia de Bolso, 2006)

Esse livro é O Mundo Assombrado Pelos Demônios do grande astrônomo e divulgador da ciência Carl Sagan.

Sagan é minha inspiração em se tratando da profissão mais bela do mundo (porque todos os apaixonados são assim - o maior amor do mundo).

Enquanto tantos não abastados sonham em ser médicos e advogados para fugir da pobreza e alcançar status social, outros apenas querem aprender e difundir conhecimento. Essa é a diferença entre tornar-se mais um, com uma vida confortável e estagnada, ou uma joia mundial, mesmo vivendo, ou sobrevivendo, dia após dia, com uma casinha simples e uma sacola de devaneios.

E se Stendhal, Dostoiévski e Einstein tivessem optado por medicina ou advocacia para alcançar o tão sonhado status? Haveria livros maravilhosos para escancarar uma sociedade cheia de preconceitos e mostrar a degradação da moral? Saberíamos que as estrelas não estão exatamente naquele pontinho onde as enxergamos? Pensaríamos em viagens no tempo? Teríamos noção da imensidão do universo?

Você teria seu ipod ou sua TV HD Full se no mundo só existissem médicos e advogados?

É melhor viver com dinheiro ou com realização? Seria ordem e progresso? Ou primeiro progresso e ordem? (alguém já disse-me que ordem nunca vem antes do progresso, ou você acha que o Bill Gates vivia numa organização digna de dona de casa dos anos 30?)

A ciência é algo tão maravilhoso. É nela que estão as mãos de Deus. E carreiras como a de astrônomo revela-nos pessoas que, como o dr. Sagan, enfrentaram as dificuldades em nome da escolha.

Essa foi a diferença entre um coleguinha de escola de Carl Sagan, que resolveu ser advogado ou médico, e ele que seguiu um sonho juvenil. E esse menino pobre que descobriu a ciência e resolveu abraçá-la, no fim das contas, acabou estampando a capa da Times e agora mesmo tem sua contribuição levada pela Sonda Voyager aos confins do universo.

Eu tive um sonho... Eu olhei para o céu e ele se abriu. Enxerguei o cinturão e a constelação austral de Órion. Meu coração disparou. Percebi que era a minha vida que estava lá.