sábado, 24 de setembro de 2016

Anoitecer (Dusk) - Flauta Nativa Americana - NAF


Ao anoitecer, todos os espíritos saem das florestas rumo as montanhas vermelhas. E seus passos vão de norte a oeste, deixando rastros azuis de encantamento e gotas de lágrimas incandescentes - são as estrelas que cintilam no boreal. (T. S. Frank)

***

Anoitecer
Flauta (em bambu) Nativa Americana, chave em F, pentatônica
Tocada por T.S. Frank
Música incidental: Dusk pt. 1, Sound of the Earth - Dusk.

Dusk
Native American Bamboo Flute, Key F, pentatonic,
Performed by T.S. Frank
Incidental music: Dusk pt. 1, Sound of the Earth - Dusk.


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A bissexualidade, a não maternidade, maternidade tardia e outras questões...

Ah, esses nefastos dias de opressão, golpistas e republiqueta. O mundo tornou-se um caos por culpa do medonho embuste por trás da moral e dos bons costumes... Que blasé!

... E por esses dias estava eu a discutir sobre a bissexualidade.

Acredito piamente, o ser humano é bissexual. O amor não faz escolhas. E isso seria tão natural se o mundo não amargasse em questões religiosas extremistas.

Até o momento, nunca apaixonei-me por uma mulher. Mas isso não tira-me a possibilidade de que talvez um dia isso ocorra. Afinal, o amor e o desejo fazem distinção entre quem tem um pênis ou uma vagina? Ou a enraizada culpa religiosa e machista amarga qualquer pensamento sobre isso? São perguntas pertinentes em um mundo ainda em suave transição.

Esta foi uma semana reveladora. Muitas pessoas que eu gostei ou namorei, de fato, já experimentaram ambos os lados. E, pelo que sussurram, talvez, fiquem na oposição. Uma delas é um conto bem triste, com suicídio, disfarces e assuntos que foram escondidos por aqueles que eu confiei. Para este eu desejo uma felicidade plena.

Relacionar-se é um bocado difícil, seja com homens ou mulheres. Não importa. É o cotidiano sufocante em um mesmo ambiente que aniquila qualquer possibilidade de paz e satisfação. Quase um filme Veludo Azul: a face bizarra de um mundo coberto pelas cores artificiais de tulipas esfuziantes que escondem existências tão degradantes como a pior sarjeta existente - sem tirar e nem por.

Eu já passei pela experiência de ficar uma semana na minha casa e uma semana na casa do meu ex-namorado, alternando durante uns seis meses. Meu Deus do céu... Que patético. Aquilo definitivamente não é para mim. Uma grande sensação de estrangulamento, deslocamento e todos os mentos. E como a vida flui, eu tive que dar um ponto final nessa tragédia anunciada. E, posso afirmar por agora, que não quero esse tradicionalismo nem pintado com o orvalho dourado da manhã. Sim, eu quero um living apart together, assim como escrevi aqui, nesse blog, há 5 anos.

Não posso ser acusada de não tentar. Afinal, todos os religiosos, machistas e românticos ensandecidos gostam de dizer que não se encontrou a pessoa certa e blá, blá, blá... E sobe-me uma certa quantidade de sangue para a face quando escuto algo do tipo. Padronização desenfreada e empurrada garganta abaixo não há como tolerar. É como calçar sapatos comprados em lojas: eles são feitos para vários números iguais ao seu, mas seus pés são únicos e uma hora um deles vai machucar muito e deixar sequelas.

Aliás, há um certo misticismo em várias questões femininas. Exemplo? Virgindade. Nunca entendi o porquê dessa aura dourada e fantasiosa em torno dela. Na prática é bem mais simples - não há mortos e nem feridos - um pedacinho de pele foi-se - não existe nenhuma obrigação. Como a vida era difícil quando por causa desse famigerado hímen muitas mulheres tinham que viver com um canalha por um longo tempo...

Outra questão é a maternidade. E essa causa-me calafrios. Não pelo desejo de não ser mãe tão cedo, que é algo que grita dentro de mim (eu só tenho 30 anos e nenhuma vocação e vontade, não há útero e hormônios que mudem minha concepção por agora.), e sim pelo fardo que é um acordo (ou uma intimação) unilateral. Está extremamente longe o ideal de parceria neste caso - a paternidade ainda significa uma liberdade maior do que a maternidade. E não venha-me com essa história de que o homem trabalha para sustentar filho e mais umas lorotas. A sociedade aponta no seu rosto todos os dias. Quem conforma-se com isso, tudo bem, padeça no seu paraíso. Mas o número de inconformadas aumenta a cada dia, o que é um alento. Temos aqui uma balança em desequilíbrio visível. E ainda há os riscos de morte na gravidez e a criminalização do aborto. Por isso que amo os pinguins e os cavalos marinhos - a natureza redimiu-se comigo apenas nestes casos.

Por outro lado, a maternidade tardia e a adoção causam burburinhos. Hoje há a tendência de engravidar aos 40 anos. Mas com toda a certeza você já ouviu, ou ouvirá, chiados por todos os lugares. Eu mesma já escutei cada barbaridade de colegas que não valem perder o meu tempo. E a balança novamente pende para um lado - um homem que tem um filho aos 40 anos será abençoado por um bocado de gente. A adoção segue a linha da família tradicionalista putrefada - "eles não são seu sangue.", mas se o casal é gay, há uma virada de casaca: "o que será dessa criança!".

A vida é injusta com as mulheres desde os primórdios. Mas o que ocorre-me é que não há como voltar para o estado em que éramos escravas do mundo e do lar, monitoradas pelas famílias, pelos homens e pelos juízes e juízas moralistas. Só que não aproveitaremos a igualdade como desejamos, que bem mais tarde ocorrerá. A mortalidade não nos permitirá. Nosso papel é lutar, dizer não e revidar - e isso é desgastante e necessário. É seguir em frente com os ideais, mesmo que o machismo velado diga que você é louca, mal amada, encrenqueira, um monstro por não querer ser mãe, defender o aborto e uma série de barbaridades que a sociedade prega como verdades absolutas para uma cidadã de bem.

Sinto-me um ser amordaçado, recorrente a pantomina. Tudo é enfadonho e bem cinzento. Ser mulher é entrar em um campo de batalha minado todos os dias, muitas feridas ao longo da guerra em nome da liberdade...

... A liberdade para amar pessoas, de não ser mãe, decidir sê-lo bem depois...
... Liberdade de ser eu mesma em minha essência - sem o peso das correntes alheias.

sábado, 27 de agosto de 2016

Minha nova Flauta Nativa Americana de 6 furos (diatônica) e a música Annie's Song do John Denver

Há alguns dias comprei uma nova NAF (Flauta Nativa Americana). Como já falei anteriormente para você, querido (a) leitor (a), eu tenho uma feita de bambu, pentatônica, ou seja, com cinco furos. Ela é mais típica dos povos andinos (frequentemente, pode-se ver o bambu empregado nas famosas e belíssimas Flautas de Pã.). Mas eu desejava também ter uma típica da América do Norte. E assim consegui realizar o meu desejo (o que me endividou até o final do ano.).

Eis my new PRECIOUS:

NAF - Diatônica - 6 furos - em madeira

Ela é também em F (assim como a de bambu). Quando a encomendei, pedi que fosse uma pentatônica. Mas o luthier convenceu-me que era melhor ter a diatônica, assim como as originais. Ele apenas colocou a faixa de couro no quarto furo para virar uma de 5 furos, assim como é feito nos Estados Unidos. Com o tempo, percebi que era melhor tirar a faixa e treinar com todos os furos. Assim saiu Annie's Song na minha flauta, cuja a gravação que eu fiz você escutará logo mais. Pois antes falarei dessa canção que eu amo que foi escrita e gravada por um músico que amo ainda mais, John Denver (que eu já falei AQUI e AQUI no blog há uns anos...).

Annie's Song


Álbum de 1974 - Back Home
Again - Na foto, podemos ver
John Denver e sua esposa
Annie Martell Denver
Annie's Song (também conhecida como "Annie's Song (You Fill Up My Senses)") é uma canção de rock country escrita e gravada pelo cantor John Denver. Ela foi lançada como single do álbum de 1974 - Back To Home Again. E tornou-se um estrondoso e cativante sucesso. Ficou no topo dos charts de música daquele ano por meses e terminou na famosa lista cumulativa de dezembro da Bilboard Hot 100 de 1974 em #25. Ele a escreveu para sua primeira esposa, Annie Martell Denver, em 1973, em apenas 10 minutos e meio, num teleférico de uma estação de ski. Toda a beleza que viu na descida o inspiraram a escrever sobre a esposa. 
John Denver
Foto retirada do encarte do
álbum A Song's Best Friend
The Very Best Of John
Denver

Milt Okun (produtor musical de Denver), no encarte do álbum A Song's Best Friend The Very Best of John Denver, de 2004, fala que:

John chegou um dia no estúdio e tocou esta canção, que chamava de Song For Annie. Eu lhe disse: - John, estes são os primeiros acordes do Segundo Movimento da Primeira Sinfonia de Tchaikovsky. Este mesmo trecho também havia sido usado, uns quarenta anos atrás, em uma canção pop chamada 'Moon Love'. John então se sentou ao piano por meia hora e modificou a música, que ficou sendo uma pequena parte Tchaikovsky e em sua maior parte Denver. John foi quem teve a ideia de fazer um refrão inteiro apenas murmurando. Naquele tempo todas as vozes tinham que ser gravadas, não havia os recursos de hoje, ao alcance de alguns botões. No fim, a parceria com Tchaikovsky acabou ficando ótima. E Annie's Song tocou vários corações ao redor do mundo. 

Infelizmente, John Denver faleceu em 12 de outubro de 1997, em um acidente com seu avião experimental. Ele mesmo o pilotava no momento.


A Sinfonia No. 1 - Tchaikovsky


... Também conhecida por Sonhos Diurnos de Inverno - Pyotr Ilyich Tchaikovsky a escreveu em Sol Menor (G Minor), em 1866, logo após ter aceitado um cargo de professor no Conservatório de Moscou. E a mais antiga obra notável do compositor.

Estrutura:

1. Sonhos de uma Viagem de Inverno. Allegro tranquillo;
2. Terra da Desolação, Terra das Névoas. Adagio cantabile;
3. Scherzo. Allegro scherzando giocoso;
4. Finale. Andante lugubre - Allegro maestoso.


Minha gravação de Annie's Song

Flauta (em madeira) Nativa Americana, chave em F, diatônica
Tocada por T.S. Frank

Annie's Song
Native American Flute (wood), Key F, diatonic,
Performed by T.S. Frank






Performace de John Denver -  Annie's Song

Diálogo do começo do vídeo (tradução por T.S. Frank)

John Denver - "Vocês sabem, é algo maravilhoso ser capaz de compartilhar-se com as pessoas. E eu encontro tanta alegria em escrever canções que o melhor que eu posso fazer sobre isso é cantar para vocês. E eu gostaria que soubessem que a melhor parte de comunicar e compartilhar-se é ser capaz de dividir o modo como se sente sobre a primeira pessoa em sua vida - esta bela mulher que eu sei que é a Annie, que apoiou-me e deu-me forças para fazer tudo o que eu queria em minha vida. Esta é sua canção..."


Sinfonia No. 1 - Tchaikovsky

... Por um dos meus regentes favoritos - Herbert von Karajan

Berliner Philharmoniker
1979



Fontes:

Milt Okun - Encarte do álbum A Song's Best Friend The Very Best of John Denver, de 2004 - Faixa 8 - Annie's Song
Annie's Song - Wikipédia em Inglês
John Denver - Wikipédia em Inglês
Sinfonia No. 1 - Tchaikovsky - Wikipédia em Inglês

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Layout do mês: homenagem a Stranger Things - Netflix

A NetFlix mudou a vida de muita gente, inclusive a minha e provavelmente a sua. Eu tenho muitas coisas para falar sobre o serviço de streaming, pois sou usuária e amo - principalmente quando eu estou em casa, de folga e coloco na minha Smart TV. Mas isso deixarei para outra hora...

Hoje estamos homenageando a série que virou sensação: Stranger Things. O CQ&Sherlock trará uma resenha em breve... Enquanto isso... Se não viu, veja!




Quer o seu próprio logo de Stranger Things? Visite MakeItStranger.com

domingo, 14 de agosto de 2016

Um sonho sobre assassinatos

O título é assustador e macabro - um sonho sobre vários assassinatos que poderia ser (se sonhos fizessem sentido) um conto do Edgar Allan Poe.

Prólogo

Um dos meus sonhos recorrentes é com assassinatos. Sim isso mesmo! O meu, por assim se dizer. Sonhar com a morte é comum entre nós, porém, nos que eu tenho, ela é sempre causada pelos outros.

Se eu fosse utilizar a Astrologia, que oferece uma gama confusa de diversos significados, ficaria, além de desacreditada, com dúvidas extremas. Foi assim que essa alternativa foi deixada de lado, pois não há nada de místico e verdadeiro em algo que enche, também, sua tela de spams.

Um dia, talvez, eu recorra ao Espiritismo sério. Afinal de contas, eu acredito em reencarnação e carma. E de todas as religiões, incluindo a minha atual que é a Católica, ela é que desperta em mim a sensação de que há, realmente, algo que não pode e nunca poderá ser provado cientificamente, mas que coexiste desde o princípio de todos os universos, invisível para a maioria e para todos os instrumentos, inerente em nossa essência.

Minha mente então fantasia, tornando-se uma roteirista que trabalha enquanto eu durmo. E nela os cenários das angústias tomam corpo e rosto. E filmes horrendos, cheios de pesar, começam a ser rodados.

Sonho
14 de Agosto de 2016 - Tarde

Prelúdio  

Outro sonho frequente é com uma casa antiga e de madeira. Essa casa, muitas vezes, é o primeiro sonho, de curtíssima duração. Eis sua descrição:

Uma casa velha de madeira, enorme, com três ambientes - subsolo, térreo e sótão. Ela está condenada. Muitas tábuas estão soltas. Precisa-se tomar um certo cuidado ao pisar. Não posso afirmar a época a qual ela pertence. Há uma escada em espiral feita de ferro e ricamente decorada. Ela liga o primeiro andar ao segundo. Pela fresta, percebe-se que ela fica em um lugar isolado, pois há um grande descampado com uma grama um pouco desbotada. No sótão há móveis - cadeiras, principalmente. Eles parecem antigos, não apenas no estado, mas de uma época muito distante.  

***

Tudo começa com um navio amarelo parado na beira de uma praia, onde, um pouco longe, pode-se ver um posto de gasolina. No convés, uma mulher conversa com outra - as duas possuem cabelos pretos e são brancas. A primeira parece solitária e um pouco triste e a segunda, distante e não inspira confiança. Estou observando a cena, assistindo em primeiro plano, mas não posso dizer se eu sou ou não a primeira mulher. 

Todos estão indo embora. A impressão é que algo aconteceu com esta embarcação e ela não poderá mais seguir viagem. Apesar de parecer muito fácil apenas descer e ir para a areia, a primeira mulher não vai embora como os outros. Ela decide ficar e, aparentemente, espera a ajuda da segunda que, assim como quase toda a tripulação, foi embora. Ao que tudo indica, essa segunda prometeu algo. Mas, de alguma forma, eu sabia que ela não iria retornar e fazer o que foi combinado. 

A primeira mulher desaparece dentro do navio.

Agora há uma outra cena, dentro do navio, em um ambiente totalmente branco. Desta vez sou eu, do jeito como conheço-me hoje. Estou com pessoas conhecidas e desconhecidas. Somos hóspedes. Mas o navio continua parado. Estamos desfazendo as malas para ficar. É como se conhecêssemos a mulher que sumiu e estamos investigando o seu desparecimento. De repente, uma outra cena: dois contêineres brancos são avistados. Estou lá para abri-los. O primeiro está cheio de água turva e contém vários gatos pretos mortos que encobrem um corpo que não pode ser imediatamente reconhecido. Só é possível saber que é uma mulher e que tem cabelos pretos. Há uma sensação geral que aquela é a mulher que sumiu. O segundo, ao ser aberto, revela uma água clara com um corpo de uma outra mulher com a cabeça decepada e a cabeça está ao lado do corpo. Não há vestígios de sangue na água. Ele parece ser de alguém conhecido no sonho, mas que não conheço na minha vida presente. 

A atual tripulação fica desesperada com a descoberta dos corpos. E deduz-se que aquilo foi obra de um serial killer - pelo modo como foram mortas e onde foram colocadas. Depois de muito se discutir, decide-se sair do navio às pressas e ir para um hotel, pois o assassino poderia estar naquele lugar. 

O cenário muda novamente. O navio agora é a minha antiga casa da infância e eu estou no meu quarto. Continuo a arrumar a minha mala para ir embora, pois o assassino poderia chegar a qualquer momento. E assim que finalizo, ouço um assovio, como um canto assustador, que ecoa por entre a fresta da janela de madeira. Saio correndo, chamando pelos outros, e quando passo pela porta, posso ver o assassino - uma mulher negra e de cabelos cacheados, que segura uma faca pontiaguda e pequena. Ela fala sobre humilhações sofridas e parece ter sede de vingança. Nesse intervalo, ela adentra a casa e uma das pessoas que ficou consegue escapar. Tento abrir a porta da frente, um portão preto, mas a chave está amolecida. Consigo, finalmente, abri-lo. Corremos todos para a rua. A assassina está a nos perseguir incansavelmente. Há uma grande escuridão naquela parte e nossos vizinhos recusam-se a ajudar. A única parte iluminada, onde tenho a impressão que podemos ficar a salvos, fica na rua alta, perto da praça da Igreja. Estamos na direção dela.... 

Mas não sei se conseguimos chegar, pois acordei. 


Epílogo


O blog, ao longo desses anos, está repleto com meus relatos de como a vida tornou-se bem mais difícil há, exatamente, cinco anos. Tudo começou com a mudança de uma cidade para outra, um curso universitário (Física) tardio e difícil de terminar, desemprego, falta de dinheiro, relacionamentos amorosos falidos, amizades falsas, moradias suspeitas, uma cidade extremamente violenta, câncer na família (já superado), estafa mental e uma doença na coluna sem cura: degeneração discal. Eu passei de uma vida ruim com esperança para uma terrível com quase nenhuma gota de ânimo. Hoje eu vivo no que eu chamo limbo. Mudei de casa, vivo com a família, mas sinto-me o tempo toda pressionada e com a sensação de fracasso. Não terminei o curso ainda, não exerço minha profissão da outra graduação, minhas dores na coluna voltaram bem fortes, fiquei sem bolsa da Iniciação Científica e terei que cancelar meu plano de saúde que está caro por demais. Não tenho um bom relacionamento com minha família e todos os dias estou aborrecida. Percebi que os poucos amigos que tenho têm outras prioridades e seus sentimentos nessa ligação são mais ralos que sopa de orfanato. Tudo parece uma tragédia sem precedentes, com uma cor cinza morfética e cheia de bolor.

Todos esses anos e nada mudou - uma prisão fria, onde pode-se ouvir o pingar da água e o vento gélido por entre as grades enferrujadas. Minha consciência é viva e ativa, ansiando por ir velozmente em direção a um mundo novo. Só que meu corpo cheio de dores, a realidade ao redor e todas as pessoas tornaram-se meus carrascos.

Para entender esses sonhos, um psicanalista poderia servir. Aliás, como diz uma prima: psicólogos e psicanalistas são os únicos que nos ouvem porque são pagos. Talvez, um dia, eu descubra o significado desses pequenos filmes sombrios.

Por enquanto, registrá-los já está de bom tamanho.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Crítica da semana: O Jovem Andersen (Unge Andersen/2005)

Andersen construiu os mais lindos e delicados personagens infantis através do seu dom de contar histórias. As asas da sua imaginação levaram-no ao céu da imortalidade, bem longe e muito longe do sofrimento, descrédito e miséria em que estava mergulhado em sua tenra idade. Sua juventude, ricamente detalhada, mostra sua fragilidade e inocência, ao mesmo tempo em que uma incrível força de vontade e teimosia nunca cessam - eis o mérito principal deste incrível filme!

Não é de hoje que comento minha paixão por dois escritores: Oscar Wilde e Hans Christian Andersen. Histórias de Fadas (1888) (crítica no CQ&Sherlock aqui), de Wilde, é recomendação primordial na literatura infanto-juvenil, enquanto Andersen é referência mundial neste gênero.

É quase certo que todos conhecem a adaptação de A Pequena Sereia, de autoria de Andersen (a história é tão importante para a Dinamarca que uma estátua de Ariel, em bronze, está localizada no porto principal da Copenhague), da Disney. Eu mesma gosto muito da animação. Porém ela não faz jus a história original. Contos de Fadas não foram feitos para serem felizes para sempre - eles são para educar e emocionar. E o filme para TV (que originalmente foi divido em duas partes, como uma minissérie) O Jovem Andersen (Unge Andersen/Dinamarca/2005) mostra exatamente onde floresceu a primorosa escrita do grande contador de histórias dinamarquês - na pobreza extrema e preconceito - traços marcantes em seus contos.

Com direção de Rumle Hammerich, o filme retrata a juventude de Andersen (nascido Hans Christian Andersen, Odense, 2 de abril de 1805 e falecido em 4 de agosto de 1875 em Copenhague) e sua luta para ter uma chance como escritor de peças de teatro. Rejeitado por todos por sua aparência paupérrima, origem humilde e jeito infantil, sua única salvação foi sua própria insistência (ao ponto de tornar-se chacota nos círculos de escritores). Só conseguiu algo substancial por intermédio de Jonas Collin e da boa vontade do Rei da Dinamarca, Frederico VI, que viu um possível potencial nele. E nesse ponto começa toda a jornada de sofrimento do jovem Andersen (com apenas 17 anos), ingressando no prestigiado Colégio Interno de Meisling, fora de Copenhague. A princípio, foi privado de escrever suas poesias e educado para ser apenas um auxiliar de escritório, para depois, gradualmente, quase mergulhar na loucura nas mãos do implacável diretor Meisling. A sua amizade com o empregado do diretor da escola, o garoto Tuck, é um dos principais focos da narrativa - cumplicidade, tristeza, injustiça e impotência permeiam esse laço. Em uma das cenas mais bonitas, onde a história entra no ápice, surge a narrativa que tornou Andersen o pai dos Contos de Fadas - A Pequena Sereia:

"Far out in the ocean the water is as blue as the petals of the loveliest cornflower, and as clear as the purest glass. But it is very deep too. It goes down deeper than any anchor rope will go, and many, many steeples would have to be stacked one on top of another to reach from the bottom to the surface of the sea. It is down there that the sea folk live..."

"Bem no fundo do mar, a água é azul como as pétalas das mais bonitas centáureas e pura como o cristal mais transparente. Mas é tão profundo, mais tão profundo do que qualquer âncora pode alcançar. Seria preciso empilhar uma quantidade de torres de igreja, umas sobre as outras, a fim de verificar a distância que vai do fundo à superfície. Lá é a morada do povo do mar..."


Com uma fotografia muito boa e um roteiro eficiente, O Jovem Andersen envolve-nos como um abraço e nos angustia como nossas próprias dores. Não foi por menos que ganhou, em 2005, o Emmy de Melhor filme para TV ou minissérie e o Robert Festival de Melhor Figurino e Melhor Maquiagem. Em 2006 ganhou o Shanghai International Film Festival na categoria de Melhor Direção e Melhor Figurino.

Trata-se de um filme altamente recomendado e digo eu: necessário, assim como as histórias de Hans Christian Andersen. Não importa a idade, no filme e contos, chorar não é um desafio, é o caminho natural da beleza que toca o nosso coração. E essa é a essência inexorável dos Contos de Fadas.


quinta-feira, 14 de julho de 2016

Filho da Lua (Hijo de La Luna)

“Tolos são aqueles que não entendem...”

Uma lenda conta que uma mulher cigana conjurou a Lua até o amanhecer. Ela, chorando, pediu que, ao chegar o dia, se casasse com um cigano. E, do céu, a Lua cheia respondeu:

- Você terá um homem de pele morena. Mas em troca eu quero o primeiro filho que vocês conceberão.

A Lua sabia que aquele que sacrificaria seu primeiro filho para não ficar sozinho, de certo, não iria amá-lo o suficiente. Ela queria ser mãe e não encontrava um amor que a tornasse mulher.

A cigana, por fim, aceitou a oferta. No entanto não parava de pensar: "O que a Lua irá fazer com uma criança de pele?".

O tempo passou, e a mulher teve um filho tão branco como o lombo de um arminho e com olhos cinzas – este era, de fato, o filho albino da Lua.

Entretanto o pai da criança, de pele morena, amaldiçoou a aparência do recém-nascido:

- Esse não é um cigano! E isso não vou tolerar!

Pensando estar desonrado, foi até a sua mulher com faca em punho:

- De quem é este filho? Diga-me! Tu enganaste-me!

E, assim, com a morte a feriu.

Depois foi para as montanhas com a criança nos braços. E ali mesmo a abandonou.

E os antigos dizem que nas noites de Lua cheia a criança renegada está feliz. E quando ela míngua, é porque está a acalmar o choro de seu filho em um berço.

E, dessa forma, contada de pai para filho, a história do Filho da Lua perdura através do tempo.


***

O conto foi extraído da música do grupo espanhol Mecano. Mecano foi uma das bandas espanholas mais relevantes dos anos 80 e 90. Constituída pelos irmãos Ignacio Cano e José María Cano, com a voz de Ana Torroja. A canção chama-se Hijo de La Luna, do álbum de 1986 - Entre el Cielo y el Suelo. De fato, uma das letras mais belas da língua espanhola.


domingo, 10 de julho de 2016

Parentes

Quando estamos condicionados a pobreza e a impossibilidade momentânea de um sucesso que os parentes consideram digno, toda briga em família, mesmo que estejamos cobertos de razão, vira motivo para lembrar que somos um estorvo.

Eu considero parentes (até que seja abençoada pela exceção) a encarnação do próprio demônio - o aviso diário que qualquer que seja o meu passo, serei condenada até o fim dos meus dias.

Hoje minha paz foi abalada pela presença espinhosa dessa entidade que carrega consigo a discórdia e a espalha no núcleo familiar de maneira ardilosa.

Não considero parentes parte da família. Esta reduz-se somente a pais e irmãos, sejam eles também de consideração, e os pets da casa.

Este laço sanguíneo imposto muito mais pelas regras medievais da sociedade do que pela importância genética em si é o peso que muita gente carrega, inclusive eu.

Vivo em um limbo - sem ter para onde ir, sem poder ficar triste, sem quereres que não me causem dores de estômago de preocupação.

Desapeguei-me do agradar. Meus olhos enxergaram porque já sagraram muito.

Mas isto não livra-me de uma raiva interior sólida, uma muralha construída por cada dissabor feito por um parente intrometido.

Hoje gostaria de isolar-me, fugir de tudo isso, considerar-me dona de mim mesma. Esquecer as injustiças e de como a minha boca é silenciada por ordens.

Se pudesse, subiria ao topo de uma montanha onde a Lua brilha platinada e as vozes das almas perdidas sussurram canções de esperança. Não haveria dor, sofrimento e sentimentos de culpa - não existiria a viva memória de parentes.

Ouço lágrimas e mágoas causadas por esses seres maquiavélicos.

E odiar é a palavra da vez...

sábado, 9 de julho de 2016

Colors of the Wind - Flauta Nativa Americana - NAF


Cá estou eu com mais uma gravação em minha Flauta Nativa Americana de bambu.

A música de hoje é um clássico da Disney - Cores do Vento (Color of the Wind), tema principal da animação de 1995 - Pocahontas.

Ela foi composta por Alan Menken e Stephen Schwartz. Venceu a categoria de melhor canção original no Oscar e Globo de Ouro. No Grammy Award, de 1996, foi premiada na categoria Best Song Written Specifically for a Motion Picture or for Television.

No filme, a personagem Pocahontas canta a versão da música que foi gravada pela cantora Judy Kuhn. A versão principal da canção, que foi lançada como single, foi gravada pela atriz e cantora norte-americana Vanessa Williams. O single recebeu uma indicação ao Grammy Award na categoria Best Female Pop Vocal Performance e foi certificado como disco de ouro pela Recording Industry Association of America (RIAA).

Eu, desde pequena, sou apaixonada pela canção. Eu vim de um lugar onde 70% do território é indígena, então, o filme e a música, que ressaltam a importância da natureza e do valor de glorificá-la por tudo que nos oferece, expressam um pouco do meu cotidiano naquela época. Lembro-me que fui assistir em um cinema caseiro e improvisado, afinal, ali era bem distante da DITA civilização...

Colors of the Wind também é uma fixação para os flautistas de NAF. É bem provável que quase todos, nos mais variados níveis de aprendizagem, a toquem nos mais diversos estilos.

Minha Flauta Nativa Americana feita em bambu
Para esta eu tive que usar arduamente a Tablatura Nakai. Em todos os sites especializados, não havia nenhuma tablatura para flauta de 5 furos, somente para as de 6. Tive que adequar todas as notas. O resultado você confere abaixo.

Espero que gostem!

P.S.: antes eu usava o player do 4Shared. Infelizmente, este não quis funcionar hoje aqui na plataforma Blogger. Então, minha gravação está no meu canal do Youtube.





Um flautista NAF profissional tocando Colors of the Wind (flauta em madeira)



Para matar a saudade do filme e da música...



terça-feira, 5 de julho de 2016

A megera domada

Dentro do meu peito caberia outra de mim.
Tão leve e cheia de intensidade,
reluzente a milhas de distância.
Um farol incandescente
e transbordante em desejo.

Em mim, tracejados e rabiscos
desse eu altivo e audacioso.
Em tons de ruge,
sedento em cores,
dos mais quentes e selvagens
amores.

Intrépido ser enjaulado,
ferido, acuado e agora
desmotivado.
Febril e doente,
convenientemente
Domado e desmitificado.

Dos nuances flamejantes,
restos de cores azuis,
fúnebres e medrosos,
altamente pueris
e jocosos.

Meu eu é metade de mim
do antes vívido e esfuziante futuro.
Que nunca foi vivido,
mas nunca esquecido.

Sou sombra, passado e
decadência.
Transformei-me em quimera,
sou meu tormento
e minha ruína.

Sou cisma
e solidão.

T.S. Frank