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terça-feira, 5 de abril de 2022

Mirabella

Galego e Português encontram-se como parentes separados por um oceano. E conversam, às vezes, sobre as suas nobres origens do Latim. E não muito distante disso, Ariano Suassuna disse, certa vez, ao grande Carlos Núñez, músico galego, que gostava muito do som de sua língua. E numa prosa muito frutífera, puseram-se os dois frente à frente, entre toques de gaita, num entendimento perfeito. Eis aí um pouco do meu amor por esse idioma, que inspirou também Garcia Lorca, em Seis Poemas Galegos, de 1935.

Não vou me por a fazer um tratado sobre a língua galega a uma hora dessas da madruga. Aqui só quero expressar um pouco desse sentimento saudosista, de cheiros, gostos e do por vir. Esse último tão promissor e amedrontador por ser, também e agora, um não acontecer. 

Para lá, depois do imenso mar, tem-se o Caminho de Santiago, místico e destino. E para cá, no sertão, também assim se chama; herança dos tempos coloniais de ganhos, perdas e transformação. 

E a cada nome que eu descubro e que leio nessa língua, vejo a vastidão das possibilidades imaginárias. Assim é um mirar belo, de Mirabella, da canção que traz o conto melódico do amor e do temor do descaminho. É ela um ser do maravilhoso, numa narrativa dentro do mirabillis, que, no final, é o próprio Latim.

Um ótimo nome que guardarei, bem como as jornadas galegas de Ariano e Carlos e a voz sussurrante e calma de Rosa Cédron.




terça-feira, 1 de janeiro de 2019

É mais um ano!

Cá estou eu, em mais um ano, neste espaço de escrita. E lá vão-se, agora e realmente, quase dez anos de pequenos relatos, esses que podem ser, muito bem, a minha Micro História, um conceito novo que aprendi no curso de História. E, falando nele, digo que das minhas realizações acadêmicas iniciais, é a que até agora foi a mais feliz e saborosa, com um gostinho de torta de maçã e cafezinho da tarde.

Esse caminho de estudos leva-me a concretizações ainda muito particulares, assim como a muitas brigas para impor o meu ego (sim, muito grandioso). Entretanto é a primeira vez que eu sei que esses embates tornam-me segura de mim mesma, pois (não culpe-me por minha arrogância) sei como posso ser capaz e melhor. E, de antemão, o que pode impedir-me de ser reconhecida é o favorecimento dado a outros não tão merecedores (o que já, infelizmente, mostrou-se tão cedo). 

Ah... Criei trabalhos incríveis: falei sobre os manuscritos iluminados, explorei o meu inglês, passei madrugadas com pesquisas extraordinárias, impus a minha voz, debati sobre a Fome da Batata, na Irlanda, falei sobre o Cinema e suas concepções históricas, aprendi que não podemos fazer dos filmes documentos isentos de ideologia, entretanto podemos utilizar os mesmos para entender a sociedade na qual eles foram concebidos. Mostrei para a sala o James Dean e sua Juventude Transviada e também o David Lynch. Aprendi um pouco de Libras e conheci pessoas mais novas, muitíssimo mais novas. Um dos poucos momentos de tristeza nesse curso e que causou um específico desconforto espinhoso deu-se quando um certo jovem da sala, em conversas informais comigo, foi muito enfático ao falar da minha solteirice e meus trinta e três anos (não posso queixar-me do meu formato, foi dado-me um rosto muito bom!). Foi como se ele dissesse: "Eu tenho vinte anos e você está perto da morte e longe do despertar dos amores..." ou algo do gênero. Inquietou-me pensar que se fosse um HOMEM nas minhas condições, ele seria celebrado como um verdadeiro Deus, cobiçado em forma, pensamento e idade. O machismo, infelizmente, não está longe de acabar, mesmo entre os botões frescos de cravo.

Ainda continuo a trabalhar com mapas mentais e também sou bolsista do PIBID (Programa de Iniciação a Docência), acompanhando uma escola da rede estadual.

O novo governo nacional é um grande pesadelo, uma verdadeira distopia. É como mergulhar no terror. Passarei a tarde assistindo a filmografia e a nova série do Jim Carrey, Kidding. Estou agora mergulhada no universo dele. Ele é um ator excepcional e sua trajetória de vida merece um estudo. 

Passou-se mais um ano em que amei ninguém. Senti saudade da intensidade e fervor daqueles de outrora preenchidos por esse sentimento, mesmo que, na grande maioria, fosse unilateral, platônico e um fruto caramelizados da minha mente. Isso sim foi muito estranho. Será que estou no oceano da desilusão? Uma naufraga esperando apenas a morte? Ou falta-me a paciência e a limpeza dos rancores, a queima das recusas, o esquecimento das trocas e desprezo? São as reflexões que podem levar-me as respostas que preciso.

Por aqui, então, termino. E deixarei a primeira música que escutei nesse dia de muitos outros que foram enebriados pelas promessas e imaginação.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Manuscritos Iluminados – Tesouros da Idade Média

Cena do filme O Nome da Rosa/1986
"Basicamente eu diria que as iluminuras estavam lá não como uma explicação, ou até mesmo como uma ilustração, mas como um modo de adicionar valor a Palavra de Deus." (Professora Germaine Greer, Universidade de Cambridge, documentário Illuminations Treasures of the Middle Ages - BBC)

Os livros modernos são uma comodidade. Cada texto é reproduzido mecanicamente em larga escala - um objeto reivindicado para o consumo das massas. Mas há muito tempo, quando cada livro era único e feito à mão, a palavra tinha uma espécie de magia e poder sobre ele. Por mais de 1000 anos, os manuscritos iluminados trouxeram estórias de mitos e lendas para a vida. Suas páginas brilhantes preservaram ideias das crenças religiosas e muitos mistérios sobre a Idade Medieval. E eles são muito importantes, pois contêm a maior parte da arte requintada medieval e cultura da Europa antes do século XVI.

1. Primórdios

Cena do filme O Nome da Rosa/1986
Quando o Cristianismo chegou até Roma, foi perseguido. Porém, gradualmente, a Religião Cristã cresceu no interior do próprio Império do século IV. Esse Cristianismo já não era mais o das pequenas comunidades, como no início - estava hierarquizado e modificado. Com o Edito de Milão (313 D.C., com o Imperador Constantino), foram asseguradas a tolerância e liberdade de culto para todos os cristãos no território do Império Romano. Em 380 D.C., o Imperador Teodósio decretou que a religião oficial do Império seria o Cristianismo e o mesmo, antes de morrer, em 395 D.C., instaurou duas capitais do Império – Constantinopla, no Oriente, com a Língua Grega - E Roma, no Ocidente, com a Língua Latina.

Quando o Império Romano do Ocidente esfacelou-se, apenas o Cristianismo Romano, na forma da Igreja Católica, sobreviveu. Com as Invasões Bárbaras, uma nova questão foi colocada – como cristianizar esses povos? Eles não eram analfabetos, eles simplesmente eram ágrafos – não tinham escrita. Então a necessidade de evangelizar esses povos tornou-se urgente. Paralelo a este movimento, alguns cristãos afastaram-se do mundo, concentrando-se em monastérios, com regras e trabalhos permanentes. Foram os monasticistas que dedicaram sua vida a religião, ao culto, as privações, as obrigações de voto e, principalmente, aos manuscritos iluminados.

2. Os primeiros mosteiros

O primeiro mosteiro apareceu no Egito, no deserto, com Santo Antão, no século IV (350 D.C.). E o primeiro mosteiro na Europa surgiu na parte Ocidental, no Monte Cassino, Itália, por São Bento de Núrsia, em 529 D.C., originando a Ordem dos Beneditinos.

Evangelhos de Lindisfarne - Iluminura
insular - Mosteiro da Inglaterra na
Ilha de Lindisfarne (hoje Holy Island) – 

Nortúmbria
No interior desses mosteiros, apareceu uma manifestação artística de monges feita para monges – as Iluminuras. E essas não tinham nenhuma finalidade de proselitismo. Eram cópias feitas para adornar os altares e para serem vistas pelos olhos de Deus – a Glorificação da Divindade.

3. As Iluminuras

O termo iluminura está ligado ao verbo latino illuminare (iluminar). O termo, no século IX, começou a ser utilizado pelos autores medievais para designar qualquer tipo de ornamentação ou ilustração de manuscritos. Neste sentido, illuminare significa destacar (tornar luminoso), através da imagem que determina certos aspectos do texto (para alguns autores este termo só é aplicado quando é utilizado o ouro ou a prata na pintura.). A palavra iluminura também é chamada de miniatura por alguns estudiosos que a fazem derivar da palavra latina minium (vermelho) e do verbo miniare que significa escrever a vermelho.

3.1 Do papiro ao códice

O papiro surgiu no Egito e era feito de fibras vegetais (há papiros desse material datados do século 27 A.C., achados na cidade de Tebas). E foi este papiro que chegou, no século 7 A.C, na cidade grega Pérgamo (hoje Bérgamo, na Turquia). No século 3 A.C., surgiu, então, o pergaminho (em homenagem a cidade) - um suporte para a escrita feito com couro de animais jovens (geralmente carneiro, cabra ou vitelo), tratado com água de cal, esticado ao sol e depois raspado com pedra vulcânica.

A vantagem do pergaminho em relação ao papiro é que o primeiro suportava a inscrição no verso e podia-se apagar também. Para escrever usava-se plumas, geralmente de gansos.

Entre o século III e IV D.C., esse pergaminho chegou na Europa Ocidental e foi utilizado nos mosteiros para cópia e ilustrações de livros. No século IV D.C., ele foi transformado em páginas retangulares e depois costurado. Assim surgiu o códice, que revolucionou o processo de transmissão da escrita, facilitou o transporte, a produção e conservação de imagens, já que no rolo as camadas de pintura estalavam frequentemente com o sucessivo enrolamento dos manuscritos.

[Até o século XV, o grande suporte para ilustração e escrita era o pergaminho. Só depois que o papel apareceu na Europa Ocidental, trazido pela expansão árabe. O papel já existia na China desde o final século I.]

3.2 Manuscritos iluminados – arte monástica

O Cristianismo é, efetivamente, a religião dos livros. Com essa definição, os mosteiros foram responsáveis pelas ilustrações destinadas aos livros do Catolicismo - as iluminuras.

No interior dos scriptorium (local do mosteiro destinado a criação dos manuscritos.) existiam carteiras, tinteiros, tintas pretas e tintas vermelhas de diversas origens. A preta, por exemplo, era originária da excrescência dos ovos de insetos deixados nas folhas dos carvalhos e posteriormente maceradas. Também era utilizado pigmentos de ouro ou folhas de ouro, a chamada crisografia, e pigmentos de prata ou folhas de prata, a argentografia.

Os monges que trabalhavam nas iluminuras eram classificados como: monge copista (antiquari), monge ilustrador (miniator – que, progressivamente, passa a designar todo aquele que executava qualquer ornamentação.) e monge rubricador - que se dedicava a fazer as letras capitulares das Iluminuras (Rubrica vem do latim rubrica, que significa vermelho, porém nem todas as capitulares eram dessa cor.).

3.2.1 O Manuscrito de Kells

O Livro de Kells (800 D.C) é o mais importante e maravilhoso objeto (apesar de não concluído) da chamada Arte Insular a sobreviver desde os primeiros séculos da Cristandade Celta. Cada página é magnificamente ornada com elaborados padrões decorativos e animais míticos que refletem a influência da tradição do trabalho com metais que marcou o período.

Escrito em latim, o Livro de Kells contêm os quatro Evangelhos do Novo Testamento, além de notas preliminares e explicativas, e numerosas ilustrações e iluminuras coloridas.

Monograma da Encarnação
Deus vivo e encarnado - Iniciais de Cristo
em grego - Livro de Kells
Ele deve seu nome a Abadia de Kells, situada em Kells, no condado de Meath, Irlanda. Os monges eram originários do Mosteiro de Iona, localizado numa das Ilhas Hébridas, situado em frente à costa oeste da Escócia. Iona possuía uma das comunidades monásticas mais importantes da região desde São Columba, o grande evangelizador da Escócia. Devido a multiplicação das incursões vikings, Iona tornou-se perigosa e a maioria dos monges partiu para Kells, levando o manuscrito para lá.

Tamanha era a fantasia materializada nessas iluminuras pelos escribas e monges do Mosteiro de Kells que sua obra foi considerada por um cronista do século XIII “não o trabalho de homens, mas de anjos.”.

O livro encontra-se exposto permanentemente na Biblioteca do Trinity College de Dublin – Irlanda.

3.3. Mudança – Arte Carolíngia

Enquanto as ilustrações ocorriam nas ilhas, no continente europeu, o chefe dos francos, Carlos Magno, através de uma série de vitórias militares, consegue centralizar o poder na Europa. Depois, em 800 D.C., ele é coroado pelo Papa o Rei Cristão do Ocidente.

Nesse período, há um esforço para recuperação dos padrões clássicos da arte da Roma Antiga - o que foi chamada Arte Carolíngia. As iluminuras ganharam traços da cultura romana clássica. E os monges passaram a trabalhar nos palácios.

3.3.1 O Livro Vermelho de Montserrat

O Llibre Vermell de Montserrat (O Livro Vermelho de Montserrat) é um manuscrito iluminado contendo canções do final da Idade Média. Foi escrito em torno de 1399. Seu nome provém da encadernação vermelha que recebeu no século XIX. Originalmente possuía 172 fólios duplos, dos quais 32 se perderam. 
Canção Stella Splendens
Livro Vermelho de Montserrat

As 10 composições que restam são todas anônimas. O Mosteiro foi um famoso local de peregrinação católica naquele tempo, possuindo um santuário da Virgem de Montserrat. As músicas do manuscrito são, na maioria, louvações a Virgem. Os textos das músicas são em catalão e latim e o estilo musical sugere que datam de bem antes da ocasião em que foram compiladas. 

Ele, hoje, está no Mosteiro de Montserrat, nos arredores de Barcelona, na Espanha.

Sua relativa simplicidade e belo desenho melódico fizeram com que as canções fossem gravadas por conjuntos contemporâneos dedicados à música medieval. 

Músicas

1. Canção: O virgo splendens (fol. 21v-22) (Oh Virgem esplendorosa)
2. Virelai: Stella splendens (fol. 22r) (Estrela esplêndida)
3. Canção: Laudemus Virginem (fol. 23) (Louvemos a Virgem)
4. Virelai: Mariam, matrem virginem, attolite (fol. 25r) (Louvemos Maria, nossa Virgem Mãe)
5. Virelai: Polorum Regina (fol. 24v) (Rainha dos pólos)
6. Virelai: Cuncti simus concanentes (fol. 24) (Cantemos juntos)
7. Canção: Splendens ceptigera (fol. 23) (Rainha esplêndida)
8. Balada: Los set gotxs (fol. 23v) (Os sete gozos)
9. Moteto: Imperayritz de la ciutat joyosa/Verges ses par misericordiosa (fol. 25v) (Imperatriz da cidade feliz/ Virgem, se por misericórdia)

10. Virelai: Ad mortem festinamus (fol. 26v) (Nos apressamos para a morte)

3.4 Fim de um período

Todo esse mundo veio abaixo com o nascimento das primeiras universidades no século XIII, onde os estudantes necessitavam de livros que fossem produzidos mais rapidamente, mesmo que fossem menos bonitos. Com a prensa de Gutemberg, em 1455, o declínio das iluminuras se iniciou.

No século XVI, as luzes dos manuscritos iluminados apagaram-se de vez. Na Inglaterra, com Henrique VIII e a fundação da Igreja Anglicana, muitos deles foram queimados e monastérios dissolvidos.

Alguns conseguiram preservar os livros que foram proibidos e trouxeram, assim, a história dessa rica arte para os dias de hoje.

A Universidade de Cambridge possui uma das maiores coleções de manuscritos iluminados do mundo - uma gama de diferentes tipos de livros religiosos.

Graças a perseverança dos antigos monges e técnicas de conservação avançadas, podemos testemunhar também o que, antes, era reservado somente para os olhos de Deus.

Recomendações

Filme

O Nome da Rosa (1986) - uma das obras primas de Umberto Eco que virou filme pelas mãos do diretor Jean-Jacques Annaud (Guerra do Fogo/1981). Através de misteriosos assassinatos em uma abadia, o cotidiano dos monges e as iluminuras são mostrados em seu esplendor. Com Sean Connery, Cristian Slater e F. Abraham Murray.

Livro

Idade Média, Bárbaros, Cristãos e Muçulmanos - Umberto Eco - Umberto Eco, com a colaboração dos mais importantes medievalistas de diversas disciplinas, nos leva em uma viagem envolvente e surpreendente através da sociedade, arte, história, literatura, música, filosofia e ciência deste período intenso da história da civilização europeia.

Disponível para compra em: Livraria Cultura (clique aqui)

Música

Jordi Savall & Hespèrion XX - Llibre Vermell de Montserrat (2010) - através de Jordi Savall, compositor e regente catalão, especialista em música antiga, e seu grupo, Hespèrion XX (agora Hespèrion XXI), este álbum traz uma performance energética e sofisticada das canções do Livro Vermelho de Montserrat.

Disponível para compra em: Google Play (clique aqui)

Luar Na Lubre – Les Set Gotxs/Faixa do álbum Mar Maior (2014) - O grande grupo galego mostra uma versão ainda mais energética e animada da canção que faz parte do Livro Vermelho de Montserrat.



Fontes

Meio eletrônico - Documentários e aulas

Illuminations Treasures of the Middle Ages - BBC. Ano 2008. Em Inglês.
História da arte II - UNESP - Iluminuras medievais: arte monástica - Parte 1. 
História da arte II - UNESP - Iluminuras medievais: arte monástica - Parte 2.
História da arte II - UNESP - Iluminuras medievais: arte monástica - Parte 3.

Meio eletrônico - E-books

Dicionário da Idade Média. Organizado por H. R. Loyn. Google Livros. Várias páginas consultadas. Em Português.

Livros 

Idade Média, Bárbaros, Cristãos e Muçulmanos. Umberto Eco. Várias páginas consultadas. Editora D. Quixote Books. ISBN 9789722049924. Em Português.
1000 Lugares para Conhecer Antes de Morrer. Patricia Schultz. Página 42. Editora Sextante/Gmt. ISBN 8575422162. Em Português.

Meio eletrônico - Artigos e Postagens

À descoberta da cor na iluminura medieval com o Apocalipse do Lorvão e o Livro das Aves - Departamento de Conservação e Restauro - Faculdade de Ciência e Tecnologia - Universidade Nova de Lisboa - Arquivo Digital - Iluminura Medieval. Em Português.
A luz e a sombra da iluminura - História, imagem e narrativas. No 15, outubro/2012 - ISSN 1808-9895. Em Português.

Outros

Constantino Promulga o Edito de Milão - Opera Mundi - Uol.
Livro de Kells - Wikipédia em Português.
Livro de Kells - Wikipédia em Inglês.
Carlos Magno - Wikipédia em Português.
Arte Carolíngia - Wikipédia em Português.
Livro Vermelho de Montserrat - Wikipédia em Inglês. 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

O som das águas (O son das augas)*

"Abriu-se uma porta... Era um novo mundo distante deste tão cheio de amarguras incuráveis, de sangue vívido, de pudores e mais vergonhas. Não há mais motivo para esconder a minha própria face. Todas as lembranças esvaíram-se e todos foram esquecidos. Uma nova vida avança, utópica, cristalina e tão reluzente como brasa incandescente. É a tranquilidade dos cantos da aurora. 
Sim... É só um sonho longínquo desse tempo que vivo. E dele alimento-me para sobreviver dia após dia. Teci uma colcha com meus desejos. Esta agora recobre minha alma ainda ferida."


Por entre migalhas caminhei
E não mais hei de usá-las
Meu canto triste guardei
E dele fiz águas passadas.

Verde arboreto com pedras
Um caminho novo, sim!
É delas feita uma orquestra
Com notas em sol carmim.

Tilintar de gotas diamantes
Alvejantes
Entre dois amantes.

Não há mais dor
E muito menos dissabor
És teu tempo, óh, Amor!

                                                       Por T.S. Frank

*Frase em galego para 'som das águas'. É também título de uma das faixas mais bonitas do álbum de 2007, Camiños Da Fin Da Terra, do grupo galego Luar Na Lubre. 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Via Láctea

Desde o tempo imemorial, o caminho das estrelas traçado no céu, e conhecido como Via Láctea, foi guia para muitos peregrinos que levados por seu fulgor chegaram a Fisterra* galega, onde ficavam deslumbrados pela imensidão do Atlântico e os impressionantes pores-do-sol que a partir de lá podem ser vistos. (De Luar Na Lubre para a música Vía Láctea. Tradução e adaptação por T.S. Frank)


Fotografia de autoria de Laurent Lavender, 
extraída do site do autor.
Via branca, apaixonada
De pérolas pontilhada
São olhares noturnos
Nunca taciturnos

São lendas e mitos
De heróis destemidos
Ao longo da jornada
Dos deuses morada

Olhamos... Sonhamos
Olhamos... Encontramos
Pensamentos e amores
Abraços e ardores

E mesmo com mudanças
[Óh, doce via branca!]
Depois de muitas andanças
Ainda és minha esperança.

(Poema inspirado levemente na música Vía Láctea do grupo galego Luar Na Lubre)
T.S. Frank


Significados

*Fisterra - (latim: finis terrae - fim da terra) - é a capital da Comarca de Fisterra que pertence a Província da Corunha, uma das quatro que formam a Galícia. Faz parte do Caminho de Santiago de Compostela. Os antigos geógrafos greco-romanos situavam nesse lugar o Promontorium Nerium e o Ara Solis, o altar de culto ao Sol construído pelos fenícios e que foi destruído por ordem do Apóstolo Santiago.

Sobre a fotografia...

De Laurent Lavender, trata-se da Via Láctea (Voie Lactée) sobre a vigia costeira da Ponta do Raz (Pointe du Raz) que é um cabo na costa atlântica do departamento de Finistère, na Bretanha, noroeste da França.



Fontes:



quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Sereia

Sereia, lá onde a lua banha-se
Calmamente, um dia ouviu-se
Seu canto, puro e pujante
A enfeitiçar jovens viajantes.

Olhares perdidos nas procelas
São dias sem sol e sem velas
O vento cá não sopra mais
O silêncio das ondas é voraz...

[Esta pedra cinzenta é a lembrança
Das lendas entardecidas
Nos contos de criança]

“A bela azul espuma do mar virou
Sacrificou-se em prol de um amor
Que sempre a menosprezou.”

                                                       T.S. Frank




Se você ficou curioso sobre as ilustrações do vídeo... Tratam-se de três obras de John William Waterhouse (1849-1917), pintor inglês. 1. The Mermaid/1901; 2. The Siren Circa/1900; 3. Hylas and the Nymphs/1896. A última ilustração do vídeo não é do pintor.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Luceiro* da vida

Romeo e Julieta pelo pintor inglês
Sir Frank Bernard Dicksee - 1884
Ajuda-me a pegar
intrépidos pontos de luz

e, nas noites de luar,
ei de colocá-las no meu sombreiro**

assim como te coloquei...

Alumea, me alumea,***
antes que venha

a jovem Aurora:
- das cores vibrantes,

de ervas e campos,
dos bancos das praças,
e do último beijo.

Conte-me histórias dos bravos
romeiros de Santiago

antes que o sonho de outrora
leve-nos embora.

E vem que já é hora!
E vem que já é hora!

Que eu não quero dormir só!

[Lírio do campo, amor de séculos]

E, antes do raiar,
que surja tua alma

e diga-me:

- Alumea, me alumea

Estreliña da fortuna!***


T.S. Frank 

Informações

Poema livre inspirado na música Santa María Loei, contendo alguns trechos da música. É a faixa 7 do álbum Mar Maior/2012 do grupo de folk galego Luar Na Lubre. A música tem arranjos e melodia de Bieito Romero e mistura a cantiga 200 de Alfonso X com estrofes populares da região da Galícia - religiosidade e paganismo em um mesmo tema.

Alfonso X, o Sábio ou o Astrólogo (1221-1284), foi rei de Castela e Leão de 1252 a 1284 e ainda imperador eleito do trono do Sacro Império Romano-Germânico, ainda que nunca tenha exercido o cargo de fato.

Palavras e frases galegas
Luceiro* - Pode-se entender como "qualquer coisa que emite luz", ponto de luz, luz; segundo o Dicionário da Real Academia Galega - trad. - "qualquer astro que brilha intensamente!"
Sombreiro** - Chapéu
Alumea me Alumea*** - Ilumina, me ilumina
Alumea me alumea, estreliña da fortuna!*** Ilumina, me ilumina, estrelinha da fortuna!

Curiosidades do Português, Latim e Galego

Pode-se pensar muitas vezes que ALUMIAR é errado, mas o verbo existe e consta no Dicionário Mini Aurélio Escolar, p. 35.

Alumiar não tem o mesmo radical de luz ou luzeiro no Português (que tem uma palavra galega parecida - luceiro), mesmo tendo um significado derivativo destas. O radical desse verbo vem da palavra LUME e esta significa LUZ (Mini Aurélio, p. 433). Lume deriva da palavra latina lumen (Dicionário Escolar Latino-Português de Ernesto Faria, p. 575) que significa "luz, claridade". Há a variante lúmen que em FÍSICA designa uma medida de fluxo luminoso e em ANATOMIA significa a cavidade de um órgão.

Luar Na Lubre - Santa María Loei


Fontes

Mini Dicionário Aurélio Escolar, 2000
Dicionário Escolar Latino-Português de Ernesto Faria, 1962

Site do Luar na Lubre – Álbum Mar Maior
Afonso X - Wikipédia em Português

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Recomendação musical especial - Luar Na Lubre



É com muito prazer que trago a vocês, queridos (as) leitores (as), um dos meus grupos musicais favoritos – Luar Na Lubre.

Luar Na Lubre é um grupo de folk galego, criado em Corunha (Coruña) em 1986. O nome vem do galego Luar - resplendor da lua – e Lubre – espécie de bosque sagrado para os celtas, onde seus rituais aconteciam.

(Entre linhas – folk galego é um gênero musical tradicional de uma das regiões da Espanha conhecida como Galiza (ou Galícia em espanhol). Pela Constituição Espanhola, ela é uma comunidade autônoma, ou seja, entidade territorial dotada de autonomia legislativa e competências executivas. Corunha é justamente a capital da Galiza e nela fica Santiago de Compostela (quem é leitor de Paulo Coelho e debruçou-se sobre O Diário de um Mago tem uma ideia geral) – lugar de peregrinação e atmosfera mística, onde acredita-se que os restos mortais do apóstolo Santiago foram levados. Possui uma das mais belas catedrais barrocas do mundo. Por lá, falam o galego – mais parecido com o português do que o próprio espanhol de hoje – que pode ser considerado uma evolução do galego-português - falado em Portugal e na Galiza na Idade Média, que originou o português de Portugal e o galego de hoje)

O Luar Na Lubre também tem raízes célticas, afinal, a Galiza, na Idade do Ferro, foi povoada pelos celtas.

É considerado o maior grupo de música folk galega (ou música celta da Galiza) e um dos grandes representantes do gênero celta. O grupo é dono de inúmeros prêmios, ótimas críticas e fama mundial.

Em 1992, Mike Oldfield – compositor e músico inglês, com influências que vão do rock a música étnica (ouça Tubular Bells/1973) – 'globalizou' o octeto quando fez sua própria versão de O Son do Ar (do álbum de 1988 do Luar Na Lubre – O Son do Ar). O rearranjo feito por Oldfield saiu no álbum de 1997 – Plenilunio – e foi disco de ouro.

Luar Na Lubre é espiritual, cultural, brisa suave, aconchego e harmonia. E, sem nenhuma parcialidade, digo a vocês, uma vez experimentado, é como alcançar o sétimo céu, ou melhor, a sensação de terminar, como muitos relatam – o caminho de Compostela.

Membros & Instrumentos (Atualizados - 2017)

Antía Ameixeiras

Belém Tajes  voz;
Xan Cerqueiro – flautas;
Xulio Varela – bouzouki (tradicional grego), trompa, tarrañola (tradicional galego) e pandeireta (tradicional espanhol – semelhante ao nosso pandeiro, só que menor);
Belém Tajes
Patxi Bermúdez – bodhran (tradicional irlandês – semelhante ao tamborim), tambor e djembê (tradicional africano);
Antía Ameixeiras – violino;
Bieito Romero – gaitas, concertina (acordeão diatônico) e sanfona;
Pedro Valero – guitarra acústica, elétrica e espanhola, bouzouki (tradicional grego) e baixo pedal (linha de baixo que permanece numa nota durante uma mudança harmônica);
Xavier Ferreiro – percussão latina e efeitos.

Membros anteriores

Ana Espinosa – voz (1986-1996)
Rosa Cedrón – voz e violão celo (1996 – 2005)
Sara Louraço – voz (2005 – 2011)
Eduardo Coma – violino (1998-2016)
Paula Rey – voz (2012-2017)

Discografia (Atualizada - 2017)

O Son do Ar (voz: Ana Espinosa) – 1988
Beira Atlántica (voz: Ana Espinosa) – 1990
Ara Solis (voz: Ana Espinosa) – 1993
Plenilunio (voz: Rosa Cedrón) – 1997 (disco de ouro)
Cabo do Mundo (voz: Rosa Cedrón) – 1999 (disco de ouro)
XV Aniversario (voz: Rosa Cedrón + convidados) – 2001
Espiral (voz: Rosa Cedrón) – 2002
Hai un Paraíso (voz: Rosa Cedrón) – 2004
Saudade (voz: Sara Louraço) – 2005
Camiños da Fin da Terra (voz: Sara Louraço) – 2007
Ao Vivo (voz: Sara Louraço + convidados) – 2009 (2CDs + DVD)
Solsticio (voz: Sara Louraço) – 2010
Mar Maior (voz: Paula Rey) – 2012
Sons da Lubre nas Noites de Luar (misto: todas as vocalistas anteriores + convidados) – 2012 (3CDs + DVD)
Torre de Breoghán  A Luz dos Milésians – com a Orquestra Sinfónica de Galicia (voz: Paula Rey) – 2014 (2CDs + DVD)
Extra:Mundi – (voz: Paula Rey) – 2015
XXX Aniversario – Selección Especial de Temas – (misto: todas as vocalistas anteriores + convidados e novos arranjos para algumas músicas anteriores) – 2016 (2CDs)

Longa metragem

Un Bosque de Musica – 2004 – dirigido por Ignacio Vilar

Lista por T.S. Frank

Separei 10 músicas para você conhecer melhor o trabalho deste fantástico grupo.

1. O Son do Ar (vídeo aqui)
2. Roi Xordo (vídeo aqui)
3. Romeiro ao Lonxe (Sara Louraço & Diana Navarro) (Scarborough Fair) (vídeo aqui)
4. Galaecia (vídeo aqui)
5. Chove en Santiago (Rosa Cedrón) (vídeo aqui)
6. Costa da Morte (vídeo aqui)
7. Cantigas de Alfonso X (Rosa Cedrón no Celo) (vídeo aqui)
8. Canto de Andar (Sara Louraço) (vídeo aqui)
9. A Carolina (Schiarazulla Marazulla) (Paula Rey) (vídeo aqui)
10. Memoria da Noite (Rosa Cedrón) (vídeo aqui)

Adicionais (2014)

11. Sereas  (vídeo aqui)
12. Son das Augas (Sara Louraço no teclado) (vídeo aqui)
13. Cantiga do Neno da Tenda (Sara Louraço) (vídeo aqui)
14. Vía Láctea (vídeo aqui)
15. Santa María Loei (Paula Rey) (vídeo aqui)
16. Les Set Gotxs (Paula Rey) (vídeo aqui)

Adicionais (2015)

16. La Molinera (Paula Rey)



Adicionais (2016)

17. Dun Tempo Para Sempre - Nuevo Arreglo (part. Irene Cerqueiro)



Fontes:

Luar Na Lubre - Wikipédia Galega 
Luar Na Lubre - Wikipédia Espanhola
Site oficial do Luar Na Lubre

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