domingo, 29 de maio de 2016

Icarus

Ícaro e Dédalo de
Charles Paul Landon

Antigamente, muito antigamente, eu olhava o céu do meio-dia com suas nuvens em sombras douradas, mergulhadas em um branco de calmaria infinita... Passavam elas lentamente. E eu estava naquele piso, da casa do interior, com olhos brilhantes de esperança. Afinal, tudo iria mudar, pois ao crescer, todas as metas tornariam-se realidade. Esta é ainda uma lembrança vívida... Lembranças de momentos tolos sempre são os mais presentes.

O tempo foi passando e nada foi acontecendo. Não, ao menos, no meio material. Foram muitas mudanças para casas ruins, estudos enfadonhos, empregos degradantes. A família entrou em colapso e pessoas nefastas ao redor multiplicaram-se como os peixes de Jesus. Era uma pintura cinza e imunda aquele cenário. Um escárnio diário, uma agonia sem precedentes.

De vez em quando um brilho tênue, muito débil, pairava sobre minha vida. Daí eu dei-me conta que era só um reflexo da vida alheia. Afinal, nada daquilo pertencia a mim. Eram minhas projeções que criavam personagens - os mesmos dos livros que tanto amei (os responsáveis pela minha sobrevivência até o presente momento.).

A linha da minha vida é escarnecida e muito desfiada ao longo do percurso. Essa é uma definição mais do que clara até aqui. Eu errei muito. Minha pele parece que encolheu e agora espreme meus ossos.

Há um certo tempo eu tenho saudade daquele brilho tênue e muito débil. E isso é tristemente doloroso, pois sinaliza bem mais do que o fundo do poço da minha própria alma.

Apesar desse trajeto excruciante, eu ainda tenho muitos amores, os verdadeiros, os que não podem ser retirados de mim e que dependem somente da minha existência. Há uma incessante sede de voar, de ser livre, não ter mais corpo e espalhar-se mundo afora, ser o próprio aroma de todas as manhãs - bastar-se!

Mas nós, mulheres, temos uma tendência a ser um Ícaro.

Uma mulher tem o coração enorme. Suporta tantas injustiças e tantos desamores. É explorada, objetificada, traída inúmeras vezes... Os homens, em seu machismo e egoísmo, sempre tentam justificar seus erros aumentando os nossos. Raramente culpam a própria alma mimada.

O voo de Ícaro de Jacob Peter Gowy
Queremos ir mais alto e podemos. Mas cortaram nossas asas. E nossa inteligência criou um mecanismo de fuga, tecido com enorme zelo. E em nosso próprio desespero e encantamento, esquecemos de nos blindar e tomar cuidado. E o Sol, nosso inimigo, derreteu nossas asas. Frustradas, caímos para nossa própria morte.

Na contramão, eu não consigo entender essas mulheres de coração enorme - talvez porque o meu diminuiu. Por que perdoam? E amam infinitamente? E esta fé inabalada de que o amado vai mudar, ou de que tudo irá ser justo? Tão mais fortes e sensíveis, deveriam enxergar que elas são o suficiente para si mesmas (caso seus relacionamentos apenas subtraiam de seu amor próprio). Nesta vida, eu suponho, nunca obterei uma resposta e concluo que o mundo é um teatro de quinta categoria, vulgar, opaco, feito mesmo para o sadomasoquismo dos sócios majoritários.

Eu aprendi de muitas maneiras difíceis. E isso não significa que fiquei mais forte. Estou, a propósito, muito atônita com tudo isso que acontece.

Eu já dediquei muitos textos para aqueles que gostei. Mas em minha vida, no fundo, amei duas vezes. A primeira, há tanto tempo, na adolescência quase imemorial. A outra, bem... Foi o meu próprio céu, aquele que eu criei, e o inferno, o que realmente ele pode oferecer-me. E, agora, essas são partes inexoráveis de minha vida

Até agora falei apenas em decepções, desamores, falta de dinheiro, humilhações... Porém, analisando, todas essas têm participações que fogem do meu domínio. Existem outras pessoas ali, pouco preocupadas comigo. Eu sou a única que pode importar-se com o mais precioso: eu mesma.

O lamento por Ícaro de Herbert James
Draper
Então, o que realmente vale a pena a ponto de empregar-se a vida inteira? O que não podem me tirar? O que posso proporcionar-me? São para essas perguntas que eu preciso buscar respostas urgentes.

E essas respostas, mesmo incompletas, trazem a calmaria do barulho do mar. E isso agrada-me tanto que poderia morrer escutando as ondas que batem nas pedras. A última imagem captada por meus olhos, ainda com um sopro de vida, poderia ser das nuvens cinzas, enormes e macias que formam-se no horizonte, cheias de uma chuva gelada que toca a pele como um choque celestial. Seria um lugar frio, mas ao mesmo tempo acolhedor. Nada de Sol, com seu brilho cego e falso e um calor escaldante. Nada de um céu azul esfuziante como propaganda de margarina.

Não almejo uma vida cheia de dinheiro e montanhas de bens materiais. Com o tempo, aprendi que posso lutar para tê-los, se eu gastar muito da minha vida nessa empreitada, mas correrei o enorme risco de não ter muito do que realmente preciso.

Destruição de imagens em Zurique/1524
Retirado de Panorama de la Renaissance de
Margaret Aston



A vida é sim uma iconoclastia. E os fragmentos resultantes não poderão ser restaurados nem com a maior fé universal. Talvez, lavoisiando, esses cacos sejam transformados em lições e frutifiquem, espalhando sementes de aprendizado.

Hoje tenho a sensação do fracasso e da impotência, da servidão e do não reconhecimento. Tudo realmente está errado e fora de lugar. E eu poderia muito bem apagar tudo e todos da minha mente, sem nenhum arrependimento. Todavia não posso e não é possível.

Este peso que carrego em meu coração é um aviso cotidiano para fortificar as minhas asas: o presente está corroído e o futuro poderá ser um painel dos ossos que quebrei na minha jornada.


sábado, 28 de maio de 2016

Outcast e Preacher - novas séries que o CQ&Sherlock está acompanhando

Desde o fim de Fringe (2008-2013) e The Mentalist (2008-2015), digamos, não estava mais tão extraordinariamente empolgada com série alguma (Arquivo-X não conta, apesar da volta deste ano, pois foi um revival.).

Com a chegada da Netflix e da minha Smart TV, pude conferir muitas novidades neste campo - boas e ruins. E, também, criei raízes no meu sofá. A evolução das séries, ao longo do tempo, com ajuda dos serviços de streaming e downloads da internet, transformou esse passatempo em uma verdadeira cultura de massa - o símbolo de uma geração.

E os quadrinhos também entraram nessa.

E é aqui que temos o divisor de águas para a T.S. Frank.

Não gosto de quadrinhos de super-herois (e essa afirmação engloba mangás de todos os tipos e de todas as temáticas, assim como animes). Eles são bem feitos, são! E as qualidades são muitas. Aqui reina uma questão de gosto mesmo. É igual ao Senhor dos Anéis - não aprecio de jeito nenhum! E a saga é histórica, construída ricamente e é soberba. Mas prefiro, anos luz, a Saga Nárnia.

Eu amo quadrinhos para adultos, cheios de violência, sangue, sobrenatural, magia e o cotidiano urbano - verdadeiras dissertações sobre a vida real e seus fantasmas psicológicos. É nesse ponto que a arte dos balõezinhos fazem sentido para mim.

E, nesse fluxo, o CQ&Sherlock passa a acompanhar um série promissora, aliás, duas:




Santa tecnologia: agora posso ler Outcast no
meu tablete: #01 - Uma Escuridão o Cerca
1-OUTCAST - De longe, a minha preferida. Ela é baseada no quadrinho (que começou a partir de 2013 e continua a ser lançado) criado por Robert Kirkman (The Walking Dead) e Paul Azaceta. O enredo traz Kyle Barnes - um rapaz que, desde a infância, é atormentado por possessões demoníacas. Mas essas atingem somente as pessoas próximas a ele, trazendo dor e sofrimento para sua vida. Só que, agora, Kyle está determinado a descobrir a verdade sobre essa espécie de maldição que o assola, mesmo que isso signifique um possível extermínio da vida na Terra.

O primeiro episódio foi liberado no Youtube para que todos pudessem conferir. A responsável pelo piloto foi a Cinemax. Mas é a Fox que transmitirá a série. Ela irá ao ar todas as sextas.

O ator que faz o papel de Kyle é Patrick Fugit (o garoto de Quase Famosos/2000) - excelente no papel. É o tipo de protagonista que você se apega desde o começo.

A HQ já possui 18 edições lançadas e  eu já li 17 delas. Virou vício, a propósito.

Como a premiere oficial da série será ainda em 03 de julho, o Rotten Tomatoes ainda não colocou a pontuação. Mas no IMDb já mostra uma excelente nota - 8,2 (atualização do Rotten Tomatoes será colocada aqui assim que sair.).


2 - PREACHER - ela ainda é um mistério para mim. Confesso que, ao longo de quase uma hora e cinco minutos, eu fiquei na dúvida se ela estava me cansado ou me divertindo. Então, depois de ver o piloto, fui consultar algumas pessoas que já leram os quadrinhos e, por ventura, viram o primeiro episódio. Segundo a minha irmã, a primeira delas, foi amor de primeira! E ela está lendo os quadrinhos fervorosamente (eu ainda começarei). As palavras dela foram - a série deixa você curioso. O segundo, um colega do curso de Física, me disse que não viu o piloto, mas o quadrinho é insano e um dos melhores que ele já leu na vida.

Então, vamos lá: a série é baseada na série de 66 quadrinhos (mais 6 edições especiais), da década de 90, pelo selo Vertigo da DC Comics. Foi criada por Garth Ennis e Steve Dillon. Preacher conta a história de Jesse Custer, um ex-pastor que foi possuído por uma entidade sobrenatural e que confere a ele o poder de fazer com que qualquer pessoa o obedeça. Essa entidade é Gênesis - fugitiva do Paraíso. E os anjos a procuram para prendê-la novamente. Quando eles descobrem que ela e Jesse Custer se tornaram uma só indivíduo, o objetivo passa a ser exterminá-lo. Para isso ressuscitam um matador do século XIX, o Santo dos Assassinos e o enviam para persegui-lo.

O piloto dividiu opiniões. Os mais xiitas dos quadrinhos não gostaram muito. Talvez pelo toque de humor do ator Seth Rogen (responsável pela direção, juntamente com Evan Goldberg) e algumas caracterizações de personagens

Jesse é interpretado por Dominic Cooper (A Duquesa/2008), que está bem legal no papel.

É a AMC responsável pela transmissão da série. E ela vai ao ar todos os domingos.

Eu estou aguardando mais... Por enquanto, é isso que tenho para dizer sobre Preacher. Mas no IMDb a nota está ótima - 8,8. O Rotten Tomatoes também deu uma excelente nota - 92% de aprovação.



Fontes:

sábado, 21 de maio de 2016

Love Me Tender - Flauta Nativa Americana - NAF

Para os amantes de Elvis... Assim como eu...


Love Me Tender
Flauta (em bambu) Nativa Americana, chave em F, pentatônica
Tocada por T.S. Frank

Love Me Tender
Native American Bamboo Flute, Key F, pentatonic,
Performed by T.S. Frank



terça-feira, 17 de maio de 2016

Dia das Letras Galegas


A Galiza é um lugar fascinante, principalmente no que diz respeito a literatura e música. Sua riqueza cultural viaja o mundo, mantendo-se viva pelos galegos que preservam e defendem sua identidade fervorosamente.

Um pais místico e local de peregrinação - através do Caminho de Santiago de Compostela. Sua língua, o galego, quase uma irmã do nosso amado Português, dá voz aos mais belos poemas, como os de Federico Garcia Lorca.

Lorca, mesmo não sendo galego (espanhol de Fuente Vaqueros), rendeu-se a beleza da língua, escrevendo, em 1936, Seis Poemas Galegos.

Desde de 1963, os galegos festejam a sua literatura e sua língua, através do Dia das Letras Galegas, comemorado no dia 17 de maio. A programação abrange escolas, televisão e teatros. Há shows e atividades para que todos os galegos, e o restante do mundo, possam conhecer e maravilhar-se com as obras e histórias do poeta/escritor escolhido para representar o dia. Este ano é do poeta Manuel María.

O dia da comemoração é uma homenagem a data da primeira edição de Cantares Galegos, de Rosalía de Castro, considerada a fundadora da literatura galega moderna.

O Dia das Letras Galegas é uma exaltação ao que é ser galego - um povo que orgulha-se do seu patrimônio cultural e faz questão de mostrá-lo as outras nações.

Eis todos os homenageados: 

1963 Rosalía de Castro
1964 Alfonso Daniel Rodríguez Castelao
1965 Eduardo Pondal
1966 Francisco Añón Paz
1967 Manuel Curros Enríquez
1968 Florentino López Cuevillas
1969 Antonio Noriega Varela
1970 Marcial Valladares Núñez
1971 Gonzalo López Abente
1972 Valentín Lamas Carvajal
1973 Manoel Lago González
1974 Xoán Vicente Viqueira Cortón
1975 Xoán Manuel Pintos Villar
1976 Ramón Cabanillas Enríquez
1977 Antón Vilar Ponte
1978 Antonio López Ferreiro
1979 Manuel Antonio
1980 Afonso X de Leão e Castela, O Sábio
1981 Vicente Risco
1982 Luís Amado Carballo
1983 Manuel Leiras Pulpeiro
1984 Armando Cotarelo Valledor
1985 Antón Losada Diéguez
1986 Aquilino Iglesia Alvariño
1987 Francisca Herrera Garrido
1988 Ramón Otero Pedrayo
1989 Celso Emilio Ferreiro
1990 Luís Pimentel
1991 Álvaro Cunqueiro
1992 Fermín Bouza-Brey
1993 Eduardo Blanco Amor
1994 Luís Seoane
1995 Rafael Dieste
1996 Xesús Ferro Couselo
1997 Ánxel Fole
1998 Martim Codax, Joham de Cangas e Meendinho (em conjunto, autores de diversas cantigas medievais)
1999 Roberto Blanco Torres
2000 Manuel Murguía
2001 Eladio Rodríguez
2002 Frei Martín Sarmiento
2003 Antón Avilés de Taramancos
2004 Xaquín Lorenzo Fernández
2005 Lorenzo Varela
2006 Manuel Lugrís Freire
2007 María Mariño Carou
2008 Xosé María Álvarez Blázquez
2009 Ramón Piñeiro López
2010 Uxío Novoneyra
2011 Sois Pereiro
2012 Valentín Paz-Andrade
2013 Roberto Vidal Bolaño
2014 Xosé María Díaz Castro
2015 Xosé Filgueira Valverde
2016 Manuel María





Fontes

Dia das Letras Galegas - Wikipédia em Português
Dia das Letras Galegas - Wikipédia em Galego
Portal da Língua Galega
Letras Galegas - Homenageados - Em galego
Poema de Manuel María interpretado pelo grupo galego Fuxan os Ventos e o Quarteto Saiva Nova- Corporação de Rádio e Televisão de Galiza - CRTVG
Casa e Museu Manuel María
51 Páxinas de Nossas Letras - Parlamento da Galiza - PDF em galego
Letras Galegas 2016 - Corporação de Rádio e Televisão de Galiza - CRTVG
Rosália de Castro - Wikipédia em Português

Para acompanhar os eventos das Letras Galegas 2016 ao vivo

domingo, 15 de maio de 2016

Historinhas de gregos


Céu do sudeste - representação artística das Constelações
Das 88 Constelações reconhecidas pela União Astronômica
 Internacional - IAU, mais da metade foi descrita, primeiramente,
pelo antigos gregos, como Ptolomeu e Hiparco
Software Stellarium

"Lá fora, o céu conta-nos diversas fábulas. Eis que Marte, em sua fúria vermelha, passeia com divindade pelas garras do Escorpião. Seu brilho cega e hipnotiza-me! Antares, o antagonista e rival, observa-o, com quietude, pois não há nada que possa fazer para tirar-lhe o fulgor. Nesta jornada, o véu da madrugada, tecido em finíssimos grãos de sono, traz a trilha de Saturno. E, a Oeste, já adormece Júpiter. E quando a Aurora chegar, em luz e resplendor, Vênus brindará os amantes que completaram mais um ciclo juntos." 

Vez ou outra, pedaços de memórias e sensações voltam. E hoje, ao olhar toda a beleza do céu, lembrei-me da época do meu próprio e incauto desejo maior.

Ah, a vida era boa e as expectativas giravam como moinhos em plena atividade. E disso tudo sobraram-me apenas fragmentos.

A vida traça caminhos tortuosos. E esses podem ser espinhosos a ponto de destruir nossos pés. E arrastar-se não é tão louvável como nas belas e trágicas histórias.

O curso de Física levou boa parte das minhas esperanças e alegria. Culpa minha, sim. Nunca o desejei, mas remendos são feitos quando os ávidos precisam alcançar o sentido da vida. Errei e padeço... E, conclusivamente, nunca mais serei a mesma.

Nesta jornada de auto mutilação, muitas histórias bizarras são vividas e a beleza deste firmamento trouxe, neste momento, uma delas...

Assim que ingressei no curso, entrei em um programa de bolsa estudantil para pesquisa. Para minha alegria momentânea, ilusoriamente, tratava-se de Astronomia. E foi um martírio do começo ao fim.

Céu do Sudeste - Marte em Escorpião, seguido por Saturno
15 de maio de 2016
Software Stellarium
Neste período de limbo, certa vez, um rapaz, participante da mesma bolsa, estava a fazer seu trabalho escrito quando disse-me, no mais alto e bom tom de desdenho, que Astronomia não passava de "historinhas de gregos". A petulância deste ser com sua falta de discernimento sobre a importância histórica dos Gregos na Ciência foi tão impactante que fiquei meses remoendo esta grosseira fala nos meus pensamentos. Passados mais de de três anos deste nefasto fato, o sentimento de incredulidade ainda não se dissolveu.

Afinal, eu estava no curso de Física e disparates desse tipo não podiam ser reais. Mas eram e massivamente. E foi o começo da minha ruína.

Tipos como este colega citado e seus pensamentos estapafúrdios estão agora na pós-graduação e serão os futuros professores e pesquisadores desta casa em que estou hoje. Exaltam seus mestrados e doutorados, desfilando como pavões pelos corredores, impressionando uma parcela tão vazia quanto eles mesmos.

Sinto-me a peça de outro jogo. E nada faz sentido.

Todos os dias ouço histórias relacionadas a esse curso - gente a gabar-se, a falar mal das deficiências de aprendizado dos colegas, mentindo sobre notas e aumentando seus feitos, professores estúpidos e grosseiros, alunos que apoiam esses professores, religiosos fanáticos, notas sobre tentativas de suicídios, depressão, choros... E eu, do outro lado, pensando em milhares de outras possibilidades... Em como escrever, por exemplo, sobre Federico Garcia Lorca. Falta-me empatia.

Nesta balbúrdia, o que preocupa-me é a minha pobreza e a possibilidade de ser jogada na sarjeta. Ou seja, meu futuro profissional e como sustentar-me com dignidade.

Em meu egoísmo imenso, raiz intrínseca do meu ser, a liberdade vem em primeiro lugar. E todos estão tão presos a sua própria ignorância que julgo-os como a pior das inquisidoras. Eis meu pecado e confesso-o.

Estou deslocada neste cenário. Não ensaiei esta peça e nem pretendo decorar as falas. Rendo-me a mim mesma - prefiro ler vários livros e aprender mais sobre as historinhas de gregos.


Fontes:

Conhecendo as Constelações - UFMG - Observatório Astronômico Frei Rosário - por Ariana França Clávia

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Ecos (Echoes)

A capa de Meddle é uma orelha submersa. Ideia do
Pink Floyd que teve que ser aceita pelo lendário
 designer gráfico Storm Thorgerson.
Lá em cima, os albatrozes se mantêm imóveis no ar
E nas profundezas das ondas, nos labirintos das cavernas de corais,
O eco de uma maré distante vem magicamente pela areia
E tudo é verde e submarino

[...]

Estranhos passando na rua
Acidentalmente dois olhares se encontram
E eu sou você e o que eu vejo sou eu
E eu pego você pela mão
E o conduzo através da terra


[...]

Entretanto, todos os dias, você surge em meus olhos atentos
Convidando e me incitando a subir
E através da janela na parede entram escorrendo nas asas da luz do sol
Um milhão de brilhantes embaixadores da manhã
E ninguém canta canções de ninar para mim
E ninguém me faz fechar meus olhos
Então escancaro a janela
E chamo você através do céu



 (Ecoes. Escrita por Pink Floyd, em 1970, para o álbum Meddle de 1971)


***

Ecoam pensamentos vívidos sobre mim. 

E todos os dias encaro minha face, minha projeção, no espelho de minhas atitudes. 

Em tempos abafadiços, as chuvas são apenas resquícios frequentes de tentativas pífias de amenizar muitas situações. É tempo, então, de transforma-se em um eco sibilante. 

Complacência é a morte de Prometeu. E o verbo se fez - sofrer... Em vão.

A luz da manhã cega-me, vagarosamente. São estilhaços de vidros dourados, gotículas de fogo, braseiro, luzeiro, pontas - carne fumegante. 

Ah, como pelejam esses seres ávidos por emoções transcendentais! Somos todos cristais rachados esperando pelo estalar final. 

Todos desapareceram. E deles fragmentos de lembranças formam uma colcha inteira de retalhos em cores arlequim. 

Rostos foram esquecidos e sorrisos apagaram-se!

E eu sou você agora! Inimaginável sensação de pareamento. 

Formamos o oposto, o contrário, os anti, bélicos e párias. 

Somos traídos, aqui e acolá. E não nos acostumados - alma inquieta que forma-nos. Estamos sempre em guerra, declarando-a a todos os nossos desgostos. 

E a solidão teceu-nos.

Vagabundos... Errantes... Humilhados. Eis nosso cotidiano, você e eu!

E mais uma batalha foi escrita. E esse relato ecoará dentro de cavernas escuras da nossa própria perdição.




segunda-feira, 9 de maio de 2016

Livro da semana - A Volta: A Incrível e Real História da Reencarnação de James Huston Jr.

O livro que tenho é da: Best Seller
Ano: 2009
ISBN: 8576843692
Número de páginas: 320
Autores: Bruce Leininger, Andrea Leininger e Ken Gross (trad. Claudia Gerpe Duarte)
Preço-faixa: 35,90 (+frete)


A Volta: A Incrível e Real História da Reencarnação de James Huston Jr. é um livro que nos traz uma história extraordinária com uma riqueza de detalhes incrível. Nele a busca por uma explicação não prende-se a dogmas religiosos para dizer o que é certo ou errado, pelo contrário. Eis o seu grande mérito!

De todas as questões que permeiam a religiosidade e a alma humana, a reencarnação é uma das mais instigantes. Muitos estudos sérios abordam o assunto. O maiores exemplos vêm do Dr. Ian Stevenson (já falecido) e o Dr. Jim B. Tucker. O trabalho de ambos pode ser encontrado na Psychiatry and Neurobehavioral Sciences - The Division of Perceptual Studies - University of Virginia - School of Medicine e em vários livros e documentários sobre o tema com inúmeros relatos catalogados e minuciosamente descritos. Só que o livro de Bruce Leininger, Andrea Leininger e Ken Gross não é estudo e muito menos um livro científico, nem mesmo defende ou acusa qualquer fé que seja. É, acima de tudo, uma narrativa de pais que apenas queriam encontrar uma solução para o problema comportamental do filho e acabaram por descobrir duas histórias de vidas entrelaçadas e, ao mesmo tempo, separadas por mais de 50 anos.

James Huston Jr. e James Leininger, ou James 2
e James 3
James Leininger era apenas um garotinho de 2 anos de idade quando pesadelos sobre uma avião em chamas que caiu no mar começaram. Ao mesmo tempo, um fascínio (que beirava a fixação) por aviões crescia por parte dele. Os detalhes de seus sonhos e os relatos de lembranças sobre pessoas e lugares permitiram que seus pais, Bruce e Andrea Leininger, começassem uma busca incansável pela verdade por trás das palavras do menino. O resultado é a descoberta da história de James Huston Jr., piloto norte-americano que morreu na Segunda Guerra Mundial.

O mundo tomou conhecimento dessa história, primeiramente, pelo canal ABC que fez uma matéria sobre o assunto, em 15 de abril de 2004. Mais tarde o livro foi lançado.

O livro tem uma linguagem fácil e cotidiana e nos traz a reencarnação sem nenhuma ótica religiosa. A parte do registro fotográfico merece destaque - há fotos de Huston, das pessoas relacionadas a ele, amigos, família e dos aviões que pilotou. Há também desenhos de James Leininger com nítidas alusões ao acidente que matou Huston. Registros dos encontros de James com seus amigos e familiares da vida passada também fazem parte do acervo.

Um dos primeiro desenhos feitos assinado como
James 3, quando James tinha 3 anos. Figura do
Livro A Volta, p. 149.
O livro peca somente pelo excesso de relatos da vida pessoal e profissional dos pais. O começo torna-se um tanto irritante por focar exatamente nestes pontos. Porém, quando o assunto volta-se para a busca por respostas e as investigações sobre os pesadelos de James, sem rodeios ou desvios, o livro torna-se instigante a ponto de existir uma vontade de terminá-lo a qualquer custo.

A volta é, sem dúvidas, um livro que, independente do crer ou não crer em reencarnação, conta-nos uma história impressionante que mantém o leitor ávido por saber cada detalhe - o passado e o presente. Recomendadíssimo!




Primetime - ABC - sobre a reencarnação de James Huston Jr - 15 de abril de 2004 - Em inglês sem legendas.




Fox & Friends - Fox - James Leininger e suas família em 2013 - Em inglês sem legendas.




Documentário da Discovery Science - Ciência da Alma - Sobre reencarnação - Dublado 


segunda-feira, 2 de maio de 2016

The Huron Carol - Native American Flute - NAF

Grupo Hurão - Spencerwood/Quebec City
1880

The Huron Carol (também conhecida por Jesous Ahatonhia, Jesus is Born e Noël Huron) é, por muitos, considerada a primeira canção de Natal canadense. Provavelmente foi escrita pelo missionário jesuíta Jean de Brébeuf (1593-1649), que ensinou a música para o povo Hurão, perto de Georgian Bay, em 1642.

O povo Hurão (Huron People), conhecido por Povo de Wendat ou Wyandot, é uma população indígena da América do Norte. Eles, tradicionalmente, falavam a língua Wyandot, uma língua iroquesa. No século 15, os Hurões instalaram-se na região da costa norte do atual Lago Ontário. Depois migraram para Georgian Bay. Mais tarde, em 1615, nesse mesmo local, encontraram-se, pela primeira vez, com o explorador francês Samuel de Champlain.

Mocassins do Povo Hurão/1880 
Bata Shoe Museum
Hoje, o povo Wyandot tem uma Reserva das Primeiras Nações, em Quebec, Canadá, além de três principais assentamentos nos Estados Unidos; dois deles são governados de forma independente.

***

Aqui está uma gravação minha da canção natalina canadense The Huron Carol:

The Huron Carol
Flauta (em bambu) Nativa Americana, chave em F, pentatônica
Tocada por T.S. Frank

The Huron Carol
Native American Bamboo Flute, Key F, pentatonic,
Performed by T.S. Frank


The Huron Carol cantada em wyandot, francês e inglês por Heather Dale



The Huron Carol cantada em inglês e latim por Canadian Tenors




Fontes:

The Huron Carol - Flutopedia - Site em inglês
Povo Hurão - Wikipédia em Inglês

domingo, 24 de abril de 2016

Esse estrambótico e complicado negócio que é a vida (e a política)

Há, nesse estrambótico e complicado negócio que é a vida, certos períodos estranhos em que o homem considera o universo inteiro como uma simples e enorme farsa, ainda que mal vislumbre em que pode consistir a brincadeira e tenha bastante desconfiança de que esta se realiza à sua custa. Entretanto, nada o desalenta e nada parece valer a pena enquanto está lutando. Engole todos os acontecimentos, ideias, credos e opiniões e todas as coisas duras, visíveis ou invisíveis, por mais encaroçadas que sejam; como uma avestruz de poderosa digestão engole balas e pedaços de pedras.

(Moby Dick, Volume I, página 343, capítulo 49 - A Hiena - Clássico Abril Coleções, São Paulo, abril de 2010, tradução de Berenice Xavier)

Tempos sombrios caíram sobre mim, sobre nós. E não estou falando somente da minha própria vida que poderia ser um roteiro para uma série de TV, uma sucessão de dramas e bizarrices digna de um modelo lynchiano.

Sim - Pelo Golpe de 64!

Sim - Pelo meu pai, minha mãe, meu filho, minha mulher, minha amante loira do celular iphone 6...

E o mundo, o nosso mundo, a nossa jovem ex-Democracia, nascida no ano do meu próprio vislumbre de luz, suspira agonizante, diante de uma política acéfala, aculturada, vulgar, despreparada, oligárquica, patriarcal, machista, defensora de torturas e ditaduras, extremista religiosa - o Estado Laico que dane-se! "Eu quero mesmo é faturar um milhão" - Lava Jato - meus jatinhos particulares!

Ismael, em Moby Dick, não poderia ter descrito seu próprio cenário de desilusão de forma mais atemporal.

Tudo isso é culpa nossa - nostra maxima culpa - criamos monstros. E agora eles irão nos devorar!

Nascemos em meio a lama, tendemos a passividade e ao esquecimento - corrupção, aos montes, nas Universidades (apropriação de bens públicos), nos trabalhos que almejamos, nas empresas que mascaram Planos de Contas, subornos astronômicos e até na nossa própria casa.

Somos todos uns bananas, isso sim! - E formamos uma República cheia delas - nanica, PRATA ou PLOMO, ao gosto do freguês.

Fui uma avestruz. Tive que engoli, em um processo igual ao maldito, cruel e elitista foie gras, desculpas esfarrapadas de UMA LIMPEZA que não passa de uma farsa, uma do tamanho do universo paralelo. E, depois que meus olhos sagraram diante de um DESCALABRO HOMÉRICO, eu vomitei - minha (in) digestão matou-me - a avestruz tornou-se um ganso bem morto.

Nossa política é egoísta. Ela não representa você, nem eu, nem o totó da casa deles. Preocupam-se com seus prazeres satisfeitos e suas ostentações - se ele tem é porque Deus deu (ou o Diabo) e o dízimo gordo dos fiéis, os nosso impostos, a propina. E agora elas todas (as notinhas) reinam na Suíça.

Somos uma piada mundial. Ou seja, todo dia é um 7x1 diferente!

Respiramos ainda o ar de uma sociedade saudosista da escravidão. Há tempos esse ar envenenado atinge os sindicatos, as empregadas domésticas, os porteiros, os estudantes, a galera das Humanas, a UNE, as famílias do Bolsa Família e da Minha Casa, Minha Vida, em mim e em você. Ela (a sociedade) nunca contentou-se em não ter mais seres humanos como propriedade. Vivemos uma era de jovens que cultuam o ódio, porque eles mesmos são vazios, mimados, criados em uma bolha de laboratório - cheios de quereres que ultrapassam o respeito e a liberdade individual. 

Respiramos mais ainda o ar de uma sociedade saudosista de um tempo escuro que também manchou nossa História - 64. Quem em sã consciência defenderia tal atrocidade? E a resposta assusta. Pois falhou-se em tratar criminosos como eles realmente são. Quando um protótipo errado de ser humano defende torturadores e assassinos, a culpa é dele mesmo por ser tão energúmeno. Porém, quando alguns milhares também o seguem... Hum... Isso causa uma certa beliscada incomodante - como não pensar em Hitler, Pinochet, AI-5, Carlos 'Infernal' Ustra...

Quando a História faz seu papel e o jornalismo é sério - bandidos não viram heróis!

A vida tornou-se estrambótica, negra e cheia de incertezas. Nossa Moby Dick nos roubou mais uma perna, ajudada pela nossa própria tripulação. Ahab não contaria com isso nem mesmo em seu pior pesadelo.

E o pesadelo dele agora é o nosso.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Eu o encontrarei

Se os ventos do Norte soprarem
Em terras distantes, muito além
E todos os caminhos negarem-se
De alguma maneira, atravessarei...
... Essas areias distantes do tempo...

... Que contam cada vida
Cada uma com um alento
De todos aqueles que amei.

São as passagens de outrora
Enterradas sobre metáforas
E lembranças esquecidas
De caminhadas vívidas.

Outra parte de mim
Em algum lugar está
Perto, longe, aqui
Ou acima do luar..

Universum: representação do Universo elaborada
e usada pelo astrônomo Camille Flammarion na obra
"L'atmosphère: météorologie populaire", Paris/1888.
Separados
Mortos
Vivos
Anos
Ou momentos

Algum dia
Eu o encontrarei
E saberei sobre tudo
Aquilo que almejei.

T. S. Frank








quarta-feira, 13 de abril de 2016

É solitário andar por entre a gente

Chega-se a uma certa idade e constata-se que todos os ideais morreram, pelo menos aqueles tenros juvenis que alçavam voos altíssimos como os de Pegasus.

Não amar mais é o limbo, o próprio, este descrito com palavras fortes em muitos livros que citam seres moribundos. 

Não confio e não interesso-me. 

E os dias passam em telas embaçadas, um filme em filtro azul, frio e angustiante. 

Decepção e todas as mazelas de uma alma inquieta em busca da vividez humana não me surpreendem mais - puro cotidiano! Depois de alguns anos, descobre-se as mentiras, as bocas retorcidas, o orgulho e a soberba. Todos os sinais estavam piscando em amarelo, violeta e laranja. Porém a cegueira dos sentimentos tratou esta paisagem infernal com um photoshop descarado. 

Não quero mais estar onde estou - este solo infértil, vil e ordinário. 

Este sabor amargo, ácido, corroendo a minha garganta, sufoca-me e lacera o meu interior. 

A solidão é um estado de espírito (ouvi em algum lugar...). E não há nada e ninguém que possa preencher este vazio abissal. 

Todos os dias escuto histórias. E concluí que as pessoas procuram-me para desabafar, falar sobre seus anseios e desejos, muitas vezes indignações e constatações sobre a realidade cruel. Ouço-as atentamente - como seus lábios mexem-se nervosamente, construindo cada frase, derramando cada gota salina de lágrima. Se sou o consolo de cada uma, isso enaltece-me e, como uma maquiagem, preenche, por algumas horas, a lacuna que eternamente existirá. Há uma parte egoísta, obviamente, nesse ínterim - tenho alguém que deseja compartilhar algo - e todos esses contos são uma distração para minha mente cansada. 

Mórbida é esta vida sem prazeres, sem ação, sem mistérios a serem resolvidos, sem risos desprendidos, sem cumplicidade, sem café da tarde que cheira a menta. 

Metade de mim morreu. Há quanto tempo? Não sei.

É solitário andar por entre a gente - percebemos todas as migalhas de atenção que recebemos, as caminhadas tristes e o escutar para não ser ouvido. 

Sinto-me amarrada, presa pela ponta dos pés. Minha voz continuamente é abafada. Há muita raiva gratuita, sentimentos controversos, desejos inertes e sem esperança. 

Daqui há algum tempo, depois das vozes que se silenciam para cantarem em outras árvores, todas as andorinhas pousam suavemente para visitar o gato ranzinza. E, depois que o véu da noite surge, desaparecem, voltando para suas vidas prioritárias. 

Hoje é um dia triste. E, por si só, aqui tem-se toda a explicação. 

E lamentos podem ser ouvidos em forma de miados abafados.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Quem tem medo da música clássica?

Há muito tempo, em um lugar distante, vivia uma garota que assistia a um programa chamado Quem Tem Medo da Música Clássica...

Quando eu tinha uns 11 anos (há muito tempo, diga-se de passagem), a alegria bateu à porta: uma antena parabólica. O primeiro programa que vi foi na TV Escola, uma linda animação baseada em Romeo &Julieta (1591/1595).

E como nós não tínhamos condições de sonhar com uma TV por assinatura, ter 24 canais, mesmo a maioria tendo mais bois e grills George Foremam do que qualquer outra coisa, era simplesmente espetacular. E no meio dessa salada, com tomates e pepinos, havia o famigerado canal da TV Senado.

Pois bem, surpreendentemente, existia um programa magnífico, sim! E ele chamava-se Quem Tem Medo da Música Clássica, apresentado, pelo já falecido, político (e também escritor, jornalista, advogado...) Artur da Távola.

(Antigamente, bem antigamente, os políticos eram cultos, com formação em Letras, Direito, versados em uma educação erudita. A maioria, corrupta, claro, porém, cultos. Hoje é esse circus, ainda mais corrupto e vulgar...).

O título merece destaque, pois daria uma bela dissertação sobre as dificuldades de entrar no mundo da música erudita. Não pelo ouvidos, que é a parte romântica e bela. Porém pelas pessoas ao redor - as ignorantes (essa música não tem letra!),  as arrogantes (sei tocar piano, dulcimer e equilibrar pratos!), e as piores: as riquinhas e arrogantes (vi um concerto na Bulgária e a Soprano desafinou na Ária); vale também destacar aquelas que só escutaram uma vez na vida um álbum com Tchaikovsky, e, se duvidar, dizem que sabem o Latim todo de Carmina Burana.

Eu tinha medo da música clássica. Era uma paixão secreta, daquelas que movimentam devaneios. E meu instrumento favorito é a Flauta Doce. E, só hoje, bem crescidinha, consegui estudar um pouco, em casa mesmo (e continuo estudando).

Todos temos receios. E um deles é pensar que o erudito é apenas para  as pessoas mais abastardas, aquelas que podem comprar ingresso caros, viajar para ver os grandes balés com grandes regências.

Só que a vida nos deu o bastante para degustarmos o melhor desse gênero: nossa percepção auditiva.

Com um pouquinho de interesse e esquecendo a questão de classes sociais, o deleite causado pela música clássica transcende barreiras: primaveras e outonos cheios de encantamento, onde a única plateia que importa é você mesmo (a).

Atualização (2024): Antigamente a TV Senado tinha um canal para o Arthur da Távola (print). O link não existe mais. Há alguns dos programas no YouTube. Deixarei abaixo.






terça-feira, 15 de março de 2016

Ecos da Natureza (Echoes from Nature) - Flauta Nativa Americana - NAF

Como já havia dito antes em uma postagem anterior, há algum tempo tenho um novo hobby: Native American Flute (Flauta Nativa America). Ainda estou praticando, descobrindo novos sons e novas maneiras de tocar. Eis aqui um pouco de improvisação...

Ecos da Natureza
Flauta (em bambu) Nativa Americana, chave em F, pentatônica
Tocada por T.S. Frank
Música incidental: Relaxation & Meditation with Music & Nature: Amazon Rainforest - Sounds of the Earth.

Echoes from Nature
Native American Bamboo Flute, Key F, pentatonic, 
Performed by T.S. Frank
Incidental music from Relaxation & Meditation with Music & Nature: 
Amazon Rainforest - Sounds of the Earth.


segunda-feira, 14 de março de 2016

Coração secreto...

Bate dentro de mim, todas as madrugadas, um coração a mais. Aquele escondido, liberto, por vezes libertino, dono de incansáveis histórias que caminham em ruas esquecidas no passado e saudoso de um esfuziante futuro do pretérito.

Ele é incansável, destemido, intrépido e aventureiro. Não tem medo, não perdoa e avassala como ventos raivosos que rasgam o véu da noite.

Tem sede infinita de amar e ser amado, corresponder entre linhas e receber cartas adocicadas que poderiam formar livros cheios de cores e paixões.

Feito tão puramente, no abrandar do sono mais profundo e dos sonhos mais íntimos, despiu-se desavergonhado, inocente, tão agora, tão intensamente...

Só que este foge de mim todos os dias, como gotas límpidas que escorrem pelas mãos, sobrando apenas vestígios de sentimentos que poderiam conquistar minha própria confiança.

Ao redor, somente a escuridão disfarçada em sorrisos e gentilezas. Estou farta e cansada disto tudo, um belo teatro! Quero milhas além destes rostos tão duros, tão cheios de si, mergulhados em suas próprias divindades, gananciosos, ríspidos, opressores, indelicados... Ah, mundo cruel e indesejoso, você poderia estar escondido nas profundezas abissais!

Minha vida não passa de tentativas frustradas, barulhos ensurdecedores de vozes irritantes com suas conversas vazias e cheias.. Cheias de números e formas que não dizem absolutamente nada.

E todos os dias entrego-me aos meus próprios pesadelos. Por sorte, algumas vezes, manifesta-se esse rico e inoxidável motor de vida para acalentar minhas próprias lágrimas.

"Ele passou como um raio fulgurante... Desaparecendo em sua própria calmaria. Deixando vazios espaços que tentaram ser abertos por muitas vezes... E, agora, a um passo de desistir, não me resta mais nada a não ser lamentar...".

E esse coração secreto ainda não aceitou tão grandiosa derrota. Recusa-se, inventa teses e dissertações. Só que os números são frios, calculistas e precisos. E, em outra dimensão, assim como toda a desavença entre mecânica clássica e mecânica quântica, este parâmetro não cabe aqui.

De fato, jaz neste lugar a possibilidade de outra história de amor.

Não posso dizer como sinto-me - são as convenções e as precauções de quem já não mais quer escrever sobre corações partidos.

Contudo o coração que esconde-se partilharia e confessaria - sua solidão e seus desejos. E admitindo que não pode deixá-lo e não pode tê-lo, guarda-o para si profundamente...

terça-feira, 8 de março de 2016

Rádio da madrugada, velhos tempos e amores imaginativos - platonismo e suas metáforas

Hilo com uma Ninfa - John William Waterhouse/1883

Há algo místico e infinito no amor platônico, apesar dele frequentar a região da dor, sofrimento, miserabilidade e solidão.

Ele é sempre a inspiração certeira para livros que registram a saga dos desejos não realizados na forma mais humanamente palpável. Só que todos esquecem da sua pureza, delicadeza e liberdade. O amor platônico é a utopia que mantém a mente fértil e o coração vivo e esperançoso. E isso é infinitamente mais consolador do que o desgosto com os amores consumados e que mostraram tão somente o amargo sabor da vida real.

Não há regra que impeça que o amor platônico, um dia, possa tornar-se vívido e bilateral e, quem sabe, tão doce como seus outrora frutos imaginativos. Não se deve duvidar do nirvana amoroso. Porém vivê-lo como se fosse a força eletromotriz da vida é caminhar rumo a tristeza crônica e a mortificação da alma.

Por estes tempos tenho revivido histórias sobre platonismo que estavam na tenra juventude. Naquela época, imaginativamente, o céu não era o limite, o limite rumava ao infinito.

Reviver a dubiedade é angustiar-se à conta-gotas. Não há desespero exagerado e nem tristeza excessiva. Não há culpados, nem nós mesmos, o maquinário do sentimento, e muito menos a nossa criação, os desejados.

[E assim tem sido há um certo tempo.]

Todos os poemas poderiam ser escritos com rimas douradas. Quadros poderiam ser pintados com gotas prateadas de chuva e traços amadeirados das folhas do outono. As rádios da madrugada poderiam tocar madrugada adentro. E ao embalarem danças sob o luar, com seus narradores afoitos, mandando recadinhos, o cenário perfeito estaria formado.

O platonismo deseja o bem, o sucesso, a felicidade, mesmo em outros braços. É livre da ilusão de que acabará inevitavelmente em conquista. Ele nasce regido por poréns.

Os platônicos amam simplesmente a existência do ser admirado, a sua essência e seu modo de vida. É como Pigmalião a admirar sua própria criação.

Este é o mais ingênuo dos amores e que, muitas vezes, é ruborizado na vergonha de admitir o próprio sentimento a si mesmo. Também é o mais humilde, deleitando-se em pequenos sorrisos, gestos e conversas. Franciscano por essência.

Se lágrimas do amor platônico fossem transformadas em vinho, o mais doce deles seria criado.

Posso afirmar que não há nada mais intimista e próprio do que gostar secretamente. E, a cada minuto, mais e mais amores platônicos nascem, tornando-se imortais e rumando a um tempo imemorial em que a vida repousa na mais suave das montanhas.