Muito estranho ter 39 anos. É como estar em um limbo: nem 40 nem 38. Trata-se do limiar entre algo super fantástico (que não consigo sentir) e a repulsa dos outros, como seu eu devesse apenas cumprir o papel de sobrevivência e esquecer que sou uma mulher com desejos e ilusões.
Entretanto percebo que os melhores dias foram os de anteontem; distantemente saborosos loucos e solitários, permeados pela esperança e movidos por uma chama ardente no meio do peito. Sim, eu poderia devorar o mundo, tirando pedaços macios feitos de crepúsculos, planetas e constelações.
Eu amei. E nunca fui amada. E tive que aprender a me reconstruir em um universo em que o amor não me é permitido. Dos homens só tive destrato, violência e o mal-querer. E nunca entenderei o porquê. O segundo plano é amargo demais para suportar. Então optei pela solidão; dessas que são até que muito intessantes: uma xícara de café bem quente, um cheiro suave amadeirado, um livro e uma sessão de cinema.
Se antes a tristeza me corroía e, ao mesmo tempo, criava em mim movimentos, hoje, com mais de dois anos de antidepressivo e terapia, sou um pouco inerte, com uma chama gélida estagnada em azul mórbido.
Sinto falta das paixões, do toque, dos sorrisos e das mensagens que arrancavam sorrisos. Fiquei mais velha e sumiram todas essas mentirosas devoções. A farsa era libido. E, pelo pecado de ser mulher, para eles, o meu tempo se extinguiu.
Antes eu era cinza. Agora sou tons a mais.
Estou no Mestrado e fiquei decepcionada. Aliás, a decepção é uma constante em uma equação cheia de variáveis ingratas.
Vergonha. Pudor. Desaparecimento. Não há espaço para mim. Pelo menos não um que faça parte dessa realidade tão líquida, tão raivosa e superficial.
Sou feita de sono, de pesadelos e de dormência muscular. Bendito e maldito remédio! Sem ele, muita dor; com ele, muito pesar.
De verdade... Talvez eu seja atualmente uma projeção do que fui - uma simulação do eu de ontem.
Eu escrevo e finalizo. A base de inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina.
Queria uma conversa - de verdade, sem modernidades, luz da lua ou de vela.
Há pouco tempo para escrever agora. Os cenários naturais são até favoráveis: nuvens cinzas ao leste, raios, trovões e tempestades da madrugada. Entretanto sobra-me trabalho quase franciscano, desalento e gotas alternadas de tédio.
Quando chega-se para lá dos trinta anos, todos os seres humanos ao redor, particularmente os bem mais jovens, tornam-se extremamente desinteressantes. É como olhar um cenário vazio falante que tende a tagarelice odiosa. Deus, é como morrer todos os dias sufocada pelo fútil e despretensioso!
Ao contrário do que possa parecer, meus olhos não envelheceram. Porém não mais conseguem enxergar a beleza de outrora nas pessoas, aquelas esfuziantes e que despertavam os sentimentos dourados de que a vida era um mistério divino, digno de ser vivido, com um gosto de maçã e coalhada.
Tudo foi-se, ao menos, o humanamente palpável ao redor.
A vida necessita de intensidade, mistério, histórias instigantes, poesia e céus estrelados de antemanhãs frias. Existem muitas formas de achá-los, entretanto tenho que contentar-me com o passado, do mais recente aos resquícios de outras vidas.
A saudade não é, até aqui, fruto de uma dor somente do que foi perdido. É muito mais do que eu mesma posso compreender.
Esta existência traça linhas cinzas, de pouco fulgor, longe das histórias magníficas que eu costurei em um tempo de inocência.
Continuo a esperar algum reverso maravilhoso, uma viagem, um novo lugar e novas pessoas para que eu possa exercitar novamente a minha mais saborosa atividade: a observação.
Vivo dias de dor, de calmaria e de nenhuma aventura.
Motiva-me o futuro, apesar de tudo. Talvez lá encontre o meu eu vagante, numa outra terra, ou mesmo numa nova roupagem. Eis a eterna roda da existência e o sentido de precisar ser quem eu sou.
Não posso ter tudo. De fato, nem ao menos possuir o mínimo. E assim passam os dias, cheios de compromissos, pouco dinheiro, desprestígio e uma convulsiva sensação de que o meu tempo foi-se.
E para onde? Talvez, e provavelmente, para um lugar inatingível.
Confesso que a falta do desejo dos outros corrói-me como ácido. E essa fonte de inspiração secou tão de repente que eu mal percebi. A solidão tornou-se um tanto quanto estranha, de um sabor suavemente amargo.
É uma época estressante. Faço muito para alcançar o que, tardiamente, decidi seguir. Muitas vezes parece que não passo de uma dessas caricaturas ingratas, acinzentadas, no meio de um ambiente em que as pessoas não estão sintonizadas comigo.
Quero arrancar minha pele, rasgar os meus músculos e queimar os meus ossos. Almejo recomeçar das cinzas, com uma nova aparência e identidade física. Assim, quem sabe, percebam a minha alma, minha essência, meu próprio eu que, arrisco, é digno de cafés, longos passeios, prazer e risos; histórias, camas, calor e tantas outras coisas essencialmente humanas.
Ontem esforcei-me demais, tive dor de cabeça e ânsias. Imagens de escárnio percorreram meus pesadelos. Através de uma janela vislumbrei a minha própria decadência, eu estava envelhecida em um limbo.
É uma dessas maldições de séculos com gosto de vermelho, tons de azul melancólico e o negro das profundezas.
Estaria eu morta para toda a humanidade?
Não. Estou morta para mim mesma. Eu só preciso reconhecer e aceitar.
S..., 09 de dezembro de 2018, em uma manhã estranha de um clima indeciso.
Queridos (as) mestres (as) do cênico, espero que estejam todos (as) com boa saúde (o máximo que posso deseja-lhes).
Não me vou demorar, serei breve.
Este é o meu adeus para vocês que participaram da estrada da minha vida apenas pelos motivos mais nefastos, desaguando assim nas baías mais profundas do fingimento, ingratidão e descompromisso. É chegada a hora de retirá-los (as) definitivamente dos meus pensamentos e reflexões sobre a negra alma humana.
Após esses anos de convivências, desconvivências, reaparecimentos e posteriores desaparecimentos, a verdade não tardou a aparecer, pela boca daqueles (as) que vocês menos imaginam. Pelo que pude apurar, seus (suas) algozes disseram-me, enfaticamente, que nossos relacionamentos (de naturezas variadas) foram mais um nome na lista, daquelas quantitativas, que é usada pela falta de algo mais interessante. Soube também das suas artes no campo da esperteza e de conseguirem feitos inimagináveis para suas limitadas capacidades simplesmente por fisgarem as pessoas certas. Parabenizo-os (as) por isso, pois a dissimulação não é mesmo para todos.
Bem... Espero que nossos caminhos nunca mais cruzem-se. Seria, para mim, muitíssimo desconfortável olhar seus rostinhos tão dóceis e angelicais (e enganadores tal como Satã). O que posso dizer é que, uma vez, depositei-lhes muita fé e que, agora, minha boa opinião foi perdida para sempre. Não há reparação.
E é desse modo que nossas vidas caminharão daqui para frente e, do fundo da minha alma, desejaria muito apagá-los (las) das minhas lembranças. Entretanto só posso enterrá-los (las) no fundo da minha mente e é exatamente isso que faço neste momento.
A única coisa que peço é que o destino trate de não nos reunir em outra vida.
Estou pegando o trem de volta para encontrar-me longe de todos (as) vocês, anunciadores (as) da desilusão, iconoclastas das boas intenções e semeadores (as) das ervas daninhas.
"Covardia é o medo consentido; coragem é o medo dominado." (la lâcheté, c'est de la peur consentie; et le courage n'est souvent que de la peur vaincue - Nos filles et nos fils: scènes et études de famille - Página 66, de Ernest Legouvé, Gabriel Jean B. Ernest W. Legouvé, Paul Philippoteaux - Publicado por Hetzel, 1878 - 346 páginas)
Hoje foi um dia de duas faces... E eu pensava nos vários acontecimentos e sentimentos estranhos que inebriavam o meu ser enquanto eu caminhava de volta para a minha casa nesse final de tarde tingido pela suavidade dos tons pastéis.
Minha mente estava enegrecida por conta de uma desilusão extremada, cheia de um pesar melancólico e agoniante. Naquele momento, eu só conseguia engolir um pouco de café e determinar que o mundo não passava de uma aberração que levava-me a essa esperança inútil de que finalmente eu tivesse encontrado algo que valha as minhas forças. E, num golpe mortal, quando menos espero, fatos do sistema apareceram e a minha vida caiu em lamúrias por uma desgraça intelectual sem precedentes.
Talvez eu seja apenas uma pessoa que tem, de certo modo, uma segurança desnecessária com as palavras, o que pode ser bem o meu fim e a minha desqualificação. Antes eu lidava com números, cálculos e uma infinidades de impessoalidades e restrições e isso criou-me um anseio de mergulhar em algo mais criativo. Agora, com tudo o que eu sei (mais uma vez) dos bastidores, parece que todo o meu trabalho presente e vindouro estará sempre condenado a julgamentos de primeiros e terceiros e nunca (e sem exageros!) terá uma excelência.
Estarei eternamente condenada a essa tão rápida decepção? Coloquei (sem dar-me conta) uma venda nos olhos por causa do ânimo do espírito? Assim como um vendaval que é anunciado pelas nuvens carregadas do leste e ignorado imediatamente pela beleza da imagem de seu mensageiro?
Sim, uma parcela da culpa provém da minha ousadia em achar que a maioria das críticas sobre mim são injustas ou feitas por pessoas não dignas. É da minha natureza raramente concordar em primeira instância e viver à beira do abismo do sentido contrário. Enquanto isso, os mais ressabiados tendem a escolher a estrada mais fácil do obedecer. Sim, a covardia é fruto de um medo ainda indomado e que espalha-se entre os mais jovens pela imposição dos mais experientes, donos de um certo tipo de controle. Bem sei que estou longe de conter todos os meus receios, mas alguns estão devidamente atenuados. Não temo mais as represálias que são comentadas pelos corredores. O acovardamento é deveras odioso para que eu aguente o seu peso. Entretanto salvaguarda-me põe-se necessário quando o entorno é só terror.
Eu bem queria ser um desses cavalos livres que andam pelo deserto, sem identificação, peso e conflitos aparentes; apenas vivendo o dia após dia.
Desejo não lembrar meu nome e nem mesmo quem eu sou. E essa negação de mim mesma é o pior dos desencantos, pois é o produto do maldito resquício da dominação alheia.
São as madrugadas mais quentes do ano. E o estilo veraneio estabeleceu-se de forma estridente. Dizem, então, as boas e más senhorinhas que é primavera, mas cá estou a duvidar muito, pois nem mesmo vejo as tão brancas flores e muito menos as coloridas, aquelas mesmas do campo, do sertão, que brotam nas estradas da vida e do consolo das lágrimas.
Não posso estender-me muito, pois sim. Tenho muitos afazeres e toda uma carga intelectual para absorver.
Saudades batem à minha porta; de quem? Bem eu não sei ao certo. Muitos rostos foram embora. E agora as faces são muitos jovens e fora do meu próprio contexto. Lá estão todos em uma linha muito à frente do meu horizonte.
Preciso de um ídolo, uma imagem de adoração, daquelas para desejar a carne e unir o espírito, sem nenhuma amarra dessas que prendem muitos seres humanos a dogmas e preceitos que apenas afastam e deixam muito amargor.
Tudo não passa de frivolidade e falta de berço. A polidez esvaiu-se e nem uma gotícula sobrou. Ou as moças bonitas são pura perfídia ou cristalina insipiência.
E o reino dos doidivanas e lunáticos continua simplesmente o mesmo.
Entretanto... Deixo para o final uma dessas canções, que, se fosse em outro mundo, já teria dado-me uma dança ou uma boa conversa a luz do luar. Só que aquele outro homem bonito, de outrora, de rosto faceiro, foi-se e nunca mais fez-se figura.
Só resta-me mesmo o desalento e o dissabor de uma vida monocromática adiante.
Acordei e tudo ao redor parecia redundante. - Deus, como meus joelhos doem!E pergunto-me se as pessoas com mais de sessenta anos amanhecem melhores do que eu em relação a isso.
Os últimos três meses foram um tanto quanto complicados, começando pelos famigerados já mencionados joelhos, que romperam em dores num belo acordar de um final de abril muito aborrecido.
Fui a um médico e vi a fotografia dos meus ossos. E lá estavam eles, pobres coitados, com cara de desânimo, mas sem nenhuma lesão aparente. Cheguei em casa com um monte de analgésicos - sininhos mágicos. E se o efeito for imediato, de fato, a impressão é que todas as pessoas na face da terra desapareceram e nada poderá me destruir. Entretanto, como qualquer prazer, o maravilhamento passa rapidamente. E cá estou eu, com os benditos piores e sem dinheiro, esperando a boa vontade dos que me cercam.
Como toda má sorte para mim é pouca, nesse ínterim, tive cálculo renal. Se a sensação da morte iminente fosse descrita com relativa fidelidade, essa seria a dor angustiante do final irremediável. Sem plano de saúde, fui para a emergência pública e lá mesmo fecharam o diagnóstico. Tomei derivados da morfina, e foi como ir a Lua por uma estrada de gelatina. Duas semanas depois, a maldita pedra já tinha ido para o ralo, literalmente.
O nome que mais gosto de escutar ultimamente é analgésico, cujo o significado em inglês é ainda mais forte e preciso - painkiller - o assassino de dor.
Nessa situação deprimente, o que me sobrou mesmo foi escrever... Para suavizar os tormentos. Porque receitas de remédios já se foram todas. E as drogas que eu gostaria de tomar precisam de folhas especiais que são dadas apenas uma vez a cada visita, caras e com baterias de exames.
Não tenho um vintém, meu trabalho ruim paga muito mal e meus opiáceos são difíceis de conseguir. Ou seja, tudo normal no Reino da Dinamarca.
Pigmaleão e Galatea Jean-Léon Gérôme 1890 The Metropolitan Museum of Art
"Ser estúpido, egoísta e ter boa saúde são três requisitos para a felicidade, mas se a estupidez faltar, está tudo perdido." (Être bête, égoïste, et avoir une bonne santé, voilà les trois conditions voulues pour être heureux; mais si la première nous manque, tout est perdu/ La correspondance de Flaubert - Página 799, Gustave Flaubert, Charles Carlut - Ohio State University Press, 1968 - 826 páginas)
Hoje pensei sobre a felicidade alheia e como ela, essa bizarrice, parece extremamente vulgar aos meus olhos. Deus, é como ver uma amostra cotidiana de seres humanos com cérebros liquefeitos, esperando não mais que muito dinheiro (e precisa ser sempre mais do que já tem!), sexo ruim (principalmente para as mulheres), amor inexistente (por parte dos homens), filhos endiabrados (culpa de quem?) e um livro de ficção constituído de fotografias expostas aos quatro cantos do mundo.
A vida parece morrer no namoro. E pergunto-me por que insistem nesses enlaces que, segundo os relatos que chegam-me, firmam-se nas traições e num teatro patético para as famílias de ambos os lados.
Há algo de viciante na tristeza e em seus tons de cinza. Ela traz os pensamentos mais aniquilantes em versos e estrofes, destrói mitos e reconstrói muros de proteção. Por outro lado... A felicidade traz uma calmaria em tons amarelos débeis e bobos. Sorrisos que engasgam e sufocam. É, talvez, a morte da alma mais sarcástica que exista.
Esse utópico contentamento não pode ser um estilo de vida, pois já nasce em decaimento, pronto para acabar e deixar vontades, assim como um orgasmo. Já a tristeza é fiel e ajuizada e torna-se um perigo somente ao se combinar com a vontade de morrer.
Por esses dias trabalhei, estudei, tive insônia de madrugada e dormi muito de dia. Fiquei doente e pensei que era meu fim. Tomei muito café. E engordei mais um pouquinho. Procurei um trabalho fixo e não achei absolutamente nada. Terminei de ver a Série Terror e li os trechos finais do livro de mesmo nome (em inglês) do Dan Simmons. Faltaram muitas coisas interessantes na série que só existem na parte manuscrita e, mesmo assim, foi ótimo assisti-la.
Ainda não recebi resposta sobre o término de mais uma demanda do meu trabalho freelance. Será um bom dinheiro neste período, maior que a quantia do mês passado. Entretanto a minha desconfiança (quase paranoica) mostra-me mãos absolutamente vazias.
Preciso entregar meu TCC, da pós-graduação, para a correção e validação até às 23:59 horas de hoje. Muito precisa ser corrigido, segundo a orientadora, e minha coragem está em falta. Orçamento Participativo é o melhor tema que achei na Contabilidade Pública. E, mesmo assim, tem dado dor de cabeça.
Também falei para meu botões... O que separa-me dos meus ex-colegas de curso já formados em Física é só a área mesmo. No final, ficaram eles no mesmo nível que eu, pensando melhor... Estando todos nós na mesma cidade, as oportunidades reais de trabalho podem estar muito piores para as bandas de lá.
O que seria excitante agora? De uma forma que explode na boca como coalhadas e maçãs? Admirar corpos nus? Usá-los? E depois... Se forem nada mais do que cascas vazias que não se pode manter uma conversa agradável nem mesmo para tomar um café matinal?
Tornei-me escrava dos meus questionamentos. E não há quem resista inteiro a eles.
Será que precisarei ser estúpida para sentir prazer nos outros?
Necessito, urgentemente, construir outro objeto de adoração. E dá-lhe uma vida envolta por pensamentos maliciosos que podem ser desnudados todas as noites e abandonados ao nascer do Sol.
Expulsão do Paraíso (La Cacciata dei Progenitori dall'Eden) Masaccio 1425 Capela Brancacci Igreja de Santa Maria del Carmine
Se eu fosse contar os dias de dissabor e tristezas, faltariam-me números precisos. Pois deles perdi a conta há tanto tempo que parece-me que estes fazem parte da minha própria essência.
Quase não saio mais de casa e pouco importa-me mais olhar o céu e as pessoas. O mundo se liquefez, o meu próprio, em algo tóxico e de um amargor insuportável.
Não sou uma pessoa de muita sorte, talvez, a mais azarada dentre alguns. Tudo o que eu toquei virou pó, perdeu o brilho, fragmentou-se em espelhos minúsculos que refletem as mil faces do revés constante.
É estranho conviver com as sombras e não ter o reconhecimento devido. Cresci em um ambiente onde para chegar-se a notoriedade e o respeito, o muito nunca será o suficiente e os fracassos e decepções, trilhas essenciais da vida, são considerados erros grosseiros, dignos de maldição.
Se antes eu era uma crianças esperançosa, sonhando com um mundo além das nuvens, mesmo sofrendo com as constantes perseguições, hoje tornei-me uma adulta desiludida, que não acredita nem mesmo nos enredos do amor utópico, que culpa-se por escapar da realidade, tão dolorida, ao invés de tornar-se uma cidadã digna, como toda a sociedade quer: uma funcionária pública, uma mulher com dinheiro, uma esposa e mãe. Esse alguém, tão distante de mim, é que tornaria-me respeitada, principalmente pela família, adorada por outros comuns, notada pelo meu entorno e adjacências.
Diante dos meus mais novos fracassos, não posso concluir o processo de restauração da minha alma. E assim sempre foi. Todos os dias puxam-me para o Inferno, não por quererem o meu mal, mas por não saberem como lidar com a minha difícil caminhada pela estrada do meu ser, esse que veste essa capa momentânea e que, em sua forma mais jovem, foi a desculpa perfeita para zombarias que refletem-se hoje em gotas rubis de memórias navalhantes.
Frente a esse cenário, pergunto-me se eu gostaria de morrer. E logo vem-me um não. O que é muito excêntrico. Todos que consideram-se um fardo para o mundo, um fardo para eles próprios, arquitetam planos para sair desse universo e ter uma segunda chance (porque todos, de acordo com minha própria crença, também têm outras chances, todadavia acabam trazendo suas dores antigas e os ferimentos físicos mortais em forma de mais sofrimento para a vida nova.).
Então... O que faz com que eu ainda queira viver?
E essa pergunta é respondida de diversas formas. E não espere que elas sejam lógicas ou poéticas.
Vem-me, neste instante, um caso recente. Uma conhecida entrou em depressão gravíssima e que quase custou-lhe a vida. Tudo ocasionado por um mestrado e por perseguições de professores. Coloquei-me em seu lugar e os únicos sentimentos que vieram-me foram o ódio e a vingança. Visualizei cenas de violência e no fim... Lá estava eu, possivelmente presa por assassinato.
Assim, o que motiva-me a continuar nesta vida não é a esperança moribunda, mas sim os sentimentos de cólera e fúria contra tudo e todos.
Porque pior do que a própria morte é o que vem depois dela: o infame damnatio memoriae.
E o que seria mais saboroso para os inimigos do que pisar em cima do cadáver do rival? O que seria mais refrescante do que beber as lágrimas derramadas antes dos instantes finais? É, o que posso imaginar, o mais próximo de presentear o diabo com a própria alma.
Se antigamente a Condenação da Memória era dada para traidores do Império Romano, essa vaga, atualmente, é ocupada pelos suicidas. Porque os familiares e amigos evitam falar sobre e evocar recordações e os detratores refestelam-se no mar dessa sentença vil.
Claro que nada disso afasta-me das possibilidades que vagueiam por aí. Só que meu orgulho ferido alimenta o meu espírito contra qualquer ato que possa ser o triunfo daqueles que eu gostaria de ver estatelados no chão, esmagados e exauridos pela consequência de suas próprias maldades.
Se minhas adorações de carne e osso foram obliteradas, todas as minhas oferendas, agora, dirigem-se a Nêmesis.
não posso acreditar nas coisas que eu vejo. O caminho que escolhi, agora, levou-me a um muro. E, a cada dia que passa, sinto mais e mais como se algo estimado tivesse sido perdido. Levanta-se, agora, diante de mim, uma barreira de silêncio e escuridão entre tudo que sou e tudo que eu queria ser. É apenas uma farsa, elevando-se, marcando os limites que meu espírito poderia apagar."
(The Wall, canção por Kansas, escrita por Livgren
e Steve Walsh. Leftoverture/1976)
Não sabia se voltava a escrever. E isso arrastou-se por alguns bons dias. E se você perguntar-me o porquê, responderei prontamente pela escrita de hoje.
Há um tempo venho oscilando como um pêndulo frio de metal. Percebi que morri, não por completo, mas estou esvaindo-me em forma de poeira.
Carrego uma tristeza imensa e meu peito pesa. E isso piorou muito por eu ter voltado a morar com a família. São relações muito delicadas, construídas muito debilmente. Sinto-me extremamente oprimida e um grande fracasso.
Ao chegar nesse ponto, indaguei-me se alguma vez, nessa vida deprimente, eu deixei de ver-me dessa maneira. E a resposta assustou-me. Pois, analisando toda a minha trajetória, vi que eu estava desde sempre mergulhada na lama do eu desacreditado.
E eu também faço-lhes uma pergunta: como conseguem ler esses textos? Quem quer saber de tristura e melancolia em um mundo tão esfuziante como esse? Cheio de possibilidades e arcos coloridos.
Sou uma escritora desonrosa, apática e que traz um mundo pálido e cinza. Se todos os meus textos fossem impressos, não me surpreenderia que fossem estes queimados em grandes labaredas.
O impuro deve ser purificado pelo fogo, não é o que dizem?
Talvez seja hora de assumir que estou doente mentalmente.
A minha dor na coluna voltou. E, como todo padecimento permanente, esse é um daqueles momentos de crise que pode durar dias. E, mesmo que eu tente, nunca saberei detalhar o medo que sinto quando ela reinstalar-se em mim. Não é somente a dor física, se assim o fosse, viveria como todos os que têm uma discopatia degenerativa - agarrando-me a grandes esperanças. Junto com esse calvário, eu enfrento acusações, caras de desgosto e as piores profecias... Ah, esses oráculos... Penso eu que nasci amaldiçoada.
Há três dias eu só quero dormir e ficar no escuro, quieta e imóvel. Estou quase num estado de estupor. Não tenho vontade de sair, nem de conversar com ninguém. Olho algumas pessoas e já as considero minhas inimigas mortais. Deixei muitos conhecidos de lado. Outro dia mesmo tratei um friamente, sem muita conversa e o encarava com certa antipatia. Disfarcei-me com cordialidade. As minhas veneradas imagens foram quebradas pelas suas verdadeiras faces monstruosas, suas sujeiras, ambições e crimes.
Gostaria de não acordar mais. E o mais estranho disso tudo é que eu caí neste novo buraco em menos de uma semana. Eu estava um pouco alegre anteriormente, pois tinha posto na minha mente que tentaria achar uma solução para todos os meus problemas e começaria uma nova caminhada.
E esse castelo de areia desmoronou todo nas minhas mãos.
Andei sempre pelas sobras. E, a cada estação, sou assassinada por asfixia.
É... Hoje eu pensei em morrer. E vislumbrei os aborrecidos que causaria por conta dos preparativos para o funeral. Bizarro também foi pensar no falatório sobre a minha alma perdida...
Sim... Eu sou pessimista, e isso potencializa-se com a dor que sinto na lombar. Eu só estou bem cansada.
Será que algum vivente nesse mundo pode compreender essa minha angústia?
A única coisa que restou-me foi beber um café e olhar para o céu azul que nunca irei desfrutar.
Deus tenha piedade do meu espírito, pois, além de uma grande pecadora, com toda certeza, eu carrego uma grande calamidade dentro de mim.
Outro dia, por aqui mesmo, falei do meu gosto por escutar histórias de outras pessoas. Um lado egoísta que revelei sem muito pudor, afinal, isso tira-me do tédio absoluto. Porém, contrariando o meu lado demoníaco, tornei o relato disso extremamente ameno, limitando-me a falar de uma parcela pequena, aquela dos relatos interessantes e instigantes.
Sim, a maioria dessas narrações é um suplício sem precedentes, vulgar, murcha, comum, advinda de gente ainda mais comum, com seus casos amorosos e problemas que não venderiam uma linha sequer em um classificado de anúncios baratos. Enquanto tagarelam, presto atenção nos movimentos de suas bocas e línguas. Os homens, admito, são os meus objetos favoritos nesse parte.
E eu já escutei de tudo nessa vida - Ah, meu bom Deus, quanta paciência tenho...
Pois bem, a política das trocas não funciona nessa situação. E eu explico - essa gente não tem a mesma disposição para ouvir. Falta-lhe um certo senso, mesmo que possa ser fingido, de fascínio pelo semelhante (a não ser que esse seja de interesse sexual, romântico ou econômico.).
Por ser teimosa, aplico-me a autoflagelação de contar alguns fatos da minha vida para alguns desse círculo. E, como esperado, recebo umas poucas linhas com frases pré-fabricadas como resposta. Muitas vezes essas até demoram, ou, sendo clássica, o silêncio ensurdecedor da indiferença deles ecoa pelo ar.
E aconteceu mais uma vez por esses dias. Eu descobri a verdadeira história por trás das ações de um ex caso de alguns anos atrás, a paixão avassaladora da minha vida. E num ímpeto de partilhar a história bizarra, mergulhada em um total frenesi, contei tudo a uma conhecida.
E, bem, veio-me, depois de ser extremamente cozinhada, duas frases resumidas como resposta em um aplicativo de celular desses bastante comuns agora. E olha que eu praticamente narrei um livro em áudio para ela...
O mais interessante nisso tudo é que esta mesma pessoa é uma das muitas que encaixa-se fielmente nas linhas iniciais desse texto. Em outro momento, não muito distante desse, contou-me ela sobre sua vida atual, problemas e dúvidas. Eu dei um suporte específico em uma situação grave até. Obviamente, os supostos amores, assunto preferido da unanimidade, foi o carro-chefe nesse confessionário. Cabe-me aqui dizer que sua limitação é notada às vistas. Porém acreditava que, culpando de antemão um desvario meu, este ser, ao menos, não tornaria-se monossilábico e enlatado - Que grande, grande engano!
Mais adiante vi, por meio de uma rede social (o oráculo das podridões), que a mesma estava ocupada estudando e... Escutando música... Certo, ora! Um motivo justo. Não, calma aí um bocadinho... Quando suas lágrimas vieram à tona e ela precisava urgentemente desabafar, não lembro-me de ser indagada se eu estava ocupada... O que recordo-me é de ter dito - Vem agora para cá!
Por mais frívolas e restritas que determinadas pessoas possam aparentar ser (e de fato é assim), elas, em seus instintos primitivos, tem a esperteza intrínseca em sua essência. O ser humano é, naturalmente, egoísta. Um fato. Mas alguns, lapidados e muito maquiavélicos, conseguem mascarar essa predisposição em benefício próprio, teatralizando e suportando muitas situações que odeiam. Uma hora, ou outra, isso servirá. Já os primeiros... Acabam afundados em sua lama, procurando outros para contar suas proezas de botequim.
Chafurdar na areia com água é a vida de muita gente. E eu gosto muito de observar esse cenário - há algo de muito misterioso na degradação humana.
Contudo deixo aqui meu agradecimento a esses seres tão convidativos. Se não fosse por suas vidas tolas e seus atos odiosamente grotescos, metade dos meus escritos não existiria.
Há algum tempo não venho por aqui. Então vamos, você e eu, tomar uma xícara de café quentinha, viajar no tempo e ir para uma época em que tudo era muito mais romântico e simples.
Deixe que comece eu, por assim dizer...
Mudei de médico e agora é uma médica. Estava muito aflita pelas dores na coluna terem piorado e precisava, mesmo que fosse pagando, de palavras mais acolhedoras sobre o meu estado. Achar um bom profissional é uma loteria e nisso tenho experiência. Essas visitas para tratar a saúde são um desgaste só. Pelo menos, dessa vez, achei alguém com mais suavidade e que explicou-me com mais detalhes o que tenho.
Isso foi há quase um mês e estou bastante medicada com todos esses remedinhos coloridinhos e pomposos, dignos de uma boa hipocondríaca como eu. Uma segunda visita está agendada para semana que vem.
Essa é um das partes corriqueiras da vida e para qual não há escapatória - uma hora ou outra ela irá acontecer.
Já outras... Por Deus! São momentos bizarros protagonizados por criaturas saídas das profundezas abissais da falta de classe e de trato. Mas nem por isso deixam elas de ser as protagonistas de histórias curiosas sobre o modus operandis desses bufões modernos. Eis uma...
Em um dia qualquer, quente e enfadonho, foi-me apresentado um moço estudante de pós-graduação. E antes que eu entre nas linhas principais, não preciso dizer que sou quem sou. De nada importa-me a presença de novas pessoas, serei o mais formal possível e respeitosamente distante, observo primeiro, olhos e língua, e não vai sair de mim (a não ser que esteja sofrendo com encefalopatia espongiforme) sorrisos escancarados e expressões histriônicas (Ai, como isso é cansativo!).
Continuemos...
Depois de conversas e deste mesmo ser vivente apresentar-me um conhecido seu, nessas andanças pela busca de bons lugares para tomar um brisa fresca na face, lá pelas tantas da noite e já quase na despedida, ele fala que pareço arrogante e um tanto convencida. Que belíssimo julgamento, não é mesmo?
Você pode agora falar: "Tu mesmo gostas de sinceridade!".
Sim, é claro. Se os julgamentos forem concisos e bem fundamentados, as críticas, mesmo as mais espinhosas, não podem ser desvalidadas. Porém leia só as bases deste energúmeno, que eu digo certamente, são as mais rasas e míopes que já ouvi...
Esta pobre alma disse que eu fui muito distante, que não sorri muito, ou no popular mesmo, "Não mostrei meus dentes". E que isso era ruim e tornava-me uma pessoa prepotente. Em um único momento de lucidez nessa desfaçatez todinha, ele supôs que poderia ser um modo de defesa ou um jeito único. Ora só, temos um Sherlock!
Gente, que patacoada! Era só o que faltava, ser julgada como um péssimo ser humano apenas por não pavonear por aí... Prefiro ser odiada milhões de vezes então.
E a cereja desse bolo podre é que este mesmo homem é um desses galanteadores deslizantes esperando só uma oportunidade para fazer-se, um antagonista no quesito charme e detentor de um jeito malandro nada buarquiano.
Como diria Kurtz no livro O Coração das Trevas (Heart of Darkness/1899):
O horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror...
No mais, comprei uma camiseta com o desenho de Moby Dick e veio-me um moletom danadíssimo de feio. Enviei para troca, o que foi até descomplicado. Estou aguardando a chegada do produto ao destino para ter meu vale compras. Também tenho estudado para as primeiras provas da minha pós em Contabilidade Pública. Às vezes acho que deveria não ficar tão chateada por estar formada nessa área, afinal, eu tenho um diploma por uma universidade federal e fui uma ótima estudante nessa área, mesmo que a não queira de jeito nenhum. Talvez tenha que orgulhar-me mais dos meus feitos e parar de dar combustível para as dragas de plantão.
Esse semestre de Física está altamente desinteressante. O mais do mesmo, um bocado de gente jovem com uma personalidade tão fútil como as das irmãs Kardashians e o conhecimento mais ralo que sopa no final da madrugada. Trata-se, só pode, de uma epidemia descontrolada de pessoas assim. Parece até mau uso da modernidade, ou a preguiça reinante ou a falta de uma genética mais favorável, vai lá saber-se sobre esses mistérios nada desejáveis da vida.
O meu maior desafio tem sido controlar a minha vontade de agir como iconoclasta de algumas figuras discentes de Física - as lendas do bom coração e do humanitário e que de tão falsas fazem as declarações de inocência do Michel Temer e do Aécio Neves orações para São Francisco de Assis. Eu poderia ser o Snowden desse curso... Só que... Eu quero apenas a paz... E quem quiser sair da ilusão... Que procure desconfiar dessa benevolência desmedida.
Comprei alguns livros que há tempos tenho vontade de ler, um é Coração Desnudado, do francês Charles Baudelaire, e o outro é Música na Noite e Outros Ensaios, do inglês Aldous Huxley. Estou só esperando a Amazon entregar.
Sobre os homens, bem... Eles ainda parecem muito instigantes para observação e, vez ou outra, bons para degustação. Todavia o material ao redor, salvo uma ou duas exceções, não ajuda muito.
Das exceções, confesso que estou com saudades de observar um certo jovem, na casa de seus quase 20 anos. Ele é um desses espécimes raros, brejeiro todo, com um sorriso que faria qualquer velho e petrificado coração bater por uns bons minutinhos. Por onde quer que ande este Adônis, conserve Deus ele na aura do natural e na ignorância dessa idolatria. Aquela tez dourada não necessita de envaidecimentos e muito menos teatralização.
Comprei um DVD de um dos últimos concertos do Everly Brothers. Sim, eu ainda compro DVDs.
Por hora, é isso que tenho para contar. Espero que as suas histórias sejam menos desafortunadas e mais saborosas que as minhas.
Pois bem, pois bem, eis como nos primórdios do CQ&Sherlock...
Então é o mês das folhas que caem, das paisagens amarronzadas com aroma de madeira e canela e... Não, não é nada disso! Por aqui somente um calor escaldante dos trópicos, com um céu cegamente azul e uma sede sem fim. Penso que qualquer um desses dias será mais do mesmo - nenhuma gota de chuva e tampouco nuvens cinzas que façam-me sentir como nos velhos tempos do belos temporais que vinham do leste. Nossa, que saudade daqueles tempos imemoriais...
Mais do mesmo também é meu cotidiano. Estou tentando terminar o curso de Física, uma notícia mais velha que o próprio Matusalém.
- Senhor, como está difícil!
São apenas duas cadeiras e dois cenários tão distintos e discrepantes que uma confusão e discussão mental fazem-me sair da sala em pensamento: um professor muito rígido, mas que mantém o diálogo um pouco mais aberto. O outro, um senhor que não sei bem como foi parar no magistério acadêmico. Um tédio absoluto em ambas - a primeira disciplina é tão abstrata que não sei por onde começar. E isso não me incentiva a abrir o livro, que por desventura é em inglês, para tentar entender. É como antecipar um futuro já sabido por todos - aquilo é extremamente complicado para se aprender e não há uma viva alma para concordar comigo; a segunda, pateticamente tão mal ministrada que não merece nenhuma linha a mais desta conversa. Das intempéries desse semestre, não sei mais o que profetizar. É apenas uma questão de espera.
No final do mês haverá o IV Simpósio de Estudos Celtas e Germânicos dos meus colegas do curso de História. E sim, escrevi-me nele sem pudores - será uma escapadela da realidade mórbida que cerca o meu prédio de exatas. Digo a muitos (e poucos compreendem) que é como cruzar o portal para dois mundos extremos - em apenas uma travessia de passarela, ou escadas, desvencilho-me do ar pesado e sabichão dos arrogantes para adentrar em uma reunião dos seresteiros, cancioneiros e trovadores da noite. Pode parecer vadiagem sem precedentes, mas eu prefiro assim.
Continuo a tocar as minhas flautas nativas. Mas uma tem dado-me um pouco de dor de cabeça - parece desafinar em uma das últimas notas e tem um "vento" que rivaliza com o som. Conversei com o luthier, mas ele insiste em dizer que é sopro em demasia. Desanimei um pouquinho, só que irá passar.
As dores na coluna vão e voltam. Eu não tenho hérnia de disco, apenas degeneração discal. Acho que já estou bem acostumada a esse ritmo. Claro, nos dias de dores, tudo parece sem esperança. Ajuda muito a piorar esse quadro a TPM, esses sim são péssimos momentos. E conversando com o meu médico, optei por fazer pilates e fitdance (a famosa zumba) e tomar alguns medicamentos menos agressivos. Tudo isso foi cuidadosamente pensado depois que ele passou-me um antidepressivo que também age nas dores crônicas e juro, depois de tomado um comprimido apenas, a morte parecia mais perto do que nunca. É como não sentir-se mais a mesma pessoa, uma sensação de letargia, respiração quase parando, o mundo girando e pensamentos infernais. Resultado: o ortopedista concluiu que sou uma pessoa demasiadamente sensível a antidepressivos.
Depois de completados 30 anos... A contagem já não importa mais.
Estou endividada até a alma (ha, ha, ha). Tive que cortar o plano de saúde e minha boa vida acabou. Estou procurando um emprego e, pelos céus, como está intricada esta parte. Esta cidade é estranha para quem quer entrar no mercado de trabalho depois de muito tempo. Resolvi tentar o setor das aulas particulares, mas também é um cenário difícil. Depois de 4 anos fora de órbita, vivendo apenas com as bolsas de iniciação científica, não há mais como sobreviver desta maneira. Depois da última bolsa, em que o Professor chamou a mim e outros colegas de vagabundos que não queria trabalhar, decidi que é melhor ir para outro ramo.
Estou viciada nos documentários do Investigação Discovery. Os programas que mais assisto são A Sangue Frio e Casos Arquivados. É uma sensação de alívio saber que os assassinos foram punidos com o rigor da lei no final de cada episódio - algo que não teria espaço aqui no Brasil - o país mais escrachado, nesse aspecto, de todos.
Estou quase acabando (de verdade!) Moby Dick Volume I, faltam apenas 24 páginas. E como já relatei em outras postagens, isso tornou-se uma saga de quase 3 anos. E o Volume II promete seguir a mesma rota.
São dias calmos, bem tranquilos, eu diria. Quando você toma conhecimento da sua quebra financeira e encara isso de frente, não há mais ansiedade e compulsividade, ou mesmo ira. É um fato consumado e ponto final. Claro, todos pensam em sucesso e dinheiro para mostrar o poder adquirido alguma vez na vida ou em toda ela - não passando de uma ilusão neon; a nobreza encontra-se na simplicidade. A palavra mais adequada para nossas ambições seria estabilidade, porém, para a maioria, esta não tem validade se não for uma vaca gorda que jorre leite espumante em bicas. Talvez percamos muito tempo em uma busca desenfreada pelo ter para satisfazer apenas caprichos, deixando essa passagem incompleta e levando lacunas para a próxima. Só que não estou dizendo que quero viver dependente dos outros, como estes filhos que acomodam-se. Longe de mim! A procura diária do saber quem eu sou levou-me por caminhos mais místicos. Percebo que a vida é mais promissora para aqueles que tentam desprender-se das imposições da sociedade, um monstro faminto e impiedoso - prepara o indivíduo para ser devorado, fazendo-o acreditar que o que a nutre também o nutrirá, quando na verdade, a criatura não passa da próxima refeição.
Tenho mais passatempos agora - traduzo legendas do Inglês para o Português de minisséries, séries e peças de teatro inglesas ou de outras línguas que são raríssimas de encontrar no Brasil. Eu já traduzi e aprontei uma legenda para o filme dinamarquês O Jovem Andersen (que fiz a crítica aqui), agora trabalho com duas obras - todas com o ator que amo, Sir Derek Jacobi (que eu falei aqui) - Little Dorrit, de Charles Dickens, de 1988, e a peça Hamlet, de Shakespeare, de 1980 - ambas da BBC. Tais legendas são extremamente dificultosas. Quando você trabalha como legender, percebe a diferença entre um bom trabalho e um péssimo. Little Dorrit tem 6 horas de duração, divida em duas partes, e Hamlet tem 3 horas, sendo assim, a pressa não tem vez. Nesses casos, traduzir bem também significa conhecer as obras e um pouco do universo do autores. E boas legendas podem demorar até dois meses para ficarem prontas. No caso de Hamlet, com uma linguagem altamente rebuscada em inglês, tenho que usar livros, duas traduções em Português (Brasil e Portugal), e a peça no original, em Inglês, para saber o que foi utilizado e o que foi cortado para em seguida passar para as legendas. É como um grande quebra-cabeça que monta-se dia após dia.
Tenho dois temas para escrever nos próximos dias - A série Stranger Things, que já havia prometido, e o Nobel do Bob Dylan. Talvez o tema Dylan saia primeiro, pois foi um burburinho sem sentido para algo que eu considero fantástico e totalmente justo - eu sempre quis falar sobre os trovadores e eis uma bela oportunidade.
Lembre-se: "Se não há vento para seu barco, reme!". E dito isso, desejo-te, leitor (a), uma ótima e agradável noite.
Ah, esses nefastos dias de opressão, golpistas e republiqueta. O mundo tornou-se um caos por culpa do medonho embuste por trás da moral e dos bons costumes... Que blasé!
... E por esses dias estava eu a discutir sobre a bissexualidade.
Acredito piamente, o ser humano é bissexual. O amor não faz escolhas. E isso seria tão natural se o mundo não amargasse em questões religiosas extremistas.
Até o momento, nunca apaixonei-me por uma mulher. Mas isso não tira-me a possibilidade de que talvez um dia isso ocorra. Afinal, o amor e o desejo fazem distinção entre quem tem um pênis ou uma vagina? Ou a enraizada culpa religiosa e machista amarga qualquer pensamento sobre isso? São perguntas pertinentes em um mundo ainda em suave transição.
Esta foi uma semana reveladora. Muitas pessoas que eu gostei ou namorei, de fato, já experimentaram ambos os lados. E, pelo que sussurram, talvez, fiquem na oposição. Uma delas é um conto bem triste, com suicídio, disfarces e assuntos que foram escondidos por aqueles que eu confiei. Para este eu desejo uma felicidade plena.
Relacionar-se é um bocado difícil, seja com homens ou mulheres. Não importa. É o cotidiano sufocante em um mesmo ambiente que aniquila qualquer possibilidade de paz e satisfação. Quase um filme Veludo Azul: a face bizarra de um mundo coberto pelas cores artificiais de tulipas esfuziantes que escondem existências tão degradantes como a pior sarjeta existente - sem tirar e nem por.
Eu já passei pela experiência de ficar uma semana na minha casa e uma semana na casa do meu ex-namorado, alternando durante uns seis meses. Meu Deus do céu... Que patético. Aquilo definitivamente não é para mim. Uma grande sensação de estrangulamento, deslocamento e todos os mentos. E como a vida flui, eu tive que dar um ponto final nessa tragédia anunciada. E, posso afirmar por agora, que não quero esse tradicionalismo nem pintado com o orvalho dourado da manhã. Sim, eu quero umliving apart together, assim como escrevi aqui, nesse blog, há 5 anos.
Não posso ser acusada de não tentar. Afinal, todos os religiosos, machistas e românticos ensandecidos gostam de dizer que não se encontrou a pessoa certa e blá, blá, blá... E sobe-me uma certa quantidade de sangue para a face quando escuto algo do tipo. Padronização desenfreada e empurrada garganta abaixo não há como tolerar. É como calçar sapatos comprados em lojas: eles são feitos para vários números iguais ao seu, mas seus pés são únicos e uma hora um deles vai machucar muito e deixar sequelas.
Aliás, há um certo misticismo em várias questões femininas. Exemplo? Virgindade. Nunca entendi o porquê dessa aura dourada e fantasiosa em torno dela. Na prática é bem mais simples - não há mortos e nem feridos - um pedacinho de pele foi-se - não existe nenhuma obrigação. Como a vida era difícil quando por causa desse famigerado hímen muitas mulheres tinham que viver com um canalha por um longo tempo...
Outra questão é a maternidade. E essa causa-me calafrios. Não pelo desejo de não ser mãe tão cedo, que é algo que grita dentro de mim (eu só tenho 30 anos e nenhuma vocação e vontade, não há útero e hormônios que mudem minha concepção por agora.), e sim pelo fardo que é um acordo (ou uma intimação) unilateral. Está extremamente longe o ideal de parceria neste caso - a paternidade ainda significa uma liberdade maior do que a maternidade. E não venha-me com essa história de que o homem trabalha para sustentar filho e mais umas lorotas. A sociedade aponta no seu rosto todos os dias. Quem conforma-se com isso, tudo bem, padeça no seu paraíso. Mas o número de inconformadas aumenta a cada dia, o que é um alento. Temos aqui uma balança em desequilíbrio visível. E ainda há os riscos de morte na gravidez e a criminalização do aborto. Por isso que amo os pinguins e os cavalos marinhos - a natureza redimiu-se comigo apenas nestes casos.
Por outro lado, a maternidade tardia e a adoção causam burburinhos. Hoje há a tendência de engravidar aos 40 anos. Mas com toda a certeza você já ouviu, ou ouvirá, chiados por todos os lugares. Eu mesma já escutei cada barbaridade de colegas que não valem perder o meu tempo. E a balança novamente pende para um lado - um homem que tem um filho aos 40 anos será abençoado por um bocado de gente. A adoção segue a linha da família tradicionalista putrefada - "eles não são seu sangue.", mas se o casal é gay, há uma virada de casaca: "o que será dessa criança!".
A vida é injusta com as mulheres desde os primórdios. Mas o que ocorre-me é que não há como voltar para o estado em que éramos escravas do mundo e do lar, monitoradas pelas famílias, pelos homens e pelos juízes e juízas moralistas. Só que não aproveitaremos a igualdade como desejamos, que bem mais tarde ocorrerá. A mortalidade não nos permitirá. Nosso papel é lutar, dizer não e revidar - e isso é desgastante e necessário. É seguir em frente com os ideais, mesmo que o machismo velado diga que você é louca, mal amada, encrenqueira, um monstro por não querer ser mãe, defender o aborto e uma série de barbaridades que a sociedade prega como verdades absolutas para uma cidadã de bem.
Sinto-me um ser amordaçado, recorrente a pantomina. Tudo é enfadonho e bem cinzento. Ser mulher é entrar em um campo de batalha minado todos os dias, muitas feridas ao longo da guerra em nome da liberdade...
... A liberdade para amar pessoas, de não ser mãe, decidir sê-lo bem depois...
... Liberdade de ser eu mesma em minha essência - sem o peso das correntes alheias.
"Já ocorreu a você que nós nos iludimos? Que nós podemos ver mais claramente e distante de dia? Mas o sol fica no caminho. A noite é quando se vê melhor... Quando nós olhamos as estrelas brilhando, a muitas milhas de nós. A noite é como um voo alto, alto dentro do céu - enxergando tudo claramente... Do jeito como é." (Diálogo entre o jovem Hans Christian Andersen e Jonas Collin no filme O Jovem Andersen/Unge Andersen - Dinamarca - 2005, direção de Rumle Hammerich)
Há alguns dias resolvi traduzir a legenda de O Jovem Andersen (Unge Andersen), um filme sobre um dos meus escritores favoritos - Hans Cristian Andersen. É uma película difícil de achar, apesar de ser de 2005. Dez dias foram necessários para que ela ficasse pronta.
Então, mesmo com o mundo que temos hoje, onde é de mais interesse da massa conseguir algo sobre qualquer pseudo-escritor do que ler as obras dos verdadeiros gênios e mágicos da literatura mundial, pensei em ajudar a ínfima parcela que gosta de ir contra a corrente, que sabe menos inglês do que eu e que gostaria de saber sobre a trajetória de Andersen.
Traduzir legendas de filmes raros é um ato franciscano. Não muito diferente de escrever quase regularmente neste blog. Ou seja, nenhum desses ofícios conta com um público expressivo. Mas há, sempre, essa invisível e incrível força motriz - a esperança em uma única pessoa, aquela que não sabe-se o nome, a raça, a cor, a condição social, nem se é menino, menina, ambos ou todos. Se esta única pessoa utilizar e gostar, o trabalho foi válido.
E pensando no diálogo do começo, na legenda e nos acontecimentos dessa semana (e por que não em outras épocas?), cheguei a conclusão que é sempre bom partilhar experiências e situações. É entre os iguais que acha-se a compreensão.
Não sou uma pessoa difícil e tampouco fácil. Para a primeira, trato de exagero e pouco conhecimento sobre mim. A segunda, consideraria uma afronta e até mesmo uma crítica, afinal, nunca serei uma samaritana e não gosto nenhum pouco dessa ideia. Talvez muitos achem-me louca (eu mesma, de vez em quando, também considero este fato), pois abraço e defendo causas que, muitas vezes, nem dizem-me respeito. E isso custa-me muito, pois, além de ficar sozinha no campo de batalha, percebo que as pessoas (até mesmo as que são alvo das situações) não procuram envolver-se mesmo que acreditem que estão sendo injustiçadas ou que há injustiça.
De repente, caí em mim. Neste mundo cão, o único que importa-se e pode defender-me sou eu mesma. E, nesse ínterim, meu desespero faz com que eu cometa erros primários - algumas pessoas, até mesmo as mais próximas, uma hora ou outra, vão usar todos os meus pontos fracos como tinta para um quadro cruel.
Essa semana briguei com um colega de trabalho acadêmico. Porque fui defender o coletivo (a alma sindical gritando). Contudo a vida não é como os filmes: não apareceram outras reclamações, não tocou o fundo musical e ninguém uniu-se e deu as mãos. Virei um conjunto unitário. E foi um 7x1.
Não tolero ameaças - a não ser em casos parecidos com o de Irene Adler em Sherlock Holmes - você precisa usá-las para defender-se dos verdadeiros vilões. Bem, eu mesma, nesta vida, já fui alvo de algumas, das mais graves, partindo de pessoas de antigos relacionamentos, as mais corriqueiras, como de colegas que usaram desabafos e confissões para tirar-me o sono. Com elas aprendi que o melhor é se precaver e só baixar a guarda para quem realmente for de confiança (o que não é tarefa fácil, talvez, se usarmos uma regra como cumprir todos os Trabalhos de Hércules...).
A vida é um padrão. E assim mais histórias surgem... Um baú de memórias.
Há algum tempo, muito tempo, uma determinada turma fazia a cadeira de Cálculo II. E com exceção de um aluno, todos os outros estavam indo muito mal. Falta de estudos? Não. A didática do professor era terrível - robotizada e insustentável (e a mais utilizada e aceita no curso de Física). A primeira prova veio e notas ruins apareceram como uma miríade de estrelas. Então, combinamos todos de não fazer a segunda avaliação para forçar, assim, o professor a nos dar mais tempo para contornar esse déficit de aprendizado. Poderia dar certo ou não. A vida é um jogo mesmo. Só que, infelizmente, um dos alunos, justamente a exceção, apareceu para fazer a prova - apesar das inúmeras súplicas e mensagens. Ele tinha facilidade e queria fazê-la, não importava o acordo. Direito dele? Sim, claro. Ele fez o que teve vontade e achava correto. Resultado - todos tiraram zero e ele tirou uma nota acima de sete. Tomei as dores para mim (elas também eram minhas, ora!), briguei e não falo mais com este desde então. Afinal, o mesmo direito que ele tem de fazer o que convém, eu também tenho - e com motivos bem plausíveis. Um dia ele tentou justificar seu erro, mas não existiu um pedido de desculpas. E hoje TODOS os que foram traídos falam com esta pessoa como se nada tivesse acontecido. Sim, o mundo é feito dessas estranhas relações. Mas só que o meu não é. E a vida seguiu.
Eu sempre uso as guerras como comparação - se um do meu pelotão trai a estratégia do grupo em benefício próprio, todos correm o risco de morrer. E alguém que trai, seja em qual situação for, pode repetir isso em outros momentos - com maior ou menor impacto - mas as sequelas existirão.
Traição tem uma significado tão forte para mim que nunca entenderei o porquê de ter tornado-se algo banal. Honra, fidelidade e compromisso podem não encher barriga, mas dignificam. Brinco que se eu fosse da Antiguidade, eu seria a 1 de Esparta.
E nessa mundo lamacento e cheio de vermes e poços profundos, as ilusões são irremediáveis. Todos nós adentramos este véu momentaneamente confortável. Ficamos inertes sem saber onde aplicar nossos dons e nossas qualidades e duvidamos inúmeras vezes que essas existam. Sentimos raiva e sofremos injustiças.Tudo que achamos correto, aos olhos dos outros, é errado, inapropriado e o caminho mais rápido para o mais profundo isolamento e descrédito. E assim contentamos-nos e ser passíveis, medrosos e cabisbaixos.
A vida como deve ser é bizarra - é um resto de uma fogueira de conto de fadas, devaneios e perda momentânea da visão. De dia, uivamos, perdidos, clamando por uma direção e a noite, com os faróis de Andersen, alcançamos voos longínquos.
Bate dentro de mim, todas as madrugadas, um coração a mais. Aquele escondido, liberto, por vezes libertino, dono de incansáveis histórias que caminham em ruas esquecidas no passado e saudoso de um esfuziante futuro do pretérito.
Ele é incansável, destemido, intrépido e aventureiro. Não tem medo, não perdoa e avassala como ventos raivosos que rasgam o véu da noite.
Tem sede infinita de amar e ser amado, corresponder entre linhas e receber cartas adocicadas que poderiam formar livros cheios de cores e paixões.
Feito tão puramente, no abrandar do sono mais profundo e dos sonhos mais íntimos, despiu-se desavergonhado, inocente, tão agora, tão intensamente...
Só que este foge de mim todos os dias, como gotas límpidas que escorrem pelas mãos, sobrando apenas vestígios de sentimentos que poderiam conquistar minha própria confiança.
Ao redor, somente a escuridão disfarçada em sorrisos e gentilezas. Estou farta e cansada disto tudo, um belo teatro! Quero milhas além destes rostos tão duros, tão cheios de si, mergulhados em suas próprias divindades, gananciosos, ríspidos, opressores, indelicados... Ah, mundo cruel e indesejoso, você poderia estar escondido nas profundezas abissais!
Minha vida não passa de tentativas frustradas, barulhos ensurdecedores de vozes irritantes com suas conversas vazias e cheias.. Cheias de números e formas que não dizem absolutamente nada.
E todos os dias entrego-me aos meus próprios pesadelos. Por sorte, algumas vezes, manifesta-se esse rico e inoxidável motor de vida para acalentar minhas próprias lágrimas.
"Ele passou como um raio fulgurante... Desaparecendo em sua própria calmaria. Deixando vazios espaços que tentaram ser abertos por muitas vezes... E, agora, a um passo de desistir, não me resta mais nada a não ser lamentar...".
E esse coração secreto ainda não aceitou tão grandiosa derrota. Recusa-se, inventa teses e dissertações. Só que os números são frios, calculistas e precisos. E, em outra dimensão, assim como toda a desavença entre mecânica clássica e mecânica quântica, este parâmetro não cabe aqui.
De fato, jaz neste lugar a possibilidade de outra história de amor.
Não posso dizer como sinto-me - são as convenções e as precauções de quem já não mais quer escrever sobre corações partidos.
Contudo o coração que esconde-se partilharia e confessaria - sua solidão e seus desejos. E admitindo que não pode deixá-lo e não pode tê-lo, guarda-o para si profundamente...
Há algo místico e infinito no amor platônico, apesar dele frequentar a região da dor, sofrimento, miserabilidade e solidão.
Ele é sempre a inspiração certeira para livros que registram a saga dos desejos não realizados na forma mais humanamente palpável. Só que todos esquecem da sua pureza, delicadeza e liberdade. O amor platônico é a utopia que mantém a mente fértil e o coração vivo e esperançoso. E isso é infinitamente mais consolador do que o desgosto com os amores consumados e que mostraram tão somente o amargo sabor da vida real.
Não há regra que impeça que o amor platônico, um dia, possa tornar-se vívido e bilateral e, quem sabe, tão doce como seus outrora frutos imaginativos. Não se deve duvidar do nirvana amoroso. Porém vivê-lo como se fosse a força eletromotriz da vida é caminhar rumo a tristeza crônica e a mortificação da alma.
Por estes tempos tenho revivido histórias sobre platonismo que estavam na tenra juventude. Naquela época, imaginativamente, o céu não era o limite, o limite rumava ao infinito.
Reviver a dubiedade é angustiar-se à conta-gotas. Não há desespero exagerado e nem tristeza excessiva. Não há culpados, nem nós mesmos, o maquinário do sentimento, e muito menos a nossa criação, os desejados.
[E assim tem sido há um certo tempo.]
Todos os poemas poderiam ser escritos com rimas douradas. Quadros poderiam ser pintados com gotas prateadas de chuva e traços amadeirados das folhas do outono. As rádios da madrugada poderiam tocar madrugada adentro. E ao embalarem danças sob o luar, com seus narradores afoitos, mandando recadinhos, o cenário perfeito estaria formado.
O platonismo deseja o bem, o sucesso, a felicidade, mesmo em outros braços. É livre da ilusão de que acabará inevitavelmente em conquista. Ele nasce regido por poréns.
Os platônicos amam simplesmente a existência do ser admirado, a sua essência e seu modo de vida. É como Pigmalião a admirar sua própria criação.
Este é o mais ingênuo dos amores e que, muitas vezes, é ruborizado na vergonha de admitir o próprio sentimento a si mesmo. Também é o mais humilde, deleitando-se em pequenos sorrisos, gestos e conversas. Franciscano por essência.
Se lágrimas do amor platônico fossem transformadas em vinho, o mais doce deles seria criado.
Posso afirmar que não há nada mais intimista e próprio do que gostar secretamente. E, a cada minuto, mais e mais amores platônicos nascem, tornando-se imortais e rumando a um tempo imemorial em que a vida repousa na mais suave das montanhas.
O transporte coletivo é motivo de impropérios e maldições dia após dia, em todas as manhãs, tardes e noites quentes e abafadiças. Por outro lado, não há maneira mais significativa de observar o comportamento das pessoas, em seu melhor ou o seu pior.
O pior, todos nós, usuários, sabemos muito bem, desde a tenra idade. O melhor, além dos acontecimentos hilários, sem marcas de violência, são as conversas provenientes daqueles que nunca vimos na vida (e, muito provavelmente, nunca voltaremos a ver nesta mesma).
Pois bem, era uma ensolarada e aguada tarde, um inferninho, antes dos acontecimentos fatídicos da aula grosseira. Estava pensando em fazer uma torta, daquelas americanas, cheias de filamentos, tipo desenho do Pica-Pau. E o mocinho vendedor de revistinhas entrou e leu exatamente os meus pensamentos. Comprei, pela bagatela de R$ 1,00, várias receitas de adoráveis e apetitosas tortas.
Foi assim, notando a compra empolgada, que a moça ao lado (que antes falava sobre aulas, alunos e alienígenas ao telefone) começou uma conversa muito interessante:
- Não sei cozinhar! Até fiz um curso de culinária... - Eu também não! Respondi prontamente. - Mas essas tortas eu quero fazer.
Ela continuou...
- Quem cozinha em casa é o meu marido. O meu pai também é um ótimo cozinheiro. Trabalho o dia todo e o meu marido apenas à noite. Quando chego em casa, tudo está pronto. Eles cozinham divinamente bem. Às vezes meu pai manda comida.
Eu já estava, a essa altura, maravilhada!
- Que bacana! Isso é realmente fantástico!
- Sim, ele casou comigo sabendo! Como eu disse, eu não sei cozinhar, lavo mal a minha roupa. E aí perguntei a ele, você quer mesmo assim? E estamos juntos há 13 anos.
E eu amei instantaneamente toda a história...
- Ainda bem que os tempos mudaram! Isso é motivador!
Porém, todos os relatos chegam ao fim, e esse tinha uma parada de ônibus para terminar.
- Tenho quer ir! Tchau!!!
E ela, simpaticamente, respondeu:
- Tchau, boa aula!
Bem, como sempre vejo nos comentários das páginas feministas que sigo, não é questão de ser relapsa e sim modificar o pensamento patriarcal e machista: lava quem sujou e cozinha quem sabe. Dividir as tarefas é a cartilha da nova e sensata família.
Óbvio que ainda vão existir as defensoras e os defensores da família tradicional arcaica, da comida servidinha para o marido, passar, lavar e cozinhar como boas Amélias. Haverá os homens que têm medo das feministas e como arma sórdida, vão falar que são mal amadas, solitárias, etc, etc. Só que o bálsamo da vez é presenciar os preconceitos que caem e as amarras que são desfeitas, devagar, mas constantemente.
13 anos é um número e tanto, significativo e emblemático.
E contra dados, fatos e números, não há argumentos (pelo menos, genuinamente, inteligentes e sensatos).
Uma boa história deve ser partilhada, assim como deliciosos pedaços de torta.
Eu pensei que ia ser mais assustador... Não sei, talvez seja estranho, de fato. Por quê? Porque antigamente era o atestado de uma vida pacata, família constituída, um emprego público, servidão doméstica... Os tempos mudaram [ainda bem!] e nós, mulheres, ainda temos que viver a nossa juventude plena, despojada e livre. A idade não tem um peso, o pensamento dos outros sim; e os nossos são bem mais fortes se formos avaliar bem o que queremos. É o auge. E tem-se que enxergar isso mais além - o ápice da beleza, o começo da maturidade, o caminho mais reto para a vida.
***
Fazer 30 anos
Affonso Romano de Sant'Anna
QUATRO pessoas, num mesmo dia, me dizem que vão fazer 30 anos. E me anunciam isto com uma certa gravidade. Nenhuma está dizendo: vou tomar um sorvete na esquina, ou: vou ali comprar um jornal. Na verdade estão proclamando: vou fazer 30 anos e, por favor, prestem atenção, quero cumplicidade, porque estou no limiar de alguma coisa grave.
Antes dos 30 as coisas são diferentes. Claro que há algumas datas significativas, mas fazer 7, 14, 18 ou 21 é ir numa escalada montanha acima, enquanto fazer 30 anos é chegar no primeiro grande patamar de onde se pode mais agudamente descortinar.
Fazer 40, 50 ou 60 é um outro ritual, uma outra crônica, e um dia eu chego lá. Mas fazer 30 anos é mais que um rito de passagem, é um rito de iniciação, um ato realmente inaugural. Talvez haja quem faça 30 anos aos 25, outros aos 45, e alguns, nunca. Sei que tem gente que não fará jamais 30 anos. Não há como obrigá-los. Não sabem o que perdem os que não querem celebrar os 30 anos. Fazer 30 anos é coisa fina, é começar a provar do néctar dos deuses e descobrir que sabor tem a eternidade. O paladar, o tato, o olfato, a visão e todos os sentidos estão começando a tirar prazeres indizíveis das coisas. Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada.
Até os 30, me dizia um amigo, a gente vai emitindo promissórias. A partir daí é hora de começar a pagar. Mas também se poderia dizer: até essa idade fez-se o aprendizado básico. Cumpriu-se o longo ciclo escolar, que parecia interminável, já se foi do primário ao doutorado. A profissão já deve ter sido escolhida. Já se teve a primeira mesa de trabalho, escritório ou negócio. Já se casou a primeira vez, já se teve o primeiro filho. A vida já se inaugurou em fraldas, fotos, festas, viagens, todo tipo de viagens, até das drogas já retornou quem tinha que retornar.
Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil. Não é simplesmente, como num jogo de amarelinha, pular da casa dos 29 para a dos 30 saltitantemente. Fazer 30 anos é cair numa epifania. Fazer 30 anos é como ir à Europa pela primeira vez. Fazer 30 anos é como o mineiro vê pela primeira vez o mar.
Um dia eu fiz 30 anos. Estava ali no estrangeiro, estranho em toda a estranheza do ser, à beira-mar, na Califórnia. Era um homem e seus trinta anos. Mais que isto: um homem e seus trinta amos. Um homem e seus trinta corpos, como os anéis de um tronco, cheio de eus e nós, arborizado, arborizando, ao sol e a sós.
Na verdade, fazer 30 anos não é para qualquer um. Fazer 30 anos é, de repente, descobrir-se no tempo. Antes, vive-se no espaço. Viver no espaço é mais fácil e deslizante. É mais corporal e objetivo. Pode-se patinar e esquiar amplamente.
Mas fazer 30 anos é como sair do espaço e penetrar no tempo. E penetrar no tempo é mister de grande responsabilidade. É descobrir outra dimensão além dos dedos da mão. É como se algo mais denso se tivesse criado sob a couraça da casca. Algo, no entanto, mais tênue que uma membrana. Algo como um centro, às vezes móvel, é verdade, mas um centro de dor colorido. Algo mais que uma nebulosa, algo assim pulsante que se entreabrisse em sementes.
Aos 30 já se aprendeu os limites da ilha, já se sabe de onde sopram os tufões e, como o náufrago que se salva, é hora de se autocartografar. Já se sabe que um tempo em nós destila, que no tempo nos deslocamos, que no tempo a gente se dilui e se dilema. Fazer 30 anos é como uma pedra que já não precisa exibir preciosidade, porque já não cabe em preços. É como a ave que canta, não para se denunciar, senão para amanhecer.
Fazer 30 anos é passar da reta à curva. Fazer 30 anos é passar da quantidade à qualidade. Fazer 30 anos é passar do espaço ao tempo. É quando se operam maravilhas como a um cego em Jericó.
Fazer 30 anos é mais do que chegar ao primeiro grande patamar. É mais que poder olhar pra trás. Chegar aos 30 é hora de se abismar. Por isto é necessário ter asas, e sobre o abismo voar.
(A Mulher Madura, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 1986, pág. 36.)
Há muito o que falar ainda sobre o feminismo. Nossas batalhas continuam a ser travadas. Mas o próprio incômodo que a maioria dos homens vomita em comentários machistas reflete a proporção e efeito da causa - muito ganhou-se, porém, ainda, existe muito terreno para conquistar!
#PAPO DE GORDO 159 – O MACHISMO NOSSO DE CADA DIA#
"Não é novidade pra ninguém que nós vivemos em uma sociedade machista, mas de que maneira isso impacta a forma como nos comportamos e nos relacionamos uns com os outros? Eduardo Sales Filho, Maira Moraes, Lucio Luiz, Dr. Tapioca e Eubalena receberam a convidada Cafeína, a diva do Pauta Livre News, para conversar sobre esse machismo nosso de cada dia. No programa de hoje, tente sobreviver a abertura mais machista de todos os tempos; aprenda o que é manterrupting, bropriating, mansplaining e gaslighting; saiba como as mulheres também podem ser machistas; descubra qual a diferença entre machismo e gentileza; jamais chame uma mulher de pitiática; e tente ensinar o Dudu a usar uma máquina de lavar roupas! Destrua os cintos de castidades e prepare-se para se divertir porque o Podcast Papo de Gordo está começando!"