Incrível como as propagandas, não somente as brasileiras, perderam um pouco do encanto por padecerem nas mãos do politicamente correto. Duvido que, fosse hoje, essa doçura ficaria no ar sem causar polêmicas do xiitas evangélicos e das patrulhas familiares mais preocupadas em encher o saco do que educar seus filhos verdadeiramente.
Todos querem parecer bons pais, mas vá perguntar se eles já leram Mark Twain para os filhos...
Enquanto isso...
Essa propaganda do chocolate Laka, da Lacta, de 1989, nos trouxe a maravilhosa canção Crying In The Rain na voz de uma das duplas que mais gosto: The Everly Brothers. A música foi escrita por Howard Greenfield e Carole King e originalmente gravada pelo duo, em 1962. Mais tarde, em 1990, um grupo que amo, o A-ha, fez sua própria versão da música e que ficou excelente.
Quanto ao Laka...
... Continua, para mim, com gostinho de amor adolescente... Ou aquele amor platônico vindo do oceano... Ou todos os amores bons, bonitinhos, com gostinho de "Eu quero mais um pouquinho"...
Como podem ver, o blog mudou o layout, saiu do preto e foi para o cinza, roxo, lilás, não sei, furta cor.
Tornou-se um tom pastel.
Saímos também do horizonte do Facebook, que cá entre nós, nunca trouxe sorte e muito menos novos leitores para este blog. Demos um tempo, talvez definitivo [a escritora aqui também livrou-se do Facebook Pessoal].
Cansamos um pouco de relatos sobre politicagem, gente muito feliz, postando suas bebedeiras com seus amigos para sempre de quatro semanas. Engraçado, todos são alegres no Facebook. E tudo é tão denso como gelatina de frutas.
Este blog teve mais sorte com o Orkut. Foi a época de mais leitores. Porque havia uma certa anarquia que funcionava nos grupos de blogueiros: você recebia um comentário, ou seria chamado de caloteiro [uma aberração, a marca escarlate, a ficha criminal da blogosfera.].
Hoje é a sorte de quem o encontra na ferramentas de buscas. Mas continuamos.
R. Carlos Nakaié um grande flautista nativo americano de origem navaja/ute. Nasceu em 16 de abril de 1946, em Flagstaff, no Arizona, EUA. Seu nome verdadeiro é Raymond Carlos Nakai e é considerado referência quando os assuntos são música nativa e flautas NAF - Flauta Nativa Americana.
A Biblioteca do Congresso (Library of Congress) possui mais de 30 dos seus trabalhos preservados no Centro de Folclore Americano (American Folklife Center).
Seus álbuns Earth Spirit and Canyon Trilogy são os únicos álbuns nativos americanos com os certificados de ouro e platina, respectivamente, pela RIAA (Recording Industry Association of America).
Nakai desenvolveu um sistema de tablatura para flautas nativas (conhecida também como Nakai Tablatura) que pode ser usada em NAFs com várias afinações.
Em 2005, ele foi introduzido no Arizona Music & Entertainment Hall of Fame. Tambémganhou o Arizona Governor's Arts 1992. Possui um Doutorado Honorário pela Northern Arizona University, que recebeu em 1994. Tem Mestrado em Estudos Indígenas pela Universidade do Arizona.
Nakai é referência para quem gosta e toca música nativa americana, principalmente os flautistas NAFs. Assim que comecei a tocar minha NAF (bamboo flute in F) a Nakai Tablatura ajudou muito. Seus álbuns são presença constante nos meus dispositivos móveis (eu uso o Spotify, mas está disponível no Deezer também).
Um dia farei uma postagem falando sobre minha paixão pela cultura indígena americana e também a sul-americana. Se um dia puder sair desse abismo em que moro, meus planos são separar um ano para ter mais contato com essa cultura, principalmente os ensinamentos sobre espiritualidade, também baseados na reencarnação.
Hoje a NAF significa muito pra mim, um refúgio e um descanso mental. É impressionante a ignorância das pessoas acerca da importância, história e beleza desse instrumento. Não raro, aqui onde moro, as NAFs são reduzidas a gírias de usuários de canabis ou relegadas a sarjeta quando fazem piada com outro belo instrumento que padece na boca de pessoas com o cérebro de um gambá em coma: a Flauta de Pã (instrumento milenar andino).
Quando eu era pequena, as chuvas eram acontecimentos majestosos. Ali eram abertos os portais para um outro mundo. Todos os sonhos podiam voar até aquela incrível altura e encontrar a realização.
Elas sempre vinham do leste; raios e trovões eram os címbalos e as cornetas da anunciação. Só os escolhidos sabiam da sua importância e dos segredos que traziam. Enquanto o resto do céu ainda reluzia em um amarelo espelhado, o horizonte começava a mostrar os corcéis negros com ventos tempestivos.
Em certas ocasiões, o arco-íris aparecia e eu pensava: ele veio transportar alguém para o outro lado para dar-lhe uma vida espetacular.
E foi há tanto tempo... Que restaram-me, apenas, fragmentos de recordações. O agora é mentiroso e vil. Os olhos desse momento, que observam o firmamento, estão pesados e cansados. A vida ganhou tons indesejados de um amarelo abafado e doentio.
As pessoas têm muita pressa, precisam correr atrás de um ônibus, buscar alguém, dar satisfação, gritar com outras, despejar ódio e frustrações e é assim dia após dia. Se chovesse, não notariam, a não ser que atrapalhasse. Pergunto-me se algum dia, neste lugar, perceberam elas que as nuvens também possuem cores.
A solidão que a chuva traz é confortável. Suas gotas deslizam em sinfonia. É como um abraço bom, uma sorriso que alguém provoca. Já a solidão que as pessoas causam em outras é devastadora, um pós-tornado, onde só há entulho e morte.
Estou sobre os escombros, procurando razão para refazer e continuar.
As nuvens do leste, cheias de sons celestiais, são uma metáfora triste de tempos que não voltarão. Este meu tempo é cheio de desacompanhamento e notas solitárias. As pessoas ao redor são apenas o produto desse meio. Não há nada para se esperar porque delas somente o nada pode ser extraído.
Tão obstinadas foram as eras de outrora que para esta tenho que defender-me arduamente das suas catástrofes climáticas - construí um galpão subterrâneo na minha própria alma.
E depois dessa avalanche interior, quem sabe, reste um pedaço de mim para admirar aquelas nuvens cinzas e carregadas que deixei naqueles portais.
Van Morrisoné uma lenda. Um dos melhores cantores do mundo e um dos meus preferidos. Por quê? A explicação está em sua discografia praticamente irretocável, em uma carreira com os melhores álbuns da história da música, como o maior de todos, diga-se de passagem, Moondance, de 1970, arrebatador em críticas em sua totalidade.
Sua maior qualidade está em retratar os amores, as paixões, aquela garota dos olhos marrons... usando cenários centralizados em sua Irlanda, como por exemplo, em Cyprus Avenue, que é uma rua de sua cidade natal, Belfast.
Sempre cercado com músicos competentes, essa é uma daquelas grandes apresentações, com versões excelentes de suas já memoráveis canções.
Este não é um shows que fãs colocam no youtube. É um projeto que vale muito a pena conhecer, chamado Music Vault, que oferece uma gama de espetáculos antológicos não só do Van The Man; muitos outros mitos da música estão nele. Abaixo da apresentação, estarão os links para conferir esse catálogo de jóias preciosas.
Aproveite! [Enjoy!]
01 • Moondance [0:00:00]
02 • Checkin' It Out [0:04:02]
03 • Moonshine Whiskey [0:07:19]
04 • Tupelo Honey [0:13:46]
05 • Wavelength [0:20:10]
06 • Saint Dominic's Preview [0:26:46]
07 • Don't Look Back [0:33:46]
08 • I've Been Working [0:38:24]
09 • Gloria [0:43:54]
10 • Cyprus Avenue [0:47:59]
Tenho este blog há seis anos. Ele evoluiu, adquiriu corpo e consistência e não houve um ano sequer que não tenha escrito algo por aqui. Este nasceu da necessidade de partilhar tristezas, angústias e dissabores da minha própria vida e assim o faz desde então. Mas há a parte informativa, compartilhando o que sei sobre cinema, música, história, ciência e alguns ramos que não são tão populares assim. Escrever de forma coerente e seguindo a proposta que defini é um prazer trabalhoso. São necessárias muitas consultas, revisão, reformulação e até abandono de textos. E para quê? Eis aqui a constatação um pouco dolorida.
Escrevo para pessoas como eu. E onde elas estão? Aqui neste mesmo mundo quantitativo. Nele, os comuns estão quase sempre sorrindo e contentes com seus lagos rasos.
Aqui está meu monólogo e pantomina...
Ler não é mais um deleite tão popular. Leituras fáceis, talvez, juntamente com sucessos instantâneos. O mundo é dos youtubers, dos famosos e descolados. Sinto que é o pior momento para ter o talento da escrita - um atestado para a fome, pobreza, anonimato ou, com muita sorte, um nome no rol do clube cult. Falar sobre tristezas e amarguras não causa mais tanta empatia. Falar sobre a alegria dos momentos simples e descrevê-los elegantemente, muito menos. Isso pertence a livros centenários empoeirados e aos poucos saudosistas que anseiam por mudanças que nunca virão.
Seis anos são de uma persistência sem tamanho, ou a palavra mais bonita que conheço: perseverança. Agora, mais do que nunca, escrevo para mim. Um ato que salva-me do fundo das cavernas escuras diárias e dos pensamentos mais sombrios. É uma fuga em minha própria mente, já em seus primeiros sinais de cansaço e estafa. A realidade é demasiada feia para que se viva enrolada, a todo instante, em seus espinhos. E passeios sorrateiros longe disso evitam desastres.
Aqui há toda uma história de vida, não bonita, muitas vezes triste, injustiçada e ferida. É a colcha de retalhos que fiz de cenas do meu cotidiano, dos amores perdidos, dos não correspondidos e dos maléficos.
Sento-me aqui para escrever sobre meus próprios motivos em persistir e lá fora há um entulho de tarefas esperando para serem cumpridas. E essas, desinteressantes e frustrantes, são o muro frio de um castelo construído com erros e culpas.
Perdi quase todo o contentamento com a vida, até mesmo com alguns imaginários. E, para transformar em uma metáfora amena, tenho tencionado ser um raio de luz, sem forma, nem corpo. Gostaria de ser livre, livre de toda a rede depreciativa que moldou um ser a partir dos seus próprios restos e que não teve tempo para fortalecer-se.
Sinto-me escrava dos meus caprichos e dos enganos que cometi para alcançá-los. Sou nada mais que fragmentos de alguém que desejou respeito, amor e quietude.
E agora só possuo a minha escrita que ascende somente aos meus olhos. São minhas cartas para além oceano, engarrafadas, que ainda esperam ser encontradas e abertas.
A primeira postagem do ano de 2016 começa com amor. E dos meus muitos amores, a música Celta é a mais presente.
***
Descobri Greg Joy através de um aplicativo na minha Smartv, o Calm Radio Multimix (aplicativo também para Android). Ele contém inúmeras playlists com músicas do mundo inteiro e uma delas, claro, é a Celtic Music.
Depois de escutá-lo pela primeira vez, adquiri toda a discografia. E, depois do Luar Na Lubre (a minha banda favorita), é o que estou escutando diariamente.
Em sua discografia há inúmeras interpretações magistrais de canções famosas do folk escocês, irlandês e inglês. Só pra citar algumas no cenário das series, por exemplo: há Skye Boat Song, música folk escocesa, tema de abertura série Outlander - A Viajante do Tempo e Unquiet Grave, música folk inglesa, cantada no último episódio da terceira temporada de Penny Dreadful pela necromante Hecate.
Biografia
Greg Joy nasceu em Victoria/Canadá, em 1954. Seu principal instrumento é o violão - o de 6 e 12 cordas. Toca também dulcimer e bandolim O amor pela música folk das ilhas britânicas levou-o ao Victoria Music Conservatory, no final dos anos 70, para estudar violão clássico. Ele já fez inúmeras apresentações com vários grupos celtas e de music world.
O meu talento!... De que me tem servido? Não trouxe nunca às minhas mãos vazias a mais pequenina esmola do destino. Até hoje não há ninguém que de mim se tenha aproximado que me não tenha feito mal. Talvez por culpa minha, talvez... O meu mundo não é como o dos outros, quero de mais, exijo de mais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê! (Florbela Espanca, Desafinado Desconcerto: Contos, Cartas, Diários. Iluminuras, 2002. P. 271)
Florbela é uma achado. Assim como Augusto dos Anjos e sua poesia cortante e realista em metáforas negras, ela aproxima-se de mim com a alma parecida, uma vida de angústia e decepções.
E, nesse final de ano (com o Natal que passou e o Ano Novo que aproxima-se), mais constatações da minha vida: minuciosamente detalhada em seus poemas.
Veja o destaque, frase perfeita, avassaladora e ratificadora: Até hoje não há ninguém que de mim se tenha aproximado que me não tenha feito mal. Talvez por culpa minha, talvez...E assim o é - sem delongas e sem drama, apenas a verdade nua e crua.
Natal é uma época para a família. Sim, aquelas de comercial ou das pessoas felizes e bobas, satisfeitas com o raso, o multicolorido instantâneo e suas vidas recheadas com sopa de orfanato. A felicidade parece bombom de quinta comprado com moeda de um centavo.
Natal também lembra-me esperança, o menino Jesus, os desenhos católicos e o catecismo. Era a época em que eu podia ser tudo, claro, na imaginação. Quando somos pequenos, mesmo com as mazelas do dia a dia, as perseguições, pobreza e o destrato na escola (bullying de hoje), o espírito inquietante e a esperança são o mais tenro combustível da alma. Poderíamos, para sempre, ser infantes, ou, ao menos, ter um ínfimo do brio de outrora só para sobrevivermos com o mínimo de dor. Porém crescemos e enxergamos o mal, o preconceito, o descaso e o descarte.
As ceias, antes esperadas, só mostram agonia, problemas domésticos, queixumes. A grande maioria das pessoas que amo e gosto, e que gostaria que estivesse ao meu lado nesse momento, tem outras prioridades, outros amigos mais importantes, outros amores. Muitos deles enganaram, viram apenas algo passageiro, um número, uma nota musical solitária para coleção particular.
Foi um ano terrível, cheio de tristeza e pesar. Apunhaladas, fofocas, pessoas insanas, coração partido e toda sorte de desgosto. Seres humanos ruins foram coroados, idolatrados e elogiados. E vivem agora seus contos de fada - com beleza, riqueza, belos rebentos, atenção e glorificação.
Amar tornou-se difícil. E os fracassos apareceram - controle, crítica e dizeres para alimentar a baixa auto estima. Não amei este ano - foram 365 dias estéreis. E não lembro-me de uma época assim. E espero não ter nada parecido por anos.
Sinto-me presa. Aliás, sempre estive. Sou escrava das convenções, dos dramas alheios, das imposições dos outros. Não tenho dinheiro e nem um rumo certo. Vivo de lampejos de felicidade imaginária e sorrisos soltos. Estes, aliás, causados por pessoas não próximas; talvez, as melhores e mais sensatas que já entraram em minha vida.
A vida como ela é - cinza.
Mas quero chuva. Porque ela possui o mais belo céu, o cheiro enebriante de terra gotejada, frio, eletricidade e, antes, bem antes, o arco-íris da infância, cheio de Matemática e Física. Portal de frenesi, palco de cores em tons pastéis. É um espetáculo raro por estes tempos.
Há apenas raios cegantes de sol, com cores vivas e artificialmente alegres, enjoativas. Sem bases e discussões.
[Fale-me de Beatles, dos Celtas, qualquer ato sólido e artístico. Tire-me desse mar de lama alheio! Ofereça-me uma café com leite quente e um bolinho boliviano. Seja um estranho encantador, alguém para sempre, mesmo por instantes.]
Hoje, pós-natal, e depois que todos comeram como animais, pensando em Papai Noel (minha época favorita ainda é a Páscoa, ao menos, lembram de Jesus), estou com mais um episódio forte de dor nas costas. Existem dias com menos dor, porém ela sempre está lá - companheira inseparável. A cronicidade do meu dia a dia.
Das coisas boas, uma descoberta incrível: um musicista celta - Greg Joy. Também voltei a assistir Arquivo-X e tem sido muito divertido. Agora toco Flauta Nativa Americana - NAF que amo e acalma-me (ninguém nunca me deu forças para tocá-la e assim que o fiz, muitas críticas vieram, não porque eu toco mal, pelo contrário, e sim desdenhos ou o velho descaso, fora que ela é considerada um objeto que ocupa espaço, muito indesejável no começo).
O curso de Física continua um show de horrores, claro, para mim (porque NUNCA vão dizer algo parecido, afinal, cada um cuida da sua própria vida acadêmica e esses assuntos são terminantemente proibidos. A premissa é que somente os fortes sobrevivem, pois fazem parte disso o egoísmo e também a falta de apoio). Contudo é como disse um amigo e jovem escritor certa vez para mim - Termine isso! E tire sua bunda daí! Não há nada que te segure, não há raízes, não há nada espetacular e forte. Só que é bem difícil manter-se na linha e focada. São tantos problemas, tanta desarmonia e a falta de uma figura para admirar. Episódios recorrentes de desrespeito acontecem, a última, e que me abalou muito, eu já contei em uma postagem anterior.
Vista área de Newgrange - Irlanda
Uma vez terminada toda essa jornada excruciante, poderei começar uma nova vida, longe, muito longe daqui, sem levar nada e ninguém na bagagem. Sem laços, sem história, apenas a vontade de
recomeçar.
Essa é minha única promessa para o novo ano. Difícil? Exato. É a chave da minha liberdade, minha chance de renascer e poder ter fé em mim, no meu talento. O preço é alto, nada mais que o esperado. Aqui, agora, não há pessoas que acreditem em mim. Essa tarefa é somente minha.
Raio de luz em Newgrange, Solstício de Inverno
Desejo a todos (as) os leitores (as) um ano mais calmo e produtivo. A paz é a lacuna a ser preenchida e a saúde, pois bem sei, é essencial. Do resto, cada um precisa ter ou arrancar da alma, mesmo que seja dolorido.
E, dessa forma, que as nossas vidas possam ser como a luz que entra em Newgrange a cada Solstício de Inverno - o lembrete da esperança que nunca falha!
O transporte coletivo é motivo de impropérios e maldições dia após dia, em todas as manhãs, tardes e noites quentes e abafadiças. Por outro lado, não há maneira mais significativa de observar o comportamento das pessoas, em seu melhor ou o seu pior.
O pior, todos nós, usuários, sabemos muito bem, desde a tenra idade. O melhor, além dos acontecimentos hilários, sem marcas de violência, são as conversas provenientes daqueles que nunca vimos na vida (e, muito provavelmente, nunca voltaremos a ver nesta mesma).
Pois bem, era uma ensolarada e aguada tarde, um inferninho, antes dos acontecimentos fatídicos da aula grosseira. Estava pensando em fazer uma torta, daquelas americanas, cheias de filamentos, tipo desenho do Pica-Pau. E o mocinho vendedor de revistinhas entrou e leu exatamente os meus pensamentos. Comprei, pela bagatela de R$ 1,00, várias receitas de adoráveis e apetitosas tortas.
Foi assim, notando a compra empolgada, que a moça ao lado (que antes falava sobre aulas, alunos e alienígenas ao telefone) começou uma conversa muito interessante:
- Não sei cozinhar! Até fiz um curso de culinária... - Eu também não! Respondi prontamente. - Mas essas tortas eu quero fazer.
Ela continuou...
- Quem cozinha em casa é o meu marido. O meu pai também é um ótimo cozinheiro. Trabalho o dia todo e o meu marido apenas à noite. Quando chego em casa, tudo está pronto. Eles cozinham divinamente bem. Às vezes meu pai manda comida.
Eu já estava, a essa altura, maravilhada!
- Que bacana! Isso é realmente fantástico!
- Sim, ele casou comigo sabendo! Como eu disse, eu não sei cozinhar, lavo mal a minha roupa. E aí perguntei a ele, você quer mesmo assim? E estamos juntos há 13 anos.
E eu amei instantaneamente toda a história...
- Ainda bem que os tempos mudaram! Isso é motivador!
Porém, todos os relatos chegam ao fim, e esse tinha uma parada de ônibus para terminar.
- Tenho quer ir! Tchau!!!
E ela, simpaticamente, respondeu:
- Tchau, boa aula!
Bem, como sempre vejo nos comentários das páginas feministas que sigo, não é questão de ser relapsa e sim modificar o pensamento patriarcal e machista: lava quem sujou e cozinha quem sabe. Dividir as tarefas é a cartilha da nova e sensata família.
Óbvio que ainda vão existir as defensoras e os defensores da família tradicional arcaica, da comida servidinha para o marido, passar, lavar e cozinhar como boas Amélias. Haverá os homens que têm medo das feministas e como arma sórdida, vão falar que são mal amadas, solitárias, etc, etc. Só que o bálsamo da vez é presenciar os preconceitos que caem e as amarras que são desfeitas, devagar, mas constantemente.
13 anos é um número e tanto, significativo e emblemático.
E contra dados, fatos e números, não há argumentos (pelo menos, genuinamente, inteligentes e sensatos).
Uma boa história deve ser partilhada, assim como deliciosos pedaços de torta.
Final de ano... E seriam as férias o descanso para os mais variados tipos de mente. Contudo isso não é o que acontece por essas bandas de cá.
Foram alguns meses de greve e eu pensei que estaria revitalizada para mais um período chocante. Um engano tremendo!
[Pergunto-me se essas situações que descreverei a seguir acontecem, em grande número, em um mundo civilizado, em um país desenvolvido. Se assim for, então a Terra é mesmo uma droga e não há nenhum tipo de esperança na vida futura; nem mesmo aquela relatada em romances.]
Ah, Astronomia! Quando olhava o céu e sua Via Láctea brilhante e leitosa, não imaginava que tudo isso poderia ser um inferno sem tamanho. Mas cá estou eu...
A pior sensação para um aluno humanizado e sensível é ser humilhado de alguma forma em público. E isso acontece tanto por aqui que muitos consideram uma rotina normal - literalmente, um cafezinho após as refeições [até alunos que estão agora no Mestrado, em alguma parte desse país, de alguma forma, são mencionados em passagens degradantes intelectualmente e viram histórias tristes repassadas ano após ano.].
Pois bem, hoje foi um dia em que repensei, seriamente, em todas as minhas escolhas. Diante das grosserias de um professor [já conhecido por este fator], tive que conter toda a minha indignação e imaginar - isso é passageiro.
[paciência e compreensão são moedas de ouro raras em Física - Ou um sinal de fraqueza?]
Somos culpados por eles, em grande parte, nossos medos alimentam-os.
Eu sabia ditar aquela maldita equação, mas, como um ser falho, esqueci-me do nome de um mero vetor. E isso foi a minha sentença nesse dia. Fui rebaixada a um micróbio e pensei - "Vou virar uma daquelas histórias tristes?".
Fui beber uma água, pensar, respirar e catar alguns raios de Sol. Eu só tenho uma vida e não posso estragá-la assim [não mais!] por conta de grosserias daqueles que não significam nada nela.
É difícil encarar, como não não? As dificuldades triplicam, montanhas elevam-se e os momentos tornam-se horrorosos.
Por outro lado, vejo que é possível dar conteúdos difíceis se você tem carisma, boa vontade, menos orgulho e fé. Alguns exemplos estão agora disponíveis - o frescor da iniciação! Por quanto tempo isso durará? O suficiente para mostrar que é realizável já está de bom tamanho.
Escrevendo agora, não sei qual será minha atitude daqui para a frente. Mas não posso dizer que esquecerei e deixarei passar. Afinal, tudo que vai, volta... Certeiramente. É só questão de esperar o momento propício e os acontecimentos. À vezes, o próprio destino encarrega-se de fazer vigorar a Lei.
Vou comer Sushi e abrir uma Pepsi gelada - e por hoje, e só por hoje, vou abstrair este fatídico dia.
Odeio minúcias, trabalhos domésticos, manias de assepsia. Tudo contado, minimalista, cheio de opressão, regras, mesquinharias e maldade.
Assim é por perto. A vida toda foi assim. E, agora, muito pior.
Todo os dias são de má sorte e a vida é ruim, sem brio e sem esperança.
Acidentes que acontecem dentro de casa por pouca coisa e trazem a desgraça e a tristeza; pessoas que entram, invadem o espaço e alma, acusam, desdenham e carregam toda a negatividade e o fardo pesado de um mundo horroroso e sombrio.
[raiva, rancor... Um poço de lama!]
O amor não existe [para alguns, sim, afortunados!].
Eu só queria desaparecer.
Quem sabe virar um raio de luz...
Muitos desejam morrer. Porém, como idiotas, ainda restam-lhes fé no amanhã. E esse [dia após dia] nasce com um Sol enegrecido, trazendo os piores sentimentos.
Estamos no limbo, vendo a vida passar, sufocante, acusadora, pecadora e não há nada que se possa fazer para amenizar a dor.
[Prevejo dias de imensa tristeza e pesar.]
Viver é a pior arte, sarcástica, tóxica e agressiva.
Não há dinheiro e nem para onde ir. Estou presa... E todas as cores apagaram-se.
Vida maldita!
E, no final das contas, é a única coisa que é realmente minha.
Não tenho nada além dela.
E, disso, estou longe de vangloriar-me.
Porque essa é a minha cruz e também o meu calvário.
Estudar Exatas tem sido um grande desafio. Não tanto pela Ciência em si, que é bela e cheia de perseverança [apesar das vaidades que nunca entenderei]. A falta de espiritualidade de todos ao redor é um espinho pontiagudo.
Todos são de ferro e feitos de palavras agressivas soltas cronometradamente em larga escala. Cenários de disputas, mesquinharias e incompreensão. Ao mesmo tempo, são pálidos e frios, sem mistério, sem sal e muito menos açúcar. É como olhar grandes recipientes vazios encrustados de números e quantidade, fórmulas e desdenhos.
Há assuntos que não gosto de discutir [ou, ao longo do tempo, aprendi a evitar]. São eles, religião e política.
Assim que entrei no curso, foi dada-me a seguinte máxima: "religião não combina com Física.". Fiquei com isso na minha cabeça por muito tempo.
Pensei nos cientistas do Vaticano, Latim, Isaac Newton e todas as possibilidades românticas e poéticas de uma vida que pode ser clara, tranquila, espiritual, buscando o conhecimento sobre o mundo e sobre si mesmo. Contudo parece um assunto proibido, só murmurado em coxias, na calada da noite. Sinto-me numa fábrica ideológica imposta - ser e ser - não é uma questão, é a própria vida.
Dentro do meu próprio mundo, eu sou um paradoxo. Sou católica e acredito em reencarnação. Gosto da propriedade investigativa dos Dr. Ian Stevenson (já falecido) e o Dr. Jim B. Tucker(Psychiatry and Neurobehavioral Sciences - The Division of Perceptual Studies - University of Virginia - School of Medicine). Do outro lado, meu modelo de profissional é o Carl Sagan - cético e divulgador nato da ciência, não a apavorante, e sim aquela de um mundo que não precisa ser complicado, basta amá-lo para entendê-lo (igualzinho a Olavo Bilac que aconselhava a amar as estrelas para compreendê-las...).
Em nenhum momento entrei em conflito com esses dois mundos. A coexistência é a chave para a paz.
Sinto, cada dia mais, que aqui não é o lugar, o meu. Não consegui criar raízes e belas histórias. Não sinto saudade.
Falta-me o sentimento vivo e intenso. E ele existe e viveu ardentemente em mim.
Muitas pessoas alegam ter memórias de outras vidas (geralmente aparecem na infância, antes dos 7 anos). Outras sentem a falta inexplicável de algo que não viveram - um fragmento de uma vida esfuziante de outrora, de outro tempo, imemorial e longínquo.
Revendo Arquivo-X (1993-2001), cada vez mais identifico-me com o Fox Mulder. E, todos que assim se sentem, têm medo de, no meio acadêmico, acabarem com a reputação de estranho, louco e desacreditado.
O assunto vidas passadas também foi abordado na série - os carmas, pessoas que continuam ao nosso lado, as mesmas missões, os mesmos pecados e defeitos, inimigos, amigos e amores.
Hoje sinto-me letárgica. Não há um grande amor ou laços de amizades intensos. E assim é essa caminhada há alguns anos.
As perguntas permanecem abertas e as respostas perdidas. Porém há tantas histórias para serem vividas e redescobertas. Em algum lugar vaga, com a mesma impressão, alguém que também sente que um pedaço dessa vida está ligada a outras que, nesse momento, ocultam-se em labirintos que deixam escapar somente a sensação de que a alma é imortal e imutável.
Não se vive para sempre. Vive-se várias vezes...
***
Este é o tema do filme para TV Minha Vida Na Outra Vida (Yesterday's Children - 2000/EUA/França). Ele foi inspirado no livro autobiográfico de Jenny Cockell. O Livro de Jenny, Yesterday’s Children: The Extraordinary Search for My Past Life Family (1993), relata suas lembranças de uma vida passada e sua jornada para reunir seus filhos de ontem que deixou ao morrer na Irlanda de 1932. O filme conta com Jane Seymour (a famosa Dr. Quinn e do belo filme Em Algum Lugar do Passado), Clancy Brown (Highlander e Sleepy Hollow) e o grande ator Hume Cronyn (que foi, também, marido de Jessica Tandy).
O tema é cantado por Jenn Mahoney e chama-se A Dream That Only I Can Know. Tem uma parte cantada em gaélico irlandês e outra em inglês - um trecho abaixo traduzido (Letra da música aqui).
Eu pensei que ia ser mais assustador... Não sei, talvez seja estranho, de fato. Por quê? Porque antigamente era o atestado de uma vida pacata, família constituída, um emprego público, servidão doméstica... Os tempos mudaram [ainda bem!] e nós, mulheres, ainda temos que viver a nossa juventude plena, despojada e livre. A idade não tem um peso, o pensamento dos outros sim; e os nossos são bem mais fortes se formos avaliar bem o que queremos. É o auge. E tem-se que enxergar isso mais além - o ápice da beleza, o começo da maturidade, o caminho mais reto para a vida.
***
Fazer 30 anos
Affonso Romano de Sant'Anna
QUATRO pessoas, num mesmo dia, me dizem que vão fazer 30 anos. E me anunciam isto com uma certa gravidade. Nenhuma está dizendo: vou tomar um sorvete na esquina, ou: vou ali comprar um jornal. Na verdade estão proclamando: vou fazer 30 anos e, por favor, prestem atenção, quero cumplicidade, porque estou no limiar de alguma coisa grave.
Antes dos 30 as coisas são diferentes. Claro que há algumas datas significativas, mas fazer 7, 14, 18 ou 21 é ir numa escalada montanha acima, enquanto fazer 30 anos é chegar no primeiro grande patamar de onde se pode mais agudamente descortinar.
Fazer 40, 50 ou 60 é um outro ritual, uma outra crônica, e um dia eu chego lá. Mas fazer 30 anos é mais que um rito de passagem, é um rito de iniciação, um ato realmente inaugural. Talvez haja quem faça 30 anos aos 25, outros aos 45, e alguns, nunca. Sei que tem gente que não fará jamais 30 anos. Não há como obrigá-los. Não sabem o que perdem os que não querem celebrar os 30 anos. Fazer 30 anos é coisa fina, é começar a provar do néctar dos deuses e descobrir que sabor tem a eternidade. O paladar, o tato, o olfato, a visão e todos os sentidos estão começando a tirar prazeres indizíveis das coisas. Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada.
Até os 30, me dizia um amigo, a gente vai emitindo promissórias. A partir daí é hora de começar a pagar. Mas também se poderia dizer: até essa idade fez-se o aprendizado básico. Cumpriu-se o longo ciclo escolar, que parecia interminável, já se foi do primário ao doutorado. A profissão já deve ter sido escolhida. Já se teve a primeira mesa de trabalho, escritório ou negócio. Já se casou a primeira vez, já se teve o primeiro filho. A vida já se inaugurou em fraldas, fotos, festas, viagens, todo tipo de viagens, até das drogas já retornou quem tinha que retornar.
Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil. Não é simplesmente, como num jogo de amarelinha, pular da casa dos 29 para a dos 30 saltitantemente. Fazer 30 anos é cair numa epifania. Fazer 30 anos é como ir à Europa pela primeira vez. Fazer 30 anos é como o mineiro vê pela primeira vez o mar.
Um dia eu fiz 30 anos. Estava ali no estrangeiro, estranho em toda a estranheza do ser, à beira-mar, na Califórnia. Era um homem e seus trinta anos. Mais que isto: um homem e seus trinta amos. Um homem e seus trinta corpos, como os anéis de um tronco, cheio de eus e nós, arborizado, arborizando, ao sol e a sós.
Na verdade, fazer 30 anos não é para qualquer um. Fazer 30 anos é, de repente, descobrir-se no tempo. Antes, vive-se no espaço. Viver no espaço é mais fácil e deslizante. É mais corporal e objetivo. Pode-se patinar e esquiar amplamente.
Mas fazer 30 anos é como sair do espaço e penetrar no tempo. E penetrar no tempo é mister de grande responsabilidade. É descobrir outra dimensão além dos dedos da mão. É como se algo mais denso se tivesse criado sob a couraça da casca. Algo, no entanto, mais tênue que uma membrana. Algo como um centro, às vezes móvel, é verdade, mas um centro de dor colorido. Algo mais que uma nebulosa, algo assim pulsante que se entreabrisse em sementes.
Aos 30 já se aprendeu os limites da ilha, já se sabe de onde sopram os tufões e, como o náufrago que se salva, é hora de se autocartografar. Já se sabe que um tempo em nós destila, que no tempo nos deslocamos, que no tempo a gente se dilui e se dilema. Fazer 30 anos é como uma pedra que já não precisa exibir preciosidade, porque já não cabe em preços. É como a ave que canta, não para se denunciar, senão para amanhecer.
Fazer 30 anos é passar da reta à curva. Fazer 30 anos é passar da quantidade à qualidade. Fazer 30 anos é passar do espaço ao tempo. É quando se operam maravilhas como a um cego em Jericó.
Fazer 30 anos é mais do que chegar ao primeiro grande patamar. É mais que poder olhar pra trás. Chegar aos 30 é hora de se abismar. Por isto é necessário ter asas, e sobre o abismo voar.
(A Mulher Madura, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 1986, pág. 36.)
"Basicamente eu diria que as iluminuras estavam lá não como uma explicação, ou até mesmo como uma ilustração, mas como um modo de adicionar valor a Palavra de Deus."(Professora Germaine Greer, Universidade de Cambridge, documentário Illuminations Treasures of the Middle Ages - BBC)
Os livros modernos são uma comodidade. Cada texto é reproduzido mecanicamente em larga escala - um objeto reivindicado para o consumo das massas. Mas há muito tempo, quando cada livro era único e feito à mão, a palavra tinha uma espécie de magia e poder sobre ele. Por mais de 1000 anos, os manuscritos iluminados trouxeram estórias de mitos e lendas para a vida. Suas páginas brilhantes preservaram ideias das crenças religiosas e muitos mistérios sobre a Idade Medieval. E eles são muito importantes, pois contêm a maior parte da arte requintada medieval e cultura da Europa antes do século XVI.
1. Primórdios
Cena do filme O Nome da Rosa/1986
Quando o Cristianismo chegou até Roma, foi perseguido. Porém, gradualmente, a Religião Cristã cresceu no interior do próprio Império do século IV. Esse Cristianismo já não era mais o das pequenas comunidades, como no início - estava hierarquizado e modificado. Com o Edito de Milão (313 D.C., com o Imperador Constantino), foram asseguradas a tolerância e liberdade de culto para todos os cristãos no território do Império Romano. Em 380 D.C., o Imperador Teodósio decretou que a religião oficial do Império seria o Cristianismo e o mesmo, antes de morrer, em 395 D.C., instaurou duas capitais do Império – Constantinopla, no Oriente, com a Língua Grega - E Roma, no Ocidente, com a Língua Latina.
Quando o Império Romano do Ocidente esfacelou-se, apenas o Cristianismo Romano, na forma da Igreja Católica, sobreviveu. Com as Invasões Bárbaras, uma nova questão foi colocada – como cristianizar esses povos? Eles não eram analfabetos, eles simplesmente eram ágrafos – não tinham escrita. Então a necessidade de evangelizar esses povos tornou-se urgente. Paralelo a este movimento, alguns cristãos afastaram-se do mundo, concentrando-se em monastérios, com regras e trabalhos permanentes. Foram os monasticistas que dedicaram sua vida a religião, ao culto, as privações, as obrigações de voto e, principalmente, aos manuscritos iluminados.
2. Os primeiros mosteiros
O primeiro mosteiro apareceu no Egito, no deserto, com Santo Antão, no século IV (350 D.C.). E o primeiro mosteiro na Europa surgiu na parte Ocidental, no Monte Cassino, Itália, por São Bento de Núrsia, em 529 D.C., originando a Ordem dos Beneditinos.
Evangelhos de Lindisfarne - Iluminura insular - Mosteiro da Inglaterra na Ilha de Lindisfarne (hoje Holy Island) – Nortúmbria
No interior desses mosteiros, apareceu uma manifestação artística de monges feita para monges – as Iluminuras. E essas não tinham nenhuma finalidade de proselitismo. Eram cópias feitas para adornar os altares e para serem vistas pelos olhos de Deus – a Glorificação da Divindade.
3. As Iluminuras
O termo iluminura está ligado ao verbo latino illuminare (iluminar). O termo, no século IX, começou a ser utilizado pelos autores medievais para designar qualquer tipo de ornamentação ou ilustração de manuscritos. Neste sentido, illuminare significa destacar (tornar luminoso), através da imagem que determina certos aspectos do texto (para alguns autores este termo só é aplicado quando é utilizado o ouro ou a prata na pintura.). A palavra iluminura também é chamada de miniatura por alguns estudiosos que a fazem derivar da palavra latina minium (vermelho) e do verbo miniare que significa escrever a vermelho.
3.1 Do papiro ao códice
O papiro surgiu no Egito e era feito de fibras vegetais (há papiros desse material datados do século 27 A.C., achados na cidade de Tebas). E foi este papiro que chegou, no século 7 A.C, na cidade grega Pérgamo (hoje Bérgamo, na Turquia). No século 3 A.C., surgiu, então, o pergaminho (em homenagem a cidade) - um suporte para a escrita feito com couro de animais jovens (geralmente carneiro, cabra ou vitelo), tratado com água de cal, esticado ao sol e depois raspado com pedra vulcânica.
A vantagem do pergaminho em relação ao papiro é que o primeiro suportava a inscrição no verso e podia-se apagar também. Para escrever usava-se plumas, geralmente de gansos.
Entre o século III e IV D.C., esse pergaminho chegou na Europa Ocidental e foi utilizado nos mosteiros para cópia e ilustrações de livros. No século IV D.C., ele foi transformado em páginas retangulares e depois costurado. Assim surgiu o códice, que revolucionou o processo de transmissão da escrita, facilitou o transporte, a produção e conservação de imagens, já que no rolo as camadas de pintura estalavam frequentemente com o sucessivo enrolamento dos manuscritos.
[Até o século XV, o grande suporte para ilustração e escrita era o pergaminho. Só depois que o papel apareceu na Europa Ocidental, trazido pela expansão árabe. O papel já existia na China desde o final século I.]
3.2 Manuscritos iluminados – arte monástica
O Cristianismo é, efetivamente, a religião dos livros. Com essa definição, os mosteiros foram responsáveis pelas ilustrações destinadas aos livros do Catolicismo - as iluminuras.
No interior dos scriptorium (local do mosteiro destinado a criação dos manuscritos.) existiam carteiras, tinteiros, tintas pretas e tintas vermelhas de diversas origens. A preta, por exemplo, era originária da excrescência dos ovos de insetos deixados nas folhas dos carvalhos e posteriormente maceradas. Também era utilizado pigmentos de ouro ou folhas de ouro, a chamada crisografia, e pigmentos de prata ou folhas de prata, a argentografia.
Os monges que trabalhavam nas iluminuras eram classificados como: monge copista (antiquari), monge ilustrador (miniator – que, progressivamente, passa a designar todo aquele que executava qualquer ornamentação.) e monge rubricador - que se dedicava a fazer as letras capitulares das Iluminuras (Rubrica vem do latim rubrica, que significa vermelho, porém nem todas as capitulares eram dessa cor.).
3.2.1 O Manuscrito de Kells
O Livro de Kells (800 D.C) é o mais importante e maravilhoso objeto (apesar de não concluído) da chamada Arte Insular a sobreviver desde os primeiros séculos da Cristandade Celta. Cada página é magnificamente ornada com elaborados padrões decorativos e animais míticos que refletem a influência da tradição do trabalho com metais que marcou o período.
Escrito em latim, o Livro de Kells contêm os quatro Evangelhos do Novo Testamento, além de notas preliminares e explicativas, e numerosas ilustrações e iluminuras coloridas.
Monograma da Encarnação Deus vivo e encarnado - Iniciais de Cristo em grego - Livro de Kells
Ele deve seu nome a Abadia de Kells, situada em Kells, no condado de Meath, Irlanda. Os monges eram originários do Mosteiro de Iona, localizado numa das Ilhas Hébridas, situado em frente à costa oeste da Escócia. Iona possuía uma das comunidades monásticas mais importantes da região desde São Columba, o grande evangelizador da Escócia. Devido a multiplicação das incursões vikings, Iona tornou-se perigosa e a maioria dos monges partiu para Kells, levando o manuscrito para lá.
Tamanha era a fantasia materializada nessas iluminuras pelos escribas e monges do Mosteiro de Kells que sua obra foi considerada por um cronista do século XIII “não o trabalho de homens, mas de anjos.”.
O livro encontra-se exposto permanentemente na Biblioteca do Trinity College de Dublin – Irlanda.
3.3. Mudança – Arte Carolíngia
Enquanto as ilustrações ocorriam nas ilhas, no continente europeu, o chefe dos francos, Carlos Magno, através de uma série de vitórias militares, consegue centralizar o poder na Europa. Depois, em 800 D.C., ele é coroado pelo Papa o Rei Cristão do Ocidente.
Nesse período, há um esforço para recuperação dos padrões clássicos da arte da Roma Antiga - o que foi chamada Arte Carolíngia. As iluminuras ganharam traços da cultura romana clássica. E os monges passaram a trabalhar nos palácios.
3.3.1 O Livro Vermelho de Montserrat
O Llibre Vermell de Montserrat (O Livro Vermelho de Montserrat) é um manuscrito iluminado contendo canções do final da Idade Média. Foi escrito em torno de 1399. Seu nome provém da encadernação vermelha que recebeu no século XIX. Originalmente possuía 172 fólios duplos, dos quais 32 se perderam.
Canção Stella Splendens Livro Vermelho de Montserrat
As 10 composições que restam são todas anônimas. O Mosteiro foi um famoso local de peregrinação católica naquele tempo, possuindo um santuário da Virgem de Montserrat. As músicas do manuscrito são, na maioria, louvações a Virgem. Os textos das músicas são em catalão e latim e o estilo musical sugere que datam de bem antes da ocasião em que foram compiladas.
Ele, hoje, está no Mosteiro de Montserrat, nos arredores de Barcelona, na Espanha.
Sua relativa simplicidade e belo desenho melódico fizeram com que as canções fossem gravadas por conjuntos contemporâneos dedicados à música medieval.
Músicas
1. Canção: O virgo splendens (fol. 21v-22) (Oh Virgem esplendorosa) 2. Virelai: Stella splendens (fol. 22r) (Estrela esplêndida) 3. Canção: Laudemus Virginem (fol. 23) (Louvemos a Virgem) 4. Virelai: Mariam, matrem virginem, attolite (fol. 25r) (Louvemos Maria, nossa Virgem Mãe) 5. Virelai: Polorum Regina (fol. 24v) (Rainha dos pólos) 6. Virelai: Cuncti simus concanentes (fol. 24) (Cantemos juntos) 7. Canção: Splendens ceptigera (fol. 23) (Rainha esplêndida) 8. Balada: Los set gotxs (fol. 23v) (Os sete gozos) 9. Moteto: Imperayritz de la ciutat joyosa/Verges ses par misericordiosa (fol. 25v) (Imperatriz da cidade feliz/ Virgem, se por misericórdia) 10. Virelai: Ad mortem festinamus (fol. 26v) (Nos apressamos para a morte)
3.4 Fim de um período
Todo esse mundo veio abaixo com o nascimento das primeiras universidades no século XIII, onde os estudantes necessitavam de livros que fossem produzidos mais rapidamente, mesmo que fossem menos bonitos. Com a prensa de Gutemberg, em 1455, o declínio das iluminuras se iniciou.
No século XVI, as luzes dos manuscritos iluminados apagaram-se de vez. Na Inglaterra, com Henrique VIII e a fundação da Igreja Anglicana, muitos deles foram queimados e monastérios dissolvidos.
Alguns conseguiram preservar os livros que foram proibidos e trouxeram, assim, a história dessa rica arte para os dias de hoje.
A Universidade de Cambridge possui uma das maiores coleções de manuscritos iluminados do mundo - uma gama de diferentes tipos de livros religiosos.
Graças a perseverança dos antigos monges e técnicas de conservação avançadas, podemos testemunhar também o que, antes, era reservado somente para os olhos de Deus.
Recomendações
Filme
O Nome da Rosa (1986) - uma das obras primas de Umberto Eco que virou filme pelas mãos do diretor Jean-Jacques Annaud (Guerra do Fogo/1981). Através de misteriosos assassinatos em uma abadia, o cotidiano dos monges e as iluminuras são mostrados em seu esplendor. Com Sean Connery, Cristian Slater e F. Abraham Murray.
Livro
Idade Média, Bárbaros, Cristãos e Muçulmanos - Umberto Eco - Umberto Eco, com a colaboração dos mais importantes medievalistas de diversas disciplinas, nos leva em uma viagem envolvente e surpreendente através da sociedade, arte, história, literatura, música, filosofia e ciência deste período intenso da história da civilização europeia.
Disponível para compra em: Livraria Cultura (clique aqui)
Música
Jordi Savall & Hespèrion XX - Llibre Vermell de Montserrat (2010)- através de Jordi Savall, compositor e regente catalão, especialista em música antiga, e seu grupo, Hespèrion XX (agora Hespèrion XXI), este álbum traz uma performance energética e sofisticada das canções do Livro Vermelho de Montserrat.
Disponível para compra em: Google Play (clique aqui)
Luar Na Lubre – Les Set Gotxs/Faixa do álbum Mar Maior (2014) - O grande grupo galego mostra uma versão ainda mais energética e animada da canção que faz parte do Livro Vermelho de Montserrat.
Idade Média, Bárbaros, Cristãos e Muçulmanos. Umberto Eco. Várias páginas consultadas. Editora D. Quixote Books. ISBN 9789722049924. Em Português. 1000 Lugares para Conhecer Antes de Morrer. Patricia Schultz. Página 42. Editora Sextante/Gmt. ISBN 8575422162. Em Português.