sábado, 27 de agosto de 2016

Minha nova Flauta Nativa Americana de 6 furos (diatônica) e a música Annie's Song do John Denver

Há alguns dias comprei uma nova NAF (Flauta Nativa Americana). Como já falei anteriormente para você, querido (a) leitor (a), eu tenho uma feita de bambu, pentatônica, ou seja, com cinco furos. Ela é mais típica dos povos andinos (frequentemente, pode-se ver o bambu empregado nas famosas e belíssimas Flautas de Pã.). Mas eu desejava também ter uma típica da América do Norte. E assim consegui realizar o meu desejo (o que me endividou até o final do ano.).

Eis my new PRECIOUS:

NAF - Diatônica - 6 furos - em madeira

Ela é também em F (assim como a de bambu). Quando a encomendei, pedi que fosse uma pentatônica. Mas o luthier convenceu-me que era melhor ter a diatônica, assim como as originais. Ele apenas colocou a faixa de couro no quarto furo para virar uma de 5 furos, assim como é feito nos Estados Unidos. Com o tempo, percebi que era melhor tirar a faixa e treinar com todos os furos. Assim saiu Annie's Song na minha flauta, cuja a gravação que eu fiz você escutará logo mais. Pois antes falarei dessa canção que eu amo que foi escrita e gravada por um músico que amo ainda mais, John Denver (que eu já falei AQUI e AQUI no blog há uns anos...).

Annie's Song


Álbum de 1974 - Back Home
Again - Na foto, podemos ver
John Denver e sua esposa
Annie Martell Denver
Annie's Song (também conhecida como "Annie's Song (You Fill Up My Senses)") é uma canção de rock country escrita e gravada pelo cantor John Denver. Ela foi lançada como single do álbum de 1974 - Back To Home Again. E tornou-se um estrondoso e cativante sucesso. Ficou no topo dos charts de música daquele ano por meses e terminou na famosa lista cumulativa de dezembro da Bilboard Hot 100 de 1974 em #25. Ele a escreveu para sua primeira esposa, Annie Martell Denver, em 1973, em apenas 10 minutos e meio, num teleférico de uma estação de ski. Toda a beleza que viu na descida o inspiraram a escrever sobre a esposa. 
John Denver
Foto retirada do encarte do
álbum A Song's Best Friend
The Very Best Of John
Denver

Milt Okun (produtor musical de Denver), no encarte do álbum A Song's Best Friend The Very Best of John Denver, de 2004, fala que:

"John chegou um dia no estúdio e tocou esta canção, que chamava de Song For Annie. Eu lhe disse: - John, estes são os primeiros acordes do Segundo Movimento da Primeira Sinfonia de Tchaikovsky. Este mesmo trecho também havia sido usado, uns quarenta anos atrás, em uma canção pop chamada 'Moon Love'. John então se sentou ao piano por meia hora e modificou a música, que ficou sendo uma pequena parte Tchaikovsky e em sua maior parte Denver. John foi quem teve a ideia de fazer um refrão inteiro apenas murmurando. Naquele tempo todas as vozes tinham que ser gravadas, não havia os recursos de hoje, ao alcance de alguns botões. No fim, a parceria com Tchaikovsky acabou ficando ótima. E Annie's Song tocou vários corações ao redor do mundo. 

Infelizmente, John Denver faleceu em 12 de outubro de 1997, em um acidente com seu avião experimental. Ele mesmo o pilotava no momento.


A Sinfonia No. 1 - Tchaikovsky


... Também conhecida por Sonhos Diurnos de Inverno - Pyotr Ilyich Tchaikovsky a escreveu em Sol Menor (G Minor), em 1866, logo após ter aceitado um cargo de professor no Conservatório de Moscou. E a mais antiga obra notável do compositor.

Estrutura:

1. Sonhos de uma Viagem de Inverno. Allegro tranquillo;
2. Terra da Desolação, Terra das Névoas. Adagio cantabile;
3. Scherzo. Allegro scherzando giocoso;
4. Finale. Andante lugubre - Allegro maestoso.


Minha gravação de Annie's Song

Flauta (em madeira) Nativa Americana, chave em F, diatônica
Tocada por T.S. Frank

Annie's Song
Native American Flute (wood), Key F, diatonic,
Performed by T.S. Frank






Performace de John Denver -  Annie's Song

Diálogo do começo do vídeo (tradução por T.S. Frank)

John Denver - "Vocês sabem, é algo maravilhoso ser capaz de compartilhar-se com as pessoas. E eu encontro tanta alegria em escrever canções que o melhor que eu posso fazer sobre isso é cantar para vocês. E eu gostaria que soubessem que a melhor parte de comunicar e compartilhar-se é ser capaz de dividir o modo como se sente sobre a primeira pessoa em sua vida - esta bela mulher que eu sei que é a Annie, que apoiou-me e deu-me forças para fazer tudo o que eu queria em minha vida. Esta é sua canção..."


Sinfonia No. 1 - Tchaikovsky

... Por um dos meus regentes favoritos - Herbert von Karajan

Berliner Philharmoniker
1979



Fontes:

Milt Okun - Encarte do álbum A Song's Best Friend The Very Best of John Denver, de 2004 - Faixa 8 - Annie's Song
Annie's Song - Wikipédia em Inglês
John Denver - Wikipédia em Inglês
Sinfonia No. 1 - Tchaikovsky - Wikipédia em Inglês

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Layout do mês: homenagem a Stranger Things - Netflix

A NetFlix mudou a vida de muita gente, inclusive a minha e provavelmente a sua. Eu tenho muitas coisas para falar sobre o serviço de streaming, pois sou usuária e amo - principalmente quando eu estou em casa, de folga e coloco na minha Smart TV. Mas isso deixarei para outra hora...

Hoje estamos homenageando a série que virou sensação: Stranger Things. O CQ&Sherlock trará uma resenha em breve... Enquanto isso... Se não viu, veja!




Quer o seu próprio logo de Stranger Things? Visite MakeItStranger.com

domingo, 14 de agosto de 2016

Um sonho sobre assassinatos

O título é assustador e macabro - um sonho sobre vários assassinatos que poderia ser (se sonhos fizessem sentido) um conto do Edgar Allan Poe.

Prólogo

Um dos meus sonhos recorrentes é com assassinatos. Sim isso mesmo! O meu, por assim se dizer. Sonhar com a morte é comum entre nós, porém, nos que eu tenho, ela é sempre causada pelos outros.

Se eu fosse utilizar a Astrologia, que oferece uma gama confusa de diversos significados, ficaria, além de desacreditada, com dúvidas extremas. Foi assim que essa alternativa foi deixada de lado, pois não há nada de místico e verdadeiro em algo que enche, também, sua tela de spams.

Um dia, talvez, eu recorra ao Espiritismo sério. Afinal de contas, eu acredito em reencarnação e carma. E de todas as religiões, incluindo a minha atual que é a Católica, ela é que desperta em mim a sensação de que há, realmente, algo que não pode e nunca poderá ser provado cientificamente, mas que coexiste desde o princípio de todos os universos, invisível para a maioria e para todos os instrumentos, inerente em nossa essência.

Minha mente então fantasia, tornando-se uma roteirista que trabalha enquanto eu durmo. E nela os cenários das angústias tomam corpo e rosto. E filmes horrendos, cheios de pesar, começam a ser rodados.

Sonho
14 de Agosto de 2016 - Tarde

Prelúdio  

Outro sonho frequente é com uma casa antiga e de madeira. Essa casa, muitas vezes, é o primeiro sonho, de curtíssima duração. Eis sua descrição:

Uma casa velha de madeira, enorme, com três ambientes - subsolo, térreo e sótão. Ela está condenada. Muitas tábuas estão soltas. Precisa-se tomar um certo cuidado ao pisar. Não posso afirmar a época a qual ela pertence. Há uma escada em espiral feita de ferro e ricamente decorada. Ela liga o primeiro andar ao segundo. Pela fresta, percebe-se que ela fica em um lugar isolado, pois há um grande descampado com uma grama um pouco desbotada. No sótão há móveis - cadeiras, principalmente. Eles parecem antigos, não apenas no estado, mas de uma época muito distante.  

***

Tudo começa com um navio amarelo parado na beira de uma praia, onde, um pouco longe, pode-se ver um posto de gasolina. No convés, uma mulher conversa com outra - as duas possuem cabelos pretos e são brancas. A primeira parece solitária e um pouco triste e a segunda, distante e não inspira confiança. Estou observando a cena, assistindo em primeiro plano, mas não posso dizer se eu sou ou não a primeira mulher. 

Todos estão indo embora. A impressão é que algo aconteceu com esta embarcação e ela não poderá mais seguir viagem. Apesar de parecer muito fácil apenas descer e ir para a areia, a primeira mulher não vai embora como os outros. Ela decide ficar e, aparentemente, espera a ajuda da segunda que, assim como quase toda a tripulação, foi embora. Ao que tudo indica, essa segunda prometeu algo. Mas, de alguma forma, eu sabia que ela não iria retornar e fazer o que foi combinado. 

A primeira mulher desaparece dentro do navio.

Agora há uma outra cena, dentro do navio, em um ambiente totalmente branco. Desta vez sou eu, do jeito como conheço-me hoje. Estou com pessoas conhecidas e desconhecidas. Somos hóspedes. Mas o navio continua parado. Estamos desfazendo as malas para ficar. É como se conhecêssemos a mulher que sumiu e estamos investigando o seu desparecimento. De repente, uma outra cena: dois contêineres brancos são avistados. Estou lá para abri-los. O primeiro está cheio de água turva e contém vários gatos pretos mortos que encobrem um corpo que não pode ser imediatamente reconhecido. Só é possível saber que é uma mulher e que tem cabelos pretos. Há uma sensação geral que aquela é a mulher que sumiu. O segundo, ao ser aberto, revela uma água clara com um corpo de uma outra mulher com a cabeça decepada e a cabeça está ao lado do corpo. Não há vestígios de sangue na água. Ele parece ser de alguém conhecido no sonho, mas que não conheço na minha vida presente. 

A atual tripulação fica desesperada com a descoberta dos corpos. E deduz-se que aquilo foi obra de um serial killer - pelo modo como foram mortas e onde foram colocadas. Depois de muito se discutir, decide-se sair do navio às pressas e ir para um hotel, pois o assassino poderia estar naquele lugar. 

O cenário muda novamente. O navio agora é a minha antiga casa da infância e eu estou no meu quarto. Continuo a arrumar a minha mala para ir embora, pois o assassino poderia chegar a qualquer momento. E assim que finalizo, ouço um assovio, como um canto assustador, que ecoa por entre a fresta da janela de madeira. Saio correndo, chamando pelos outros, e quando passo pela porta, posso ver o assassino - uma mulher negra e de cabelos cacheados, que segura uma faca pontiaguda e pequena. Ela fala sobre humilhações sofridas e parece ter sede de vingança. Nesse intervalo, ela adentra a casa e uma das pessoas que ficou consegue escapar. Tento abrir a porta da frente, um portão preto, mas a chave está amolecida. Consigo, finalmente, abri-lo. Corremos todos para a rua. A assassina está a nos perseguir incansavelmente. Há uma grande escuridão naquela parte e nossos vizinhos recusam-se a ajudar. A única parte iluminada, onde tenho a impressão que podemos ficar a salvos, fica na rua alta, perto da praça da Igreja. Estamos na direção dela.... 

Mas não sei se conseguimos chegar, pois acordei. 


Epílogo


O blog, ao longo desses anos, está repleto com meus relatos de como a vida tornou-se bem mais difícil há, exatamente, cinco anos. Tudo começou com a mudança de uma cidade para outra, um curso universitário (Física) tardio e difícil de terminar, desemprego, falta de dinheiro, relacionamentos amorosos falidos, amizades falsas, moradias suspeitas, uma cidade extremamente violenta, câncer na família (já superado), estafa mental e uma doença na coluna sem cura: degeneração discal. Eu passei de uma vida ruim com esperança para uma terrível com quase nenhuma gota de ânimo. Hoje eu vivo no que eu chamo limbo. Mudei de casa, vivo com a família, mas sinto-me o tempo toda pressionada e com a sensação de fracasso. Não terminei o curso ainda, não exerço minha profissão da outra graduação, minhas dores na coluna voltaram bem fortes, fiquei sem bolsa da Iniciação Científica e terei que cancelar meu plano de saúde que está caro por demais. Não tenho um bom relacionamento com minha família e todos os dias estou aborrecida. Percebi que os poucos amigos que tenho têm outras prioridades e seus sentimentos nessa ligação são mais ralos que sopa de orfanato. Tudo parece uma tragédia sem precedentes, com uma cor cinza morfética e cheia de bolor.

Todos esses anos e nada mudou - uma prisão fria, onde pode-se ouvir o pingar da água e o vento gélido por entre as grades enferrujadas. Minha consciência é viva e ativa, ansiando por ir velozmente em direção a um mundo novo. Só que meu corpo cheio de dores, a realidade ao redor e todas as pessoas tornaram-se meus carrascos.

Para entender esses sonhos, um psicanalista poderia servir. Aliás, como diz uma prima: psicólogos e psicanalistas são os únicos que nos ouvem porque são pagos. Talvez, um dia, eu descubra o significado desses pequenos filmes sombrios.

Por enquanto, registrá-los já está de bom tamanho.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Crítica da semana: O Jovem Andersen (Unge Andersen/2005)

Andersen construiu os mais lindos e delicados personagens infantis através do seu dom de contar histórias. As asas da sua imaginação levaram-no ao céu da imortalidade, bem longe e muito longe do sofrimento, descrédito e miséria em que estava mergulhado em sua tenra idade. Sua juventude, ricamente detalhada, mostra sua fragilidade e inocência, ao mesmo tempo em que uma incrível força de vontade e teimosia nunca cessam - eis o mérito principal deste incrível filme!

Não é de hoje que comento minha paixão por dois escritores: Oscar Wilde e Hans Christian Andersen. Histórias de Fadas (1888) (crítica no CQ&Sherlock aqui), de Wilde, é recomendação primordial na literatura infanto-juvenil, enquanto Andersen é referência mundial neste gênero.

É quase certo que todos conhecem a adaptação de A Pequena Sereia, de autoria de Andersen (a história é tão importante para a Dinamarca que uma estátua de Ariel, em bronze, está localizada no porto principal da Copenhague), da Disney. Eu mesma gosto muito da animação. Porém ela não faz jus a história original. Contos de Fadas não foram feitos para serem felizes para sempre - eles são para educar e emocionar. E o filme para TV (que originalmente foi divido em duas partes, como uma minissérie) O Jovem Andersen (Unge Andersen/Dinamarca/2005) mostra exatamente onde floresceu a primorosa escrita do grande contador de histórias dinamarquês - na pobreza extrema e preconceito - traços marcantes em seus contos.

Com direção de Rumle Hammerich, o filme retrata a juventude de Andersen (nascido Hans Christian Andersen, Odense, 2 de abril de 1805 e falecido em 4 de agosto de 1875 em Copenhague) e sua luta para ter uma chance como escritor de peças de teatro. Rejeitado por todos por sua aparência paupérrima, origem humilde e jeito infantil, sua única salvação foi sua própria insistência (ao ponto de tornar-se chacota nos círculos de escritores). Só conseguiu algo substancial por intermédio de Jonas Collin e da boa vontade do Rei da Dinamarca, Frederico VI, que viu um possível potencial nele. E nesse ponto começa toda a jornada de sofrimento do jovem Andersen (com apenas 17 anos), ingressando no prestigiado Colégio Interno de Meisling, fora de Copenhague. A princípio, foi privado de escrever suas poesias e educado para ser apenas um auxiliar de escritório, para depois, gradualmente, quase mergulhar na loucura nas mãos do implacável diretor Meisling. A sua amizade com o empregado do diretor da escola, o garoto Tuck, é um dos principais focos da narrativa - cumplicidade, tristeza, injustiça e impotência permeiam esse laço. Em uma das cenas mais bonitas, onde a história entra no ápice, surge a narrativa que tornou Andersen o pai dos Contos de Fadas - A Pequena Sereia:

"Far out in the ocean the water is as blue as the petals of the loveliest cornflower, and as clear as the purest glass. But it is very deep too. It goes down deeper than any anchor rope will go, and many, many steeples would have to be stacked one on top of another to reach from the bottom to the surface of the sea. It is down there that the sea folk live..."

"Bem no fundo do mar, a água é azul como as pétalas das mais bonitas centáureas e pura como o cristal mais transparente. Mas é tão profundo, mais tão profundo do que qualquer âncora pode alcançar. Seria preciso empilhar uma quantidade de torres de igreja, umas sobre as outras, a fim de verificar a distância que vai do fundo à superfície. Lá é a morada do povo do mar..."


Com uma fotografia muito boa e um roteiro eficiente, O Jovem Andersen envolve-nos como um abraço e nos angustia como nossas próprias dores. Não foi por menos que ganhou, em 2005, o Emmy de Melhor filme para TV ou minissérie e o Robert Festival de Melhor Figurino e Melhor Maquiagem. Em 2006 ganhou o Shanghai International Film Festival na categoria de Melhor Direção e Melhor Figurino.

Trata-se de um filme altamente recomendado e digo eu: necessário, assim como as histórias de Hans Christian Andersen. Não importa a idade, no filme e contos, chorar não é um desafio, é o caminho natural da beleza que toca o nosso coração. E essa é a essência inexorável dos Contos de Fadas.


quinta-feira, 14 de julho de 2016

Filho da Lua (Hijo de La Luna)

“Tolos são aqueles que não entendem...”

Uma lenda conta que uma mulher cigana conjurou a Lua até o amanhecer. Ela, chorando, pediu que, ao chegar o dia, se casasse com um cigano. E, do céu, a Lua cheia respondeu:

- Você terá um homem de pele morena. Mas em troca eu quero o primeiro filho que vocês conceberão.

A Lua sabia que aquele que sacrificaria seu primeiro filho para não ficar sozinho, de certo, não iria amá-lo o suficiente. Ela queria ser mãe e não encontrava um amor que a tornasse mulher.

A cigana, por fim, aceitou a oferta. No entanto não parava de pensar: "O que a Lua irá fazer com uma criança de pele?".

O tempo passou, e a mulher teve um filho tão branco como o lombo de um arminho e com olhos cinzas – este era, de fato, o filho albino da Lua.

Entretanto o pai da criança, de pele morena, amaldiçoou a aparência do recém-nascido:

- Esse não é um cigano! E isso não vou tolerar!

Pensando estar desonrado, foi até a sua mulher com faca em punho:

- De quem é este filho? Diga-me! Tu enganaste-me!

E, assim, com a morte a feriu.

Depois foi para as montanhas com a criança nos braços. E ali mesmo a abandonou.

E os antigos dizem que nas noites de Lua cheia a criança renegada está feliz. E quando ela míngua, é porque está a acalmar o choro de seu filho em um berço.

E, dessa forma, contada de pai para filho, a história do Filho da Lua perdura através do tempo.


***

O conto foi extraído da música do grupo espanhol Mecano. Mecano foi uma das bandas espanholas mais relevantes dos anos 80 e 90. Constituída pelos irmãos Ignacio Cano e José María Cano, com a voz de Ana Torroja. A canção chama-se Hijo de La Luna, do álbum de 1986 - Entre el Cielo y el Suelo. De fato, uma das letras mais belas da língua espanhola.


domingo, 10 de julho de 2016

Parentes

Quando estamos condicionados a pobreza e a impossibilidade momentânea de um sucesso que os parentes consideram digno, toda briga em família, mesmo que estejamos cobertos de razão, vira motivo para lembrar que somos um estorvo.

Eu considero parentes (até que seja abençoada pela exceção) a encarnação do próprio demônio - o aviso diário que qualquer que seja o meu passo, serei condenada até o fim dos meus dias.

Hoje minha paz foi abalada pela presença espinhosa dessa entidade que carrega consigo a discórdia e a espalha no núcleo familiar de maneira ardilosa.

Não considero parentes parte da família. Esta reduz-se somente a pais e irmãos, sejam eles também de consideração, e os pets da casa.

Este laço sanguíneo imposto muito mais pelas regras medievais da sociedade do que pela importância genética em si é o peso que muita gente carrega, inclusive eu.

Vivo em um limbo - sem ter para onde ir, sem poder ficar triste, sem quereres que não me causem dores de estômago de preocupação.

Desapeguei-me do agradar. Meus olhos enxergaram porque já sagraram muito.

Mas isto não livra-me de uma raiva interior sólida, uma muralha construída por cada dissabor feito por um parente intrometido.

Hoje gostaria de isolar-me, fugir de tudo isso, considerar-me dona de mim mesma. Esquecer as injustiças e de como a minha boca é silenciada por ordens.

Se pudesse, subiria ao topo de uma montanha onde a Lua brilha platinada e as vozes das almas perdidas sussurram canções de esperança. Não haveria dor, sofrimento e sentimentos de culpa - não existiria a viva memória de parentes.

Ouço lágrimas e mágoas causadas por esses seres maquiavélicos.

E odiar é a palavra da vez...

sábado, 9 de julho de 2016

Colors of the Wind - Flauta Nativa Americana - NAF


Cá estou eu com mais uma gravação em minha Flauta Nativa Americana de bambu.

A música de hoje é um clássico da Disney - Cores do Vento (Color of the Wind), tema principal da animação de 1995 - Pocahontas.

Ela foi composta por Alan Menken e Stephen Schwartz. Venceu a categoria de melhor canção original no Oscar e Globo de Ouro. No Grammy Award, de 1996, foi premiada na categoria Best Song Written Specifically for a Motion Picture or for Television.

No filme, a personagem Pocahontas canta a versão da música que foi gravada pela cantora Judy Kuhn. A versão principal da canção, que foi lançada como single, foi gravada pela atriz e cantora norte-americana Vanessa Williams. O single recebeu uma indicação ao Grammy Award na categoria Best Female Pop Vocal Performance e foi certificado como disco de ouro pela Recording Industry Association of America (RIAA).

Eu, desde pequena, sou apaixonada pela canção. Eu vim de um lugar onde 70% do território é indígena, então, o filme e a música, que ressaltam a importância da natureza e do valor de glorificá-la por tudo que nos oferece, expressam um pouco do meu cotidiano naquela época. Lembro-me que fui assistir em um cinema caseiro e improvisado, afinal, ali era bem distante da DITA civilização...

Colors of the Wind também é uma fixação para os flautistas de NAF. É bem provável que quase todos, nos mais variados níveis de aprendizagem, a toquem nos mais diversos estilos.

Minha Flauta Nativa Americana feita em bambu
Para esta eu tive que usar arduamente a Tablatura Nakai. Em todos os sites especializados, não havia nenhuma tablatura para flauta de 5 furos, somente para as de 6. Tive que adequar todas as notas. O resultado você confere abaixo.

Espero que gostem!

P.S.: antes eu usava o player do 4Shared. Infelizmente, este não quis funcionar hoje aqui na plataforma Blogger. Então, minha gravação está no meu canal do Youtube.





Um flautista NAF profissional tocando Colors of the Wind (flauta em madeira)



Para matar a saudade do filme e da música...



terça-feira, 5 de julho de 2016

A megera domada

Dentro do meu peito caberia outra de mim.
Tão leve e cheia de intensidade,
reluzente a milhas de distância.
Um farol incandescente
e transbordante em desejo.

Em mim, tracejados e rabiscos
desse eu altivo e audacioso.
Em tons de ruge,
sedento em cores,
dos mais quentes e selvagens
amores.

Intrépido ser enjaulado,
ferido, acuado e agora
desmotivado.
Febril e doente,
convenientemente
Domado e desmitificado.

Dos nuances flamejantes,
restos de cores azuis,
fúnebres e medrosos,
altamente pueris
e jocosos.

Meu eu é metade de mim
do antes vívido e esfuziante futuro.
Que nunca foi vivido,
mas nunca esquecido.

Sou sombra, passado e
decadência.
Transformei-me em quimera,
sou meu tormento
e minha ruína.

Sou cisma
e solidão.

T.S. Frank



quinta-feira, 30 de junho de 2016

Esse quam videri (Ser ao invés de parecer!)

"Já ocorreu a você que nós nos iludimos? Que nós podemos ver mais claramente e distante de dia? Mas o sol fica no caminho. A noite é quando se vê melhor... Quando nós olhamos as estrelas brilhando, a muitas milhas de nós. A noite é como um voo alto, alto dentro do céu - enxergando tudo claramente... Do jeito como é." (Diálogo entre o jovem Hans Christian Andersen e Jonas Collin no filme O Jovem Andersen/Unge Andersen - Dinamarca - 2005, direção de Rumle Hammerich)

Há alguns dias resolvi traduzir a legenda de O Jovem Andersen (Unge Andersen), um filme sobre um dos meus escritores favoritos - Hans Cristian Andersen. É uma película difícil de achar, apesar de ser de 2005. Dez dias foram necessários para que ela ficasse pronta.

Então, mesmo com o mundo que temos hoje, onde é de mais interesse da massa conseguir algo sobre qualquer pseudo-escritor do que ler as obras dos verdadeiros gênios e mágicos da literatura mundial, pensei em ajudar a ínfima parcela que gosta de ir contra a corrente, que sabe menos inglês do que eu e que gostaria de saber sobre a trajetória de Andersen. 

Traduzir legendas de filmes raros é um ato franciscano. Não muito diferente de escrever quase regularmente neste blog. Ou seja, nenhum desses ofícios conta com um público expressivo. Mas há, sempre, essa invisível e incrível força motriz - a esperança em uma única pessoa, aquela que não sabe-se o nome, a  raça, a cor, a condição social, nem se é menino, menina, ambos ou todos. Se esta única pessoa utilizar e gostar, o trabalho foi válido.

E pensando no diálogo do começo, na legenda e nos acontecimentos dessa semana (e por que não em outras épocas?), cheguei a conclusão que é sempre bom partilhar experiências e situações. É entre os iguais que acha-se a compreensão.

Não sou uma pessoa difícil e tampouco fácil. Para a primeira, trato de exagero e pouco conhecimento sobre mim. A segunda, consideraria uma afronta e até mesmo uma crítica, afinal, nunca serei uma samaritana e não gosto nenhum pouco dessa ideia. Talvez muitos achem-me louca (eu mesma, de vez em quando, também considero este fato), pois abraço e defendo causas que, muitas vezes, nem dizem-me respeito. E isso custa-me muito, pois, além de ficar sozinha no campo de batalha, percebo que as pessoas (até mesmo as que são alvo das situações) não procuram envolver-se mesmo que acreditem que estão sendo injustiçadas ou que há injustiça.

De repente, caí em mim. Neste mundo cão, o único que importa-se e pode defender-me sou eu mesma. E, nesse ínterim, meu desespero faz com que eu cometa erros primários - algumas pessoas, até mesmo as mais próximas, uma hora ou outra, vão usar todos os meus pontos fracos como tinta para um quadro cruel.

Essa semana briguei com um colega de trabalho acadêmico. Porque fui defender o coletivo (a alma sindical gritando). Contudo a vida não é como os filmes: não apareceram outras reclamações, não tocou o fundo musical e ninguém uniu-se e deu as mãos. Virei um conjunto unitário. E foi um 7x1. 

Não tolero ameaças - a não ser em casos parecidos com o de Irene Adler em Sherlock Holmes - você precisa usá-las para defender-se dos verdadeiros vilões. Bem, eu mesma, nesta vida, já fui alvo de algumas, das mais graves, partindo de pessoas de antigos relacionamentos, as mais corriqueiras, como de colegas que usaram desabafos e confissões para tirar-me o sono. Com elas aprendi que o melhor é se precaver e só baixar a guarda para quem realmente for de confiança (o que não é tarefa fácil, talvez, se usarmos uma regra como cumprir todos os Trabalhos de Hércules...).

A vida é um padrão. E assim mais histórias surgem... Um baú de memórias.

Há algum tempo, muito tempo, uma determinada turma fazia a cadeira de Cálculo II. E com exceção de um aluno, todos os outros estavam indo muito mal. Falta de estudos? Não. A didática do professor era terrível - robotizada e insustentável (e a mais utilizada e aceita no curso de Física). A primeira prova veio e notas ruins apareceram como uma miríade de estrelas. Então, combinamos todos de não fazer a segunda avaliação para forçar, assim, o professor a nos dar mais tempo para contornar esse déficit de aprendizado. Poderia dar certo ou não. A vida é um jogo mesmo. Só que, infelizmente, um dos alunos, justamente a exceção, apareceu para fazer a prova - apesar das inúmeras súplicas e mensagens. Ele tinha facilidade e queria fazê-la, não importava o acordo. Direito dele? Sim, claro. Ele fez o que teve vontade e achava correto. Resultado - todos tiraram zero e ele tirou uma nota acima de sete. Tomei as dores para mim (elas também eram minhas, ora!), briguei e não falo mais com este desde então. Afinal, o mesmo direito que ele tem de fazer o que convém, eu também tenho - e com motivos bem plausíveis. Um dia ele tentou justificar seu erro, mas não existiu um pedido de desculpas. E hoje TODOS os que foram traídos falam com esta pessoa como se nada tivesse acontecido. Sim, o mundo é feito dessas estranhas relações. Mas só que o meu não é. E a vida seguiu.

Eu sempre uso as guerras como comparação - se um do meu pelotão trai a estratégia do grupo em benefício próprio, todos correm o risco de morrer. E alguém que trai, seja em qual situação for, pode repetir isso em outros momentos - com maior ou menor impacto - mas as sequelas existirão.

Traição tem uma significado tão forte para mim que nunca entenderei o porquê de ter tornado-se algo banal. Honra, fidelidade e compromisso podem não encher barriga, mas dignificam. Brinco que se eu fosse da Antiguidade, eu seria a 1 de Esparta. 

E nessa mundo lamacento e cheio de vermes e poços profundos, as ilusões são irremediáveis. Todos nós adentramos este véu momentaneamente confortável. Ficamos inertes sem saber onde aplicar nossos dons e nossas qualidades e duvidamos inúmeras vezes que essas existam. Sentimos raiva e sofremos injustiças.Tudo que achamos correto, aos olhos dos outros, é errado, inapropriado e o caminho mais rápido para o mais profundo isolamento e descrédito. E assim contentamos-nos e ser passíveis, medrosos e cabisbaixos.

A vida como deve ser é bizarra - é um resto de uma fogueira de conto de fadas, devaneios e perda momentânea da visão. De dia, uivamos, perdidos, clamando por uma direção e a noite, com os faróis de Andersen, alcançamos voos longínquos.

A verdade, de fato, nunca foi tão paradoxal. 

domingo, 5 de junho de 2016

Domingos

Dies Solis
Detalhe da Tapeçaria da Criação da Catedral de Girona
Girona/Catalunha/Espanha
Domingos são tristes por natureza - Dies Tristitiae.

Uma bola incandescente em xantopsia - Dies Solis.

São muitas xícaras de café e, às vezes, um cheiro de chuva que mostra-nos uma fagulha de vida da incansável natureza.

Eis o dia mais chato do universo e de todos os outros - Dies Insulsi.

E quem o nomeou Dies Dominicus, dormia nas missas, de certo.












Fontes:

Tapeçaria Romântica da Criação - Wikipédia em espanhol