terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Crime & Castigo

São apenas alguns minutos para a metade do dia. Mas bem antes disso, eu já estava desfeita em minúsculos pedaços. E cada um desses tinha algum rosto, donos de tristes lembranças e muita desilusão.

Minha vida é um carrossel, girando, girando... Intensamente pela vida... Porém cavalgando presa em meus erros.

Decidi comer fora. Apenas saí sem muito alarde. Só que, como sempre, até mesmo esse pequeno ato cotidiano tem seus pesares. E é extremamente bizarro o porquê disso. Talvez eu, um dia, consiga achar as palavras certas para explicar o que ocorre.

Sentei-me só. E isso foi de uma paz inexplicável. Nunca entenderei essa imensa necessidade alheia, quase doentia, de fazer qualquer refeição acompanhado.

Aliás, a solidão seria mesmo um castigo? Ou as companhias erradas, as migalhas de sentimento e a eterna busca da aceitação são bem piores? Perguntei-me isso anteriormente. E a resposta está em meu próprio comportamento.

Quando desapareço da vida de alguém é, de fato, a sentença máxima para muitos dias e minutos pela busca da verdade - por que esta criatura entrou em minha vida para fazer isso? É claro que eu deixei e não vou me eximir dessa contribuição. Só que muitos crimes e atrocidades são cometidos exatamente por aqueles em que deposita-se a fé.

Como em um grande tribunal, a investigação é cheia de sofrimento. E mesmo a punição máxima não é capaz de apagar as marcas - somente amenizar as sequelas.

Só há uma ressalva nisso tudo. Apesar de copiar o Mr. Darcy na afirmação de que minha boa opinião uma vez perdida é para sempre, tenho que falar claramente sobre uma única exceção.

E a seguir relato...

Há muito tempo eu gostei de alguém. Não é o mesmo de tantas histórias tristes, não trata-se do grande e inesquecível amor, o destrutivo e amargo. Foi um relacionamento brevíssimo, uma tentativa... Contra tudo e todas as opiniões.

Só que várias desventuras e confusões sobre o que sentíamos e o que realmente éramos causaram um grande rompimento. A maior e, talvez, única ira partiu de mim, alimentada por afirmações de inúmeras pessoas.

E assim foi até outro dia.

Mas a vida sempre dá um jeito de revelar o que estava escondido e as reais intenções daqueles que circudam, os próximos... Sempre eles...

Desnudada a amarga verdade. Tive que reconsiderar a redenção, afinal eu estava cega e envenenada, cheia de rancor e extremamente quebrada.

Todas as máscaras caíram. E o único que permaceu intacto diante desse terromoto foi justamente ele...

Alguém já agiu como mediafor dessa tarefa um pouco estranha para mim. E ele, em um primeiro contato, mostrou-se disposto a conversar...

Agora mesmo, tento pensar em como desculpar-me pelo imenso engano. A angústia da espera pelo perdão equivale a pedi-lo. Entretanto não deixo de considerar se minhas mágoas também não mereceriam consolo...

Mesmo assim, é um peso que preciso tirar da minha alma.

Dito tudo isso acima...

A premissa básica para o entendimento do meu próprio ser passa longe até mesmo de mim. E não há nada mais egoísta e opressor do que a fala "conheço-te bem..." proferida ousadamente por pessoas que são ou foram próximas.

Todos os que já utilizaram tal falácia agora residem em outras dimensões trancadas por mim e longe do meu olhar.

Não sou uma pessoa fácil. E, se fosse, não teria consciência do maravilhoso universo de possibilidades, longe da vulgaridade e extravagância...

Não há nenhum erro que não deixe cicatriz. Mas também não há nenhuma personificação dele que não possa ser extinta.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Lágrimas Por Um Amor Perdido (Tears For Lost Love) - Flauta Nativa Americana - NAF

Lágrimas Por Um Amor Perdido
Flauta (em bambu) Nativa Americana, chave em F, pentatônica
Tocada por T.S. Frank


Tears For Lost Love
Native American Bamboo Flute, Key F, pentatonic,
Performed by T.S. Frank














quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Faltas

Hoje o amanhecer teve sabor atômico de um laranja sufocante.

Gritos, indagações... Minha liberdade nunca existiu. Não tenho privacidade e nem incentivos. E por tudo, depois de toda a sarjeta jogada em mim, querem que eu, forçosamente, erga-me e siga em frente. De fato, eu sou o peso que pretendem livrar-se.

Quantas pessoas sentem-se hoje como eu me sinto todos os dias. Eu queria muito encontrar os meus iguais. Eu desejei. Aliás, foi um dos primeiros pensamentos dessa manhã tenebrosa.

Somente uma coisa mudaria a minha vida neste momento: um emprego. Talvez eu tivesse algum valor. Estou escarnecida, bem de fato. 

O ano começa assim - com brigas, dissabores e falta de diálogo. E dentro desse cenário, angustia-me as acusações. Eu pergunto-me, "sou um ser humano péssimo assim?".

É como uma espécie de maldição familiar, ou talvez muitas pessoas entendam por maldizeres.

Desde sempre eu escuto os meus próprios defeitos, dia após dia, como um mantra - as recriminações começam do âmago.

Sinto falta do amor em sua essência, porém esta falta é desde sempre, do tempo imemorial, daquele que nunca pode ser sentido, mas sabe-se que existe.

Quando falo em amor, não é aquele proferido por bêbados, ou por namorados abusivos, ou por pessoas que querem apenas sexo, ou por familiares e suas obrigações. Não, não é nada disso e nunca será.

Todas estas relações acima são vazias e ferem profundamente, deixando cicatrizes ano depois de ano.

Sinto falta de cumplicidade, de amizades no sentido da palavra e de proteção.

Sinto falta de compreensão, de conversas adequadas para resolver problemas.

Sinto falta de sentir-me um ser humano completo. Hoje tenho apenas pedaços mal formados, degradados por chicotadas.

Por Deus, como estou cansada de tudo isso.

Eu fico perguntando-me se o dinheiro e status fazem uma pessoa feliz. Talvez não. Só que a falta dos dois, quando você está no círculo errado de todas as relações da vida, podem levar à loucura sem precedentes.

E pior do que a loucura, é ter a sensação da sarjeta, de alma inferior, de perda do brilho e da vontade de viver.

Todos os dias formam-se as comparações injustas.

Todos os dias é como morrer. Ir ao inferno e voltar apenas para dormir.

E o ciclo vicioso recomeça nos primeiros raios de Sol.

É como gritar e ter uma sacola plástica na cabeça.

Desejei morrer tantas vezes e desejei viver outras mais.

Eu só quero uma vida diferente. Mas para que ela aconteça, eu preciso apenas que deixem-me livre, que não coloquem pesos de crimes e o peso da hereditariedade.

Sou uma pessoa na fogueira. Meu crime foi ter pensado em cruzar o horizonte e alcançar o céu com as minhas mãos.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Manuscrito - Hécate

domingo, 25 de dezembro de 2016

Mais um Natal...

Então, eu não tenho muito para escrever sobre o Natal. O que eu tinha para falar sobre ele foi escrito anteriormente, em outros anos...

Deixarei um vídeo do Drauzio Varella que explora bem o assunto natalino...

... É uma boa ferramenta para reflexão.

E sim... Eu estou com meu bucho cheio até agora - chutei a intolerância à lactose por hoje, comi muito panetone, Chester assado na cerveja, salpicão, farofa e bebi litros de Coca-Cola.

Hoje permiti-me ser um pouco feliz. Esqueci minhas dores físicas e psicológicas.

Estou com a minha família, o que realmente importa... O restante... Bem, deixarei para os comentários do Ano Novo...

Este é o meu milagre de Natal. 



sábado, 24 de dezembro de 2016

Combo - Livro & Filme - Austenlândia (Austenland)

- Estou solteira porque, aparentemente, os únicos homens bons são os fictícios. 
(Jane Hayes em Austeland, 2013)

Antes que este tenebroso ano de 2016 acabe e que as costumeiras mensagens de Natal e Ano Novo apareçam, trago duas resenhas sobre Austenlândia (Austenland) - o livro e o filme.

Uma das novidades é que este livro foi o primeiro que li no meu novo e-reader - o Kindle Paperwhite (uma resenha inteira será dedicada a ele em breve). No mais, para as leitoras e leitores que gostaram da postagem mais popular do CQ&Sherlock até aqui, Por que queremos um Mr. Darcy?, esse é o meu presente de Natal para vocês!

Mas antes...

Eu vi primeiro o filme na Netflix e depois li o livro no Kindle.

A opinião no blog será uma das poucas, senão a única, na internet que expressa a preferência ao filme. Isso não significa que o livro seja ruim. Mas há paixões que vão contra a corrente...




Filme Austenlândia (Austenland/2013)

Se você gosta de Orgulho e Preconceito, personagens caricatos, belas paisagens e sente-se, também, um pouco Darcymaníaca (o), este filme é como uma mão em uma luva da Era Vitoriana. Vestir a pele de Jane Hayes não será incomum – Keri Russell dá voz e corpo a cada traço de personalidade das heroínas de Austen neste filme que mais parece uma sátira do livro homônimo - o que é ótimo!

Austenlândia (Austenland/USA/UK/2013), com direção da estreante americana Jerusha Hess, é um daqueles filmes para ver descompromissadamente, quando há a vontade de assistir algo leve, romântico e doce como um merengue.

A comédia romântica é certeira no quesito divertimento e entretenimento. Outros aspectos, como os personagens caricatos, causam divergências de opiniões - ou você ama ou odeia. Particularmente, sobrou-me amor. Tanto que já vi o filme umas 15 vezes.

O enredo fala sobre Jane Hayes (Keri Russell), uma mulher com mais de 30 anos de idade, que não consegue encontrar um namorado, pois nenhum homem parece à altura de seu grande ídolo - o Mr. Darcy (personagem criado por Jane Austen no romance Orgulho e Preconceito). Um dia ela decide gastar todas as suas economias e voar para o Reino Unido, onde existe um resort especializado em acolher as mulheres apaixonadas pelas histórias de Austen. Lá, ela descobre que o homem dos seus sonhos pode se tornar uma realidade.

Há de se destacar a atuação de Keri Russel como Jane Hayes, que é leve e simpática, muito da personalidade da atriz, que também passa essas características em outros trabalhos. Outro destaque é para o ator JJ Feild (que é americano, mas mudou-se para Londres quando era apenas bebê), que faz o Henry Noble, o residente Mr. Darcy. Sua interpretação de um homem de poucos amigos e de ar emburrado que depois revela-se um perfeito cavalheiro com uma voz suave e um jeito encantador é na medida.

Outro bom ponto é a trilha sonora, com músicas dos anos 80, como, por exemplo, Bette Davis Eyes (1981), de Kim Karnes, e Heaven Is A Place On Earth (1987), de Belinda Carlisle.

Uma dica é assistir pós-THE END - há boas surpresas - Austenlândia virou um parque temático sob a direção de Mr. Charming, o, agora, casal Jane e Henry aparecem para passear no novo lugar e outros finais são mostrados. Nos créditos, há um clipe com os personagens fazendo uma coreografia para a música do rapper Nelly - Hot in Herr.

Definitivamente, sendo você, leitor (a), fã de Austen ou apenas de comédias românticas, este filme é uma ótima pedida. É como comer uma caixa de chocolates quando deseja-se - não há como enjoar. Recomendadíssimo!




Livro Austenlândia (Austenland/2009)


O livro que tenho é da: Editora Record
Formato: e-book
E-reader: Kindle
Ano: 2014
ISBN: 978-85-01-03296-6 (recurso eletrônico)
Edição: 1 ª edição
Número de páginas: em um e-book o número de páginas é relativo. Trata-se de um livro curto.
Autor (a): Shannon Hale (trad. Regiane Winarski)
Preço-faixa na Amazon: R$ 18,90


Austenlândia, da autora americana Shannon Hale, é um livro despretensioso, cujo o maior intuito é divertir os românticos e os obcecados por Mr. Darcy que não pertencem ao grupo dos xiitas austenianos. Na proposta que lhe cabe, sai-se muito bem.

O enredo gira em torno de Jane Hayes, uma mulher de 33 anos que mora em Nova York. Bonita, inteligente e com um bom emprego, ela guarda um segredo constrangedor - é obcecada pelo Mr. Darcy, (personagem criado por Jane Austen). Com uma vida amorosa lamentável, Jane decide aceitar seu destino - noites solitárias no sofá assistindo a Colin Firth em Orgulho e preconceito. Contudo, ao ganhar uma viagem de férias para Austenlândia, um misterioso lugar onde todos devem se portar como se estivessem em uma obra da consagrada escritora, Jane tem a chance de viver o romance que sempre sonhou.

O livro é curto, de fácil leitura e que pode ser terminado em um piscar de olhos. Agradável e bem desenvolvido no limite de seu próprio universo.

Vale a pena uma conferida.


Algumas diferenças entre o filme e o livro


No filme, Jane vende o carro para comprar o pobre Pacote Cobre para Austenlândia em uma agência de turismo. No livro, ela recebe a viagem de sua tia-avó Carolyn como herança.
No livro, a mãe de Jane é Shirley. No filme, ela não é mencionada.

A tia-avó Carolyn não é mencionada no filme.

A melhor amiga de Jane, Molly, no livro, tem gêmeos. No filme, ela aparece apenas grávida.

No livro, Pembrook Park, o local de Austenlândia, tem poucas informações na internet. Há um contrato de privacidade que não pode ser quebrado nem pelos usuários e nem por funcionários. No filme, Austenlândia tem até propaganda na televisão.

No filme, Jane encontra Miss Charming no aeroporto, na chegada a Londres. No livro, esse encontro acontece somente em Austenlândia.

No Filme, Henry Noble é, de fato, sobrinho de Mrs. Wattlesbrook, dona de Austenlândia. Ele é professor universitário de História e foi parar lá por causa de uma decepção amorosa. Ele não é ator. A primeira semana dele no resort é também a primeira semana de Jane no local. No livro, Henry Noble é na verdade Henry Jenkins, ator com formação também em História. Ele é divorciado. Ele já trabalhava em Austenlândia antes.

No filme, Henry Noble tem olhos azuis. No livro, ele tem olhos marrons.

No filme, Martin é um ator que naquela temporada faz papel de jardineiro. No livro, ele é apresentado primeiro como Theodore, na parte em que Jane é preparada para as danças da época, e depois como Martin, o jardineiro.

No filme, Martin tem olhos marrons. No livro, eles são azuis.

No filme, Mrs. Wattlesbrook é a anfitriã também na casa principal, tendo um marido chamado Mr. Wattlesbrook. No livro, a casa fica a cargo de Tia Saffronia e seu marido John Templeton. Esses dois personagens não existem no filme.

No filme, Jane não tem criada. No livro, o nome dela é Matilda.

No filme, a história fictícia da Sra. Amelia Heartwright é um pouco diferente no livro.

No livro, Henry Noble/Henry Jenkins diz que Andrews é gay. No filme, isso fica apenas subentendido.

No filme, Miss Charming, ao final, compra Austenlândia e transforma em um parque temático. No livro, isso não acontece.

O cenário do desfecho do filme é diferente no livro. Nele, Henry Jenkins acaba por comprar uma passagem e pegar o mesmo avião em que Jane toma para voltar para Nova York. No filme, depois que há a briga no aeroporto e que Jane diz para Henry Noble que ele foi perfeito, mesmo sendo somente uma atuação, há a passagem em que ela chega em casa e desaustenriza o quarto. O desfecho romântico é dado quando Henry Noble, sendo realmente Henry Noble, vai até a casa de Jane para devolver um caderno com os desenhos que ela fez dele. Este é o melhor final.

***

Caro leitor (a), se você gostou dessa postagem, poderá se interessar também por estas no CQ&Sherlock:

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Dia de TPM: humilhações crônicas, dor na coluna e aulas em auto-escola

Há algo de errado desde a infância. Eu não sei bem o que é. Nem mesmo sei explicar com palavras para tecer o cenário detalhadamente para tonar-se algo inteligível e compreendido. É uma sensação de deslocamento, de que nada disso pertence-me, que nenhuma dessas pessoas que cercou-me até agora são conhecidas e próximas. É como uma relação profissional, onde há uma hierarquia que deve ser obedecida. Mas sempre há aquele que não acha justo tudo o que acontece, o salário que recebe, o tratamento, o porquê de o subestimarem e nem o motivo da vida o ter colocado ali. Porém ele continua a ser tratado como a escória e a válvula de escape para briga de egos. Essa pessoa sou eu.

Não tem sido fácil viver e isso já tem alguns bons anos. E, o pior, a tendência é não melhorar. Eu poderia comparar essa minha trajetória com a minha dor crônica na coluna - se eu repousar, seguir todas as regras e continuar letárgica, fazendo o que o médico diz, não sentirei tanta dor. Só que nesse método paliativo, eu sinto-me presa, extremamente cerceada e incapaz. E quando vou fazer algo que gosto (o que é raro nos dias de hoje), os momentos precisam ser aproveitados ao máximo, pois eu sei que no final do dia, quando a realidade chegar, as dores imensuráveis e indizíveis se instalarão. E não haverá ninguém para consolar-me, apenas para apontar o dedo e dizer que aquilo tudo é minha culpa.

Pois bem, desde que me conheço, as primeiras palavras que tomei conhecimento do significado foram, justamente, culpa e egoísmo - inseridas em minha alma através do método católico da repetição. Ultimamente essas palavras circulam como um pesadelo cíclico e tem a forma de aulas de direção. E é uma história longa até chegar no coração de todo o problema.

Nunca tive um contato mais íntimo com carros, a não ser pegar caronas e pedir um táxi. Nunca me interessei por eles. Minha família nunca teve um sequer (e não tinha mesmo condições para tal empreitada). Só que a necessidade chegou e, por insistência e subsídios da família, tive, por livre e espontânea pressão, de ir a uma auto escola.

A primeira que eu fui, pela qual fiz três provas e não passei, era uma bagunça. Umas mulheres preguiçosas e muito mal informadas, as donas, ofereciam carros péssimos, quentes e instrutores estranhos. Só que eu precisei enfrentar isso por ser perto da minha casa.

Sobre os instrutores dessa primeira auto-escola - tive muitos problemas. O primeiro era muito invasivo, conversava sobre religião, acidentes e era muito machista. Gritava um pouco e era um pouco ignorante. Porém sempre me cumprimentava. Só que no dia das provas, não passava segurança e, no cotidiano das aulas, deixava passar a pouca fé em mim. O segundo era muito relapso. No dia da minha última prova não foi me acompanhar e nem falar comigo. Fiz a prova sozinha e desacreditada. No fim, o meu processo venceu e não consegui atingir o objetivo.

Quando foi-me indicada outra auto escola, um pouco mais longe, mais ainda perto de onde eu moro, contratei sem pestanejar. Como eu estava de saco cheio desse processo e passando por problemas diários, acabei fazendo a prova teórica de muito mau humor e acabei não passando. Só passei na segunda vez.

Depois dessa etapa, vieram as aulas práticas. Em toda a minha vida, até aqui, não passou pela minha cabeça reviver o medo tenebroso que senti na minha infância e adolescência (quando sofria bullying na escola, e, depois, assédio moral também no trabalho, o que me fez ter pânico de ir para a escola e trabalhar. Hoje considero estes fatos as raízes de muitos problemas que tenho. A falta de compreensão e acompanhamento adequado tiveram, também, um grande grau de contribuição).

O instrutor é ríspido e extremamente grosseiro. Quando fui para minha primeira aula, desse segundo processo, ele não me cumprimentou e nem respondeu meu bom dia, de fato, ele continua a não responder minhas saudações. Como é um carro novo, mais moderno e com ar-condicionado, pedi que ensinasse-me algumas coisas antes de sair com ele e também ressaltei o medo de sair nas ruas e avenidas. Ele respondeu animalescamente que não precisava me mostrar as funcionalidades do carro, que não mudava em nada, pois era meu segundo processo e eu deveria já saber disso.

Eu tenho pânico de dirigir. Tenho medo de rotatórias, não sei muito bem fazer ultrapassagens e fico com medo de congestionamentos. Como o outro instrutor despertou essa insegurança em mim no primeiro processo, repetindo o mantra de que eu estava muito lenta e não sabia dirigir direito, eu fiquei com esta sensação ruim ao entrar em um carro para guiá-lo. Eu tinha depositado todas as minhas esperanças nessa auto-escola em que estou hoje e arrependo-me amargamente disso.

O novo instrutor sempre grita comigo e apenas diz para acelerar, reduzir, ajustar e onde entrar. Ele não deixa tirar dúvidas e quando faço perguntas ele simplesmente fala raivosamente: o quê? Há dias em que ele está muito estressado e o vejo dar baforadas para expressar algo como "que saco de estar aqui". Quando erro alguma coisa, ele, ao invés de ensinar-me a maneira correta e com calma, mesmo que leve tempo, simplesmente grita para eu tirar o pé dos pedais e as mãos do volante e conduz, ele mesmo, o carro.

A cidade que eu moro tem um trânsito péssimo. Uma pesquisa apontou que aqui é um dos piores lugares do mundo para se dirigir. Então, toda vez que termino a aula com esse Senhor, eu saio sentindo-me o pior ser humano da face da Terra, uma pessoa incapaz de aprender e inútil. O trajeto de ônibus até a minha casa é um palco em que uma tela de cinema reproduz cenas tristes de toda a minha vida.

Além do medo e da tristeza por não conseguir dirigir, sinto-me pressionada a agradar a todos. Agradar aos que estão pagando meu processo, agradar a auto-escola e, principalmente ao instrutor. Sinto-me com as asas cortadas e acorrentada.

Sempre repetem que eu estou atrapalhando o trânsito, que vou provocar uma acidente. Mas nenhum se prontificar a ensinar-me o que se deve fazer sem que eu, todas a vezes, fique com as mãos tremendo e com uma forte dor de cabeça.

Como na minha casa ninguém me dá razão (como há muito tempo, desde de pequena, eu sou a culpada por atrapalhar a vida das pessoas, de adoecer e todas as dificuldades que se abatem sobre mim ou os outros ao redor), fui procurar a única amiga da minha universidade, do curso de Computação, que confio nesses momentos.

Ao explicar a situação, ela me disse que eu tinha que sair urgentemente dessa auto-escola, ou, se a primeira opção não fosse possível, trocar de instrutor. A primeira situação está fora de cogitação pelo preço, a segunda tem um empecilho: a secretária do lugar fala mal dos alunos na frente de outros alunos, de como eles são péssimos e é grande amiga dos instrutores de lá.

Hoje, para piorar, eu quis cancelar duas aulas e fui informada de que não podia. Teria que ter avisado com 24 horas de antecedência, mesmo em caso de doença, salvo atestado. Acabei me exaltando ao telefone e nem sei se irei fazer mais aulas. Não tenho mais coragem. Contudo já fui notificada pela minha família de que se eu não for, as coisas ficaram muito feias para o meu lado. Aliás, a única coisa que repetem é para eu esquecer e continuar as aulas com ele. Citam que já enfrentaram problemas maiores e que nunca morreram por este fato.

Todos os dias sofro com recriminações de toda a espécie. Na verdade, muitas vezes eu não tenho vontade de viver ou acordar pela manhã. E esses acontecimentos pioram muito o meu estado mental. Não durmo direito e só tenho sossego de madrugada, onde aproveito para ver, em paz, algo que eu gosto ou apenas degustar o silencio que foi negado durante o dia.

Estou com crise de dor na coluna, o que me deixa parecida com um animal com um espinho na pata. Como disse no começo, uma das poucas coisas que ainda me dá prazer é jogar vôlei. E estou pagando o preço. E pensar que para ter algo satisfatório, por uns momentos, tenho que aguentar uma dor que acaba com a minha vida durante a maior parte do tempo, me faz pensar o quanto a vida é uma merda incalculável. E estou sem plano de saúde, uma verdadeira catástrofe. Eu queria muita vezes chorar, gritar, quebrar algumas coisas. Só que eu não tenho privacidade, não tenho meu canto, eu nem mesmo tenho o meu próprio quarto.

Não suportaria ser chamada de fraca hoje, estou estafada de verdade.

De fato, eu penso que estou no limbo. Talvez eu tenha morrido e esta é a minha punição.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Quantos anos você tem? Todos.

Meu lugar favorito: Dolcce Grill
Mais um aniversário chegou. E uma sensação péssima invade-me toda vez que este dia, minimamente esquisito, vai consumando-se. Ontem confabulei que esta cinzenta terça-feira poderia ser engolida e, como em um buraco de minhoca, minha pessoa seria arremessada diretamente na quarta-feira.

Depois dos 30, a contagem não importa mais. E sendo assim, como em todos os outros ordinários dias, eu acordei com gritos e reclamações. A luz do Sol, brilhante e irritadiça, batia diretamente na parede, o que dava a impressão de que aquela era uma amostra grátis do Inferno. O momento mais engraçado foi a hora do parabéns, esse som detestável, que foi esquecido em meio à pressa de cantá-lo e entregar o presente universal: uma certa quantia em dinheiro.

Fui escutar Chopin. Ah, como eu o amo... Em seus Noturnos, suspeito eu, ele capturou um pedaço da graça de cada anjo habitante do céu.

Não fui à aula e nunca mais iria se pudesse. Eu desejei escapar, achar um buraco de Alice, uma toca de coelho, ou um velho rico decrépito que desse a mim uma casa na Toscana, de madeira, rodeada por girassóis e um monte de ovelhas.

Eu queria liberdade. Só que ontem eu queria morrer. Sim, a morte é apenas uma libertação momentânea, pois, de qualquer maneira, reincarna-se e esse ciclo recomeça, os mesmos erros e as mesmas pessoas, homens em mulheres, mulheres em homens.

Antes de querer morrer, eu queria ser um raio de luz. Eu não teria forma, eu não seria uma mulher. Mas eu adoro ser mulher, então por que eu queria ser esse tracejado de fótons?

E eu fiquei a perguntar-me isso o dia inteiro. Necessitava de uma resposta e de dar-me alguns presentes: a minha própria companhia, um livro e minha confeitaria favorita. Aquelas horas foram únicas, como tantas outras, em que pude abrir meu livro, sem culpa, sem esperar ninguém, nem ao menos desejar uma presença sequer. Foi a minha plenitude e o meu zênite.

Porém eu ainda não tinha a minha resposta, por mais cafés expressos que eu tomasse, com aquela espuma branca, fofa e macia como algodões aromatizados - o pedaço do firmamento em uma junção de gotas amarronzadas em nuances creme.

Terminei e fui caminhar. Depois sentei-me ao ar livre, olhando um urso de pelúcia gigante no meio de um monte de presentes brilhantes com um fundo oco, tudo tão verdadeiro como uma nota de três reais. As pessoas conversavam, andavam, olhavam vitrines, compravam e falavam ao telefone. Alguns estudantes discutiam algo que certamente era inútil. E, de repente, veio-me uma tristeza ainda mais profunda. Que diabos de sensação pegajosa. Eu poderia chorar naquele momento.

Então um certo filme começou a passar em frente aos meus olhos...

... Eu não amava mais, não tinha um objeto de adoração. Os deuses da minha vida foram aniquilados como estátuas massacradas por um martelo. Eu, que sempre amei algo ou alguém, tinha acabado de constatar o grande e temido vazio. O que aconteceu? Em que maldita estrada eu deixei-me?

Tomei consciência de mim e da prisão de ser mulher, por mais que eu amasse sê-la.

Eu sou uma insana lacuna sedenta. Quero opções, sem julgamento. Só que eu sou uma escrava de meu próprio tempo, sendo açoitada por opiniões, empecilhos e expectativas.

Eu poderia ser uma vadia, ser quieta, gostar de homens mais velhos, com dinheiro, ou gostar de mais novos e sustentá-los. Eu poderia gostar de mulheres. Eu poderia fazer sonetos para ambos... Então por que eu parei no poderia... Poderia, poderia...?

Ecoando... Ecoando...

Peguei o ônibus. Fui embora.

Deus do céu, tenha piedade de mim.

Eu já sei porque eu queria morrer e muito antes ser um raio de luz, ou mesmo engolir o meu aniversário.

Estou à beira do grande abismo.

E a única sensação que tenho é do vento gélido a sorrir tenebrosamente, cheio de dentes, à espera do próximo ato.




segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Uma canção para a Superlua (Song for Supermoon)

Hoje temos mais uma Superlua, a mais brilhante desde 1948.

O fenômeno ocorre quando o perigeu da Lua - ponto da órbita mais próximo da Terra - coincide com a Lua Cheia. A Lua atingiu o perigeu às 09:22 horas (horário de Brasília) e esteve cheia às 11:52 horas. Ao anoitecer, a Lua pode ser vista em tamanho maior no mundo inteiro.

A Superlua nascendo por trás do castelo de Almodóvar
Córdova, Espanha, 14 de novembro de 2016
A Lua é sagrada para os povos indígenas. Nas histórias e lendas Tupi-Guarani, no Brasil, ela chama-se Jaci. Para os povos nativos da América do Norte, ela também é cultuada da mesma forma. Para os Navajos, ela chama-se Yoołgaii Asdzą́ą́ (Mulher Branca da Concha). 

E para celebrarmos este dia, além da Ciência e Astronomia, um pouco de música nativa americana para glorificar as noites enluaradas e prateadas que nos cercam de misticismo e harmonia. 

Canção para Superlua
Flauta (em bambu) Nativa Americana, chave em F, pentatônica
Tocada por T.S. Frank

Song for Supermoon
Native American Bamboo Flute, Key F, pentatonic,
Performed by T.S. Frank




domingo, 13 de novembro de 2016

Oração para a Montanha Dourada e os Espíritos Ancestrais (The Prayer to the Golden Mountain and Ancestral Spirits) - Flauta Nativa Americana - NAF


Oração para a Montanha Dourada e os Espíritos Ancestrais
Flauta (em bambu) Nativa Americana, chave em F, pentatônica
Tocada por T.S. Frank

The Prayer to the Golden Mountain and Ancestral Spirits
Native American Bamboo Flute, Key F, pentatonic,
Performed by T.S. Frank