terça-feira, 20 de março de 2018

Altered Carbon (Carbono Alterado) - Um pós Blade Runner ou um Doctor Who Cyberpunk? Uma visão da série por suas bases mais interessantes (e polêmicas)

Canal: Netflix
Meio: Streaming
Adaptação: Livro Altered Carbon/2002, Richard K. Morgan
Ano: 2018
Gênero: Cyberpunk
               Ficção Científica
               Thriller de Ação
               Drama Policial
               Romance Noir
Criada por: Laeta Kalogridis
Elenco: Lista completa aqui: Altered Carbon IMDb
Trilha Sonora por: Jeff Russo
Número de Temporadas: 1
Número de episódios: 10
Locações: Vancouver, British Columbia, Canadá.

Altered Carbon não é para família e nem para as grandes audiências. É um mundo para adultos, especialmente os fascinados por Blade Runner e toda a cultura do Cyberpunk.



O ano de 2018 chegou e trouxe a produção mais cara da NetFlix - Altered Carbon, série baseada no livro de mesmo nome (que é seguido por Broken Angels e Woken Furies) de Richard K. Morgan e criada por Laeta Kalogridis.

Assim que o livro saiu, Kalogridis adquiriu os direitos de adaptação com a intenção, primeiramente, de um longa metragem. Mas a complexidade da trama afastou os investimentos dos estúdios e, assim, lá foram-se longos 15 anos até que o projeto virasse realidade pelas mãos (e dinheiro) da Netflix, que a encomendando somente em 2016.

Passaram-se alguns bons dias até que eu assistisse a série. Não porque o enredo sugerisse algo desinteressante, pelo contrário, e sim porque a Netflix (não sei se só a versão em Português) tem o péssimo hábito de não fazer boas e instigantes sinopses, fugindo, muitas vezes, da essência do próprio trabalho, além de não dar o nome de todos os atores e, o pior, não coloca boas fotos promocionais. Só depois de ler a segunda sinopse e ver que o Joel Kinnaman era o principal que eu parti para o primeiro episódio.

A história gira em torno de Takeshi Kovacs (o original é interpretado por Will Yun Lee e a nova capa por Joel Kinnaman), um ex-soldado das forças especiais que fazia parte do projeto Envoy. Após uma missão fracassada, Kovacs foi para uma prisão digital. Ele foi libertado por Laurens Bancroft (James Purefoy), membro da elite dos Matusas. Bancroft está intrigado porque foi assassinado em sua própria casa e acredita piamente que não cometeu suicídio. A missão de Kovacs é achar o verdadeiro culpado.

Há, também, muitas subtramas e envolvimentos, destacando-se o círculo próximo que se formará em torno de Kovacs, com a a policial Kristin Ortega (Martha Higareda), Poe (Chris Conner) e Vernon Elliot (Ato Essandoh).

Mas Altered Carbon vai muito além. Seus melhores pontos residem nas bases sociais em que a narrativa central foi construída... Então, vamos entendê-las!

A partir de agora entra o selo de:




O mundo em Altered Carbon

A série passa-se 350 anos no futuro, no ano 2384...

(um adendo para as primeiras perguntas: Que futuro? Porque se for contar de 2018, somando-se esses 350 anos, daria o ano de 2368, um diferença de 16 anos. Ou estamos falando do futuro do ano de 2034 ou essa contagem no tempo tem que passar para 334 anos no futuro... Você escolhe!)

Então, nesse tempo, as memórias de uma pessoa, na sua forma mais pura, podem ser passadas para um dispositivo em forma de disco chamado cartucho cortical (isso mesmo, uma espécie de pendrive com o backup do nosso cérebro), que é implantado nas vértebras da parte de trás do pescoço, em um processo de codificação e armazenamento chamado Frente Digital Humana - FHD. Esse cartucho é colocado quando a pessoa é ainda criança, por volta de 1 ano de idade.

Quando há algum dano grave a essa constituição física, este cartucho pode ser colocado em um novo, digamos, receptáculo, chamado de capa, um ser clonado a partir do corpo original ou outros corpos que estiverem disponíveis. Também pode-se voltar ao corpo original, restaurado ou não. Tudo isso dependerá de quanto é possível pagar para ter a vida de volta. A capa é substituível, o cartucho não. E a não ser que tenha-se muitos backups espalhados por aí, uma vez que esse dispositivo tenha sido destruído, a morte é real.

Esta possibilidade só foi possível graças a uma tecnologia alienígena vinda de um povo chamado Elders e que já está extinto.

As diferenças de classes sociais 

As capas não são criadas de forma igual. Os ricos podem dispor de clones aparentemente infinitos de si mesmos, distribuidos por cofres trancados e altamente seguros em torno da galáxia. Assim surge-nos os Matusaspessoas poderosas que efetivamente tornam-se imortais.

Entretanto a maioria das pessoas não escolhe sua nova capa, devendo, ser quiser viver novamente, usar o que estiver disponível. Isso significa que pode-se ter uma criança colocada no corpo de uma pessoa idosa ou acabar em uma raça ou gênero diferente. 

Então, de onde vêm as capas dos pobres? 

Esta é até fácil de deduzir: daqueles ainda mais pobres que não podem pagar sequer para manter o corpo original. Porque se a capa sofreu um dano grave, esta pode também ser, dependendo da complexidade, restaurada. Se o antigo dono, representado por sua família, não puder pagar, então outra pessoa torna-se dona do seu corpo. E tem outras possibilidades...

O caso dos prisioneiros

Nesse universo, não há mais prisões como conhecemos hoje. Elas tornaram-se digitais e, sendo assim, os condenados têm os cartuchos removidos e seus antigos corpos são colocados a disposição. Se a família puder arcar com as despesas de manutenção até o cumprimento da pena, o detento terá seu corpo de volta, senão, haverá a permuta.

O caso da realidade virtual

Se o dinheiro não deu para manter a capa, então há a possibilidade de permanecer em uma Realidade Virtual, onde amigos e familiares poderão conectar-se para passar o tempo com a pessoa.

O caso dos corpos sintéticos

Por que não apenas colocar o cartucho em um corpo sintético ou um androide? Sim, é possível. Todavia é o meio menos usado. Imagine acordar em uma boneca ou boneco, mesmo que ele/ela seja uma cópia fiel da capa anterior? Muito esquisito será não poder comer, nem beber e nem sentir estímulos. Foi assim que o Serial Killer Charles Lee Ray ficou ao transferir-se para o boneco Chucky, só que ao invés de vudu, temos a tecnologia.

Eu não sou o dono do meu corpo?

A capa da primeira vida é, basicamente, um empréstimo. Se não puder pagar pela segunda vida no mesmo corpo, o governo vem e leva-o embora. É como comprar uma casa pelos bancos (considerando que as prestações da casa sejam infinitas). Pense que viver é o período que abrange o pagamento das parcelas. Parou de pagar (a morte), o banco vem e abre a possibilidade de renegociar (manter o corpo e voltar nele), se não tem mais meios de continuar o vínculo... Lá vai a casa para leilão.

E existem hospitais?

Sim. Como dizem todos os médicos, melhor prevenir do que remediar. Só que não há mais hospitais públicos ou privados, apenas um tipo de hospital onde quem tem dinheiro entra na frente, ganhando membros reforçados e tratamentos caros, enquanto, não importando a gravidade, os pobres podem morrer na fila de antedimento (o que já é real aqui e agora...). 


Reencarnação ou Ressuscitação?

A discussão em torno da Religião é um dos pontos mais fortes da série. Assim, aqueles que não querem viver para sempre, optam pelo bloqueio (com a codificação Neo-C) ou destruição do seu cartucho. O Neo-C (Neo-Catolicismo) é uma religião que sustenta a crença de que os seres humanos não devem ser trazidos de volta à vida após a morte.

Alguns podem fazer uma confusão com a Reencarnação. Contudo ela não se encaixa aqui. A Reencarnação e um processo natural, misterioso, baseada na lei do Carma. É uma nova vivência, de fato, de uma mesma alma (você pode dizer até mesmo que a alma é o cartucho). Mas a antiga vida, no princípio da Reencarnação, foi deixada para trás (porém é sabido que lembranças podem ficar, assim como nos casos documentados de vidas anteriores). Para que a tecnologia usada em Altered Carbon chegasse um pouquinho perto do que considera-se Reencarnação, além da nova capa, todas as memórias deveriam ser apagadas, sobrando apenas os traços de personalidade, ou o que chamamos de essência.

O que é a Resolução 653?

A Resolução 653 é uma proposta legal que altera a lei para permitir que as vítimas de assassinatos possam ser ressuscitadas com o intuito de testemunharem contra os criminosos. Ela não possui nenhuma restrição quanto a religião.

Entretanto pela lei vigente, um Neo-C não pode ser ressuscitado para esse caso.

A 653 é de suma importância para a construção da história da série, pois Reileen (Dichen Lachman), a irmã de Takeshi, aproveita-se disso para fugir das acusações dos assassinatos ocorridos em seu bordel, o Head in the Clouds, onde os clientes podem matar os profissionais do sexo.

Seu artifício é o de mudar ilegalmente os códigos dos seus empregados para Neo-C para que não haja processos criminais que exijam a ressuscitação dos mesmos. 

Mas a 653, sem restrições, caminha para ser aprovada na ONU. Por isso ela resolve armar para o Matusa mais poderoso. Depois de ser drogado no Bordel, Laurens Bancrofts assassina uma jovem. Com isso, ele é chantageado para que barre a aprovação da 653.

Mas, cheio de culpa, Laurens se mata antes que seu cartucho completasse a atualização com as memórias do crime.

É desse ponto que começa Altered Carbon. 

Altered Carbon é um pós Blade Runner ou um Doctor Who Cyberpunk?

A comparações com Blade Runner são inevitáveis, principalmente pelo universo cyberpunk - a melancolia, mundo poluído e sujo contrastando com o colorido das luzes da alta tecnologia. Se você gosta de ligar obras anteriores à atuais, pode considerar o enredo da série como uma continuação de Blade Runner (1982) e Blade Runner 2049 (2017).

Cabe aqui dizer que a história das capas assemelha-se muito ao enredo de Doctor Who, pois, ao invés de termos apenas um Senhor do Tempo que troca de corpo de tempos em tempos, temos vários deles que, dependendo da condição financeira, podem optar pela capa que mais lhe agrada e mantê-la para sempre.

Quero morrer junto com meu corpo!

As questões éticas e de liberdades individuais também são um ponto forte dessa trama. Imagine morrer ou ser preso e seu corpo passar de pessoa para pessoa? Ou ficar com a mente presa em uma realidade virtual? Ou em um corpo sintético? Onde acaba a vida? Onde começa outra nova? O seu corpo não era você? Por que o Governo tem o direito sobre ele após o desligamento da sua consciência?

São essas questões um verdadeiro nó de marinheiro, pois todos temos um tipo de posicionamento a respeito. Só que qualquer uma dessas opiniões encontrará sempre uma contrapartida duríssima para reflexão. 

Por exemplo, se seu corpo é somente seu, então você escolhe o que fazer com ele - doar órgãos ou doar a capa. Entretanto se o conceito de posse for considerado uma vontade egoísta que fere o princípio de convivência igualitária em uma sociedade? E se uma vida for perdida por puro capricho alheio? São a Terra ou o Fogo mais importantes do que um semelhante? O Governo, que supostamente deve cuidar do bem estar dos cidadãos e protegê-los, não deve intervir nessa questão? 

Altamente complicado, não?

A série Altered Carbon teve Whitewashing?

O whitewashing, ou embranquecimento, significa substituir personagens fictícios ou históricos, de origem estrangeira, por atores norte-americanos ou de cor branca. 

Nesse caso, claro que não ocorreu isso na série. O próprio livro dá espaço para que um protagonista oriental seja, depois, um caucasiano. E o trabalho traz os dois, na vida passada e presente, dando espaço para as duas etnias. Aliás, uma coisa que Altered Carbon não pode ser acusada é de não ter diversidade. Todo o resto em torno dessa polêmica é intriga da oposição...

Afinal, por que diabos a série chama-se Carbono Alterado?

Nem os três livros e muito menos a série dão-nos uma resposta clara e objetiva, apenas alguns subentendimentos com frases que trazem essa expressão.

O que pode-se supor é que Carbono Alterado seja uma expressão para a própria capa que foi mudada para abrigar novamente uma vida, pois os seres humanos são constituídos por carbono e, nesse processo de reciclagem, essas cadeias precisam ser refeitas ou até mesmo modificadas. Quase um produto transgênico de hoje. 

Oh, Meu Deus, que mundo horrível esse...

Sim, por isso que temos um exemplo claríssimo de DISTOPIA.

As distopias são geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo, por opressivo controle da sociedade e grande desigualdade social.


Fontes:


quinta-feira, 15 de março de 2018

Partidas & Reflexões - Uma carta de despedida para Ciência

Encerra-se aqui meu ciclo com o curso de Física. Faltam-me apenas as formalidades com a papelada do desligamento voluntário.

Bem, no começo desse blog, eu falava da minha paixão por Astronomia. Compartilhei minha alegria em passar para o curso de Física e também todos os dissabores que vieram depois e como a estrada foi penosa. É o famoso nadar e nadar e morrer na praia.

Entretanto a história é mais profunda e, talvez, sirva de alerta para quem pretende entrar neste universo ingrato e miserável de estudar Ciência no Brasil, pois ela não é feita só de pensamentos, teorias e experimentos, muito menos de ilusões com o Firmamento e as Abóbadas Estelares. É essencialmente composta por pessoas odiosas de todos os tipos, professores e professoras asquerosos (as), machistas, hipócritas e egocêntricos (as) e colegas de classe do mesmo feitio, mas em versão beta.

Estudar Física é uma boa alusão para a expressão cavar o próprio túmulo - ou você foge do algoz ou aceita a morte de todas as suas conquistas. Acredite, diante deles, esses monstros rotundos e infelizes, você é apenas um daqueles fardos que fica pedindo explicações e exercícios.

A Física não precisa de questionadores e exigências, precisa de máquinas submissas, de preferência, muito petizes, que não atormentem suplicando o modo de fazer e o desvendar do mistério - quem ousa entrar nesse lugar precisa, minimamente, sair de casa sabendo toda a Mecânica Clássica. E não tente aprendê-la na faculdade, finja que aprendeu ou terá sua cabeça guilhotinada logo mais.

E foi assim que aconteceu comigo.

Eis toda a história...

Os alunos de todos os cursos que passaram dos quatro anos tiveram suas matrículas canceladas pela minha agora ex-Instituição. Houve um tremendo pandemônio por causa disso devido a uma série de irregularidades e questionamentos e a Universidade, uma covarde, como qualquer órgão público brasileiro, jogou nas mãos do Colegiado de cada Departamento o destino dos alunos. Ao saber disso, muitos desistiram tão logo, pois é de conhecimento geral a forma como os professores de Física tratam seus discentes mais comuns.

Eu já pensava em sair e até expliquei isso em outros textos. Mas nunca acredita-se que a tempestade realmente virá.

Entreguei o meu processo para tentar cursar mais um período e dar uma nova chance a mim mesma, caso não aparecesse outro curso ou um trabalho (que já venho procurando). A Instituição deu a todos, de qualquer ano, o prazo de 2 anos para conclusão, mediante plano de estudos e aval dos professores do tão famigerado COLEGIADO.

Da Física, que mistura erroneamente Licenciatura e Bacharelado, 49 alunos tiveram suas matrículas canceladas, num total de 150 alunos. Isso mesmo, eu não digitei errado: no curso de Física, juntando Licenciatura e Bacharelado (meu caso), havia um total de 150 alunos ativos e de todos os anos que você possa presumir. Se você se perguntar o porquê do MEC já não ter fechado esse pequeno clã... Eu também faço-me o mesmo questionamento.

Desses 49, 12 apresentaram seus argumentos em forma de processo ao colegiado e 4 tiveram os seus, entre eles o meu, indeferidos.

Tudo bem... Você, leitor (a), deve pensar que  "Ela foi indeferida porque é de 2011 e todos os outros são mais antigos..."  Ah, não mesmo!

Desses 8 deferidos, três são de 2008. Imagine, a diferença de 2008 para 2011 são de 3 anos, praticamente um curso de qualquer área. Se um aluno de 2008, por menos cadeiras que ele possa ter, tem condições de voltar, já que ele estourou o tempo de conclusão em 6 anos, por que uma pessoa de 2011, ativa, que estourou o tempo de formar-se em 3 anos, não pode? Porque, repito, 4 semestres foram dados a todos.

Pois não é que verdades sobre esse mundo obscuro que cercava-me vieram à tona?

A notícia foi dada-me pelo coordenador do curso. Coloco aqui o que ele escreveu, na íntegra (recortes originais da conversa):


Esses mostressores, principalmente os que eu soube que tomaram conta do meu processo, não conhecem-me, praticamente. Se um ou dois deram aulas para mim, digo que foi muito. Neste caso... Como podem tomar uma decisão séria dessas? Baseados em quais fatos? Em históricos e números prejudicados por problemas de ordens diversas? Problemas esses que foram bem documentados e entregues.

Todavia nada supera a seguinte sentença:

QUE EU NÃO TERIA CONDIÇÕES DE VOLTAR COM TANTAS DISCIPLINAS DIFÍCEIS.

E eu concluo: ALEM DO MEU SONHO TER VIRADO PESADELO, OS PROFESSORES DUVIDAM DA MINHA CAPACIDADE. ALGUNS SERES QUE NUNCA SEQUER DERAM AULA PARA MIM NESSES SEIS ANOS. E COM O AVAL DO RESTANTE, ACHARAM QUE EU NÃO MEREÇO ESTAR ALI.


Claro, eu posso entrar novamente, fiz ENEM, tenho nota para isso, posso conseguir até mesmo por porte de diploma superior. Mas como continuar num curso que tem esse tipo de gente como professor? Uma coisa é você especular, saber por suposições... Outra bem diferente é alguém de dentro falar, melhor, escrever o que os professores acham de sua pessoa. Por que continuar a estudar com seres que pensam isso sobre seus alunos?

E eis a prova final de que eu não sou apenas alguém com o orgulho ferido - eu fui INJUSTIÇADA:

Olharam bem essa parte grifada? Então, é essa gente que não está nem aí para mim que formam os futuros da Ciência no meu estado. São essas pessoas que escolhem quem deve ficar e quem deve sair, como imperadores bufantes e maquiavélicos que fazem o famoso sinal para acabar com o gladiador na arena.

É uma melancólica história de um sonho bonito. Só que a vida é feita desses infortúnios, a minha até bem mais. É o que estava destinado e o que, de fato, aconteceu.

Meu balanço do curso de Física foi o pior. Dele eu não levo ninguém, não fiz amigos de verdade. Poderia dizer que é a diferença de idade... Eu sou bem mais velha que a maioria... Entretanto há muita falsidade e gente esperta, que fica em cima do muro o tempo todo, esperando uma boa oportunidade para se sobressair. Muita gente jovem extremamente astuta, que usa de todas as formas para passar e se formar. Muitas pessoas que diziam-se minhas amigas... E que depois descobri o mar de mentiras e deslealdade em que elas estavam metidas. Outras que vão e voltam... E eu, muitas vezes, sou ignorada. Não, não... Pensando bem, dessa forma não havia como continuar.

Sim, eu fui muito inocente, pois sou uma entusiasta de carteirinha. Cheguei com expectativas altas, achando que tinha encontrado o meu lugar e que todos falariam de Carl Sagan, nebulosas, filosofia de vida... Percebi que o curso de Contabilidade, ao menos, deixou-me com alguns amigos que sentem saudades de mim e dizem isso. De onde eu não queria é que eu construí algo, mesmo que pequeno.

Apesar do tempo que todos disseram que eu perdi... Penso...

É melhor a iconoclastia do que a adoração a falsos ídolos.

É melhor desvencilhar-me de uma relação falida e abusiva como essa.

Adeus, Física! Adeus, Ciência! 
Talvez em outra vida, eu consiga achar a sua real essência...

Deus, que eu não demore muito para reerguer meus olhos para as Constelações e a Astronomia.

E a minha vida segue!

terça-feira, 13 de março de 2018

Damnatio memoriae - a expulsão do paraíso

Expulsão do Paraíso
(La Cacciata dei Progenitori dall'Eden)
Masaccio
1425
Capela Brancacci
Igreja de Santa Maria del Carmine
Se eu fosse contar os dias de dissabor e tristezas, faltariam-me números precisos. Pois deles perdi a conta há tanto tempo que parece-me que estes fazem parte da minha própria essência.

Quase não saio mais de casa e pouco importa-me mais olhar o céu e as pessoas. O mundo se liquefez, o meu próprio, em algo tóxico e de um amargor insuportável.

Não sou uma pessoa de muita sorte, talvez, a mais azarada dentre alguns. Tudo o que eu toquei virou pó, perdeu o brilho, fragmentou-se em espelhos minúsculos que refletem as mil faces do revés constante.

É estranho conviver com as sombras e não ter o reconhecimento devido. Cresci em um ambiente onde para chegar-se a notoriedade e o respeito, o muito nunca será o suficiente e os fracassos e decepções, trilhas essenciais da vida, são considerados erros grosseiros, dignos de maldição.

Se antes eu era uma crianças esperançosa, sonhando com um mundo além das nuvens, mesmo sofrendo com as constantes perseguições, hoje tornei-me uma adulta desiludida, que não acredita nem mesmo nos enredos do amor utópico, que culpa-se por escapar da realidade, tão dolorida, ao invés de tornar-se uma cidadã digna, como toda a sociedade quer: uma funcionária pública, uma mulher com dinheiro, uma esposa e mãe. Esse alguém, tão distante de mim, é que tornaria-me respeitada, principalmente pela família, adorada por outros comuns, notada pelo meu entorno e adjacências.

Diante dos meus mais novos fracassos, não posso concluir o processo de restauração da minha alma. E assim sempre foi. Todos os dias puxam-me para o Inferno, não por quererem o meu mal, mas por não saberem como lidar com a minha difícil caminhada pela estrada do meu ser, esse que veste essa capa momentânea e que, em sua forma mais jovem, foi a desculpa perfeita para zombarias que refletem-se hoje em gotas rubis de memórias navalhantes.

Frente a esse cenário, pergunto-me se eu gostaria de morrer. E logo vem-me um não. O que é muito excêntrico. Todos que consideram-se um fardo para o mundo, um fardo para eles próprios, arquitetam planos para sair desse universo e ter uma segunda chance (porque todos, de acordo com minha própria crença, também têm outras chances, todadavia acabam trazendo suas dores antigas e os ferimentos físicos mortais em forma de mais sofrimento para a vida nova.).

Então... O que faz com que eu ainda queira viver?

E essa pergunta é respondida de diversas formas. E não espere que elas sejam lógicas ou poéticas.

Vem-me, neste instante, um caso recente. Uma conhecida entrou em depressão gravíssima e que quase custou-lhe a vida. Tudo ocasionado por um mestrado e por perseguições de professores. Coloquei-me em seu lugar e os únicos sentimentos que vieram-me foram o ódio e a vingança. Visualizei cenas de violência e no fim... Lá estava eu, possivelmente presa por assassinato.

Assim, o que motiva-me a continuar nesta vida não é a esperança moribunda, mas sim os sentimentos de cólera e fúria contra tudo e todos.

Porque pior do que a própria morte é o que vem depois dela: o infame damnatio memoriae.

E o que seria mais saboroso para os inimigos do que pisar em cima do cadáver do rival? O que seria mais refrescante do que beber as lágrimas derramadas antes dos instantes finais? É, o que posso imaginar, o mais próximo de presentear o diabo com a própria alma.

Se antigamente a Condenação da Memória era dada para traidores do Império Romano, essa vaga, atualmente, é ocupada pelos suicidas. Porque os familiares e amigos evitam falar sobre e evocar recordações e os detratores refestelam-se no mar dessa sentença vil.

Claro que nada disso afasta-me das possibilidades que vagueiam por aí. Só que meu orgulho ferido alimenta o meu espírito contra qualquer ato que possa ser o triunfo daqueles que eu gostaria de ver estatelados no chão, esmagados e exauridos pela consequência de suas próprias maldades.

Se minhas adorações de carne e osso foram obliteradas, todas as minhas oferendas, agora, dirigem-se a Nêmesis.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Tracklist da semana - Via Spotify - O melhor do meu conhecimento sobre o Soft Rock e suas vertentes (1969-1989) - O que tocava na noite/madrugada nas rádios (Night Radio)

Bem, cá estou eu com mais uma das minhas listas Via Spotify.

Essa aqui é com o melhor do que eu conheço sobre o Soft Rock e suas vertentes, ou seja, todas aquelas músicas que tocavam nas saudosas estações de rádio no comecinho da noite até as madrugadas.

O Soft Rock é um subgênero, na verdade, que derivou do pop e do rock. Ele usa muita guitarra acústica e suas canções têm um ritmo lento ou bem suave, com simplicidade e aspectos bem melódicos.

Ele dominou, praticamente, toda a década de 1970, embalando muitas programações das rádios do mundo todo. Hoje você pode relacioná-lo com o Contemporâneo Adulto (Adult Contemporary), bem como ouvi-lo sob outros nomes, como o Light Rock (ou Lite Rock) ou Smooth Rock.

Meu pobre Anthology of Bread já está quase
riscado de tanto escutar!
E é claro... Que no contexto de todas essas bandas, a minha favorita é o Bread

(Esses caras lindos aí do lado!)

Espero que gostem e que escutem essa lista em seus melhores momentos, pois esta é um pedacinho da minha alma que compartilho com vocês, queridos (as) leitores (as).

Até a próxima!



Night Radio (The Best Of Soft Rock) - Playlist do Spotify 
feita por T.S. Frank 
Seleção de músicas por T.S. Frank


Lembrete: provavelmente você irá escutar somente 30 segundos de cada 
música se não tiver o Spotify instalado. Então eu recomendo que o tenha
- uma das melhores plataformas para se escutar música, de rápida e fácil
instalação - disponível para PC, tabletes e celulares - GRATUITO!


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Falta de ar

É Carnaval. E todos estão entopercidos, imersos em prazeres, alegria e agitação.... Bem, exceto eu.
Ah, esta vida é muito pretenciosa, cheia de gentilezas compradas, atenção e cuidados brilhantemente falsos e corpos harmoniosamente costurados por histórias da vida alheia. É como viver em um universo odiosamente emprestado.
Algumas notícias surgem de conhecidos, com suas novas vidas e decisões. Nesse momento, vem-me o desfazer das débeis linhas que um dia aproximaram-nos. Olho para trás e pergunto-me o que realmente foi concreto, ou se, considerando o mundo nu e cru, as ilusões caramelizadas não passaram de desvarios carbonizados. Concluo que somos facilmente esquecidos ou substituídos quando a pele não mais reluz as partículas de excitação pela novidade.
Estou com crise de asma. E ter essa falta de ar, repentina e audaciosa, é um mergulho em queda livre em um oceano de memórias juvenis desagradavéis. Anseio por respirar livremente... Em todos os aspectos da minha vida.
Fogem-me as palavras bem escritas dos letrados, estudados e diplomados. Entretanto sobra-me uma convicção solitária de que posso ser cronista do meu eu incompleto e cinza.
Sou quem posso ser no momento, aquela que odeia recados com palavras tiradas de livros de auto-ajuda, que escuta o Antologia do Bread quase todas as madrugadas, que acha maravilhoso esperar o final de semana para assistir Arquivo-X e os filmes do Carpenter e que perdeu a confiança, admiração e a fé em quase todos que um dia conheceu... E... Mesmo assim... A esperança de achar uma resposta para meus anseios impera.
Preciso de um sorriso desses que tornam-se uma lembrança indestrutível. Mas é uma época difícil... As boas almas foram-se e restaram-me os meus algozes, estes prontos e solícitos por navalhar a minha carne.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Desventuras

Antes de fechar a minha porta, vi o cinturão de Órion entrelaçado pelas nuvens altas e cinzentas. Faz um pouco de frio nas madrugadas do verão, uma espécie de aconchego para dormir sem muitos calmantes.

Meu estômago dói e minha cabeça fervilha. Uma vertigem nauseante toma forma. Preciso de um chá para recompor-me. Não... Eu necessito bem mais do que isso.

The Cure é a minha companhia para horas assim e suas melodias despejam notas em cortinas que balançam em um vento gélido. Pequenas festas a dois seriam muito mais atraentes se houvesse uma companhia que não estivesse interessada apenas em sexo.

De fato, eu não sei escrever de uma forma padrão e digna. Olhe para as minhas narrativas tortas e não lineares, repletas de encaixes defeituosos. E mesmo assim, foi um tanto chocante ver a minha pífia nota na redação do Enem. Que infelicidade! Os meus escritos nunca foram bem recebidos pela bancada acadêmica desse tipo de prova, nem nos tempos áureos de Ensino Médio.

Vivo a ser corrigida - pré-projetos, mapas mentais, trabalhos, artigos... Definitivamente... Encaixo-me em lugar algum. E meu orgulho tem um lado que foi devorado.

Mudanças aguardam-me avidamente. Sou Édipo avistando a Esfinge.

Suspeito que cheguei a um consenso. É quase certo o fim do meu devaneio pela Ciência. Eis um exemplo muito fidedigno de um casamento à beira do fracasso.

Estou muito velha para acostumar-me a ingratidão dos estudos e muito nova para desperdiçar-me em um sistema que escolheu podar todas as minhas pequenas mudas.

Aproximo-me de uma linha tênue entre a tristeza e a loucura...

Outro dia recusei ver o Céu. Achei-me incapaz de encontrá-lo apenas em números e contas secas. Ainda poderei dizer que amo a Astronomia mesmo se abandonar uma formação acadêmica em Ciências? Sei bem que estou em um vale de indagações que visam medir minhas qualificações por quantidades e diplomas. E parece tudo muito fúnebre e doentio dessa perspectiva.

Deus... Como quero mergulhar de vez no mundo da Literatura e das Artes em Geral. E tenho que, antes de tudo, livrar-me de meus próprios preconceitos por pensar que não posso entrar nesse universo. É como abrir a porta de uma festa em que a Elite está preparada para mais uma noite de escárnio.

Falta-me amor, de meu próprio lado. Não há mais Deuses e Deusas para dedicar poemas ou lágrimas. Antes, caía aos pedaços por paixões avassaladoras, causadoras de dor e sangramentos. Era preenchida por algo, um ódio manancial, que transformava-se em palavras afiadas destinadas a um assassinato imaginário. Sou, agora, um total vazio, inerte e andarilha.

A calmaria do meu coração tornou-me apática. Sem eles, ou elas, não tenho nada mais o que esculpir.

Procuro o meu eu de antes, aquele que está perdido em algum canto de um mundo que isolei dos outros por conta dos meus traumas e receios.


domingo, 31 de dezembro de 2017

31

31 é um número esquisito, cheio de mistério, mas sem misticismo algum. É um primo daqueles que você não dá a mínima, como um desses infelizes parentes que a vida tratou de distribuir aos montes.

Entretanto, todos os anos, os terráqueos comemoram essa data como uma passagem exultante, um ritual sagrado que irá purificar todas as maldades feitas, expurgando assim todos os demônios para que nasça um novo ser. E estes, já no primeiro dia, farão tudo que, anteriormente, livraram-se e de forma extremamente potencializada.

Ao longo de alguns bons anos, eu mesma tentei socializar-me, mergulhando na atmosfera das festividades do ano novo vindouro comercial. Saí por aí com companhias tão interessantes como agasalho de lã caxemira no calor. E voltava dessa tramoia com a sensação de que a vida é uma eterna farsa, recheada de retoques, ambição e filtros para esconder as imperfeições (sem contar as inúmeras prestações acordadas para o vestido que nunca foi usado novamente). Não havia graça, as conversas eram pífias e os sorrisos vulgares ecoavam em uma vertigem que tomava conta de mim - um carrossel do horror com mascarados assustadores.

Só que a roda da existência realmente trabalha e transforma...

Na noite da sexta-feira que passou, recebi uma mensagem de um ex-colega da minha primeira faculdade. Esta era bem eloquente: - Estou na cidade, venha ver-me! Por um golpe de má sorte (ou não!), há um dois dias, uma virose apossou-se de mim, causando-me febrícula e dor de cabeça. Entretanto, para quem busca diversão, isso não configura impedimento. Em outros tempos, não seria indiferente este convite a mim.

Pensei e repensei em uma maneira de fugir dessa situação. Poderia apenas responder, marcar e não ir? Ou apenas contar um pouco da verdade, omitindo o real significado? Fiquei com a segunda opção. Livrei-me logo desse peso.

Evito, ao máximo, encontrar pessoas que participaram do meu cotidiano. Talvez, devido a relâmpagos de felicidade diabética, de vez em quando, ressurjo e mando alguns cumprimentos para estas criaturas e falo do passado, para depois sumir no nevoeiro da minha realidade. Lembranças daquela época são resquícios das tentativas de ter o meu próprio Show de Truman. Chega desse espetáculo de quinta categoria!

Minhas sandálias de ermitã começam o contato com a estrada poeirenta.

E o que eu quero da vida? Bem... Isso eu não sei ao certo e não será por causa de uma contagem de segundos que o oráculo do destino revelará suas concretas intenções. Mas é mais do que óbvio que tenho vontades.

Uma delas é curar-me da dor crônica e essa ânsia comparo com o poema do Quintana, Utopia. E desse pesar que tenho, gostaria de eliminar dois extremos: as pessoas que são indiferentes por considerar uma doença corriqueira e aquelas altamente piedosas que objetificam-me no seu conceito de coitadismo.

Sim, eu quero sair de casa e ter o meu próprio canto, comprar a minha vitrola para tocar meus vinis, decorar meu espaço com o quadro gigante do poster dos Beatles que comprei em São Paulo, junto com Casablanca e Cantando na Chuva.

Preciso de um emprego! E temos aqui uma necessidade e não um querer.

Nesta existência, hei de ir para a minha tão sonhada jornada a Galiza - fazer o Caminho de Santiago de Compostela.

Entrarei o ano esperando os DVDs que comprei do The Cure, o Acústico do A-ha, Jerry Lee Lewis e Concert Central Park do Simon & Garfunkel. Mandei todos para casa de um conhecido e um do Elvis (Live Hawaii) voltou e tive que buscar no CDD mais próximo porque a mãe dele não reconheceu a encomenda, apesar de todos os avisos... Talvez eu tenha um trabalhão para ter o restante em mãos ainda.

Não desejo amores e muito menos presenças em demasia. Quero muita tranquilidade, isso sim.

Quer saber... Assim como no Natal... Eu comerei bastante e depois ficarei a noite toda em claro, na nova poltrona reclinável, fazendo a digestão. Vou rir da degradação humana, ter um ou dois pesadelos, pensarei sobre reencarnação, escutarei Van Morrison e depois dormirei.

Concluo que a passagem de ano novo, assim como é hoje, não passa de um embuste bem disfarçado de promessas e ilusões rasas celebradas com fogos de artifício irritantes.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Cápsula do Tempo

Hoje estou mergulhada em muita dor. Aliás, são semanas que arrastam-se melancólicas e sem muitas esperanças.

Eu morri pela metade há quase oito anos. E foi logo após receber meu diagnóstico de uma doença crônica na coluna. Minha vida transformou-se em uma vale de incertezas.

Em algum lugar escrevi que tinha depositado muita fé nesse meu último tratamento (muito caro e que custou-me muitas insinuações e cobranças por resultados). Contudo tudo ruiu no momento em que senti a primeira fisgada angustiante, o choque que espalha-se pela perna esquerda e o sofrimento em não poder ao menos curvar-me para pegar o meu par de chinelos. Voltei a estaca zero. E isso é o meu inferno. E qualquer um que deseja-me mal pode considerar-se vitorioso - o meu pesar é seu vinho.

Eu estou em um estado em que não existe um prazer capaz de elevar-me a um patamar acima. Dessa forma entra o ato de escrever. Pensei em não fazê-lo e deixar de relatar meus dissabores.

Só que repensei - uma hora eu morrerei, cedo ou tarde, à cargo do destino. E observando a escassez de espaço e a época que tende a rotular-me de um ser humano à moda antiga, o que poderei eu deixar para aqueles que não me conhecerão como sou hoje, nesta forma encarnada? O que poderei dizer a mim em minha próxima existência? Ao meu alcance, apenas resta-me falar sobre o que passa-me nesses dias, da forma mais crua, muitas vezes metafórica, e o mais detalhista possível. Eis que, além do meu espírito despedaçado, jaz aqui a minha cápsula do tempo. E esta é tomada por palavras e sua abertura depende das conspirações ardis que nunca poderei entender.

Não orgulho-me da minha história. É tão infrutífera e não exemplar. Porém meu ego, este sim, é uma fera arisca e com um espinho na pata.

Falta-me algo que não sei. Nasci incompleta, com muitas vontades, jeitos e sonhos, como um antigo VHS que não foi apagado por completo. Tenho saudades de rostos que não possuem olhos, narizes e bocas. Amo-os intensamente e nos meus pesadelos estes foram arrancados de mim como uma punição.

Salivo por gostos de comidas nunca experimentadas, por músicas que não posso partilhar e pelas peles que não posso tocar.

Sei que tenho algo a cumprir, uma meta, uma redenção que precisa ser alcançada. Só que, até este momento, falhei miseravelmente.

Todos que passaram pela minha vida deixaram suas marcas, impressões e causaram-me alguma ferida, umas foram curadas e outras deixaram cicatrizes. Mas chega a ser muito estranho a não existência de um entrelaçamento, cumplicidade e uma união de vivências, mesmo que brevíssima.

Nunca amei de fato. E isso não livrou-me das paixões e do amargor em minha língua. Só que todas as máscaras caíram, ídolos foram desfeitos e estátuas foram quebradas. Após o terremoto, sobraram corpos nus e anêmicos, cheios de indiferença e sedentos por uma presa. E antes que eles consumissem-me e eu a eles, enxerguei-os em essência - abutres carniceiros.

Dói-me tudo, músculos e ossos, espírito e cérebro. E esse é o meu tempo, minha atual existência e minha herança. Sou indigna, amaldiçoada e uma pária que não tem noção dos próprios pecados. Agarro-me a vida, pois, mesmo na lama, tenho resquícios de uma crença inerente.

Consola-me a possibilidade de ter vivido uma época imemorial, onde todos aqueles que um dia estimei estiveram ao meu lado. E esse andamento foi o suficiente para senti-los para sempre.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Triste, Louca ou Má

Ainda lembro-me daqueles sonhos românticos que espalhavam-se pela névoa da manhã. Era uma época juvenil e inocente. Não culpo-me mais por um dia tê-los cultivado e não os chamo mais de ilusão. Dentro de mim, tudo era poesia, liberdade e prazer.

E este tempo findou-se. Foi selado e guardado. E culpados existem, muitos até, conhecidos e desconhecidos, com seus nomes, sobrenomes, exalando o cheiro característico dos machos.

Gravei cada frase em um registro único e mental. Eis que há de tudo, de insultos puros e diretos até o machismo velado disfarçado de gestos marcados pela singeleza e gentileza,

E nesse universo, o meu novo vício surge: a novela Do Outro Lado do Paraíso, de Walcyr Carrasco. Ela é baseada no livro O Conde de Monte Cristo (1844), do francês Alexandre Dumas.

Assim, apresento a nova heroína da teledramaturgia brasileira: Clara. Difícil não identificar-se com ela, pois carrega um pouco de cada uma de nós.

Clara foi vítima de um relacionamento abusivo. Casou-se com seu algoz que travestiu-se de príncipe encantado. Ela foi estuprada pelo marido na noite de núpcias e apanhou muito dele ao longo do relacionamento. Por ser uma moça pobre que uniu-se a um homem rico, ela constantemente culpava-se, dizendo que não estava à altura dele. Precisou conviver com seu ciúme doentio e também passou por outro tipo de violência doméstica da qual muito não se fala: a violência patrimonial. Tudo foi-lhe tirado, sua herança (uma grande mina de esmeraldas), o filho e a liberdade. Foi interditada, através da corrupção, e considerada louca. Foi jogada em um hospício. Conseguiu escapar, ganhou uma grande fortuna e agora chegou a hora da sua vingança.

(um dos meus temas favoritos nas Artes é exatamente a vingança e todos os injustiçados que a praticam têm a minha admiração. Mas este é um assunto para outra hora...)

Nossa protagonista possui um tema musical em forma de hino. E é sobre o mesmo que gostaria de falar...

... O título desse texto.

Triste, Louca ou Má, uma canção do grupo Francisco, El Hombre, é uma referência aos adjetivos recebidos por mulheres que confrontam essa noção de que o homem, a casa e a carne são as coisas que as definem. 

Eu mesma já recebi esses adjetivos.

Uma vez um determinado rapaz leu alguns dos meus escritos. Ainda ecoa a palavra triste das poucas conversas que tive com ele. Ora, uma mulher que escreve sobre suas experiências e sentimentos não pode estar procurando outra coisa a não ser o consolo de um pênis e a proteção que somente o sexo masculino pode oferecer. Em sua cabeça, meus relatos mostram-me como uma fêmea desolada e amargurada.

A palavra louca, bem, foi uma das mais empregadas. Eu sofri, durante dois relacionamentos de naturezas bem distintas, violência psicológica. O primeiro foi o mais marcante. Continuamente eu era chamada de insana, mesmo com toda a razão ao meu favor. É o que chama-se hoje de de gas lighting, uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas e seletivamente omitidas para favorecer o abusador. Há o uso de mentiras com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria mente, percepção e sanidade. Vem em minha memória certa ocasião em que perguntei a esse homem sobre o sistema operacional de um determinado aparelho celular, algo muito trivial e corriqueiro. Mal fechei a minha boca e esta pessoa começou a alterar-se e chamar-me de desvairada e incapaz de lembrar que ela tinha explicado-me sobre aquilo anteriormente. Eu entrei num estado de estupor e choque. E mesmo sabendo que nunca foi-me explicado nada sobre o assunto, comecei a pedir desculpas e a duvidar de mim mesma. Fatos parecidos com esse foram tão frequentes que eu pensava não ser tão inteligente. No meu segundo relacionamento, se eu, por exemplo, não gostava de algo que meu ex achava muito bom, ele falava sem parar que eu era um embuste. Ele também usava frases isoladas e que foram ditas em um determinado contexto por mim como uma arma de repressão. Era um ciclo sem fim de tentativas de uma espécie de lavagem cerebral. Situações bizarras aconteciam o tempo todo. Se eu tinha cólicas menstruais e reclamava disso, escutava - Você está exagerando. Nem está sentindo dor. Isso é coisa da sua cabeça!  (Falo mais sobre esses fatos nessa postagem aqui - UM NAMORO FALIDO E VIOLENTO).

Já a denotação má... Tenho uma historinha boa à respeito. Em uma ocasião eu disse que não me dava bem com crianças, que não pretendia ter filhos e que elas pareciam muito ameaçadoras. Um colega taxou-me de malvada, que parecia que eu tinha um monstro dentro de de mim.

"Triste louca ou má
Será qualificada
Ela quem recusar"


Homens rejeitados podem ser muito cruéis. Eu já lidei com alguns. E tenho tantos relatos... Um desses moços, incapaz de dá-me prazer, diante da minha sinceridade e posterior recusa, usou a masculinidade ferida para despejar - você é frígida! 

"Seguir receita tal
A receita cultural
Do marido, da família
Cuida, cuida da rotina"


Um trecho perfeito para definir a cultura maldita da sociedade patriarcal.

"Só mesmo rejeita
Bem conhecida receita
Quem não sem dores

Aceita que tudo deve mudar"

O processo de reconhecer-se vítima de violência por ser apenas mulher é extremamente complicado e doloroso. Nesse meio, muitos dirão que você, por não querer agradar a um homem, por não pintar as unhas, vestir-se e maquia-se para ele, não passa de uma MAL AMADA ou, de forma simples, como disse meu ex-namorado, não sabe o que é ser uma mulher.

"Que um homem não te define
Sua casa não te define
Sua carne não te define
Você é seu próprio lar"


Uma mulher não precisa de um homem para ser respeitada, digna e completa. Ela basta-se, reside em si mesma, seu templo sagrado. Qualquer um que diga o contrário, mesmo com juras de amor, enxerga em sua frente apenas um objeto que quer possuir a todo custo.

"Ela desatinou
Desatou nós
Vai viver só"


Um dos trechos que mais me tocou. Em meu último relacionamento, meu ex, ao perceber que o fim estava próximo e a minha distância, sempre repetia - você, sem mim, vai viver só. Nunca vai encontrar ninguém com esse seu jeito e essas ideias. Você está destinada a solidão...


"Eu não me vejo na palavra
Fêmea: Alvo de caça
Conformada vítima
Prefiro queimar o mapa
Traçar de novo a estrada
Ver cores nas cinzas
E a vida reinventar"


E é assim que cada mulher deve agir, nunca conforma-se com a violência de qualquer aspecto e natureza. 

Sim, precisamos de renascimento através das nossas próprias ruínas, ter metas e destruir a roda da opressão.

Não é um caminho fácil. Haverá dedos que apontarão e bocas que jorrarão as denominações mais nocivas. 

Um passo de cada vez, por menor que seja, será o começo de uma grande nova vida.





quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Erítia

O meu eu voou para longe. 
Para além do horizonte
de tons avermelhados,
a morada dos deuses,
herois e amantes.

Um delírio
a consumir a alma.
Transpasso-me e
transponho-me.

Sou a libertinagem
de uma ninfa
em escarlate.

Dou-me nudez
em carne e
pensamento.

Banho-me em águas envoltas
por sangue vivo e quente.
Adentro-me em plenitude
em meu próprio espírito perdido.

Visto-me de luz
incandescente,
de grande rubor,
esplendorosamente
carmim.

Recaio em púrpura atmosfera
para então reluzir
na Ilha Vermelha
tingida pelo Pôr do Sol.

Encontro a sedenta paixão
em teu olhar secular.
Tu conhece-me e eu a ti.
E a ti pertenço e tu a mim.

E dissipa-se o tempo
com o vindouro crepúsculo.
Rompem-se os laços e
Trincam os rubis.

A distância fez-se presença
E a separação a realidade.

T.S. Frank




segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Crítica da Semana: Alma Gêmea (Soulmate/2013)

Altamente despretensioso e baseado, praticamente, na interação entre dois personagens. Mas não se engane por sua simplicidade - é um filme bem interessante.

O senso comum quase sempre aponta a coqueluche do terror e do suspense para as produções americanas. Entretanto, há alguns poucos anos, esse cenário vem mudando. Trabalhos independentes de vários outros países ganham mais destaque. Foi assim, recentemente, com os ótimos Boa Noite, Mamãe (Ich Seh Ich Seh/Áustria/2014) (crítica do CQeSherlock aqui) e Invasão Zumbi ( 부산행 Busanhaeng/Coréia do Sul/2016). Também pode-se dizer, com propriedade, que as produções de língua espanhola, no circuito Argentina-México-Espanha, possuem grandes méritos e são uma escola de referência.

E junta-se a essa lista os britânicos, com seus filmes não muito longos, com cenários modestos, campestres, usando o próprio cotidiano e um orçamento baixo que dá muita ênfase as boas atuações e a roteiros de qualidade. Vide o excelente Extermínio (28 Days Later/2003) (crítica do CQeSherlock aqui). E é nesse âmbito que aparece-nos Soulmate (Reino Unido/2013), uma grata surpresa para quem não prende-se somente ao famoso jump scare (a tão banalizada técnica do susto a qualquer custo).

Anna Walton
Temos uma construção de enredo até bem simples - Audrey (Anna Walton), uma mulher devastada pela perda de seu marido em um acidente de carro, tenta o suicídio. Entretanto é salva por sua irmã Alex (Emma Cleasby). Depois desse fato, ela decide que o melhor é isolar-se por um tempo no campo. No primeiro dia, Audrey encontra dois moradores locais, Theresa (Tanya Myers) e o marido, Dr. Zellaby (Nick Brimble), que falam sobre o proprietário anterior da casa, Douglas (Tom Wisdom), que suicidou-se há 30 anos. Logo a nova residente do imóvel começa a ouvir ruídos estranhos e percebe uma porta trancada. Ao conversar novamente com o Dr. Zellaby, ela descobre que essa está fechada desde a morte de Douglas. Eventualmente os ruídos tornam-se mais fortes. Então, ao abrir a porta, Audrey encontra vários pertences do antigo morador, incluindo as cartas de sua noiva Nell (Rebecca Kiser). Neste ponto, Douglas começa a manifestar-se dentro da casa, revelando-se a Audrey. Os dois são capazes de conversar um com o outro, estabelecendo um vínculo emocional, mesmo que não possam interagir fisicamente. No entanto, com o passar dos dias, surgem dúvidas sobre as verdadeiras intenções de Douglas - ele pode ser apenas uma alma parecida com Audrey ou uma manifestação sinistra e maquiavélica.

Tom Wisdom
Confesso que assisti, a princípio, por causa do Tom Wisdom, um ator muito bom, requintado e que tem uma bela presença cênica (ele é mais conhecido, injustamente, pela série do canal Sci-Fi, já cancelada, Dominion). Foi complicado conseguir uma cópia, pois é considerada rara aqui no Brasil. E não para por aí - dublagem ou legendas (mesmo em inglês) não estão disponíveis em parte alguma deste planeta. Tentei, depois de saborear a minha cópia do submundo, comprar o streaming com legendas na língua inglesa pela Amazon Prime dos Estados Unidos e não deu certo de jeito nenhum - precisa-se de um cartão de crédito e endereço de lá. Mas importar o DVD está nos meus planos.

Finalizo com uma certeza: um horror britânico, de classe, que recomendo firmemente!


***

Trívias sobre o filme Alma Gêmea (Soulmate /2013)


Cena removida do filme!
A versão britânica do filme teve a cena de abertura original, em que Audrey (personagem de Anna Walton) tenta se matar, retirada. Isso ocorreu por conta da British Board of Film Classification - BBFC achar que isso poderia ser um incentivo ao suicídio.

A película levou quatro anos para ficar pronta. Mas as filmagens deram-se em apenas 24 dias.

O ator que interpreta o marido morto de Audrey é o Fotógrafo da Produção.

Nick Brimble (que interpreta o Dr. Zellaby) só se juntou à produção uma semana antes dela começar a ser rodada, substituindo um ator que foi contrato anteriormente.

O Diretor de Fotografia original abandonou o projeto um mês antes das filmagens.

O papel de Audrey foi escrito tendo Anna Walton em mente.

Diversos diretores passaram pelas etapas de filmagem.

Nick Brimble filmou seu papel em 6 dias.

Nick Brimble ficou perplexo com os aspectos do personagem do cachorro.

O cachorro, à proposito, chama-se Anubis e sua dona é a diretora Axelle Carolyn.

Emma Cleasby (que interpreta Alex) filmou seu papel em 2 dias.

Neil Marshal (Produtor Executivo e sim, esse mesmo, diretor dos filmes Centurião/2010, Abismo do Mesmo/2005, o novo Hellboy e de muitos episódios de séries famosas, como Game of Thrones...) fez uma breve aparição na película (o famoso termo cameo).

Neil Marshal, na época, era casado com a diretora/escritora do filme, Axelle Carolyn (estão, neste momento, em processo de divórcio).

Tom Wisdom juntou-se, após um breve comunicado, ao elenco. A escolha original havia desistido.

A escritora/diretora Axelle Carolyn tinha uma coluna regular em uma revista americana dedicada aos fãs de Terror, a Fangoria.

Muitos membros do elenco juntaram-se a produção em diversas etapas das filmagens, para desistirem de participar logo em seguida.

Trailer



Cena, na íntegra, removida do filme 
ATENÇÃO: IMAGENS FORTES!
TENTATIVA DE SUICÍDIO!



Fontes

Alma Gêmea (Soulmate) - Wikipédia em Inglês
Alma Gêmea (Soulmate) - Rotten Tomatoes - Site em Inglês
Alma Gêmea (Soulmate) - IMDb - Site em Inglês
Alma Gêmea (Soulmate) - Filmow - Site em Português
Cena de abertura de Alma Gêmea (Soulmate) é retirada pela BBFC - Artigo em Inglês
Axelle Carolyn - Wikipédia em Inglês
Neil Marshall - Wikipédia em Inglês

Outras mídias

Instagram da Diretora Axelle Carolyn
Twitter da Diretora Axelle Carolyn

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Aprisionamento

Mais cedo tentei juntar algumas palavras. Não consegui. O ambiente não é tão favorável assim. E tenho que dizer que sou uma fraca por isso.

Ora! Dostoiévski escreveu Crime & Castigo e outras de suas fantásticas obras em condições extremamente angustiantes, como sua situação com as dívidas, a pobreza e a iminência da prisão. E eu mal redigi umas parcas linhas desconexas e logo tive um dissabor como resultado final. Eu sou uma grande piada!

Estou imersa em grande dilema. E queria contar tudo sem assemelhar-me a esta gente frívola dessa época.

É que... Sim... Eu perdi a vontade e o interesse no curso de Física. Eu não o quero mais! Soa simples, afinal, é só uma faculdade.

E o que eu estou fazendo para contornar essa situação? Pois bem, tenho colocado currículos incessantemente por aí e fiz o ENEM para uma possível permuta na Universidade. Estou prestes a completar trinta e dois e quero a minha vida só para mim. E pronto! Já tenho uma profissão, tenho registro e uma pós graduação prestes a terminar.

Parece muito e é de fato. Entretanto não é o suficiente para minha família. E nunca chegarei a alcançar as metas do sucesso ideal dela.

Eu tentei, por diversas vezes, descrever o meio no qual em cresci. E os rascunhos acabaram no cesto de lixo. Essa é uma tarefa, além de excruciante, difícil de realizar. Posso começar por dizer que é um povo muito religioso e temente a um Deus que castiga muito e ama fantoches.

Meu problema maior concentra-se no núcleo principal. Só que os entornos, assim por dizer, são a encarnação do mal em essência. E os dias são repletos por um falatório sem fim sobre esses familiares que, pelos dois lados sanguíneos, são vulgares e muito alienados em diversas áreas do conhecimento.

Eu simplesmente cansei! Estou farta! Sou um reflexo monstruoso da culpabilidade causada pelas miserabilidades alheias.

A verdade é que sinto que não poderei ter algo somente meu em matéria ou espírito.

Lembro-me de uma conversa em que falei que eu era incompatível espiritualmente com a família dessa existência. E esta sensação fica mais e mais clara à medida que envelheço. E ela estende-se para o círculo de conhecidos também.

Semana passada, um rapaz, da época da minha primeira faculdade e que está morando em outro estado, perguntou se não haveria a possibilidade de, alguma hora, eu passar alguns dias com ele por aquelas bandas. Minha primeira reação foi pensar comigo mesma: - Pobre coitado! Como ele ainda pode, depois de tanto tempo, ainda ter algum sentimento por mim? Eu nunca gostei dele e fico indagando-me sobre a minha real intenção, mesmo que brevemente e naquela época, em alimentar suas ilusões. Logo eu cheguei a uma cruel conclusão: Enganei muita gente! E para quê? Para obter prazer? Muito difícil. Nenhum homem conseguiu satisfazer-me e a recordação dos seus rostos são ondas amareladas, como tardes sufocantes pela fumaça das industrias. Com certeza ainda estou procurando por uma resposta plausível para estas empreitadas sem sentido.

Se eu amei? Todos amam um alguém. Mas acredito que esse meu sentimento puro, platônico, por uma alma parecida e íntima, não consumou-se por razões que estão além do meu entendimento atual. Espíritos que têm afinidades, talvez pelo chamado carma, encontram-se somente de passagem para assim evitar tragédias e tristeza. E isso foi há dezesseis anos. Tempo suficiente para ainda ser um pouco doce.

Eu também apaixonei-me - resultado de falha e da necessidade de preenchimento. E são esses os caminhos que levam a um entusiasmo doentio, incrustado pela toxidade. Eu ainda posso sentir o amargor do veneno...

Sou uma cativa que costura uma colcha de retalhos. E cada pedaço dela tem uma utopia -  êxtase, Supernova, romances, nebulosas, céus estrelados e um beijo ardente com Cassiopeia, ao fundo, no céu de um verão frio de dezembro.

Eu era apenas muito jovem e inocente... O tempo passou e tornei-me uma incrédula.

Vesti-me de Icarus. E neste momento estou em queda livre.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Erotismo

Álbum Lovedrive/1979
Scorpions
A madrugada abriga-nos
em beijos ardentes
com notas lascivas
de dizeres estridentes .

Consumo teu espírito
e penetras tu a minha carne
para terminamos em arcos
brilhantemente goticulados.

Nua estou
e em nuances
formo-me.

Somos a representação
da sedução das horas
mais adentro.

Venhas a mim
e mata a tua sede
toma-me em
corpo e deleite.

Mas assim
que a Aurora
despontar
de mim
nada lembrarás.

Sou apenas teu desejo
e tua utopia.

Porque no fim...
Seremos apenas
veraneios de solidão.




domingo, 29 de outubro de 2017

Cronicidade

"Estou preso em uma fantasia, 
não posso acreditar nas coisas que eu vejo.
O caminho que escolhi, agora, levou-me a um muro.
E, a cada dia que passa, sinto mais e mais
como se algo estimado tivesse sido perdido.
Levanta-se, agora, diante de mim,
uma barreira de silêncio e escuridão entre
tudo que sou e tudo que eu queria ser.
É apenas uma farsa, elevando-se,
marcando os limites que meu espírito
poderia apagar." 

(The Wall, canção por Kansas, escrita por Livgren
 e Steve Walsh. Leftoverture/1976)


Não sabia se voltava a escrever. E isso arrastou-se por alguns bons dias. E se você perguntar-me o porquê, responderei prontamente pela escrita de hoje.

Há um tempo venho oscilando como um pêndulo frio de metal. Percebi que morri, não por completo, mas estou esvaindo-me em forma de poeira.

Carrego uma tristeza imensa e meu peito pesa. E isso piorou muito por eu ter voltado a morar com a família. São relações muito delicadas, construídas muito debilmente. Sinto-me extremamente oprimida e um grande fracasso.

Ao chegar nesse ponto, indaguei-me se alguma vez, nessa vida deprimente, eu deixei de ver-me dessa maneira. E a resposta assustou-me. Pois, analisando toda a minha trajetória, vi que eu estava desde sempre mergulhada na lama do eu desacreditado.

E eu também faço-lhes uma pergunta: como conseguem ler esses textos? Quem quer saber de tristura e melancolia em um mundo tão esfuziante como esse? Cheio de possibilidades e arcos coloridos.

Sou uma escritora desonrosa, apática e que traz um mundo pálido e cinza. Se todos os meus textos fossem impressos, não me surpreenderia que fossem estes queimados em grandes labaredas.

O impuro deve ser purificado pelo fogo, não é o que dizem?

Talvez seja hora de assumir que estou doente mentalmente.

A minha dor na coluna voltou. E, como todo padecimento permanente, esse é um daqueles momentos de crise que pode durar dias. E, mesmo que eu tente, nunca saberei detalhar o medo que sinto quando ela reinstalar-se em mim. Não é somente a dor física, se assim o fosse, viveria como todos os que têm uma discopatia degenerativa - agarrando-me a grandes esperanças. Junto com esse calvário, eu enfrento acusações, caras de desgosto e as piores profecias... Ah, esses oráculos... Penso eu que nasci amaldiçoada.

Há três dias eu só quero dormir e ficar no escuro, quieta e imóvel. Estou quase num estado de estupor. Não tenho vontade de sair, nem de conversar com ninguém. Olho algumas pessoas e já as considero minhas inimigas mortais. Deixei muitos conhecidos de lado. Outro dia mesmo tratei um friamente, sem muita conversa e o encarava com certa antipatia. Disfarcei-me com cordialidade. As minhas veneradas imagens foram quebradas pelas suas verdadeiras faces monstruosas, suas sujeiras, ambições e crimes.

Gostaria de não acordar mais. E o mais estranho disso tudo é que eu caí neste novo buraco em menos de uma semana. Eu estava um pouco alegre anteriormente, pois tinha posto na minha mente que tentaria achar uma solução para todos os meus problemas e começaria uma nova caminhada.

E esse castelo de areia desmoronou todo nas minhas mãos.

Andei sempre pelas sobras. E, a cada estação, sou assassinada por asfixia.

É... Hoje eu pensei em morrer. E vislumbrei os aborrecidos que causaria por conta dos preparativos para o funeral. Bizarro também foi pensar no falatório sobre a minha alma perdida...

Sim... Eu sou pessimista, e isso potencializa-se com a dor que sinto na lombar. Eu só estou bem cansada.

Será que algum vivente nesse mundo pode compreender essa minha angústia?

A única coisa que restou-me foi beber um café e olhar para o céu azul que nunca irei desfrutar.

Deus tenha piedade do meu espírito, pois, além de uma grande pecadora, com toda certeza, eu carrego uma grande calamidade dentro de mim.



quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Unilateralidade nas conversas - uma reflexão sobre os seres humanos in natura

Outro dia, por aqui mesmo, falei do meu gosto por escutar histórias de outras pessoas. Um lado egoísta que revelei sem muito pudor, afinal, isso tira-me do tédio absoluto. Porém, contrariando o meu lado demoníaco, tornei o relato disso extremamente ameno, limitando-me a falar de uma parcela pequena, aquela dos relatos interessantes e instigantes.

Sim, a maioria dessas narrações é um suplício sem precedentes, vulgar, murcha, comum, advinda de gente ainda mais comum, com seus casos amorosos e problemas que não venderiam uma linha sequer em um classificado de anúncios baratos. Enquanto tagarelam, presto atenção nos movimentos de suas bocas e línguas. Os homens, admito, são os meus objetos favoritos nesse parte.

E eu já escutei de tudo nessa vida - Ah, meu bom Deus, quanta paciência tenho...

Pois bem, a política das trocas não funciona nessa situação. E eu explico - essa gente não tem a mesma disposição para ouvir. Falta-lhe um certo senso, mesmo que possa ser fingido, de fascínio pelo semelhante (a não ser que esse seja de interesse sexual, romântico ou econômico.).

Por ser teimosa, aplico-me a autoflagelação de contar alguns fatos da minha vida para alguns desse círculo. E, como esperado, recebo umas poucas linhas com frases pré-fabricadas como resposta. Muitas vezes essas até demoram, ou, sendo clássica, o silêncio ensurdecedor da indiferença deles ecoa pelo ar.

E aconteceu mais uma vez por esses dias. Eu descobri a verdadeira história por trás das ações de um ex caso de alguns anos atrás, a paixão avassaladora da minha vida. E num ímpeto de partilhar a história bizarra, mergulhada em um total frenesi, contei tudo a uma conhecida.

E, bem, veio-me, depois de ser extremamente cozinhada, duas frases resumidas como resposta em um aplicativo de celular desses bastante comuns agora. E olha que eu praticamente narrei um livro em áudio para ela...

O mais interessante nisso tudo é que esta mesma pessoa é uma das muitas que encaixa-se fielmente nas linhas iniciais desse texto. Em outro momento, não muito distante desse, contou-me ela sobre sua vida atual, problemas e dúvidas. Eu dei um suporte específico em uma situação grave até. Obviamente, os supostos amores, assunto preferido da unanimidade, foi o carro-chefe nesse confessionário. Cabe-me aqui dizer que sua limitação é notada às vistas. Porém acreditava que, culpando de antemão um desvario meu, este ser, ao menos, não tornaria-se monossilábico e enlatado - Que grande, grande engano!

Mais adiante vi, por meio de uma rede social (o oráculo das podridões), que a mesma estava ocupada estudando e... Escutando música... Certo, ora! Um motivo justo. Não, calma aí um bocadinho... Quando suas lágrimas vieram à tona e ela precisava urgentemente desabafar, não lembro-me de ser indagada se eu estava ocupada... O que recordo-me é de ter dito - Vem agora para cá!

Por mais frívolas e restritas que determinadas pessoas possam aparentar ser (e de fato é assim), elas, em seus instintos primitivos, tem a esperteza intrínseca em sua essência. O ser humano é, naturalmente, egoísta. Um fato. Mas alguns, lapidados e muito maquiavélicos, conseguem mascarar essa predisposição em benefício próprio, teatralizando e suportando muitas situações que odeiam. Uma hora, ou outra, isso servirá. Já os primeiros... Acabam afundados em sua lama, procurando outros para contar suas proezas de botequim.

Chafurdar na areia com água é a vida de muita gente. E eu gosto muito de observar esse cenário - há algo de muito misterioso na degradação humana.

Contudo deixo aqui meu agradecimento a esses seres tão convidativos. Se não fosse por suas vidas tolas e seus atos odiosamente grotescos, metade dos meus escritos não existiria.