Hoje pensei em um outro cenário. E foi assustadora a sensação de alívio e leveza por uns instantes. Eu até consegui imaginar como não é mais ter dor crônica.
Eu descobri o valor da desistência.
E da mudança urgente com suas nuances.
E eis que eu explico...
Muitas postagens desse blog falam sobre a realização de um sonho e esse era o curso de Astronomia. Só que, devido as imensas dificuldades, tive que optar por Física. E é inegável que, ao longo dos anos, tornou-se ela mais um dos grandes pesadelos da minha vida.
Sim, eu arrependo-me. E ao mesmo tempo sei que foi necessário.
Não há nada no curso que faça-me feliz. Não há ninguém para admirar, nem para seguir e muito menos para conversar.
Só há uma imensa infelicidade, dores de cabeça, doenças psicológicas que viraram físicas, inimizades, desconfiança, falsos amigos, baixa auto estima, cobranças extremas e muita culpa.
Sinto-me incapaz e bem deslocada. E é bem difícil admitir que eu deveria ter feito uma mudança quando ela era necessária.
Sofro com dor lombar crônica desde o primeiro dia de aula nesse curso. Foi como um grande aviso da tormenta que viria do leste. E essa dor, quase certamente, não cessa por eu viver ameaçada e amedrontada, sem ter com quem compartilhar todas as minhas angústias.
São 6 anos de médicos, fisioterapias inúteis, uma rizotomia que não surtiu efeito, remédios fortíssimos e o mais agravante - aquele velho sentimento de que eu não tenho o direito de falhar nem sequer com a minha própria doença. Que apesar do martírio que eu vivo, são os outros que vivem atormentados pelos problemas que eu causo.
Hoje estou sem plano de saúde. E não posso ir tão cedo ao médico.
Cotidianamente eu escuto que tornei-me um fardo, um descrédito, alguém que PASSOU DO PRAZO DE VALIDADE.
Por mais que eu ame a ideia de trabalhar com Ciência, o lugar, o curso oferecido, o material humano, colegas e professores tiraram todo o brilho do meu sonho. Aliás, tiraram muito mais do que isso - eu não sinto-me digna de um dia possuir algo bom ou de merecer alguma estabilidade e felicidade.
Estou vazia e trincada.
É hora de mudar, inevitavelmente.
Preciso de liberdade, respeito e consideração. Eu não tenho isso na faculdade e muito menos na minha vida.
E é a partir desse ponto que terei que fazer algo que não gosto muito, mas que a necessidade faz-me reconsiderar - estudar para concursos públicos. E se eu passar em algum, sim, eu poderei refazer a minha vida e tentar colocar algum sentido nela.
Quem sabe eu não chore mais, todas as noites, por ter dor crônica.
Não quero ser mais o estorvo.
Quero apenas ter a chance de ser eu mesma.
E não levarei ninguém da minha antiga vida. A lembrança de seus rostos é, gradualmente, queimada em uma grande fogueira, um por um...
Se eu pudesse, eu trocaria até mesmo de nome, desapareceria por um longo tempo e sentiria o gosto de tudo o que me foi negado.
Daqui por diante não escreverei mais sobre esse devaneio que não mais existe.
Pretendo apenas relatar a minha luta pela minha própria sobrevivência.
E no dia que eu disser que finalmente sinto-me liberta, eis que a velha roupa cinza nunca mais será vestida.
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
domingo, 22 de janeiro de 2017
De quem é a culpa?
Eu tenho muitos sonhos recorrentes. A maioria é como ver um filme do David Lynch. Eu até já descrevi um aqui no Blog (link para a postagem aqui). Só que há um cenário que entra em um modo chamado looping.
Eis o relato...
"Eu acordei bem angustiada. De fato, o sonho todo foi sufocante e intenso. Eu estava revivendo um terror juvenil – a escola. Lá estavam as mesmas pessoas que um dia transformaram minha vida em um inferno sem precedentes, deleitando-se todos em pura maldade. Tudo era igual, a sala, as árvores, as ruas... Eu estava imersa no fracasso total, questionando os métodos, não entendendo o conteúdo, odiando os professores, faltando às aulas. Eu fui uma aluna exemplar na vida real. Só que, neste pesadelo, eu era um ponto fora da curva. A sensação de inquietude e desespero reinavam. Eu estava na ponta de um abismo de conflitos existenciais. Eu tinha medo que meus perseguidores arrancassem os meus desejos, afinal, eles estavam novamente ali, tão próximos. Parecia mais um jogo sádico. E, mesmo com toda a tristeza que pesava dentro de mim, eu estava perseguindo a Lua - grande e paradoxal - que estava aproximando-se. Meus olhos não saíam do céu. E era uma espera conflitante, cheia de dúvidas. Pedi a quem estava próximo para chamar-me quando ela surgisse. Mas não fizeram isso por mim - eu mesma tive que achá-la no firmamento. Eu, finalmente, estava prestes a colocar minhas mãos naquele astro imenso e significativo - tudo que eu sempre quis. Porém, de repente, saí e deixei para os outros, pois tinha medo e uma sensação de frustração. Eu estava abandonando as recompensas de toda uma espera. Não existia mais prazer e muito menos olhos para contemplá-la."
Após despertar, eu tive um lampejo de felicidade ao constatar que não era real. Só assim todo o peso e angústia foram dissipando-se. Fiquei horas pensando no que tinha acabado de acontecer e o que tudo aquilo significava. Então eu pesquisei no Google, achando alguns significados:
Sonhar com o passado - o sonho de viver no passado indica reflexão sobre alguma coisa que não foi resolvida e que, aos poucos, vai descortinando-se na própria mente. Sonhar vivendo no passado possui o significado de uma possível regressão e de uma vida diferente.
Sonhar com pessoas do passado - ver pessoas do passado em um sonho indica incertezas profundas quanto ao futuro. Somente quando estamos preocupados com o futuro é que nos voltamos para o passado. A incerteza é uma das maiores tiranas dos homens e os persegue para sempre, posto que a única coisa que temos de concreto é que um dia deixaremos esta vida. Sonhar com pessoas do passado é desnudar anseios e vê-los diante de nós com um ponto de interrogação enorme, fazendo a velha pergunta existencial: ser ou não ser!
Sonhar com a Lua - sonhar que procura a Lua e não a encontra significa que o seu momento é de baixa e de grandes decepções. Sonhar que está contemplando a Lua significa que sua alma está sentindo-se mais livre e espontaneamente carregada de boas energias. Neste contexto, pode-se abrir um precedente que nos faz refletir sobre a capacidade de evolução.
Apesar de todo o misticismo envolvido nas interpretações, não pude deixar de notar a grande semelhança com os acontecimentos atuais e o meu próprio estado de espírito.
Há um tempo eu venho fazendo-me a pergunta: de quem é a culpa pela tristeza da minha vida que reflete-se até mesmo no sono?
Se eu fosse uma religiosa fervorosa, eu diria que a culpa é totalmente minha. Talvez se eu fosse a um psicólogo, ele diria a mesma coisa, mas de uma maneira mais suave.
Quase cotidianamente, convidam-nos a achar que somos exclusivamente o nosso próprio inimigo. E que, para aniquilar essa personalidade destrutiva, perdoar em massa é a única solução. O resto é seguir em frente. Parte dessa cartilha de martírio e desnudez é necessária sim. Mas segui-la à risca é tornar-se um bobo desnecessariamente.
É claro que perdoar e apagar as mágoas passadas retira um peso do próprio corpo. Afinal ninguém quer ser Atlas. Contudo estes dois atos devem ser feitos com cuidado e refinamento justamente para ajudar e não deixar a sensação de vulnerabilidade e de uma pessoa que esquece tudo facilmente.
Eu não posso retirar o passado e a lembrança das pessoas más de mim. Eu gostaria, entretanto não posso.
Eu consigo, somente, amenizar algumas dores e desculpar algumas que mostraram merecimento. Tolice grande é perdoar aqueles que não admitem o erro, que acham que estão certos e orgulham-se de ser opressores.
Está semana, como comentei em uma postagem anterior, estava preparando-me para conversar e pedir desculpas para alguém que há muito não falava. De fato, eu também o perdoei por uma história do passado. E sabe por quê? Pois, passados 4 anos, eu descobri os que realmente foram responsáveis por incentivarem o rancor.
E sobre as outras pessoas? Talvez eu nunca as perdoe. Por que eu trataria a mim mesma como vilã quando na verdade fui vítima? É algo que muitos fazem e eu não consigo entender. Isso é bem diferente de quando há redenção, pedido de desculpas. É uma outra história quando você sente que magoou alguém.
Hoje mantenho-me o mais longe possível daqueles que um dia fizeram-me algum tipo de mal. Eu convivo bem com a solidão. O que não suporto é a proximidade dos iconoclastas, falsos admiradores e críticos destrutivos.
Concluí que a culpa não é minha somente.
E depois do devido reconhecimento, o que fazer?
Não sei, de fato. Tudo é tão incerto. É um sabor amargo, um desprazer...
Não sintam pena, seria humilhante. Se for para sentir algo, que seja empatia e compreensão.
E é isso que todos os que são magoados precisam...
Eis o relato...
"Eu acordei bem angustiada. De fato, o sonho todo foi sufocante e intenso. Eu estava revivendo um terror juvenil – a escola. Lá estavam as mesmas pessoas que um dia transformaram minha vida em um inferno sem precedentes, deleitando-se todos em pura maldade. Tudo era igual, a sala, as árvores, as ruas... Eu estava imersa no fracasso total, questionando os métodos, não entendendo o conteúdo, odiando os professores, faltando às aulas. Eu fui uma aluna exemplar na vida real. Só que, neste pesadelo, eu era um ponto fora da curva. A sensação de inquietude e desespero reinavam. Eu estava na ponta de um abismo de conflitos existenciais. Eu tinha medo que meus perseguidores arrancassem os meus desejos, afinal, eles estavam novamente ali, tão próximos. Parecia mais um jogo sádico. E, mesmo com toda a tristeza que pesava dentro de mim, eu estava perseguindo a Lua - grande e paradoxal - que estava aproximando-se. Meus olhos não saíam do céu. E era uma espera conflitante, cheia de dúvidas. Pedi a quem estava próximo para chamar-me quando ela surgisse. Mas não fizeram isso por mim - eu mesma tive que achá-la no firmamento. Eu, finalmente, estava prestes a colocar minhas mãos naquele astro imenso e significativo - tudo que eu sempre quis. Porém, de repente, saí e deixei para os outros, pois tinha medo e uma sensação de frustração. Eu estava abandonando as recompensas de toda uma espera. Não existia mais prazer e muito menos olhos para contemplá-la."
Após despertar, eu tive um lampejo de felicidade ao constatar que não era real. Só assim todo o peso e angústia foram dissipando-se. Fiquei horas pensando no que tinha acabado de acontecer e o que tudo aquilo significava. Então eu pesquisei no Google, achando alguns significados:
Sonhar com o passado - o sonho de viver no passado indica reflexão sobre alguma coisa que não foi resolvida e que, aos poucos, vai descortinando-se na própria mente. Sonhar vivendo no passado possui o significado de uma possível regressão e de uma vida diferente.
Sonhar com pessoas do passado - ver pessoas do passado em um sonho indica incertezas profundas quanto ao futuro. Somente quando estamos preocupados com o futuro é que nos voltamos para o passado. A incerteza é uma das maiores tiranas dos homens e os persegue para sempre, posto que a única coisa que temos de concreto é que um dia deixaremos esta vida. Sonhar com pessoas do passado é desnudar anseios e vê-los diante de nós com um ponto de interrogação enorme, fazendo a velha pergunta existencial: ser ou não ser!
Sonhar com a Lua - sonhar que procura a Lua e não a encontra significa que o seu momento é de baixa e de grandes decepções. Sonhar que está contemplando a Lua significa que sua alma está sentindo-se mais livre e espontaneamente carregada de boas energias. Neste contexto, pode-se abrir um precedente que nos faz refletir sobre a capacidade de evolução.
Apesar de todo o misticismo envolvido nas interpretações, não pude deixar de notar a grande semelhança com os acontecimentos atuais e o meu próprio estado de espírito.
Há um tempo eu venho fazendo-me a pergunta: de quem é a culpa pela tristeza da minha vida que reflete-se até mesmo no sono?
Se eu fosse uma religiosa fervorosa, eu diria que a culpa é totalmente minha. Talvez se eu fosse a um psicólogo, ele diria a mesma coisa, mas de uma maneira mais suave.
Quase cotidianamente, convidam-nos a achar que somos exclusivamente o nosso próprio inimigo. E que, para aniquilar essa personalidade destrutiva, perdoar em massa é a única solução. O resto é seguir em frente. Parte dessa cartilha de martírio e desnudez é necessária sim. Mas segui-la à risca é tornar-se um bobo desnecessariamente.
É claro que perdoar e apagar as mágoas passadas retira um peso do próprio corpo. Afinal ninguém quer ser Atlas. Contudo estes dois atos devem ser feitos com cuidado e refinamento justamente para ajudar e não deixar a sensação de vulnerabilidade e de uma pessoa que esquece tudo facilmente.
Eu não posso retirar o passado e a lembrança das pessoas más de mim. Eu gostaria, entretanto não posso.
Eu consigo, somente, amenizar algumas dores e desculpar algumas que mostraram merecimento. Tolice grande é perdoar aqueles que não admitem o erro, que acham que estão certos e orgulham-se de ser opressores.
Está semana, como comentei em uma postagem anterior, estava preparando-me para conversar e pedir desculpas para alguém que há muito não falava. De fato, eu também o perdoei por uma história do passado. E sabe por quê? Pois, passados 4 anos, eu descobri os que realmente foram responsáveis por incentivarem o rancor.
E sobre as outras pessoas? Talvez eu nunca as perdoe. Por que eu trataria a mim mesma como vilã quando na verdade fui vítima? É algo que muitos fazem e eu não consigo entender. Isso é bem diferente de quando há redenção, pedido de desculpas. É uma outra história quando você sente que magoou alguém.
Hoje mantenho-me o mais longe possível daqueles que um dia fizeram-me algum tipo de mal. Eu convivo bem com a solidão. O que não suporto é a proximidade dos iconoclastas, falsos admiradores e críticos destrutivos.
Concluí que a culpa não é minha somente.
E depois do devido reconhecimento, o que fazer?
Não sei, de fato. Tudo é tão incerto. É um sabor amargo, um desprazer...
Não sintam pena, seria humilhante. Se for para sentir algo, que seja empatia e compreensão.
E é isso que todos os que são magoados precisam...
E todo mundo se magoa às vezes.
Às vezes tudo está errado. (REM, Everybody Hurts, 1992)
terça-feira, 17 de janeiro de 2017
Crime & Castigo
São apenas alguns minutos para a metade do dia. Mas bem antes disso, eu já estava desfeita em minúsculos pedaços. E cada um desses tinha algum rosto, donos de tristes lembranças e muita desilusão.
Minha vida é um carrossel, girando, girando... Intensamente pela vida... Porém cavalgando presa em meus erros.
Decidi comer fora. Apenas saí sem muito alarde. Só que, como sempre, até mesmo esse pequeno ato cotidiano tem seus pesares. E é extremamente bizarro o porquê disso. Talvez eu, um dia, consiga achar as palavras certas para explicar o que ocorre.
Sentei-me só. E isso foi de uma paz inexplicável. Nunca entenderei essa imensa necessidade alheia, quase doentia, de fazer qualquer refeição acompanhado.
Aliás, a solidão seria mesmo um castigo? Ou as companhias erradas, as migalhas de sentimento e a eterna busca da aceitação são bem piores? Perguntei-me isso anteriormente. E a resposta está em meu próprio comportamento.
Quando desapareço da vida de alguém é, de fato, a sentença máxima para muitos dias e minutos pela busca da verdade - por que esta criatura entrou em minha vida para fazer isso? É claro que eu deixei e não vou me eximir dessa contribuição. Só que muitos crimes e atrocidades são cometidos exatamente por aqueles em que deposita-se a fé.
Como em um grande tribunal, a investigação é cheia de sofrimento. E mesmo a punição máxima não é capaz de apagar as marcas - somente amenizar as sequelas.
Só há uma ressalva nisso tudo. Apesar de copiar o Mr. Darcy na afirmação de que minha boa opinião uma vez perdida é para sempre, tenho que falar claramente sobre uma única exceção.
E a seguir relato...
Há muito tempo eu gostei de alguém. Não é o mesmo de tantas histórias tristes, não trata-se do grande e inesquecível amor, o destrutivo e amargo. Foi um relacionamento brevíssimo, uma tentativa... Contra tudo e todas as opiniões.
Só que várias desventuras e confusões sobre o que sentíamos e o que realmente éramos causaram um grande rompimento. A maior e, talvez, única ira partiu de mim, alimentada por afirmações de inúmeras pessoas.
E assim foi até outro dia.
Entretanto a vida sempre dá um jeito de revelar o que estava escondido e as reais intenções daqueles que circudam, os próximos... Sempre eles.
Desnudada a acre verdade, tive que reconsiderar a redenção, afinal eu estava cega e envenenada, cheia de rancor e extremamente quebrada.
Todas as máscaras caíram. E o único que permaceu intacto diante desse terromoto foi justamente ele.
Alguém já agiu como mediador dessa tarefa um pouco estranha para mim. E ele, em um primeiro contato, mostrou-se disposto a conversar.
Agora mesmo, tento pensar em como desculpar-me pelo imenso engano. A angústia da espera pelo perdão equivale a pedi-lo. Entretanto não deixo de considerar se minhas mágoas também não mereceriam consolo.
Mesmo assim, é um peso que preciso tirar da minha alma.
Dito tudo isso acima...
A premissa básica para o entendimento do meu próprio ser passa longe até mesmo de mim. E não há nada mais egoísta e opressor do que a fala "conheço-te bem..." proferida ousadamente por pessoas que são ou foram próximas.
Todos os que já utilizaram tal falácia agora residem em outras dimensões trancadas por mim e longe do meu olhar.
Não sou uma pessoa fácil. E, se fosse, não teria consciência do maravilhoso universo de possibilidades, longe da vulgaridade e extravagância.
Não há nenhum erro que não deixe cicatriz. Mas também não há nenhuma personificação dele que não possa ser extinta.
domingo, 15 de janeiro de 2017
Lágrimas Por Um Amor Perdido (Tears For Lost Love) - Flauta Nativa Americana - NAF
Lágrimas Por Um Amor Perdido
Flauta (em bambu) Nativa Americana, chave em F, pentatônica
Tocada por T.S. Frank
Tears For Lost Love
Native American Bamboo Flute, Key F, pentatonic,
Performed by T.S. Frank
Flauta (em bambu) Nativa Americana, chave em F, pentatônica
Tocada por T.S. Frank
Tears For Lost Love
Native American Bamboo Flute, Key F, pentatonic,
Performed by T.S. Frank
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
Faltas
Hoje o amanhecer teve sabor atômico de um laranja sufocante.
Gritos, indagações... Minha liberdade nunca existiu. Não tenho privacidade e nem incentivos. E por tudo, depois de toda a sarjeta jogada em mim, querem que eu, forçosamente, erga-me e siga em frente. De fato, eu sou o peso que pretendem livrar-se.
Quantas pessoas sentem-se hoje como eu me sinto todos os dias. Eu queria muito encontrar os meus iguais. Eu desejei. Aliás, foi um dos primeiros pensamentos dessa manhã tenebrosa.
Somente uma coisa mudaria a minha vida neste momento: um emprego. Talvez eu tivesse algum valor. Estou escarnecida, bem de fato.
O ano começa assim - com brigas, dissabores e falta de diálogo. E dentro desse cenário, angustia-me as acusações. Eu pergunto-me, "sou um ser humano péssimo assim?".
É como uma espécie de maldição familiar, ou talvez muitas pessoas entendam por maldizeres.
Desde sempre eu escuto os meus próprios defeitos, dia após dia, como um mantra - as recriminações começam do âmago.
Sinto falta do amor em sua essência, porém esta falta é desde sempre, do tempo imemorial, daquele que nunca pode ser sentido, mas sabe-se que existe.
Quando falo em amor, não é aquele proferido por bêbados, ou por namorados abusivos, ou por pessoas que querem apenas sexo, ou por familiares e suas obrigações. Não, não é nada disso e nunca será.
Todas estas relações acima são vazias e ferem profundamente, deixando cicatrizes ano depois de ano.
Sinto falta de cumplicidade, de amizades no sentido da palavra e de proteção.
Sinto falta de compreensão, de conversas adequadas para resolver problemas.
Sinto falta de sentir-me um ser humano completo. Hoje tenho apenas pedaços mal formados, degradados por chicotadas.
Por Deus, como estou cansada de tudo isso.
Eu fico perguntando-me se o dinheiro e status fazem uma pessoa feliz. Talvez não. Só que a falta dos dois, quando você está no círculo errado de todas as relações da vida, podem levar à loucura sem precedentes.
E pior do que a loucura, é ter a sensação da sarjeta, de alma inferior, de perda do brilho e da vontade de viver.
Todos os dias formam-se as comparações injustas.
Todos os dias é como morrer. Ir ao inferno e voltar apenas para dormir.
E o ciclo vicioso recomeça nos primeiros raios de Sol.
É como gritar e ter uma sacola plástica na cabeça.
Desejei morrer tantas vezes e desejei viver outras mais.
Eu só quero uma vida diferente. Mas para que ela aconteça, eu preciso apenas que deixem-me livre, que não coloquem pesos de crimes e o peso da hereditariedade.
Sou uma pessoa na fogueira. Meu crime foi ter pensado em cruzar o horizonte e alcançar o céu com as minhas mãos.
Gritos, indagações... Minha liberdade nunca existiu. Não tenho privacidade e nem incentivos. E por tudo, depois de toda a sarjeta jogada em mim, querem que eu, forçosamente, erga-me e siga em frente. De fato, eu sou o peso que pretendem livrar-se.
Quantas pessoas sentem-se hoje como eu me sinto todos os dias. Eu queria muito encontrar os meus iguais. Eu desejei. Aliás, foi um dos primeiros pensamentos dessa manhã tenebrosa.
Somente uma coisa mudaria a minha vida neste momento: um emprego. Talvez eu tivesse algum valor. Estou escarnecida, bem de fato.
O ano começa assim - com brigas, dissabores e falta de diálogo. E dentro desse cenário, angustia-me as acusações. Eu pergunto-me, "sou um ser humano péssimo assim?".
É como uma espécie de maldição familiar, ou talvez muitas pessoas entendam por maldizeres.
Desde sempre eu escuto os meus próprios defeitos, dia após dia, como um mantra - as recriminações começam do âmago.
Sinto falta do amor em sua essência, porém esta falta é desde sempre, do tempo imemorial, daquele que nunca pode ser sentido, mas sabe-se que existe.
Quando falo em amor, não é aquele proferido por bêbados, ou por namorados abusivos, ou por pessoas que querem apenas sexo, ou por familiares e suas obrigações. Não, não é nada disso e nunca será.
Todas estas relações acima são vazias e ferem profundamente, deixando cicatrizes ano depois de ano.
Sinto falta de cumplicidade, de amizades no sentido da palavra e de proteção.
Sinto falta de compreensão, de conversas adequadas para resolver problemas.
Sinto falta de sentir-me um ser humano completo. Hoje tenho apenas pedaços mal formados, degradados por chicotadas.
Por Deus, como estou cansada de tudo isso.
Eu fico perguntando-me se o dinheiro e status fazem uma pessoa feliz. Talvez não. Só que a falta dos dois, quando você está no círculo errado de todas as relações da vida, podem levar à loucura sem precedentes.
E pior do que a loucura, é ter a sensação da sarjeta, de alma inferior, de perda do brilho e da vontade de viver.
Todos os dias formam-se as comparações injustas.
Todos os dias é como morrer. Ir ao inferno e voltar apenas para dormir.
E o ciclo vicioso recomeça nos primeiros raios de Sol.
É como gritar e ter uma sacola plástica na cabeça.
Desejei morrer tantas vezes e desejei viver outras mais.
Eu só quero uma vida diferente. Mas para que ela aconteça, eu preciso apenas que deixem-me livre, que não coloquem pesos de crimes e o peso da hereditariedade.
Sou uma pessoa na fogueira. Meu crime foi ter pensado em cruzar o horizonte e alcançar o céu com as minhas mãos.
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
domingo, 25 de dezembro de 2016
Mais um Natal...
Então, eu não tenho muito para escrever sobre o Natal. O que eu tinha para falar sobre ele foi escrito anteriormente, em outros anos...
Deixarei um vídeo do Drauzio Varella que explora bem o assunto natalino...
... É uma boa ferramenta para reflexão.
E sim... Eu estou com meu bucho cheio até agora - chutei a intolerância à lactose por hoje, comi muito panetone, Chester assado na cerveja, salpicão, farofa e bebi litros de Coca-Cola.
Hoje permiti-me ser um pouco feliz. Esqueci minhas dores físicas e psicológicas.
Estou com a minha família, o que realmente importa... O restante... Bem, deixarei para os comentários do Ano Novo...
Deixarei um vídeo do Drauzio Varella que explora bem o assunto natalino...
... É uma boa ferramenta para reflexão.
E sim... Eu estou com meu bucho cheio até agora - chutei a intolerância à lactose por hoje, comi muito panetone, Chester assado na cerveja, salpicão, farofa e bebi litros de Coca-Cola.
Hoje permiti-me ser um pouco feliz. Esqueci minhas dores físicas e psicológicas.
Estou com a minha família, o que realmente importa... O restante... Bem, deixarei para os comentários do Ano Novo...
Este é o meu milagre de Natal.
sábado, 24 de dezembro de 2016
Combo - Livro & Filme - Austenlândia (Austenland)
- Estou solteira porque, aparentemente, os únicos homens bons são os fictícios.
(Jane Hayes em Austeland, 2013)
Antes que este tenebroso ano de 2016 acabe e que as costumeiras mensagens de Natal e Ano Novo apareçam, trago duas resenhas sobre Austenlândia (Austenland) - o livro e o filme.
Uma das novidades é que este livro foi o primeiro que li no meu novo e-reader - o Kindle Paperwhite (uma resenha inteira será dedicada a ele em breve). No mais, para as leitoras e leitores que gostaram da postagem mais popular do CQ&Sherlock até aqui, Por que queremos um Mr. Darcy?, esse é o meu presente de Natal para vocês!
Mas antes...
Eu vi primeiro o filme na Netflix e depois li o livro no Kindle.
A opinião no blog será uma das poucas, senão a única, na internet que expressa a preferência ao filme. Isso não significa que o livro seja ruim. Mas há paixões que vão contra a corrente...
Filme Austenlândia (Austenland/2013)
Se você gosta de Orgulho e Preconceito, personagens caricatos, belas paisagens e sente-se, também, um pouco Darcymaníaca (o), este filme é como uma mão em uma luva da Era Vitoriana. Vestir a pele de Jane Hayes não será incomum – Keri Russell dá voz e corpo a cada traço de personalidade das heroínas de Austen neste filme que mais parece uma sátira do livro homônimo - o que é ótimo!Austenlândia (Austenland/USA/UK/2013), com direção da estreante americana Jerusha Hess, é um daqueles filmes para ver descompromissadamente, quando há a vontade de assistir algo leve, romântico e doce como um merengue.
A comédia romântica é certeira no quesito divertimento e entretenimento. Outros aspectos, como os personagens caricatos, causam divergências de opiniões - ou você ama ou odeia. Particularmente, sobrou-me amor. Tanto que já vi o filme umas 15 vezes.
O enredo fala sobre Jane Hayes (Keri Russell), uma mulher com mais de 30 anos de idade, que não consegue encontrar um namorado, pois nenhum homem parece à altura de seu grande ídolo - o Mr. Darcy (personagem criado por Jane Austen no romance Orgulho e Preconceito). Um dia ela decide gastar todas as suas economias e voar para o Reino Unido, onde existe um resort especializado em acolher as mulheres apaixonadas pelas histórias de Austen. Lá, ela descobre que o homem dos seus sonhos pode se tornar uma realidade.
Há de se destacar a atuação de Keri Russel como Jane Hayes, que é leve e simpática, muito da personalidade da atriz, que também passa essas características em outros trabalhos. Outro destaque é para o ator JJ Feild (que é americano, mas mudou-se para Londres quando era apenas bebê), que faz o Henry Noble, o residente Mr. Darcy. Sua interpretação de um homem de poucos amigos e de ar emburrado que depois revela-se um perfeito cavalheiro com uma voz suave e um jeito encantador é na medida.Outro bom ponto é a trilha sonora, com músicas dos anos 80, como, por exemplo, Bette Davis Eyes (1981), de Kim Karnes, e Heaven Is A Place On Earth (1987), de Belinda Carlisle.
Uma dica é assistir pós-THE END - há boas surpresas - Austenlândia virou um parque temático sob a direção de Mr. Charming, o, agora, casal Jane e Henry aparecem para passear no novo lugar e outros finais são mostrados. Nos créditos, há um clipe com os personagens fazendo uma coreografia para a música do rapper Nelly - Hot in Herre.
Definitivamente, sendo você, leitor (a), fã de Austen ou apenas de comédias românticas, este filme é uma ótima pedida. É como comer uma caixa de chocolates quando deseja-se: não há como enjoar. Recomendadíssimo!
Livro Austenlândia (Austenland/2009)
Formato: e-book
E-reader: Kindle
Ano: 2014
ISBN: 978-85-01-03296-6 (recurso eletrônico)
Edição: 1 ª edição
Número de páginas: em um e-book o número de páginas é relativo. Trata-se de um livro curto.
Autor (a): Shannon Hale (trad. Regiane Winarski)
Preço-faixa na Amazon: R$ 18,90
Austenlândia, da autora americana Shannon Hale, é um livro despretensioso, cujo o maior intuito é divertir os românticos e os obcecados por Mr. Darcy que não pertencem ao grupo dos xiitas austenianos. Na proposta que lhe cabe, sai-se muito bem.
O enredo gira em torno de Jane Hayes, uma mulher de 33 anos que mora em Nova York. Bonita, inteligente e com um bom emprego, ela guarda um segredo constrangedor - é obcecada pelo Mr. Darcy, (personagem criado por Jane Austen). Com uma vida amorosa lamentável, Jane decide aceitar seu destino - noites solitárias no sofá assistindo a Colin Firth em Orgulho e preconceito. Contudo, ao ganhar uma viagem de férias para Austenlândia, um misterioso lugar onde todos devem se portar como se estivessem em uma obra da consagrada escritora, Jane tem a chance de viver o romance que sempre sonhou.
O livro é curto, de fácil leitura e que pode ser terminado em um piscar de olhos. Agradável e bem desenvolvido no limite de seu próprio universo.
Vale a pena uma conferida.
Algumas diferenças entre o filme e o livro
No filme, Jane vende o carro para comprar o pobre Pacote Cobre para Austenlândia em uma agência de turismo. No livro, ela recebe a viagem de sua tia-avó Carolyn como herança.
No livro, a mãe de Jane é Shirley. No filme, ela não é mencionada.
A tia-avó Carolyn não é mencionada no filme.
A melhor amiga de Jane, Molly, no livro, tem gêmeos. No filme, ela aparece apenas grávida.
No livro, Pembrook Park, o local de Austenlândia, tem poucas informações na internet. Há um contrato de privacidade que não pode ser quebrado nem pelos usuários e nem por funcionários. No filme, Austenlândia tem até propaganda na televisão.
No filme, Jane encontra Miss Charming no aeroporto, na chegada a Londres. No livro, esse encontro acontece somente em Austenlândia.
No Filme, Henry Noble é, de fato, sobrinho de Mrs. Wattlesbrook, dona de Austenlândia. Ele é professor universitário de História e foi parar lá por causa de uma decepção amorosa. Ele não é ator. A primeira semana dele no resort é também a primeira semana de Jane no local. No livro, Henry Noble é na verdade Henry Jenkins, ator com formação também em História. Ele é divorciado. Ele já trabalhava em Austenlândia antes.
No filme, Henry Noble tem olhos azuis. No livro, ele tem olhos marrons.
No filme, Martin é um ator que naquela temporada faz papel de jardineiro. No livro, ele é apresentado primeiro como Theodore, na parte em que Jane é preparada para as danças da época, e depois como Martin, o jardineiro.
No filme, Martin tem olhos marrons. No livro, eles são azuis.
No filme, Mrs. Wattlesbrook é a anfitriã também na casa principal, tendo um marido chamado Mr. Wattlesbrook. No livro, a casa fica a cargo de Tia Saffronia e seu marido John Templeton. Esses dois personagens não existem no filme.
No filme, Jane não tem criada. No livro, o nome dela é Matilda.
No filme, a história fictícia da Sra. Amelia Heartwright é um pouco diferente no livro.
No livro, Henry Noble/Henry Jenkins diz que Andrews é gay. No filme, isso fica apenas subentendido.
No filme, Miss Charming, ao final, compra Austenlândia e transforma em um parque temático. No livro, isso não acontece.
O cenário do desfecho do filme é diferente no livro. Nele, Henry Jenkins acaba por comprar uma passagem e pegar o mesmo avião em que Jane toma para voltar para Nova York. No filme, depois que há a briga no aeroporto e que Jane diz para Henry Noble que ele foi perfeito, mesmo sendo somente uma atuação, há a passagem em que ela chega em casa e desaustenriza o quarto. O desfecho romântico é dado quando Henry Noble, sendo realmente Henry Noble, vai até a casa de Jane para devolver um caderno com os desenhos que ela fez dele. Este é o melhor final.
***
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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Dia de TPM: humilhações crônicas, dor na coluna e aulas em auto-escola
Há algo de errado desde a infância. Eu não sei bem o que é. Nem mesmo sei explicar com palavras para tecer o cenário detalhadamente para tonar-se algo inteligível e compreendido. É uma sensação de deslocamento, de que nada disso pertence-me, que nenhuma dessas pessoas que cercou-me até agora são conhecidas e próximas. É como uma relação profissional, onde há uma hierarquia que deve ser obedecida. Mas sempre há aquele que não acha justo tudo o que acontece, o salário que recebe, o tratamento, o porquê de o subestimarem e nem o motivo da vida o ter colocado ali. Porém ele continua a ser tratado como a escória e a válvula de escape para briga de egos. Essa pessoa sou eu.
Não tem sido fácil viver e isso já tem alguns bons anos. E, o pior, a tendência é não melhorar. Eu poderia comparar essa minha trajetória com a minha dor crônica na coluna - se eu repousar, seguir todas as regras e continuar letárgica, fazendo o que o médico diz, não sentirei tanta dor. Só que nesse método paliativo, eu sinto-me presa, extremamente cerceada e incapaz. E quando vou fazer algo que gosto (o que é raro nos dias de hoje), os momentos precisam ser aproveitados ao máximo, pois eu sei que no final do dia, quando a realidade chegar, as dores imensuráveis e indizíveis se instalarão. E não haverá ninguém para consolar-me, apenas para apontar o dedo e dizer que aquilo tudo é minha culpa.
Pois bem, desde que me conheço, as primeiras palavras que tomei conhecimento do significado foram, justamente, culpa e egoísmo - inseridas em minha alma através do método católico da repetição. Ultimamente essas palavras circulam como um pesadelo cíclico e tem a forma de aulas de direção. E é uma história longa até chegar no coração de todo o problema.
Nunca tive um contato mais íntimo com carros, a não ser pegar caronas e pedir um táxi. Nunca me interessei por eles. Minha família nunca teve um sequer (e não tinha mesmo condições para tal empreitada). Só que a necessidade chegou e, por insistência e subsídios da família, tive, por livre e espontânea pressão, de ir a uma auto escola.
A primeira que eu fui, pela qual fiz três provas e não passei, era uma bagunça. Umas mulheres preguiçosas e muito mal informadas, as donas, ofereciam carros péssimos, quentes e instrutores estranhos. Só que eu precisei enfrentar isso por ser perto da minha casa.
Sobre os instrutores dessa primeira auto-escola - tive muitos problemas. O primeiro era muito invasivo, conversava sobre religião, acidentes e era muito machista. Gritava um pouco e era um pouco ignorante. Porém sempre me cumprimentava. Só que no dia das provas, não passava segurança e, no cotidiano das aulas, deixava passar a pouca fé em mim. O segundo era muito relapso. No dia da minha última prova não foi me acompanhar e nem falar comigo. Fiz a prova sozinha e desacreditada. No fim, o meu processo venceu e não consegui atingir o objetivo.
Quando foi-me indicada outra auto escola, um pouco mais longe, mais ainda perto de onde eu moro, contratei sem pestanejar. Como eu estava de saco cheio desse processo e passando por problemas diários, acabei fazendo a prova teórica de muito mau humor e acabei não passando. Só passei na segunda vez.
Depois dessa etapa, vieram as aulas práticas. Em toda a minha vida, até aqui, não passou pela minha cabeça reviver o medo tenebroso que senti na minha infância e adolescência (quando sofria bullying na escola, e, depois, assédio moral também no trabalho, o que me fez ter pânico de ir para a escola e trabalhar. Hoje considero estes fatos as raízes de muitos problemas que tenho. A falta de compreensão e acompanhamento adequado tiveram, também, um grande grau de contribuição).
O instrutor é ríspido e extremamente grosseiro. Quando fui para minha primeira aula, desse segundo processo, ele não me cumprimentou e nem respondeu meu bom dia, de fato, ele continua a não responder minhas saudações. Como é um carro novo, mais moderno e com ar-condicionado, pedi que ensinasse-me algumas coisas antes de sair com ele e também ressaltei o medo de sair nas ruas e avenidas. Ele respondeu animalescamente que não precisava me mostrar as funcionalidades do carro, que não mudava em nada, pois era meu segundo processo e eu deveria já saber disso.
Eu tenho pânico de dirigir. Tenho medo de rotatórias, não sei muito bem fazer ultrapassagens e fico com medo de congestionamentos. Como o outro instrutor despertou essa insegurança em mim no primeiro processo, repetindo o mantra de que eu estava muito lenta e não sabia dirigir direito, eu fiquei com esta sensação ruim ao entrar em um carro para guiá-lo. Eu tinha depositado todas as minhas esperanças nessa auto-escola em que estou hoje e arrependo-me amargamente disso.
O novo instrutor sempre grita comigo e apenas diz para acelerar, reduzir, ajustar e onde entrar. Ele não deixa tirar dúvidas e quando faço perguntas ele simplesmente fala raivosamente: o quê? Há dias em que ele está muito estressado e o vejo dar baforadas para expressar algo como "que saco de estar aqui". Quando erro alguma coisa, ele, ao invés de ensinar-me a maneira correta e com calma, mesmo que leve tempo, simplesmente grita para eu tirar o pé dos pedais e as mãos do volante e conduz, ele mesmo, o carro.
Não tem sido fácil viver e isso já tem alguns bons anos. E, o pior, a tendência é não melhorar. Eu poderia comparar essa minha trajetória com a minha dor crônica na coluna - se eu repousar, seguir todas as regras e continuar letárgica, fazendo o que o médico diz, não sentirei tanta dor. Só que nesse método paliativo, eu sinto-me presa, extremamente cerceada e incapaz. E quando vou fazer algo que gosto (o que é raro nos dias de hoje), os momentos precisam ser aproveitados ao máximo, pois eu sei que no final do dia, quando a realidade chegar, as dores imensuráveis e indizíveis se instalarão. E não haverá ninguém para consolar-me, apenas para apontar o dedo e dizer que aquilo tudo é minha culpa.
Pois bem, desde que me conheço, as primeiras palavras que tomei conhecimento do significado foram, justamente, culpa e egoísmo - inseridas em minha alma através do método católico da repetição. Ultimamente essas palavras circulam como um pesadelo cíclico e tem a forma de aulas de direção. E é uma história longa até chegar no coração de todo o problema.
Nunca tive um contato mais íntimo com carros, a não ser pegar caronas e pedir um táxi. Nunca me interessei por eles. Minha família nunca teve um sequer (e não tinha mesmo condições para tal empreitada). Só que a necessidade chegou e, por insistência e subsídios da família, tive, por livre e espontânea pressão, de ir a uma auto escola.
A primeira que eu fui, pela qual fiz três provas e não passei, era uma bagunça. Umas mulheres preguiçosas e muito mal informadas, as donas, ofereciam carros péssimos, quentes e instrutores estranhos. Só que eu precisei enfrentar isso por ser perto da minha casa.
Sobre os instrutores dessa primeira auto-escola - tive muitos problemas. O primeiro era muito invasivo, conversava sobre religião, acidentes e era muito machista. Gritava um pouco e era um pouco ignorante. Porém sempre me cumprimentava. Só que no dia das provas, não passava segurança e, no cotidiano das aulas, deixava passar a pouca fé em mim. O segundo era muito relapso. No dia da minha última prova não foi me acompanhar e nem falar comigo. Fiz a prova sozinha e desacreditada. No fim, o meu processo venceu e não consegui atingir o objetivo.
Quando foi-me indicada outra auto escola, um pouco mais longe, mais ainda perto de onde eu moro, contratei sem pestanejar. Como eu estava de saco cheio desse processo e passando por problemas diários, acabei fazendo a prova teórica de muito mau humor e acabei não passando. Só passei na segunda vez.
Depois dessa etapa, vieram as aulas práticas. Em toda a minha vida, até aqui, não passou pela minha cabeça reviver o medo tenebroso que senti na minha infância e adolescência (quando sofria bullying na escola, e, depois, assédio moral também no trabalho, o que me fez ter pânico de ir para a escola e trabalhar. Hoje considero estes fatos as raízes de muitos problemas que tenho. A falta de compreensão e acompanhamento adequado tiveram, também, um grande grau de contribuição).
O instrutor é ríspido e extremamente grosseiro. Quando fui para minha primeira aula, desse segundo processo, ele não me cumprimentou e nem respondeu meu bom dia, de fato, ele continua a não responder minhas saudações. Como é um carro novo, mais moderno e com ar-condicionado, pedi que ensinasse-me algumas coisas antes de sair com ele e também ressaltei o medo de sair nas ruas e avenidas. Ele respondeu animalescamente que não precisava me mostrar as funcionalidades do carro, que não mudava em nada, pois era meu segundo processo e eu deveria já saber disso.
Eu tenho pânico de dirigir. Tenho medo de rotatórias, não sei muito bem fazer ultrapassagens e fico com medo de congestionamentos. Como o outro instrutor despertou essa insegurança em mim no primeiro processo, repetindo o mantra de que eu estava muito lenta e não sabia dirigir direito, eu fiquei com esta sensação ruim ao entrar em um carro para guiá-lo. Eu tinha depositado todas as minhas esperanças nessa auto-escola em que estou hoje e arrependo-me amargamente disso.
O novo instrutor sempre grita comigo e apenas diz para acelerar, reduzir, ajustar e onde entrar. Ele não deixa tirar dúvidas e quando faço perguntas ele simplesmente fala raivosamente: o quê? Há dias em que ele está muito estressado e o vejo dar baforadas para expressar algo como "que saco de estar aqui". Quando erro alguma coisa, ele, ao invés de ensinar-me a maneira correta e com calma, mesmo que leve tempo, simplesmente grita para eu tirar o pé dos pedais e as mãos do volante e conduz, ele mesmo, o carro.
A cidade que eu moro tem um trânsito péssimo. Uma pesquisa apontou que aqui é um dos piores lugares do mundo para se dirigir. Então, toda vez que termino a aula com esse Senhor, eu saio sentindo-me o pior ser humano da face da Terra, uma pessoa incapaz de aprender e inútil. O trajeto de ônibus até a minha casa é um palco em que uma tela de cinema reproduz cenas tristes de toda a minha vida.
Além do medo e da tristeza por não conseguir dirigir, sinto-me pressionada a agradar a todos. Agradar aos que estão pagando meu processo, agradar a auto-escola e, principalmente ao instrutor. Sinto-me com as asas cortadas e acorrentada.
Sempre repetem que eu estou atrapalhando o trânsito, que vou provocar uma acidente. Mas nenhum se prontificar a ensinar-me o que se deve fazer sem que eu, todas a vezes, fique com as mãos tremendo e com uma forte dor de cabeça.
Como na minha casa ninguém me dá razão (como há muito tempo, desde de pequena, eu sou a culpada por atrapalhar a vida das pessoas, de adoecer e todas as dificuldades que se abatem sobre mim ou os outros ao redor), fui procurar a única amiga da minha universidade, do curso de Computação, que confio nesses momentos.
Ao explicar a situação, ela me disse que eu tinha que sair urgentemente dessa auto-escola, ou, se a primeira opção não fosse possível, trocar de instrutor. A primeira situação está fora de cogitação pelo preço, a segunda tem um empecilho: a secretária do lugar fala mal dos alunos na frente de outros alunos, de como eles são péssimos e é grande amiga dos instrutores de lá.
Hoje, para piorar, eu quis cancelar duas aulas e fui informada de que não podia. Teria que ter avisado com 24 horas de antecedência, mesmo em caso de doença, salvo atestado. Acabei me exaltando ao telefone e nem sei se irei fazer mais aulas. Não tenho mais coragem. Contudo já fui notificada pela minha família de que se eu não for, as coisas ficaram muito feias para o meu lado. Aliás, a única coisa que repetem é para eu esquecer e continuar as aulas com ele. Citam que já enfrentaram problemas maiores e que nunca morreram por este fato.
Todos os dias sofro com recriminações de toda a espécie. Na verdade, muitas vezes eu não tenho vontade de viver ou acordar pela manhã. E esses acontecimentos pioram muito o meu estado mental. Não durmo direito e só tenho sossego de madrugada, onde aproveito para ver, em paz, algo que eu gosto ou apenas degustar o silencio que foi negado durante o dia.
Estou com crise de dor na coluna, o que me deixa parecida com um animal com um espinho na pata. Como disse no começo, uma das poucas coisas que ainda me dá prazer é jogar vôlei. E estou pagando o preço. E pensar que para ter algo satisfatório, por uns momentos, tenho que aguentar uma dor que acaba com a minha vida durante a maior parte do tempo, me faz pensar o quanto a vida é uma merda incalculável. E estou sem plano de saúde, uma verdadeira catástrofe. Eu queria muita vezes chorar, gritar, quebrar algumas coisas. Só que eu não tenho privacidade, não tenho meu canto, eu nem mesmo tenho o meu próprio quarto.
Não suportaria ser chamada de fraca hoje, estou estafada de verdade.
De fato, eu penso que estou no limbo. Talvez eu tenha morrido e esta é a minha punição.
Além do medo e da tristeza por não conseguir dirigir, sinto-me pressionada a agradar a todos. Agradar aos que estão pagando meu processo, agradar a auto-escola e, principalmente ao instrutor. Sinto-me com as asas cortadas e acorrentada.
Sempre repetem que eu estou atrapalhando o trânsito, que vou provocar uma acidente. Mas nenhum se prontificar a ensinar-me o que se deve fazer sem que eu, todas a vezes, fique com as mãos tremendo e com uma forte dor de cabeça.
Como na minha casa ninguém me dá razão (como há muito tempo, desde de pequena, eu sou a culpada por atrapalhar a vida das pessoas, de adoecer e todas as dificuldades que se abatem sobre mim ou os outros ao redor), fui procurar a única amiga da minha universidade, do curso de Computação, que confio nesses momentos.
Ao explicar a situação, ela me disse que eu tinha que sair urgentemente dessa auto-escola, ou, se a primeira opção não fosse possível, trocar de instrutor. A primeira situação está fora de cogitação pelo preço, a segunda tem um empecilho: a secretária do lugar fala mal dos alunos na frente de outros alunos, de como eles são péssimos e é grande amiga dos instrutores de lá.
Hoje, para piorar, eu quis cancelar duas aulas e fui informada de que não podia. Teria que ter avisado com 24 horas de antecedência, mesmo em caso de doença, salvo atestado. Acabei me exaltando ao telefone e nem sei se irei fazer mais aulas. Não tenho mais coragem. Contudo já fui notificada pela minha família de que se eu não for, as coisas ficaram muito feias para o meu lado. Aliás, a única coisa que repetem é para eu esquecer e continuar as aulas com ele. Citam que já enfrentaram problemas maiores e que nunca morreram por este fato.
Todos os dias sofro com recriminações de toda a espécie. Na verdade, muitas vezes eu não tenho vontade de viver ou acordar pela manhã. E esses acontecimentos pioram muito o meu estado mental. Não durmo direito e só tenho sossego de madrugada, onde aproveito para ver, em paz, algo que eu gosto ou apenas degustar o silencio que foi negado durante o dia.
Estou com crise de dor na coluna, o que me deixa parecida com um animal com um espinho na pata. Como disse no começo, uma das poucas coisas que ainda me dá prazer é jogar vôlei. E estou pagando o preço. E pensar que para ter algo satisfatório, por uns momentos, tenho que aguentar uma dor que acaba com a minha vida durante a maior parte do tempo, me faz pensar o quanto a vida é uma merda incalculável. E estou sem plano de saúde, uma verdadeira catástrofe. Eu queria muita vezes chorar, gritar, quebrar algumas coisas. Só que eu não tenho privacidade, não tenho meu canto, eu nem mesmo tenho o meu próprio quarto.
Não suportaria ser chamada de fraca hoje, estou estafada de verdade.
De fato, eu penso que estou no limbo. Talvez eu tenha morrido e esta é a minha punição.
terça-feira, 22 de novembro de 2016
Quantos anos você tem? Todos.
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| Meu lugar favorito: Dolcce Grill |
Depois dos 30, a contagem não importa mais. E sendo assim, como em todos os outros ordinários dias, eu acordei com gritos e reclamações. A luz do Sol, brilhante e irritadiça, batia diretamente na parede, o que dava a impressão de que aquela era uma amostra grátis do Inferno. O momento mais engraçado foi a hora do parabéns, esse som detestável, que foi esquecido em meio à pressa de cantá-lo e entregar o presente universal: uma certa quantia em dinheiro.
Fui escutar Chopin. Ah, como eu o amo... Em seus Noturnos, suspeito eu, ele capturou um pedaço da graça de cada anjo habitante do céu.
Não fui à aula e nunca mais iria se pudesse. Eu desejei escapar, achar um buraco de Alice, uma toca de coelho, ou um velho rico decrépito que desse a mim uma casa na Toscana, de madeira, rodeada por girassóis e um monte de ovelhas.
Eu queria liberdade. Só que ontem eu queria morrer. Sim, a morte é apenas uma libertação momentânea, pois, de qualquer maneira, reincarna-se e esse ciclo recomeça, os mesmos erros e as mesmas pessoas, homens em mulheres, mulheres em homens.
Antes de querer morrer, eu queria ser um raio de luz. Eu não teria forma, eu não seria uma mulher. Mas eu adoro ser mulher, então por que eu queria ser esse tracejado de fótons?
E eu fiquei a perguntar-me isso o dia inteiro. Necessitava de uma resposta e de dar-me alguns presentes: a minha própria companhia, um livro e minha confeitaria favorita. Aquelas horas foram únicas, como tantas outras, em que pude abrir meu livro, sem culpa, sem esperar ninguém, nem ao menos desejar uma presença sequer. Foi a minha plenitude e o meu zênite.
Porém eu ainda não tinha a minha resposta, por mais cafés expressos que eu tomasse, com aquela espuma branca, fofa e macia como algodões aromatizados - o pedaço do firmamento em uma junção de gotas amarronzadas em nuances creme.
Terminei e fui caminhar. Depois sentei-me ao ar livre, olhando um urso de pelúcia gigante no meio de um monte de presentes brilhantes com um fundo oco, tudo tão verdadeiro como uma nota de três reais. As pessoas conversavam, andavam, olhavam vitrines, compravam e falavam ao telefone. Alguns estudantes discutiam algo que certamente era inútil. E, de repente, veio-me uma tristeza ainda mais profunda. Que diabos de sensação pegajosa. Eu poderia chorar naquele momento.
Então um certo filme começou a passar em frente aos meus olhos...
... Eu não amava mais, não tinha um objeto de adoração. Os deuses da minha vida foram aniquilados como estátuas massacradas por um martelo. Eu, que sempre amei algo ou alguém, tinha acabado de constatar o grande e temido vazio. O que aconteceu? Em que maldita estrada eu deixei-me?
Tomei consciência de mim e da prisão de ser mulher, por mais que eu amasse sê-la.
Eu sou uma insana lacuna sedenta. Quero opções, sem julgamento. Só que eu sou uma escrava de meu próprio tempo, sendo açoitada por opiniões, empecilhos e expectativas.
Eu poderia ser uma vadia, ser quieta, gostar de homens mais velhos, com dinheiro, ou gostar de mais novos e sustentá-los. Eu poderia gostar de mulheres. Eu poderia fazer sonetos para ambos... Então por que eu parei no poderia... Poderia, poderia...?
Ecoando... Ecoando...
Peguei o ônibus. Fui embora.
Deus do céu, tenha piedade de mim.
Eu já sei porque eu queria morrer e muito antes ser um raio de luz, ou mesmo engolir o meu aniversário.
Estou à beira do grande abismo.
E a única sensação que tenho é do vento gélido a sorrir tenebrosamente, cheio de dentes, à espera do próximo ato.
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
Uma canção para a Superlua (Song for Supermoon)
Hoje temos mais uma Superlua, a mais brilhante desde 1948.
O fenômeno ocorre quando o perigeu da Lua - ponto da órbita mais próximo da Terra - coincide com a Lua Cheia. A Lua atingiu o perigeu às 09:22 horas (horário de Brasília) e esteve cheia às 11:52 horas. Ao anoitecer, a Lua pode ser vista em tamanho maior no mundo inteiro.
Canção para Superlua
Flauta (em bambu) Nativa Americana, chave em F, pentatônica
Tocada por T.S. Frank
Song for Supermoon
Native American Bamboo Flute, Key F, pentatonic,
Performed by T.S. Frank
O fenômeno ocorre quando o perigeu da Lua - ponto da órbita mais próximo da Terra - coincide com a Lua Cheia. A Lua atingiu o perigeu às 09:22 horas (horário de Brasília) e esteve cheia às 11:52 horas. Ao anoitecer, a Lua pode ser vista em tamanho maior no mundo inteiro.
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| A Superlua nascendo por trás do castelo de Almodóvar Córdova, Espanha, 14 de novembro de 2016 |
A Lua é sagrada para os povos indígenas. Nas histórias e lendas Tupi-Guarani, no Brasil, ela chama-se Jaci. Para os povos nativos da América do Norte, ela também é cultuada da mesma forma. Para os Navajos, ela chama-se Yoołgaii Asdzą́ą́ (Mulher Branca da Concha).
E para celebrarmos este dia, além da Ciência e Astronomia, um pouco de música nativa americana para glorificar as noites enluaradas e prateadas que nos cercam de misticismo e harmonia.
Flauta (em bambu) Nativa Americana, chave em F, pentatônica
Tocada por T.S. Frank
Song for Supermoon
Native American Bamboo Flute, Key F, pentatonic,
Performed by T.S. Frank
domingo, 13 de novembro de 2016
Oração para a Montanha Dourada e os Espíritos Ancestrais (The Prayer to the Golden Mountain and Ancestral Spirits) - Flauta Nativa Americana - NAF
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
Uma tarde de outubro com Moby Dick

Capítulo único
Uma tarde de outubro
Não era um dia qualquer, de modo algum, apesar de ser mais um daqueles de calor e um céu esfuziantemente azul - eu finalizaria o Volume I de Moby Dick. Sim, este monstro adorável e seus algozes - baleeiros em uma saga em que as palavras desenham o pitoresco coração do mar.
E, não por menos, essa também era a minha saga e uma missão, afinal, livros podem ser deixados de lado por tantos motivos, incontáveis, cabe dizer; porém, inconscientemente, nunca abandonados - a alma não deixa, nem que tenha, ela própria, que levá-los para a outra existência.
Caminho eu, a criatura, com o volume azul vintage por entre os braços, para a parada de ônibus. Penso: "Depois da aula, acharei um lugar calmo...". Por um golpe do destino, enquanto sento, secando como carne de Sol, perco o primeiro ônibus - Oh, Senhor, a aula já começou. Aquilo já é demasiadamente difícil para ficar-se a capricho de atrasos.
Depois de voltas no mundo, finalmente consigo pegar o ônibus. E assim chego na sala de aula.
E quem poderia enxergar o pequeno livro tão bem escondido e despretensioso? Os astutos olhos do Professor, ora! Aquele que tudo sabe e tudo vê.
- Professor, eu ainda posso entrar?
- Claro. E me diga... O que andas lendo?
- Moby Dick, Senhor.
- Charles Dickens, não é mesmo?
[uma pausa dramática, pelos dois grandes nomes da Literatura confundidos graciosamente e separados, pelo nascimento, entre Inglaterra e Estados Unidos]
- Não. Charles Dickens escreveu Grandes Esperanças. Este é Herman Melville. Disse eu calmamente.
E ele parou, como quem olha uma tela imaginária, pensando, talvez, como pode ter se confundido...
- Nada a ver, nada a ver mesmo.
E desse modo ele mesmo fechou o ato.
Depois de todas as passagens, equações e acontecimentos efervescentes que parecem desafiar o sentido da vida, a aula termina.
Pois bem, pois bem. É hora de encontrar o meu canto tranquilo e incauto: "Vamos ver se o Leviatã surgirá novamente, pois as histórias de baleias paralelas já estavam deixando-me desesperançosa de achar Ismael novamente."
Sento-me, abro e olho - o último capítulo.
“Não se assemelhava a um cachalote e, contudo, Dagoo pensou: Não será Moby Dick? O fantasma tornou a mergulhar; mas quando reapareceu..."
E neste momento eu só senti uma presença ao meu lado. Não deu tempo de saber se era Moby Dick.
- Olá... Ti... ane... [vou fazer como Dostoiévski e ocultar certos nomes]. Você está aí tão concentrada. E eu aqui estou interrompendo.
- Tudo bem. Não tem problema, sente aqui, vamos conversar...
Mas o que se seguiu foi surpreendente. Nunca imaginei que aquele seria um dos raros momentos em que um ser humano pudesse contrariar, de forma agradável, minha opinião darcyniana.
É extremamente árduo e dificultoso achar alguém para ter uma conversa balanceada, que ao mesmo tempo faça sorrir, que seja leve e conquiste a admiração. Há, na maioria das vezes, conversas desgastantes, ora pela futilidade, o que revela o verdadeiro buraco de estupidez que uma pessoa pode enfiar-se por vontade própria, ora pela arrogância que torna tudo estatístico, números e uma verdadeira chateação - uma ode aos seus próprios egos inflamados.
E como eu poderia acreditar que, no meio de um cenário regido por um padrão quase matemático, ainda existiam pessoas que afastavam-se dessa belicosa curva? Pois foi o dia perfeito para rever alguns conceitos já fincados.
Aquele jovem de aparência gentil e bonita, um tanto ingênuo pela idade, com um sorriso desprendido, tinha mais a oferecer do que uma conversa rápida sobre aulas, números e o universo masculino.
- O que está lendo? Indagou ele curioso.
- Ah, é Moby Dick. Este livro consumiu 3 anos da minha vida. Eu disse isso esperando uma grande gargalhada. O que, de fato, aconteceu, porém timidamente por parte dele.
- Eu assisti a um filme que inspirou o livro, chama-se O Coração do Mar.
- Muito interessante. Conte-me mais sobre o filme.
Então ele começou a relatar o filme, falando dos baleeiros que foram em busca de fortuna através do desconhecido, indo para mares que, na época, ninguém ousava desbravar. E lá encontraram a morte em forma de baleia branca. E que toda essa narrativa, no filme, foi feita pelo menino que sobreviveu a viagem.
E ao passo que ia falando mais e mais, ele exibia um grande grau de empolgação.
- Foi a primeira vez que ele caçou baleias.
- Quem, Ismael? Eu perguntei com um ar de negação.
- Não, o nome não é Ismael. Não lembro o nome do menino que conta a história nesse momento. Depois de ver o filme, eu fui pesquisar a história e descobri sobre Moby Dick, agora eu sei muitas coisas sobre ela.
Ele continuou a falar sobre O Coração do Mar: - É incrível como ela era enorme. Você tem uma visão de como ela parecia um monstro, como o navio ficava pequeno, como aqueles baleeiros eram presas fáceis - um ótimo filme e uma ótima aventura.
E eu somente prestava mais atenção. Aquela era uma cena que eu tinha que memorizar.
E prosseguiu:
- No livro é outro personagem, Ismael, certo? No filme, o autor foi procurar o menino, que já estava velho, para saber a história do navio e assim ter material para Moby Dick.
Eu disse em seguida:
- Sim, Ismael. Ismael que conta a história no livro. Mas, na verdade, ele já tinha ido a outras viagens com baleias. Vou assistir ao filme assim que puder. Eu assegurei.
E a conversa foi para outros setores, como futebol e aulas. Outras pessoas aproximaram-se, conversaram conosco e logo a hora do jantar chegou.
- Você não vai jantar? Ele perguntou sem demora.
- Não, não irei. Irei ao banco.
- Tudo bem. Até mais tarde.
Só que algo estava intrigando-me como um espinho de laranjeira enfiado entre os dedos. Eu não sei como surgiu essa dúvida, ela simplesmente começou a perseguir meus pensamentos depois de toda essa conversa.
- Gente, será que Ismael já era veterano na caça às baleias?
Afinal, desde a leitura da primeira folha, lá foram-se 3 anos...
E é um tanto óbvio que eu fui reler as primeiras páginas de Moby Dick. E mais uma surpresa: o moço estava certo. Foi a primeira vez que ele, Ismael, foi à caça de baleias, quer dizer, o menino do filme, só que serviu para o livro também.
“Chamai-me Ismael. Há alguns anos - quantos precisamente não vem ao caso - tendo eu pouco ou nenhum dinheiro na carteira e sem nenhum interesse em terra, ocorreu-me navegar por algum tempo e ver a parte aquosa do mundo. [...] - Estavas pensando em embarcar? Queres embarcar? Bem vejo que não és de Natucket... Já estiveste alguma vez num bote baleeiro? - Não senhor; nunca - respondi. - Então nada sabes acerca da pesca da baleia, garanto. - Não sei nada, capitão, mas aprenderei depressa. Fiz várias viagens a serviço da marinha mercante."
Bingo! Ele nunca leu o livro, entretanto conhecia um detalhe importante contido nele. Sim, ele não estava falando propriamente do narrador central do livro, mas sabia que um daqueles personagens do filme estava fazendo uma viagem baleeira pela primeira vez.
Tive que me redimir depois, falando que ele estava correto.
Após dois dias, tive mais uma aula, a mesma disciplina. Eu pensei que Moby Dick ficaria apenas na lembrança. Só que isso não aconteceu. A baleia branca não seria deixada de lado tão facilmente, não pelo Professor.
- Como vai a leitura?
- Muito boa. Estou no volume II.
- Volume II?
- Sim, são dois volumes.
- Ótimo.
E o dia prosseguiu tão calmo quanto a visão da espuma do oceano que bate nos rochedos e das procelas quase na linha do horizonte. Não sei ao certo, talvez nunca saberei, o porquê desses pequenos momentos brilhantes em dias que só prometem mais do mesmo. Suspeito que são por essas pessoas, que nem mesmo sabem da sua importância, que tantas histórias boas são contadas.
A vida é um mar infinito repleto de mistérios. Mesmo com Moby Dicks e naufrágios, não deixa de enfeitiçar-nos os jovens Ismaéis.
domingo, 16 de outubro de 2016
Um Nobel para um músico - O trovador americano Bob Dylan
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| Bob Dylan |
Para muitos pode parecer um absurdo, algo inusitado, ou um capricho da Academia Sueca. E essas opiniões são bem estranhas, principalmente se partem dos brasileiros. Nossa Literatura tem origem em uma das mais antigas formas de arte: o canto, este instrumento de narrativa que, de forma melodiosa, conta-nos as aventuras e desventuras da nossa existência e seus cenários.
Bob Dylan é o cancioneiro americano, o nome que leva a história americana através da música, cantando a sensação e os sentimentos de uma época. E isso tudo através do gênero que conhecemos como Folk Music, que podemos comparar muito bem com a nossa antiga MPB, indo de Zé Ramalho até o grande Boêmio Nelson Gonçalves.
Nascido Robert Allen Zimmerman (Duluth/EUA, 24 de maio de 1941), Dylan, neto de imigrantes judeus russos, escreveu seus primeiros poemas aos dez anos de idade e quando adolescente aprendeu a tocar piano e guitarra sozinho. Começou na música em grupos de rock, imitando Little Richard e Buddy Holly. Porém foi na Universidade de Minnesota, em 1959, que se voltou para a Folk Music, impressionado com a obra musical do lendário cantor Woody Guthrie. Em 2004, foi eleito pela revista Rolling Stone o 7º maior cantor de todos os tempos e, pela mesma revista, o 2º melhor artista da música de todos os tempos, ficando atrás somente dos Beatles. Uma de suas principais canções, Like a Rolling Stone, foi escolhida como a melhor de todos os tempos. Em 2012, foi condecorado com a Medalha Presidencial da Liberdade pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.
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| Bob Dylan Nobel Media/2016 |
Junta-se a este Nobel um Oscar e um Globo de Ouro (o primeiro em 2000 e o segundo em 2001, pela canção Things Have Changed, do filme Garotos Incríveis - Wonder Boys/2000), 13 Grammys (um deles Pelo Conjunto da Obra em 1991) e um Pulitzer Especial de 2008; 6 de suas músicas estão no Hall of Fame e 5 estão no Rock Roll of Fame, dois doutorados honorários em música e mais outros prêmios e induções.
Mas se você ainda está se perguntando como um músico pode ganhar um Nobel de Literatura, ou se concorda, porém ainda não sabe as razões mais profundas dessa láurea, então é melhor buscar uma xícara de café e preparar-se para descobrir, pois assim como a história do folclore e suas manifestações, essa postagem vai ser longa...
Vou basear este artigo nas justificativas que a Academia apresentou para dar o prêmio a Bob Dylan:
“por ter criado uma nova expressão poética dentro da grande tradição norte-americana da canção”. (Mensagem geral da Academia Sueca)
“Ele é o grande poeta, um grande poeta dentro da tradição da língua inglesa. Um autor original que carrega com ele a tradição e está há mais de cinquenta anos inovando e se renovando. [...] Se olharmos milhares de anos atrás, descobriremos Homero e Safo. Eles escreveram textos poéticos feitos para serem escutados e interpretados com instrumentos. O mesmo acontece com Bob Dylan. Pode e deve ser lido.” (Sara Danius, secretária permanente da Academia Sueca)
Então, senta que lá vem a história...
***
1. O que é a Folk Music e o que o Bob Dylan tem a ver com isso?
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| O jovem Bob Dylan |
[no Inglês, também chamamos um grupo de pessoas de folks, "o pessoal, o povo, etc... Como no final do desenho Pernalonga, da série Looney Tunes e Merrie Melodies, That's all folks! - Isso é tudo, pessoal!]
E uma das vertentes do Folk é a Folk Music, representada pelo Blues e suas ramificações, a Música Nativa Americana, Jazz e afins. Ela é tudo isso e Bob Dylan é um dos grandes nomes desse gênero, suas letras expressam a vida e um sentimento de um povo, através da poesia musicada, que nada mais é do que a própria música.
Veja um exemplo na música Mr. Tambourine Man:
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
Hei! Senhor Tocador de Pandeiro, toque uma canção para mim,
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Não estou dormindo, e não há lugar onde eu possa ir.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
Hei! Senhor Tocador de Pandeiro, toque uma canção para mim,
In the jingle jangle morning I'll come followin' you.
In the jingle jangle morning I'll come followin' you.
No treme-treme da manhã, eu procurarei você.
Esta canção de Dylan foi lançada em 1965 e regravada por inúmeros artistas. Ela tornou-se famosa, em particular, por seu imaginário surrealista, influenciada por artistas tão diversos quanto o poeta francês Arthur Rimbaud e o cineasta italiano Federico Fellini. As interpretações vão desde uma Ode ao LSD até o religioso. Uma letra que passa a sensação e os pensamentos dos anos 60 - o movimento hippie entrava em cena.
Esta canção de Dylan foi lançada em 1965 e regravada por inúmeros artistas. Ela tornou-se famosa, em particular, por seu imaginário surrealista, influenciada por artistas tão diversos quanto o poeta francês Arthur Rimbaud e o cineasta italiano Federico Fellini. As interpretações vão desde uma Ode ao LSD até o religioso. Uma letra que passa a sensação e os pensamentos dos anos 60 - o movimento hippie entrava em cena.
2. A Literatura também engloba a música? Foi por isso que Dylan ganhou o prêmio?
Comecemos pela definição de Literatura no Dicionário Aurélio:
sf. 1. Arte de compor trabalhos artísticos em prosa ou verso.
2. O conjunto de trabalhos literários dum país ou duma época.
Ou como o meu bom e velho Livro de Português do Ensino Médio fala:
"A arte da literatura existe há alguns milênios. Entretanto sua natureza e suas funções continuam objeto de discussão principalmente para os artistas, seus criadores, [...]. A literatura, como qualquer outra arte, é uma criação humana, por isso sua definição constitui uma tarefa tão difícil. [...] Literatura é a arte que utiliza a palavra como matéria-prima de suas criações." (Emília Amaral et al, Português Novas Palavras: literatura, gramática, redação, p. 17. São Paulo, 2000)
Só com essas podemos entender muito sobre a premiação literária deste ano. Mas iremos além - vamos revisar uma parte importante da Literatura, a chave para compreender definitivamente todo esse cenário - é hora de redescobrir os TROVADORES.
ADENDO: O Trovadorismo foi escolhido para melhor compreensão dos falantes da Língua Mãe. Pelas comparações com Homero e Safo, por parte da secretária da Academia, eu poderia também abordar as origens gregas; só que para fins mais práticos e objetivos, a delimitação ficou nesse gênero literário medieval português.
2.1 O Trovadorismo
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| Menestréis Cantigas de Afonso X de Castela |
"Dizia la fremosinha:
ai, Deus, val!
Com'estou d'amor ferida!
ai, Deus, val!" (trecho de Cantiga, D. Afonso Sanches de Portugal, trovador do final do século XIII)
No trecho acima, temos uma característica importante do Trovadorismo: a simplicidade, nos moldes da tradição popular. Além, claro, de uma língua que parece irmã do nosso Português: o Galego-Português [só no século XV que surgiram o Português e o Galego como línguas distintas].
Os historiadores costumam limitar o Trovadorismo entre os anos de 1189 e 1385. Mas o importante é saber que ele corresponde à primeira fase da História Portuguesa - o período de formação de um reino independente.
Podemos dizer que Trovadorismo é o conjunto das manifestações literárias contemporâneas à primeira dinastia de Portugal - a Borgonha. Tendo algumas características históricas importantes, como o feudalismo e o teocentrismo.
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| Página do Cancioneiro da Ajuda |
2.1.1 O Cancioneiro
Só depois (final do século XIII) as cantigas foram copiadas e colecionadas em manuscritos (sobre um tipo de manuscrito dessa época, o iluminado, há um artigo no CQ&Sherlock aqui) chamados cancioneiros. Apenas três existem hoje e são:
1. Cancioneiro da Ajuda;
2. Cancioneiro da Vaticana;
3. Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa - Colocci-Brancuti.
3. Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa - Colocci-Brancuti.
2.1.2 Os autores
2.1.3 Os intérpretes
As cantigas compostas pelos trovadores eram musicadas e interpretadas pelo jogral, pelo segrel e pelo menestrel, artistas agregados às cortes ou que perambulavam pelas cidades e feiras. Muitas vezes o jogral também compunha cantigas.
Não. Rabindranath Tagore (nascido em Calcutá/Índia, em 7 de maio de 1861 - falecido em Calcutá/Índia, em 7 de agosto de 1941, também chamado de Gurudev) ganhou o prêmio em 1913. Compôs mais de 2000 músicas e o hino nacional da Índia. Ele foi poeta, romancista, músico e dramaturgo. Ele participou do movimento nacionalista indiano e era amigo pessoal de Mahatma Gandhi.
2.1.4 Os gêneros
As cantigas são classificadas em:
1. Gênero lírico
Cantigas de amigo - características: voz lírica feminina, expressão da vida campesina e urbana, realismo, simplicidade temática e formal, origem popular.
Cantigas de amor - características: voz lírica masculina, expressão da vida aristocrática, convenções do amor cortês (a idealização, a vassalagem amorosa, a coita "dor, sofrimento"), origem provençal.
2. Gênero satírico
Cantiga de escárnio - características: indiretas, uso da ironia e de equívocos.
Cantigas de maldizer - características: diretas, sem equívocos; intenção difamatória, palavrões e xingamentos.
***
Agora que você revisou o Trovadorismo, ficou mais fácil entender as razões da academia, não é mesmo?
Então vamos prosseguir...
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| Bob Dylan no Azkena Rock Festival, 2010 |
4. Dylan é primeiro músico a ganhar um Nobel de Literatura?
A diferença, nesse caso, é que Dylan é o primeiro cantor-compositor a ser premiado sem ter uma obra, um livro lançado nos moldes formais.
5. E agora que eu entendi as razões, por que mesmo os burburinhos?
"Os puristas e outros amargos rasgarão as roupas, denunciarão a degeneração do espírito de Nobel, mas me alegro de que se reconheça também a literatura na Palavra - no sentido poético do termo - em tempos em que muitos artistas pensam ser dispensados da exigência de fundo e forma em sua criação."
Imagine só os brasileiros entrarem em desacordo com a entrega do prêmio a Dylan - seria como renegar a importância literária de Vinicius de Moraes e seus sonetos musicados, um verdadeiro trovador-menestrel das cantigas de amor, bem como Chico Buarque e seus versos dodecassílabos da canção Construção, ou ainda um dos mais belos poemas cantados - Chão de Estrelas - de Silvio Caldas. E os cordéis cantados e os repentes, seriam menos Literatura apenas pela musicalidade?
Não. Simplesmente não faz sentido.
A Literatura flui, volta ao básico e inova-se. Ela utiliza a PALAVRA, seja ela falada, cantada ou escrita. Ela é o testemunho de gerações, das graças e desgraças, das revoltas e justiças, do tempo memorial e imemorial.
O trovador apenas modernizou-se, saiu do medieval e atravessou eras, ele não só escreve, ele canta também. Suas composições continuam essencialmente falando do povo para o povo. E se Dylan hoje é Nobel, ratificando de vez sua história na Literatura e causando burburinho entre os conservadores mais xiitas e os desinformados de plantão, daqui um tempo ele estará nos nossos livros de estudos, sendo parte mais do que essencial para entendermos a nossa própria História.
ATUALIZAÇÃO
19/10/2016
O Bob Dylan anda rebelde e não falou ainda com a Academia e nem se pronunciou sobre o fato. Os membros acabaram por desistir e vão deixar as pedras rolarem até a cerimônia de entrega - se ele irá ou não, eis um mistério hamletiano.
Como sempre o capitalismo e os empresários não perdem tempo - resolveram lançar alguns livros do Dylan aqui no Brasil. Porém vale ressaltar que esses livros não tiveram peso algum no prêmio dado ao músico.
ATUALIZAÇÃO
03/11/2016
Finalmente nosso querido Bob Dylan se proncunciou sobre o Nobel. Ele pretende buscar seu prêmio pessoalmente em Estocolmo. Após duas semanas de silêncio, ele falou sobre ter ganhado o Nobel de Literatura, em entrevista ao jornal britânico The Telegraph. Um comunicado divulgado pela Academia Sueca foi publicado no dia 28 de outubro de 2018. Ao ser questionado se pretende ir à cerimônia de premiação, ele disse ao jornal - Absolutamente. Se for possível.
A Academia disse que o cantor ligou e que, na ocasião, falou - Se eu aceito o prêmio? É claro. A notícia sobre o Prêmio Nobel me deixou sem palavras. Eu agradeço muito por essa homenagem.
ATUALIZAÇÃO
19/10/2016
O Bob Dylan anda rebelde e não falou ainda com a Academia e nem se pronunciou sobre o fato. Os membros acabaram por desistir e vão deixar as pedras rolarem até a cerimônia de entrega - se ele irá ou não, eis um mistério hamletiano.
Como sempre o capitalismo e os empresários não perdem tempo - resolveram lançar alguns livros do Dylan aqui no Brasil. Porém vale ressaltar que esses livros não tiveram peso algum no prêmio dado ao músico.
ATUALIZAÇÃO
03/11/2016
Finalmente nosso querido Bob Dylan se proncunciou sobre o Nobel. Ele pretende buscar seu prêmio pessoalmente em Estocolmo. Após duas semanas de silêncio, ele falou sobre ter ganhado o Nobel de Literatura, em entrevista ao jornal britânico The Telegraph. Um comunicado divulgado pela Academia Sueca foi publicado no dia 28 de outubro de 2018. Ao ser questionado se pretende ir à cerimônia de premiação, ele disse ao jornal - Absolutamente. Se for possível.
A Academia disse que o cantor ligou e que, na ocasião, falou - Se eu aceito o prêmio? É claro. A notícia sobre o Prêmio Nobel me deixou sem palavras. Eu agradeço muito por essa homenagem.
ATUALIZAÇÃO
06/12/2016
Dylan anunciou que não irá a entrega do Prêmio Nobel de Literatura, em Estocolmo, dia 10 de dezembro de 2016, por causa de outros compromissos. Porém ele enviou um discurso para ser lido no evento. Patti Smith irá cantar A Hard Rain's A-Gonna Fall, uma das composições mais conhecidas dele.
O discurso de Dylan será lido por Horace Engdahl, da Academia Sueca, segundo a agência de notícias local TT.
ATUALIZAÇÃO
10/12/2016
Como foi dito anteriormente, Bob Dylan não foi à cerimônia de entrega do Nobel de Literatura. A honraria foi apresentada com uma performance da cantora Patti Smith e um discurso de Horace Engdahl.
Patti estava muito nervosa e cometeu alguns erros ao cantar a música A Hard Rain's A-Gonna Fall. Mas, ao final, foi muito aplaudida e compreendida pelo público presente.
Para encerrar, eu vou deixar a MÚSICA de Dylan que marcou a minha vida. Chama-se Don't Think Twice It's All Right, do álbum The Freewheelin' Bob Dylan, de 1963. Em 2003, o álbum foi incluído na lista da revista Rolling Stone como o nº 97 dos 500 Melhores Álbuns de Todos os Tempos. Ela é trilha sonora de um filme que amo e foi através dele que a escutei pela primeira vez. O filme chama-se Apostando No Amor (Dogfight/1991), com alguns dos meus atores favoritos, River Phoenix e a graciosa Lili Taylor (o CQ&Sherlock fez uma crítica do filme aqui).
10/12/2016
Como foi dito anteriormente, Bob Dylan não foi à cerimônia de entrega do Nobel de Literatura. A honraria foi apresentada com uma performance da cantora Patti Smith e um discurso de Horace Engdahl.
Patti estava muito nervosa e cometeu alguns erros ao cantar a música A Hard Rain's A-Gonna Fall. Mas, ao final, foi muito aplaudida e compreendida pelo público presente.
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Para encerrar, eu vou deixar a MÚSICA de Dylan que marcou a minha vida. Chama-se Don't Think Twice It's All Right, do álbum The Freewheelin' Bob Dylan, de 1963. Em 2003, o álbum foi incluído na lista da revista Rolling Stone como o nº 97 dos 500 Melhores Álbuns de Todos os Tempos. Ela é trilha sonora de um filme que amo e foi através dele que a escutei pela primeira vez. O filme chama-se Apostando No Amor (Dogfight/1991), com alguns dos meus atores favoritos, River Phoenix e a graciosa Lili Taylor (o CQ&Sherlock fez uma crítica do filme aqui).
Fontes:
Livros e dicionários
Mini Dicionário Aurélio Escolar, 2000
A Lírica Trovadoresca - Segismundo Spina - Google Books - Em Português
Os Trovadores Medievais e o Amor Cortês - José D’Assunção Barros, Doutor em História Social - Artigo
Antropofagia Trovadoresca - José D’Assunção Barros, Doutor em História Social - Artigo
Meio eletrônico - E-books
Meio eletrônico - Artigos
Meio eletrônico - Wikipédia, dicionários online e reportagens
G1 - As razões da Academia Sueca para premiar Bob Dylan com o Nobel da Literatura
G1 - Academia Sueca desiste de tentar falar com Bob Dylan após Nobel
G1 - Bob Dylan fala de cerimônia de Nobel pela primeira vez: 'Vou se for possível'
G1 - Academia Sueca desiste de tentar falar com Bob Dylan após Nobel
G1 - Bob Dylan fala de cerimônia de Nobel pela primeira vez: 'Vou se for possível'
G1 - Academia do Nobel quer que Bob Dylan cante na cerimônia
O Globo - Bob Dylan não vai à cerimônia do Nobel, mas envia discurso de agradecimento
Folha - Nervosa, Patti Smith interrompe canção ao representar Dylan no Nobel
Folha - Após Nobel, editoras anunciam lançamento de obras de Bob Dylan
#SalaSocial: Seis letras que mostram por que Bob Dylan mereceu o Nobel de Literatura ─ na opinião dos leitores - BBC BrasilO Globo - Bob Dylan não vai à cerimônia do Nobel, mas envia discurso de agradecimento
Folha - Nervosa, Patti Smith interrompe canção ao representar Dylan no Nobel
Folha - Após Nobel, editoras anunciam lançamento de obras de Bob Dylan
Folk Music - Wikipédia em Inglês
Rabindranath Tago - Wikipédia em Português
Nobel de Literatura - Wikipédia em Inglês
Dylan é o 2º músico a ganhar Nobel literário – e o 1º em 103 anos, revista VEJA eletrônica
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