domingo, 16 de outubro de 2016

Um Nobel para um músico - O trovador americano Bob Dylan

Bob Dylan
E o maior prêmio literário desse ano foi para um músico, ou melhor, um trovador - um artista cujas as raízes foram o berço da Literatura como a conhecemos hoje. 

Para muitos pode parecer um absurdo, algo inusitado, ou um capricho da Academia Sueca. E essas opiniões são bem estranhas, principalmente se partem dos brasileiros. Nossa Literatura tem origem em uma das mais antigas formas de arte: o canto, este instrumento de narrativa que, de forma melodiosa, conta-nos as aventuras e desventuras da nossa existência e seus cenários.

Bob Dylan é o cancioneiro americano, o nome que leva a história americana através da música, cantando a sensação e os sentimentos de uma época. E isso tudo através do gênero que conhecemos como Folk Music, que podemos comparar muito bem com a nossa antiga MPB, indo de Zé Ramalho até o grande Boêmio Nelson Gonçalves.

Nascido Robert Allen Zimmerman (Duluth/EUA, 24 de maio de 1941), Dylan, neto de imigrantes judeus russos, escreveu seus primeiros poemas aos dez anos de idade e quando adolescente aprendeu a tocar piano e guitarra sozinho. Começou na música em grupos de rock, imitando Little Richard e Buddy Holly. Porém foi na Universidade de Minnesota, em 1959, que se voltou para a Folk Music, impressionado com a obra musical do lendário cantor Woody Guthrie. Em 2004, foi eleito pela revista Rolling Stone o 7º maior cantor de todos os tempos e, pela mesma revista, o 2º melhor artista da música de todos os tempos, ficando atrás somente dos Beatles. Uma de suas principais canções, Like a Rolling Stone, foi escolhida como a melhor de todos os tempos. Em 2012, foi condecorado com a Medalha Presidencial da Liberdade pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Bob Dylan Nobel Media/2016
Junta-se a este Nobel um Oscar e um Globo de Ouro (o primeiro em 2000 e o segundo em 2001, pela canção Things Have Changed, do filme Garotos Incríveis - Wonder Boys/2000), 13 Grammys (um deles Pelo Conjunto da Obra em 1991) e um Pulitzer Especial de 2008; 6 de suas músicas estão no Hall of Fame e 5 estão no Rock Roll of Fame, dois doutorados honorários em música e mais outros prêmios e induções.

Mas se você ainda está se perguntando como um músico pode ganhar um Nobel de Literatura, ou se concorda, porém ainda não sabe as razões mais profundas dessa láurea, então é melhor buscar uma xícara de café e preparar-se para descobrir, pois assim como a história do folclore e suas manifestações, essa postagem vai ser longa...

Vou basear este artigo nas justificativas que a Academia apresentou para dar o prêmio a Bob Dylan:

“por ter criado uma nova expressão poética dentro da grande tradição norte-americana da canção”. (Mensagem geral da Academia Sueca)

“Ele é o grande poeta, um grande poeta dentro da tradição da língua inglesa. Um autor original que carrega com ele a tradição e está há mais de cinquenta anos inovando e se renovando. [...] Se olharmos milhares de anos atrás, descobriremos Homero e Safo. Eles escreveram textos poéticos feitos para serem escutados e interpretados com instrumentos. O mesmo acontece com Bob Dylan. Pode e deve ser lido.” (Sara Danius, secretária permanente da Academia Sueca)


Então, senta que lá vem a história...

***

1. O que é a Folk Music e o que o Bob Dylan tem a ver com isso?

O jovem Bob Dylan
Folk, segundo uma das definições do Dicionário de Cambridge, é um adjetivo que expressa o tradicional ou o típico de um determinado grupo ou país, especialmente um onde as pessoas vivem principalmente na zona rural, e, geralmente, é transmitido de pais para filhos durante um longo período de tempo; exemplo, cultura popular. Ou seja, é o nosso bom e velho Folclore, que é expressado de todas as formas, Música, Literatura e Artes em geral.

[no Inglês, também chamamos um grupo de pessoas de folks, "o pessoal, o povo, etc... Como no final do desenho Pernalonga, da série Looney Tunes e Merrie Melodies, That's all folks! - Isso é tudo, pessoal!]

E uma das vertentes do Folk é a Folk Music, representada pelo Blues e suas ramificações, a Música Nativa Americana, Jazz e afins. Ela é tudo isso e Bob Dylan é um dos grandes nomes desse gênero, suas letras expressam a vida e um sentimento de um povo, através da poesia musicada, que nada mais é do que a própria música.

Veja um exemplo na música Mr. Tambourine Man:

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me, 
Hei! Senhor Tocador de Pandeiro, toque uma canção para mim,
I'm not sleepy and there is no place I'm going to.
Não estou dormindo, e não há lugar onde eu possa ir.
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
Hei! Senhor Tocador de Pandeiro, toque uma canção para mim,
In the jingle jangle morning I'll come followin' you.
No treme-treme da manhã, eu procurarei você.

Esta canção de Dylan foi lançada em 1965 e regravada por inúmeros artistas. Ela tornou-se famosa, em particular, por seu imaginário surrealista, influenciada por artistas tão diversos quanto o poeta francês Arthur Rimbaud e o cineasta italiano Federico Fellini. As interpretações vão desde uma Ode ao LSD até o religioso. Uma letra que passa a sensação e os pensamentos dos anos 60 - o movimento hippie entrava em cena.

2. A Literatura também engloba a música? Foi por isso que Dylan ganhou o prêmio?

Comecemos pela definição de Literatura no Dicionário Aurélio:

sf. 1. Arte de compor trabalhos artísticos em prosa ou verso. 
2. O conjunto de trabalhos literários dum país ou duma época.


Ou como o meu bom e velho Livro de Português do Ensino Médio fala:

"A arte da literatura existe há alguns milênios. Entretanto sua natureza e suas funções continuam objeto de discussão principalmente para os artistas, seus criadores, [...]. A literatura, como qualquer outra arte, é uma criação humana, por isso sua definição constitui uma tarefa tão difícil. [...] Literatura é a arte que utiliza a palavra como matéria-prima de suas criações."  (Emília Amaral et al, Português Novas Palavras: literatura, gramática, redação, p. 17. São Paulo, 2000)

Só com essas podemos entender muito sobre a premiação literária deste ano. Mas iremos além - vamos revisar uma parte importante da Literatura, a chave para compreender definitivamente todo esse cenário - é hora de redescobrir os TROVADORES.

ADENDO: O Trovadorismo foi escolhido para melhor compreensão dos falantes da Língua Mãe. Pelas comparações com Homero e Safo, por parte da secretária da Academia, eu poderia também abordar as origens gregas; só que para fins mais práticos e objetivos, a delimitação ficou nesse gênero literário medieval português.

2.1 O Trovadorismo
Menestréis
Cantigas de Afonso X
de Castela

"Dizia la fremosinha:
ai, Deus, val!
Com'estou d'amor ferida!
ai, Deus, val!" (trecho de Cantiga, D. Afonso Sanches de Portugal, trovador do final do século XIII)

No trecho acima, temos uma característica importante do Trovadorismo: a simplicidade, nos moldes da tradição popular. Além, claro, de uma língua que parece irmã do nosso Português: o Galego-Português [só no século XV que surgiram o Português e o Galego como línguas distintas].

Os historiadores costumam limitar o Trovadorismo entre os anos de 1189 e 1385. Mas o importante é saber que ele corresponde  à primeira fase da História Portuguesa - o período de formação de um reino independente. 

Podemos dizer que Trovadorismo é o conjunto das manifestações literárias contemporâneas à primeira dinastia de Portugal - a Borgonha. Tendo algumas características históricas importantes, como o feudalismo e o teocentrismo.

Nessa época a poesia ainda não era escrita para ser lida por um leitor solitário. Ela era CANTADA (por isso o nome cantiga), geralmente acompanhada por um coro e instrumentos musicais. Não tínhamos leitores e sim ouvintes.  Assim, a poesia trovadoresca é a produção poética, em Galego-Português, do final do século XII ao século XIV.

Página do Cancioneiro da Ajuda
2.1.1 O Cancioneiro

Só depois (final do século XIII) as cantigas foram copiadas e colecionadas em manuscritos (sobre um tipo de manuscrito dessa época, o iluminado, há um artigo no CQ&Sherlock aqui) chamados cancioneiros. Apenas três existem hoje e são:

1. Cancioneiro da Ajuda;
2. Cancioneiro da Vaticana;
3. Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa - Colocci-Brancuti.

2.1.2 Os autores

Os autores das cantigas são chamados trovadores. Eram pessoas cultas, quase sempre nobres, contando-se entre eles alguns reis.

2.1.3 Os intérpretes 

As cantigas compostas pelos trovadores eram musicadas e interpretadas pelo jogral, pelo segrel e pelo menestrel, artistas agregados às cortes ou que perambulavam pelas cidades e feiras. Muitas vezes o jogral também compunha cantigas.

2.1.4 Os gêneros

As cantigas são classificadas em: 

1. Gênero lírico

Cantigas de amigo - características: voz lírica feminina, expressão da vida campesina e urbana, realismo, simplicidade temática e formal, origem popular.

Cantigas de amor - características: voz lírica masculina, expressão da vida aristocrática, convenções do amor cortês (a idealização, a vassalagem amorosa, a coita "dor, sofrimento"), origem provençal. 

2. Gênero satírico

Cantiga de escárniocaracterísticas: indiretas, uso da ironia e de equívocos. 

Cantigas de maldizercaracterísticas: diretas, sem equívocos; intenção difamatória, palavrões e xingamentos.

***

Agora que você revisou o Trovadorismo, ficou mais fácil entender as razões da academia, não é mesmo?

Então vamos prosseguir...

Bob Dylan no Azkena Rock
Festival, 2010
4. Dylan é primeiro músico a ganhar um Nobel de Literatura?

Não. Rabindranath Tagore (nascido em Calcutá/Índia, em 7 de maio de 1861 - falecido em Calcutá/Índia, em 7 de agosto de 1941, também chamado de Gurudev) ganhou o prêmio em 1913. Compôs mais de 2000 músicas e o hino nacional da Índia. Ele foi poeta, romancista, músico e dramaturgo. Ele participou do movimento nacionalista indiano e era amigo pessoal de Mahatma Gandhi. 

A diferença, nesse caso, é que Dylan é o primeiro cantor-compositor a ser premiado sem ter uma obra, um livro lançado nos moldes formais.

5. E agora que eu entendi as razões, por que mesmo os burburinhos?

Porque as pessoas adoram uma polêmica pelos motivos errados e, no final, muitos não possuem conhecimento sobre o histórico da premiação, nem da História da Literatura e muito menos argumentos sólidos para embasar as suas críticas. Já sobre os escritores renomados, que ficaram odiosos com esse resultado, só posso entender o mesmo que escritor franco-congolês Alain Mabanckou:

"Os puristas e outros amargos rasgarão as roupas, denunciarão a degeneração do espírito de Nobel, mas me alegro de que se reconheça também a literatura na Palavra - no sentido poético do termo - em tempos em que muitos artistas pensam ser dispensados da exigência de fundo e forma em sua criação."

As justificativas, já mal cunhadas, esvaem-se de vez quando fala-se que Philip Roth merecia mais, ou mesmo Haruki Murakami ou o famoso poeta sírio Adonis. Eles merecem tanto quanto Dylan e fim de conversa. Esse fato de bradarem que a palavra escrita é Literatura e a palavra cantada não, nossa, é um descalabro de ideias sem precedentes.

Imagine só os brasileiros entrarem em desacordo com a entrega do prêmio a Dylan - seria como renegar a importância literária de Vinicius de Moraes e seus sonetos musicados, um verdadeiro trovador-menestrel das cantigas de amor, bem como Chico Buarque e seus versos dodecassílabos da canção Construção, ou ainda um dos mais belos poemas cantados - Chão de Estrelas - de Silvio Caldas. E os cordéis cantados e os repentes, seriam menos Literatura apenas pela musicalidade?

Não. Simplesmente não faz sentido.

A Literatura flui, volta ao básico e inova-se. Ela utiliza a PALAVRA, seja ela falada, cantada ou escrita. Ela é o testemunho de gerações, das graças e desgraças, das revoltas e justiças, do tempo memorial e imemorial. 

O trovador apenas modernizou-se, saiu do medieval e atravessou eras, ele não só escreve, ele canta também. Suas composições continuam essencialmente falando do povo para o povo. E se Dylan hoje é Nobel, ratificando de vez sua história na Literatura e causando burburinho entre os conservadores mais xiitas e os desinformados de plantão, daqui um tempo ele estará nos nossos livros de estudos, sendo parte mais do que essencial para entendermos a nossa própria História.

ATUALIZAÇÃO

19/10/2016

O Bob Dylan anda rebelde e não falou ainda com a Academia e nem se pronunciou sobre o fato. Os membros acabaram por desistir e vão deixar as pedras rolarem até a cerimônia de entrega - se ele irá ou não, eis um mistério hamletiano.

Como sempre o capitalismo e os empresários não perdem tempo - resolveram lançar alguns livros do Dylan aqui no Brasil. Porém vale ressaltar que esses livros não tiveram peso algum no prêmio dado ao músico.

ATUALIZAÇÃO

03/11/2016

Finalmente nosso querido Bob Dylan se proncunciou sobre o Nobel. Ele pretende buscar seu prêmio pessoalmente em Estocolmo. Após duas semanas de silêncio, ele falou sobre ter ganhado o Nobel de Literatura, em entrevista ao jornal britânico The Telegraph. Um comunicado divulgado pela Academia Sueca foi publicado no dia 28 de outubro de 2018. Ao ser questionado se pretende ir à cerimônia de premiação, ele disse ao jornal - Absolutamente. Se for possível.

A Academia disse que o cantor ligou e que, na ocasião, falou - Se eu aceito o prêmio? É claro. A notícia sobre o Prêmio Nobel me deixou sem palavras. Eu agradeço muito por essa homenagem.

A Academia também pretende que Dylan cante na cerimônia.

ATUALIZAÇÃO

06/12/2016

Dylan anunciou que não irá a entrega do Prêmio Nobel de Literatura, em Estocolmo, dia 10 de dezembro de 2016, por causa de outros compromissos. Porém ele enviou um discurso para ser lido no evento. Patti Smith irá cantar A Hard Rain's A-Gonna Fall, uma das composições mais conhecidas dele.

O discurso de Dylan será lido por Horace Engdahl, da Academia Sueca, segundo a agência de notícias local TT.

ATUALIZAÇÃO

10/12/2016

Como foi dito anteriormente, Bob Dylan não foi à cerimônia de entrega do Nobel de Literatura. A honraria foi apresentada com uma performance da cantora Patti Smith e um discurso de Horace Engdahl.

Patti estava muito nervosa e cometeu alguns erros ao cantar a música A Hard Rain's A-Gonna Fall. Mas, ao final, foi muito aplaudida e compreendida pelo público presente.


***

Para encerrar, eu vou deixar a MÚSICA de Dylan que marcou a minha vida. Chama-se Don't Think Twice It's All Right, do álbum The Freewheelin' Bob Dylan, de 1963. Em 2003, o álbum foi incluído na lista da revista Rolling Stone como o nº 97 dos 500 Melhores Álbuns de Todos os Tempos. Ela é trilha sonora de um filme que amo e foi através dele que a escutei pela primeira vez. O filme chama-se Apostando No Amor (Dogfight/1991), com alguns dos meus atores favoritos, River Phoenix e a graciosa Lili Taylor (o CQ&Sherlock fez uma crítica do filme aqui).



Fontes:

Livros e dicionários

Português Novas Palavras: literatura, gramática, redação, Emília Amaral et al. São Paulo, FTD, 2000
Antropofagia Trovadoresca - José D’Assunção Barros, Doutor em História Social - Artigo
Bob Dylan vence o Prêmio Nobel de Literatura de 2016, Cultura, jornal eletrônico EL PAÍS, 13 de outubro de 2016
G1 - Nobel de literatura, Bob Dylan também tem Oscar, Pulitzer, Grammy e mais
#SalaSocial: Seis letras que mostram por que Bob Dylan mereceu o Nobel de Literatura ─ na opinião dos leitores - BBC Brasil
Folk Music - Wikipédia em Inglês
Rabindranath Tago - Wikipédia em Português
Nobel de Literatura - Wikipédia em Inglês
Dylan é o 2º músico a ganhar Nobel literário – e o 1º em 103 anos, revista VEJA eletrônica

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Notícias do front... O que andas fazendo, óh, criatura?

Pois bem, pois bem, eis como nos primórdios do CQ&Sherlock...

Então é o mês das folhas que caem, das paisagens amarronzadas com aroma de madeira e canela e... Não, não é nada disso! Por aqui somente um calor escaldante dos trópicos, com um céu cegamente azul e uma sede sem fim. Penso que qualquer um desses dias será mais do mesmo - nenhuma gota de chuva e tampouco nuvens cinzas que façam-me sentir como nos velhos tempos do belos temporais que vinham do leste. Nossa, que saudade daqueles tempos imemoriais...

Mais do mesmo também é meu cotidiano. Estou tentando terminar o curso de Física, uma notícia mais velha que o próprio Matusalém.

 - Senhor, como está difícil!

São apenas duas cadeiras e dois cenários tão distintos e discrepantes que uma confusão e discussão mental fazem-me sair da sala em pensamento: um professor muito rígido, mas que mantém o diálogo um pouco mais aberto. O outro, um senhor que não sei bem como foi parar no magistério acadêmico. Um tédio absoluto em ambas - a primeira disciplina é tão abstrata que não sei por onde começar. E isso não me incentiva a abrir o livro, que por desventura é em inglês, para tentar entender. É como antecipar um futuro já sabido por todos - aquilo é extremamente complicado para se aprender e não há uma viva alma para concordar comigo; a segunda, pateticamente tão mal ministrada que não merece nenhuma linha a mais desta conversa. Das intempéries desse semestre, não sei mais o que profetizar. É apenas uma questão de espera.

No final do mês haverá o IV Simpósio de Estudos Celtas e Germânicos dos meus colegas do curso de História. E sim, escrevi-me nele sem pudores - será uma escapadela da realidade mórbida que cerca o meu prédio de exatas. Digo a muitos (e poucos compreendem) que é como cruzar o portal para dois mundos extremos - em apenas uma travessia de passarela, ou escadas, desvencilho-me do ar pesado e sabichão dos arrogantes para adentrar em uma reunião dos seresteiros, cancioneiros e trovadores da noite. Pode parecer vadiagem sem precedentes, mas eu prefiro assim.

Continuo a tocar as minhas flautas nativas. Mas uma tem dado-me um pouco de dor de cabeça - parece desafinar em uma das últimas notas e tem um "vento" que rivaliza com o som. Conversei com o luthier, mas ele insiste em dizer que é sopro em demasia. Desanimei um pouquinho, só que irá passar.

As dores na coluna vão e voltam. Eu não tenho hérnia de disco, apenas degeneração discal. Acho que já estou bem acostumada a esse ritmo. Claro, nos dias de dores, tudo parece sem esperança. Ajuda muito a piorar esse quadro a TPM, esses sim são péssimos momentos. E conversando com o meu médico, optei por fazer pilates e fitdance (a famosa zumba) e tomar alguns medicamentos menos agressivos. Tudo isso foi cuidadosamente pensado depois que ele passou-me um antidepressivo que também age nas dores crônicas e juro, depois de tomado um comprimido apenas, a morte parecia mais perto do que nunca. É como não sentir-se mais a mesma pessoa, uma sensação de letargia, respiração quase parando, o mundo girando e pensamentos infernais. Resultado: o ortopedista concluiu que sou uma pessoa demasiadamente sensível a antidepressivos.

Depois de completados 30 anos... A contagem já não importa mais.

Estou endividada até a alma (ha, ha, ha). Tive que cortar o plano de saúde e minha boa vida acabou. Estou procurando um emprego e, pelos céus, como está intricada esta parte. Esta cidade é estranha para quem quer entrar no mercado de trabalho depois de muito tempo. Resolvi tentar o setor das aulas particulares, mas também é um cenário difícil. Depois de 4 anos fora de órbita, vivendo apenas com as bolsas de iniciação científica, não há mais como sobreviver desta maneira. Depois da última bolsa, em que o Professor chamou a mim e outros colegas de vagabundos que não queria trabalhar, decidi que é melhor ir para outro ramo.

Estou viciada nos documentários do Investigação Discovery. Os programas que mais assisto são A Sangue Frio e Casos Arquivados. É uma sensação de alívio saber que os assassinos foram punidos com o rigor da lei no final de cada episódio - algo que não teria espaço aqui no Brasil - o país mais escrachado, nesse aspecto, de todos.

Estou quase acabando (de verdade!) Moby Dick Volume I, faltam apenas 24 páginas. E como já relatei em outras postagens, isso tornou-se uma saga de quase 3 anos. E o Volume II promete seguir a mesma rota.

São dias calmos, bem tranquilos, eu diria. Quando você toma conhecimento da sua quebra financeira e encara isso de frente, não há mais ansiedade e compulsividade, ou mesmo ira. É um fato consumado e ponto final. Claro, todos pensam em sucesso e dinheiro para mostrar o poder adquirido alguma vez na vida ou em toda ela - não passando de uma ilusão neon; a nobreza encontra-se na simplicidade. A palavra mais adequada para nossas ambições seria estabilidade, porém, para a maioria, esta não tem validade se não for uma vaca gorda que jorre leite espumante em bicas. Talvez percamos muito tempo em uma busca desenfreada pelo ter para satisfazer apenas caprichos, deixando essa passagem incompleta e levando lacunas para a próxima. Só que não estou dizendo que quero viver dependente dos outros, como estes filhos que acomodam-se. Longe de mim! A procura diária do saber quem eu sou levou-me por caminhos mais místicos. Percebo que a vida é mais promissora para aqueles que tentam desprender-se das imposições da sociedade, um monstro faminto e impiedoso - prepara o indivíduo para ser devorado, fazendo-o acreditar que o que a nutre também o nutrirá, quando na verdade, a criatura não passa da próxima refeição.

Tenho mais passatempos agora - traduzo legendas do Inglês para o Português de minisséries, séries e peças de teatro inglesas ou de outras línguas que são raríssimas de encontrar no Brasil. Eu já traduzi e aprontei uma legenda para o filme dinamarquês O Jovem Andersen (que fiz a crítica aqui), agora trabalho com duas obras - todas com o ator que amo, Sir Derek Jacobi (que eu falei aqui) - Little Dorrit, de Charles Dickens, de 1988, e a peça Hamlet, de Shakespeare, de 1980 - ambas da BBC. Tais legendas são extremamente dificultosas. Quando você trabalha como legender, percebe a diferença entre um bom trabalho e um péssimo. Little Dorrit tem 6 horas de duração, divida em duas partes, e Hamlet tem 3 horas, sendo assim, a pressa não tem vez. Nesses casos, traduzir bem também significa conhecer as obras e um pouco do universo do autores. E boas legendas podem demorar até dois meses para ficarem prontas. No caso de Hamlet, com uma linguagem altamente rebuscada em inglês, tenho que usar livros, duas traduções em Português (Brasil e Portugal), e a peça no original, em Inglês, para saber o que foi utilizado e o que foi cortado para em seguida passar para as legendas. É como um grande quebra-cabeça que monta-se dia após dia.

Tenho dois temas para escrever nos próximos dias - A série Stranger Things, que já havia prometido, e o Nobel do Bob Dylan. Talvez o tema Dylan saia primeiro, pois foi um burburinho sem sentido para algo que eu considero fantástico e totalmente justo - eu sempre quis falar sobre os trovadores e eis uma bela oportunidade.

Lembre-se:

"Se não há vento para seu barco, reme!". 

E dito isso, desejo-te, leitor (a), uma ótima e agradável noite.


T. S. Frank


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Vicious - minha série perfeita

Vicious é a minha companhia da noite ou daqueles momentos mais melancólicos que eu preciso rir despretensiosamente. E por quê? Por que ela é hilária e possui o enredo e as tiradas das comédias que eu aprecio. Se eu for contar quantas vezes vi todos os episódios das duas temporadas dessa sitcom inglesa, muitos números farão parte desse índice.

Há séries que ficam guardadas na memória e outras que vão além disso: ficam guardadas para serem assistidas a qualquer momento. Vicious é uma delas. Depois de The Mentalist e Fringe, não pensei que iria achar uma série para fazer parte desta família sentimental assim tão facilmente. Só que foi amor no primeiro episódio.

Vicious é puro talento. Não por menos, afinal, o casal principal da série britânica é composto por dois monstros sagrados da interpretação: Sir Ian Mckellen e Sir Derek Jacobi. E não é nenhum exagero: eles são tesouros nacionais, como dizem os britânicos.

O enredo da série gira em torno do casal Freddie Thornhill e Stuart Bixby. Há 50 anos juntos, eles vivem uma verdadeira relação de amor e ódio, dessas que a gente conhece das histórias de todos os dias.

Freddie é um ator com um excesso de confiança extremo. Ele trabalha, geralmente, em papéis pequenos. Já Stuart é um ex-gerente de um bar, dedicado a casa e até bem mais paciente que seu companheiro. Os dois vivem a trocar farpas, numa espécie de jogo. Mas no fim, um não pode viver sem o outro. 

Lógico, como pede a estrutura e enredo de uma sitcom, há também os amigos e parentes que entram nos conflitos e cotidiano do casal: 

Violet Crosby (Frances de la Tour), uma amiga muito próxima do casal. Vi (como muitas vezes é chamada por Freddie e Stuart), vive saindo e entrando em relacionamentos bizarros, metendo-se em situações extravagantes. Muitas vezes comporta-se como uma ninfomaníaca e tem uma queda pelo vizinho dos amigos, Ash.

Elenco da série Vicious
Ash Weston (Iwan Rheon), é o vizinho jovem e atraente do casal. Ele tem uma complicada situação familiar, com pais criminosos que estão presos. Mas isso não abala tanto a sua confiança. Vez ou outra ele aparece com um emprego estranho e novas namoradas. Contudo isso não impede as investidas de Violet. 

Penelope (Marcia Warren), uma velha amiga de Freddie e Stuart que está sempre muito confusa sobre as coisas mais simples. Já teve um brevíssimo relacionamento de duas noites com Stuart na juventude. Para Freddie, ela não passa de uma louca. 

Mason Thornhill (Philip Voss), é o irmão genioso de Freddie. Está sempre a queixar-se das mesquinharias do casal (pura falta de dinheiro mesmo!). Sempre aparece na casa acompanhado por Penelope, quando essa não esquece dele... 

Mildred Bixby (Hazel Douglas), a mãe de Stuart. Todos os dias ele liga para saber como ela está, porém isso nem sempre é feito de bom grado. Ela acredita que um dia o filho se casará e terá um filho e que Freddie é apenas o colega de apartamento do Stuart. Segundo Freddie, nem mesmo Jesus quer passar um tempo com a Sra. Mildred.

Balthazar, o cãozinho quase múmia da casa. Às vezes é necessário borrifar água para que ele reaja a algum acontecimento.

Vicious é da ITV, foi criada por Mark RavenhillGary Janetti, escrita por Gary Janetti e dirigida por Ed Bye.

Ela esteve no ar de 2013 a 2016, com duas temporadas e dois especiais. 

Primeira temporada
Sir Ian Mckellen e Sir Derek Jacobi
Freddie e Stuart

1 Wake - 29 de abril de 2013
2 Cheat - 06 de maio de 2013
3 Audition - 13 de maio de 2013
4 Clubbing - 20 de maio de 2013
5 Dinner Party - 03 de junho de 2013
6 Anniversary - 10 de junho de 2013
7 Christmas Special -  27 de dezembro de 2013

Segunda temporada

1 Sister - 01 de junho de 2015
2 Gym - 08 de junho de 2015
3 Ballroom - 15 de junho de 2015
4 Stag Do - 22 de junho de 2015
5 Flatmates - 29 de junho de 2015
6 Wedding - 06 de julho de 2015
7 Special - 19 de junho de 2016

Vicious é nostalgicamente engraçada e divertida. Não é difícil apaixonar-se por ela. Basta uma olhada e os sorrisos e gargalhadas começam a aparecer.

Recomendadíssima!

A habitual troca de farpas entre Freddie e Stuart
(Sem legendas, áudio em inglês)


Erros de gravação
(Sem legendas, áudio em inglês)



Agora vamos falar sobre Sir Ian Mckellen e Sir Derek Jacobi...

Ian e Derek nos tempos de Cambridge

Bem, Sir Ian Murray Mckellen (nascido em 25 de maio de 1939, Burnley, Lancashire, Inglaterra, 77 anos) é conhecido pelos personagens Gandalf e Magneto. Mas isso é apenas para quem limita-se a explorar essa ínfima parte de sua história como ator.

O Jovem Mckellen
Ele já foi indicado ao Oscar pelos filmes Deuses e Monstros (Gods and Monsters) de 1998 e Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring) de 2001. Já ganhou um Globo de Ouro, 4 BAFTAS e teve 5 indicações ao Emmy Award. Entretanto essa não é nem de longe a parte grandiosa pela qual ele é considerado um tesouro nacional. 

Sir Ian Mckellen
Ian Mckellen é um monstro sagrado dos palcos. Já ganhou 6 Laurence Olivier Awards e 1 Tony Award. Sua especialidade é Shakespeare.

Ele é abertamente homossexual. Conhece Sir Derek Jacobi há tempos. Ambos estudaram em Cambridge, onde Ian ganhou uma bolsa para o curso de Inglês e Literatura. Os dois conheceram-se em 1958 e, na época, Mckellen admite que tinha uma queda pelo amigo, mas não era correspondido.


Uma entrevista de Mckellen, em 1984, por Brian Linehan 
(legendas somente em inglês, áudio em inglês)



E a minha parte favorita...

Jacobi é o meu querido. Sim, isso mesmo. E vou explicar o porquê. 

Derek em Hamlet, 1980
Sir Derek George Jacobi (nascido em 22 de outubro de 1938, Leytonstone, Londres, Inglaterra, 77 anos) é uma lenda dos palcos. Seu papel mais aclamado na televisão é a estupenda série Eu, Claudius (I, Claudius, adaptada pela BBC, em 1976, da série de livros do escritor inglês Robert Graves), onde fez o papel título e por ele recebeu o BAFTA. Tem outros sucessos na televisão, como Cadfael (1994-1998), Last Tango in Halifax (2012-2014), Breaking the Code (1996; no teatro, em 1986, teve o mesmo papel, interpretando Alan Turing) e Little Dorrit (1988) - este com o também espetacular ator inglês Alec Guinness.

Só que sua consagração veio através do teatro, tornando-se referência em Shakespeare, tendo dois Laurence Olivier Awards, 1 Tony Award e 1 Primetime Emmy Award.

Formou-se em História no St. John's College/Cambridge.

Jacobi é, também, abertamente homossexual.

Derek como Claudius
em Eu, Claudius, 1976
Minha paixão por Derek Jacobi é enorme; claro, começou por causa de Vicious. Ele é extremamente charmoso e quando mais novo, era muito bonito. Hoje é um senhor bem apessoado, de cabelos brancos, cor-de-rosa e muito elegante.

Seu jeito de falar e expressar-se hipnotiza, como na expressão "sair algodão de sua boca". Sua voz pode ser tanto eloquente, que poderia, facilmente, reger trovões, como ser suave e meiga, como um leve toque aveludado, que faz o coração derreter-se.

E eu fiquei tão ávida por ele, que comecei uma maratona dos seus trabalhos, partindo de Eu, Claudius, para, somente agora, terminar Little Dorrit. E tem muito ainda pela frente...

Sempre estou a procurar novas e antigas atividades de Jacobi. Por exemplo, em uma entrevista (material bônus do Box de Eu, Claudius), ele fala sobre os papéis mais importantes para ele. O curioso é que apenas um pertence a televisão, que é justamente a adaptação dos livros Robert Graves. O restante é todo de teatro - ele é um homem dos palcos e vive para isso.

Sir Derek Jacobi
Só que mesmo os grandes nomes e lendas da atuação não estão a salvo dos problemas que podem abalar suas carreiras. Depois de uma turnê mundial de Hamlet, em 1980, o ator sucumbiu ao que chamou de verme da dúvida e começou a ter medo dos palcos e foi assim por dois anos. Como ele mesmo disse em uma entrevista ao Jornal The Guardian, em 25 de julho de 2016:

"Eu estava cansado e não estava mais apreciando aquilo por um tempo. Houve um verme da dúvida na minha cabeça. Eu simplesmente não podia mais fazer aquilo. E eu não entrei nos palcos por dois anos."

Quando ele estava em Munique, no fim desse período de dois anos, recebeu um convite para interpretar Benedick na peça shakespeariana Muito Barulho Por Nada. Ele aceitou e foi através dela que veio a salvação para perder o medo de entrar novamente nos palcos.

Bom, sorte a nossa que esse momento difícil foi superado. E, dessa maneira, podemos ver suas maravilhosas interpretações com a maestria que somente ele possui.

E vida longa a estes dois gênios!

Derek Jacobi em fragmento de Hamlet, Príncipe da Dinamarca, BBC, 1980
 Ser ou Não Ser - Ato 3, cena 1
(Sem legendas, áudio em inglês)


Uma copilação de cenas com Derek Jacobi no filme Henrique V, de 1989, onde ele é o narrador. Sua interpretação é memorável nesta película!
(Sem legendas, áudio em inglês)


Entrevista com Derek Jacobi (material bônus do Box de Eu, Claudius), em 2010. 

sábado, 24 de setembro de 2016

Anoitecer (Dusk) - Flauta Nativa Americana - NAF


Ao anoitecer, todos os espíritos saem das florestas rumo as montanhas vermelhas. E seus passos vão de norte a oeste, deixando rastros azuis de encantamento e gotas de lágrimas incandescentes - são as estrelas que cintilam no boreal. (T. S. Frank)

***

Anoitecer
Flauta (em bambu) Nativa Americana, chave em F, pentatônica

Tocada por T.S. Frank
Música incidental: Dusk pt. 1, Sound of the Earth - Dusk.

Dusk
Native American Bamboo Flute, Key F, pentatonic,
Performed by T.S. Frank
Incidental music: Dusk pt. 1, Sound of the Earth - Dusk.





quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A bissexualidade, a não maternidade, maternidade tardia e outras questões...

Ah, esses nefastos dias de opressão, golpistas e republiqueta. O mundo tornou-se um caos por culpa do medonho embuste por trás da moral e dos bons costumes... Que blasé!

... E por esses dias estava eu a discutir sobre a bissexualidade.

Acredito piamente, o ser humano é bissexual. O amor não faz escolhas. E isso seria tão natural se o mundo não amargasse em questões religiosas extremistas.

Até o momento, nunca apaixonei-me por uma mulher. Mas isso não tira-me a possibilidade de que talvez um dia isso ocorra. Afinal, o amor e o desejo fazem distinção entre quem tem um pênis ou uma vagina? Ou a enraizada culpa religiosa e machista amarga qualquer pensamento sobre isso? São perguntas pertinentes em um mundo ainda em suave transição.

Esta foi uma semana reveladora. Muitas pessoas que eu gostei ou namorei, de fato, já experimentaram ambos os lados. E, pelo que sussurram, talvez, fiquem na oposição. Uma delas é um conto bem triste, com suicídio, disfarces e assuntos que foram escondidos por aqueles que eu confiei. Para este eu desejo uma felicidade plena.

Relacionar-se é um bocado difícil, seja com homens ou mulheres. Não importa. É o cotidiano sufocante em um mesmo ambiente que aniquila qualquer possibilidade de paz e satisfação. Quase um filme Veludo Azul: a face bizarra de um mundo coberto pelas cores artificiais de tulipas esfuziantes que escondem existências tão degradantes como a pior sarjeta existente - sem tirar e nem por.

Eu já passei pela experiência de ficar uma semana na minha casa e uma semana na casa do meu ex-namorado, alternando durante uns seis meses. Meu Deus do céu... Que patético. Aquilo definitivamente não é para mim. Uma grande sensação de estrangulamento, deslocamento e todos os mentos. E como a vida flui, eu tive que dar um ponto final nessa tragédia anunciada. E, posso afirmar por agora, que não quero esse tradicionalismo nem pintado com o orvalho dourado da manhã. Sim, eu quero um living apart together, assim como escrevi aqui, nesse blog, há 5 anos.

Não posso ser acusada de não tentar. Afinal, todos os religiosos, machistas e românticos ensandecidos gostam de dizer que não se encontrou a pessoa certa e blá, blá, blá... E sobe-me uma certa quantidade de sangue para a face quando escuto algo do tipo. Padronização desenfreada e empurrada garganta abaixo não há como tolerar. É como calçar sapatos comprados em lojas: eles são feitos para vários números iguais ao seu, mas seus pés são únicos e uma hora um deles vai machucar muito e deixar sequelas.

Aliás, há um certo misticismo em várias questões femininas. Exemplo? Virgindade. Nunca entendi o porquê dessa aura dourada e fantasiosa em torno dela. Na prática é bem mais simples - não há mortos e nem feridos - um pedacinho de pele foi-se - não existe nenhuma obrigação. Como a vida era difícil quando por causa desse famigerado hímen muitas mulheres tinham que viver com um canalha por um longo tempo...

Outra questão é a maternidade. E essa causa-me calafrios. Não pelo desejo de não ser mãe tão cedo, que é algo que grita dentro de mim (eu só tenho 30 anos e nenhuma vocação e vontade, não há útero e hormônios que mudem minha concepção por agora.), e sim pelo fardo que é um acordo (ou uma intimação) unilateral. Está extremamente longe o ideal de parceria neste caso - a paternidade ainda significa uma liberdade maior do que a maternidade. E não venha-me com essa história de que o homem trabalha para sustentar filho e mais umas lorotas. A sociedade aponta no seu rosto todos os dias. Quem conforma-se com isso, tudo bem, padeça no seu paraíso. Mas o número de inconformadas aumenta a cada dia, o que é um alento. Temos aqui uma balança em desequilíbrio visível. E ainda há os riscos de morte na gravidez e a criminalização do aborto. Por isso que amo os pinguins e os cavalos marinhos - a natureza redimiu-se comigo apenas nestes casos.

Por outro lado, a maternidade tardia e a adoção causam burburinhos. Hoje há a tendência de engravidar aos 40 anos. Mas com toda a certeza você já ouviu, ou ouvirá, chiados por todos os lugares. Eu mesma já escutei cada barbaridade de colegas que não valem perder o meu tempo. E a balança novamente pende para um lado - um homem que tem um filho aos 40 anos será abençoado por um bocado de gente. A adoção segue a linha da família tradicionalista putrefada - "eles não são seu sangue.", mas se o casal é gay, há uma virada de casaca: "o que será dessa criança!".

A vida é injusta com as mulheres desde os primórdios. Mas o que ocorre-me é que não há como voltar para o estado em que éramos escravas do mundo e do lar, monitoradas pelas famílias, pelos homens e pelos juízes e juízas moralistas. Só que não aproveitaremos a igualdade como desejamos, que bem mais tarde ocorrerá. A mortalidade não nos permitirá. Nosso papel é lutar, dizer não e revidar - e isso é desgastante e necessário. É seguir em frente com os ideais, mesmo que o machismo velado diga que você é louca, mal amada, encrenqueira, um monstro por não querer ser mãe, defender o aborto e uma série de barbaridades que a sociedade prega como verdades absolutas para uma cidadã de bem.

Sinto-me um ser amordaçado, recorrente a pantomina. Tudo é enfadonho e bem cinzento. Ser mulher é entrar em um campo de batalha minado todos os dias, muitas feridas ao longo da guerra em nome da liberdade...

... A liberdade para amar pessoas, de não ser mãe, decidir sê-lo bem depois...
... Liberdade de ser eu mesma em minha essência - sem o peso das correntes alheias.

sábado, 27 de agosto de 2016

Minha nova Flauta Nativa Americana de 6 furos (diatônica) e a música Annie's Song do John Denver

Há alguns dias comprei uma nova NAF (Flauta Nativa Americana). Como já falei anteriormente para você, querido (a) leitor (a), eu tenho uma feita de bambu, pentatônica, ou seja, com cinco furos. Ela é mais típica dos povos andinos (frequentemente, pode-se ver o bambu empregado nas famosas e belíssimas Flautas de Pã.). Mas eu desejava também ter uma típica da América do Norte. E assim consegui realizar o meu desejo (o que me endividou até o final do ano.).

Eis my new PRECIOUS:

NAF - Diatônica - 6 furos - em madeira

Ela é também em F (assim como a de bambu). Quando a encomendei, pedi que fosse uma pentatônica. Mas o luthier convenceu-me que era melhor ter a diatônica, assim como as originais. Ele apenas colocou a faixa de couro no quarto furo para virar uma de 5 furos, assim como é feito nos Estados Unidos. Com o tempo, percebi que era melhor tirar a faixa e treinar com todos os furos. Assim saiu Annie's Song na minha flauta, cuja a gravação que eu fiz você escutará logo mais. Pois antes falarei dessa canção que eu amo que foi escrita e gravada por um músico que amo ainda mais, John Denver (que eu já falei AQUI e AQUI no blog há uns anos...).

Annie's Song


Álbum de 1974 - Back Home
Again - Na foto, podemos ver
John Denver e sua esposa
Annie Martell Denver
Annie's Song (também conhecida como "Annie's Song (You Fill Up My Senses)") é uma canção de rock country escrita e gravada pelo cantor John Denver. Ela foi lançada como single do álbum de 1974 - Back To Home Again. E tornou-se um estrondoso e cativante sucesso. Ficou no topo dos charts de música daquele ano por meses e terminou na famosa lista cumulativa de dezembro da Bilboard Hot 100 de 1974 em #25. Ele a escreveu para sua primeira esposa, Annie Martell Denver, em 1973, em apenas 10 minutos e meio, num teleférico de uma estação de ski. Toda a beleza que viu na descida o inspiraram a escrever sobre a esposa. 
John Denver
Foto retirada do encarte do
álbum A Song's Best Friend
The Very Best Of John
Denver

Milt Okun (produtor musical de Denver), no encarte do álbum A Song's Best Friend The Very Best of John Denver, de 2004, fala que:

John chegou um dia no estúdio e tocou esta canção, que chamava de Song For Annie. Eu lhe disse: - John, estes são os primeiros acordes do Segundo Movimento da Primeira Sinfonia de Tchaikovsky. Este mesmo trecho também havia sido usado, uns quarenta anos atrás, em uma canção pop chamada 'Moon Love'. John então se sentou ao piano por meia hora e modificou a música, que ficou sendo uma pequena parte Tchaikovsky e em sua maior parte Denver. John foi quem teve a ideia de fazer um refrão inteiro apenas murmurando. Naquele tempo todas as vozes tinham que ser gravadas, não havia os recursos de hoje, ao alcance de alguns botões. No fim, a parceria com Tchaikovsky acabou ficando ótima. E Annie's Song tocou vários corações ao redor do mundo. 

Infelizmente, John Denver faleceu em 12 de outubro de 1997, em um acidente com seu avião experimental. Ele mesmo o pilotava no momento.


A Sinfonia No. 1 - Tchaikovsky


... Também conhecida por Sonhos Diurnos de Inverno - Pyotr Ilyich Tchaikovsky a escreveu em Sol Menor (G Minor), em 1866, logo após ter aceitado um cargo de professor no Conservatório de Moscou. E a mais antiga obra notável do compositor.

Estrutura:

1. Sonhos de uma Viagem de Inverno. Allegro tranquillo;
2. Terra da Desolação, Terra das Névoas. Adagio cantabile;
3. Scherzo. Allegro scherzando giocoso;
4. Finale. Andante lugubre - Allegro maestoso.


Minha gravação de Annie's Song

Flauta (em madeira) Nativa Americana, chave em F, diatônica
Tocada por T.S. Frank

Annie's Song
Native American Flute (wood), Key F, diatonic,
Performed by T.S. Frank






Performace de John Denver -  Annie's Song

"Vocês sabem, é algo maravilhoso ser capaz de compartilhar-se com as pessoas. E eu encontro tanta alegria em escrever canções que o melhor que eu posso fazer sobre isso é cantar para vocês. E eu gostaria que soubessem que a melhor parte de comunicar e compartilhar-se é ser capaz de dividir o modo como se sente sobre a primeira pessoa em sua vida - esta bela mulher que eu sei que é a Annie, que apoiou-me e deu-me forças para fazer tudo o que eu queria em minha vida. Esta é sua canção..." (John Denver)




Sinfonia No. 1 - Tchaikovsky

... Por um dos meus regentes favoritos - Herbert von Karajan

Berliner Philharmoniker
1979



Fontes:

Milt Okun - Encarte do álbum A Song's Best Friend The Very Best of John Denver, de 2004 - Faixa 8 - Annie's Song
Annie's Song - Wikipédia em Inglês
John Denver - Wikipédia em Inglês
Sinfonia No. 1 - Tchaikovsky - Wikipédia em Inglês

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Layout do mês: homenagem a Stranger Things - Netflix

A NetFlix mudou a vida de muita gente, inclusive a minha e provavelmente a sua. Eu tenho muitas coisas para falar sobre o serviço de streaming, pois sou usuária e amo - principalmente quando eu estou em casa, de folga e coloco na minha Smart TV. Mas isso deixarei para outra hora...

Hoje estamos homenageando a série que virou sensação: Stranger Things. O CQ&Sherlock trará uma resenha em breve... Enquanto isso... Se não viu, veja!




Quer o seu próprio logo de Stranger Things? Visite MakeItStranger.com

domingo, 14 de agosto de 2016

Um sonho sobre assassinatos

O título é assustador e macabro - um sonho sobre vários assassinatos que poderia ser (se sonhos fizessem sentido) um conto do Edgar Allan Poe.

Prólogo

Um dos meus sonhos recorrentes é com assassinatos. Sim isso mesmo! O meu, por assim se dizer. Sonhar com a morte é comum entre nós, porém, nos que eu tenho, ela é sempre causada pelos outros.

Se eu fosse utilizar a Astrologia, que oferece uma gama confusa de diversos significados, ficaria, além de desacreditada, com dúvidas extremas. Foi assim que essa alternativa foi deixada de lado, pois não há nada de místico e verdadeiro em algo que enche, também, sua tela de spams.

Um dia, talvez, eu recorra ao Espiritismo sério. Afinal de contas, eu acredito em reencarnação e carma. E de todas as religiões, incluindo a minha atual que é a Católica, ela é que desperta em mim a sensação de que há, realmente, algo que não pode e nunca poderá ser provado cientificamente, mas que coexiste desde o princípio de todos os universos, invisível para a maioria e para todos os instrumentos, inerente em nossa essência.

Minha mente então fantasia, tornando-se uma roteirista que trabalha enquanto eu durmo. E nela os cenários das angústias tomam corpo e rosto. E filmes horrendos, cheios de pesar, começam a ser rodados.

Sonho
14 de Agosto de 2016 - Tarde

Prelúdio  

Outro sonho frequente é com uma casa antiga e de madeira. Essa casa, muitas vezes, é o primeiro sonho, de curtíssima duração. Eis sua descrição:

Uma casa velha de madeira, enorme, com três ambientes - subsolo, térreo e sótão. Ela está condenada. Muitas tábuas estão soltas. Precisa-se tomar um certo cuidado ao pisar. Não posso afirmar a época a qual ela pertence. Há uma escada em espiral feita de ferro e ricamente decorada. Ela liga o primeiro andar ao segundo. Pela fresta, percebe-se que ela fica em um lugar isolado, pois há um grande descampado com uma grama um pouco desbotada. No sótão há móveis - cadeiras, principalmente. Eles parecem antigos, não apenas no estado, mas de uma época muito distante.  

***

Tudo começa com um navio amarelo parado na beira de uma praia, onde, um pouco longe, pode-se ver um posto de gasolina. No convés, uma mulher conversa com outra - as duas possuem cabelos pretos e são brancas. A primeira parece solitária e um pouco triste e a segunda, distante e não inspira confiança. Estou observando a cena, assistindo em primeiro plano, mas não posso dizer se eu sou ou não a primeira mulher. 

Todos estão indo embora. A impressão é que algo aconteceu com esta embarcação e ela não poderá mais seguir viagem. Apesar de parecer muito fácil apenas descer e ir para a areia, a primeira mulher não vai embora como os outros. Ela decide ficar e, aparentemente, espera a ajuda da segunda que, assim como quase toda a tripulação, foi embora. Ao que tudo indica, essa segunda prometeu algo. Mas, de alguma forma, eu sabia que ela não iria retornar e fazer o que foi combinado. 

A primeira mulher desaparece dentro do navio.

Agora há uma outra cena, dentro do navio, em um ambiente totalmente branco. Desta vez sou eu, do jeito como conheço-me hoje. Estou com pessoas conhecidas e desconhecidas. Somos hóspedes. Mas o navio continua parado. Estamos desfazendo as malas para ficar. É como se conhecêssemos a mulher que sumiu e estamos investigando o seu desparecimento. De repente, uma outra cena: dois contêineres brancos são avistados. Estou lá para abri-los. O primeiro está cheio de água turva e contém vários gatos pretos mortos que encobrem um corpo que não pode ser imediatamente reconhecido. Só é possível saber que é uma mulher e que tem cabelos pretos. Há uma sensação geral que aquela é a mulher que sumiu. O segundo, ao ser aberto, revela uma água clara com um corpo de uma outra mulher com a cabeça decepada e a cabeça está ao lado do corpo. Não há vestígios de sangue na água. Ele parece ser de alguém conhecido no sonho, mas que não conheço na minha vida presente. 

A atual tripulação fica desesperada com a descoberta dos corpos. E deduz-se que aquilo foi obra de um serial killer - pelo modo como foram mortas e onde foram colocadas. Depois de muito se discutir, decide-se sair do navio às pressas e ir para um hotel, pois o assassino poderia estar naquele lugar. 

O cenário muda novamente. O navio agora é a minha antiga casa da infância e eu estou no meu quarto. Continuo a arrumar a minha mala para ir embora, pois o assassino poderia chegar a qualquer momento. E assim que finalizo, ouço um assovio, como um canto assustador, que ecoa por entre a fresta da janela de madeira. Saio correndo, chamando pelos outros, e quando passo pela porta, posso ver o assassino - uma mulher negra e de cabelos cacheados, que segura uma faca pontiaguda e pequena. Ela fala sobre humilhações sofridas e parece ter sede de vingança. Nesse intervalo, ela adentra a casa e uma das pessoas que ficou consegue escapar. Tento abrir a porta da frente, um portão preto, mas a chave está amolecida. Consigo, finalmente, abri-lo. Corremos todos para a rua. A assassina está a nos perseguir incansavelmente. Há uma grande escuridão naquela parte e nossos vizinhos recusam-se a ajudar. A única parte iluminada, onde tenho a impressão que podemos ficar a salvos, fica na rua alta, perto da praça da Igreja. Estamos na direção dela.... 

Mas não sei se conseguimos chegar, pois acordei. 


Epílogo


O blog, ao longo desses anos, está repleto com meus relatos de como a vida tornou-se bem mais difícil há, exatamente, cinco anos. Tudo começou com a mudança de uma cidade para outra, um curso universitário (Física) tardio e difícil de terminar, desemprego, falta de dinheiro, relacionamentos amorosos falidos, amizades falsas, moradias suspeitas, uma cidade extremamente violenta, câncer na família (já superado), estafa mental e uma doença na coluna sem cura: degeneração discal. Eu passei de uma vida ruim com esperança para uma terrível com quase nenhuma gota de ânimo. Hoje eu vivo no que eu chamo limbo. Mudei de casa, vivo com a família, mas sinto-me o tempo toda pressionada e com a sensação de fracasso. Não terminei o curso ainda, não exerço minha profissão da outra graduação, minhas dores na coluna voltaram bem fortes, fiquei sem bolsa da Iniciação Científica e terei que cancelar meu plano de saúde que está caro por demais. Não tenho um bom relacionamento com minha família e todos os dias estou aborrecida. Percebi que os poucos amigos que tenho têm outras prioridades e seus sentimentos nessa ligação são mais ralos que sopa de orfanato. Tudo parece uma tragédia sem precedentes, com uma cor cinza morfética e cheia de bolor.

Todos esses anos e nada mudou - uma prisão fria, onde pode-se ouvir o pingar da água e o vento gélido por entre as grades enferrujadas. Minha consciência é viva e ativa, ansiando por ir velozmente em direção a um mundo novo. Só que meu corpo cheio de dores, a realidade ao redor e todas as pessoas tornaram-se meus carrascos.

Para entender esses sonhos, um psicanalista poderia servir. Aliás, como diz uma prima: psicólogos e psicanalistas são os únicos que nos ouvem porque são pagos. Talvez, um dia, eu descubra o significado desses pequenos filmes sombrios.

Por enquanto, registrá-los já está de bom tamanho.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Crítica da semana: O Jovem Andersen (Unge Andersen/2005)

Andersen construiu os mais lindos e delicados personagens infantis através do seu dom de contar histórias. As asas da sua imaginação levaram-no ao céu da imortalidade, bem longe e muito longe do sofrimento, descrédito e miséria em que estava mergulhado em sua tenra idade. Sua juventude, ricamente detalhada, mostra sua fragilidade e inocência, ao mesmo tempo em que uma incrível força de vontade e teimosia nunca cessam - eis o mérito principal deste incrível filme!

Não é de hoje que comento minha paixão por dois escritores: Oscar Wilde e Hans Christian Andersen. Histórias de Fadas (1888) (crítica no CQ&Sherlock aqui), de Wilde, é recomendação primordial na literatura infanto-juvenil, enquanto Andersen é referência mundial neste gênero.

É quase certo que todos conhecem a adaptação de A Pequena Sereia, de autoria de Andersen (a história é tão importante para a Dinamarca que uma estátua de Ariel, em bronze, está localizada no porto principal da Copenhague), da Disney. Eu mesma gosto muito da animação. Porém ela não faz jus a história original. Contos de Fadas não foram feitos para serem felizes para sempre - eles são para educar e emocionar. E o filme para TV (que originalmente foi divido em duas partes, como uma minissérie) O Jovem Andersen (Unge Andersen/Dinamarca/2005) mostra exatamente onde floresceu a primorosa escrita do grande contador de histórias dinamarquês - na pobreza extrema e preconceito - traços marcantes em seus contos.

Com direção de Rumle Hammerich, o filme retrata a juventude de Andersen (nascido Hans Christian Andersen, Odense, 2 de abril de 1805 e falecido em 4 de agosto de 1875 em Copenhague) e sua luta para ter uma chance como escritor de peças de teatro. Rejeitado por todos por sua aparência paupérrima, origem humilde e jeito infantil, sua única salvação foi sua própria insistência (ao ponto de tornar-se chacota nos círculos de escritores). Só conseguiu algo substancial por intermédio de Jonas Collin e da boa vontade do Rei da Dinamarca, Frederico VI, que viu um possível potencial nele. E nesse ponto começa toda a jornada de sofrimento do jovem Andersen (com apenas 17 anos), ingressando no prestigiado Colégio Interno de Meisling, fora de Copenhague. A princípio, foi privado de escrever suas poesias e educado para ser apenas um auxiliar de escritório, para depois, gradualmente, quase mergulhar na loucura nas mãos do implacável diretor Meisling. A sua amizade com o empregado do diretor da escola, o garoto Tuck, é um dos principais focos da narrativa - cumplicidade, tristeza, injustiça e impotência permeiam esse laço. Em uma das cenas mais bonitas, onde a história entra no ápice, surge a narrativa que tornou Andersen o pai dos Contos de Fadas - A Pequena Sereia:

"Far out in the ocean the water is as blue as the petals of the loveliest cornflower, and as clear as the purest glass. But it is very deep too. It goes down deeper than any anchor rope will go, and many, many steeples would have to be stacked one on top of another to reach from the bottom to the surface of the sea. It is down there that the sea folk live..."

"Bem no fundo do mar, a água é azul como as pétalas das mais bonitas centáureas e pura como o cristal mais transparente. Mas é tão profundo, mais tão profundo do que qualquer âncora pode alcançar. Seria preciso empilhar uma quantidade de torres de igreja, umas sobre as outras, a fim de verificar a distância que vai do fundo à superfície. Lá é a morada do povo do mar..."


Com uma fotografia muito boa e um roteiro eficiente, O Jovem Andersen envolve-nos como um abraço e nos angustia como nossas próprias dores. Não foi por menos que ganhou, em 2005, o Emmy de Melhor filme para TV ou minissérie e o Robert Festival de Melhor Figurino e Melhor Maquiagem. Em 2006 ganhou o Shanghai International Film Festival na categoria de Melhor Direção e Melhor Figurino.

Trata-se de um filme altamente recomendado e digo eu: necessário, assim como as histórias de Hans Christian Andersen. Não importa a idade, no filme e contos, chorar não é um desafio, é o caminho natural da beleza que toca o nosso coração. E essa é a essência inexorável dos Contos de Fadas.


quinta-feira, 14 de julho de 2016

Filho da Lua (Hijo de La Luna)

“Tolos são aqueles que não entendem...”

Uma lenda conta que uma mulher cigana conjurou a Lua até o amanhecer. Ela, chorando, pediu que, ao chegar o dia, se casasse com um cigano. E, do céu, a Lua cheia respondeu:

- Você terá um homem de pele morena. Mas em troca eu quero o primeiro filho que vocês conceberão.

A Lua sabia que aquele que sacrificaria seu primeiro filho para não ficar sozinho, de certo, não iria amá-lo o suficiente. Ela queria ser mãe e não encontrava um amor que a tornasse mulher.

A cigana, por fim, aceitou a oferta. No entanto não parava de pensar: "O que a Lua irá fazer com uma criança de pele?".

O tempo passou, e a mulher teve um filho tão branco como o lombo de um arminho e com olhos cinzas – este era, de fato, o filho albino da Lua.

Entretanto o pai da criança, de pele morena, amaldiçoou a aparência do recém-nascido:

- Esse não é um cigano! E isso não vou tolerar!

Pensando estar desonrado, foi até a sua mulher com faca em punho:

- De quem é este filho? Diga-me! Tu enganaste-me!

E, assim, com a morte a feriu.

Depois foi para as montanhas com a criança nos braços. E ali mesmo a abandonou.

E os antigos dizem que nas noites de Lua cheia a criança renegada está feliz. E quando ela míngua, é porque está a acalmar o choro de seu filho em um berço.

E, dessa forma, contada de pai para filho, a história do Filho da Lua perdura através do tempo.


***

O conto foi extraído da música do grupo espanhol Mecano. Mecano foi uma das bandas espanholas mais relevantes dos anos 80 e 90. Constituída pelos irmãos Ignacio Cano e José María Cano, com a voz de Ana Torroja. A canção chama-se Hijo de La Luna, do álbum de 1986 - Entre el Cielo y el Suelo. De fato, uma das letras mais belas da língua espanhola.



domingo, 10 de julho de 2016

Parentes

Quando estamos condicionados a pobreza e a impossibilidade momentânea de um sucesso que os parentes consideram digno, toda briga em família, mesmo que estejamos cobertos de razão, vira motivo para lembrar que somos um estorvo.

Eu considero parentes (até que seja abençoada pela exceção) a encarnação do próprio demônio - o aviso diário que qualquer que seja o meu passo, serei condenada até o fim dos meus dias.

Hoje minha paz foi abalada pela presença espinhosa dessa entidade que carrega consigo a discórdia e a espalha no núcleo familiar de maneira ardilosa.

Não considero parentes parte da família. Esta reduz-se somente a pais e irmãos, sejam eles também de consideração, e os pets da casa.

Este laço sanguíneo imposto muito mais pelas regras medievais da sociedade do que pela importância genética em si é o peso que muita gente carrega, inclusive eu.

Vivo em um limbo - sem ter para onde ir, sem poder ficar triste, sem quereres que não me causem dores de estômago de preocupação.

Desapeguei-me do agradar. Meus olhos enxergaram porque já sagraram muito.

Mas isto não livra-me de uma raiva interior sólida, uma muralha construída por cada dissabor feito por um parente intrometido.

Hoje gostaria de isolar-me, fugir de tudo isso, considerar-me dona de mim mesma. Esquecer as injustiças e de como a minha boca é silenciada por ordens.

Se pudesse, subiria ao topo de uma montanha onde a Lua brilha platinada e as vozes das almas perdidas sussurram canções de esperança. Não haveria dor, sofrimento e sentimentos de culpa - não existiria a viva memória de parentes.

Ouço lágrimas e mágoas causadas por esses seres maquiavélicos.

E odiar é a palavra da vez...

sábado, 9 de julho de 2016

Colors of the Wind - Flauta Nativa Americana - NAF


Cá estou eu com mais uma gravação em minha Flauta Nativa Americana de bambu.

A música de hoje é um clássico da Disney - Cores do Vento (Color of the Wind), tema principal da animação de 1995 - Pocahontas.

Ela foi composta por Alan Menken e Stephen Schwartz. Venceu a categoria de melhor canção original no Oscar e Globo de Ouro. No Grammy Award, de 1996, foi premiada na categoria Best Song Written Specifically for a Motion Picture or for Television.

No filme, a personagem Pocahontas canta a versão da música que foi gravada pela cantora Judy Kuhn. A versão principal da canção, que foi lançada como single, foi gravada pela atriz e cantora norte-americana Vanessa Williams. O single recebeu uma indicação ao Grammy Award na categoria Best Female Pop Vocal Performance e foi certificado como disco de ouro pela Recording Industry Association of America (RIAA).

Eu, desde pequena, sou apaixonada pela canção. Eu vim de um lugar onde 70% do território é indígena, então, o filme e a música, que ressaltam a importância da natureza e do valor de glorificá-la por tudo que nos oferece, expressam um pouco do meu cotidiano naquela época. Lembro-me que fui assistir em um cinema caseiro e improvisado, afinal, ali era bem distante da DITA civilização...

Colors of the Wind também é uma fixação para os flautistas de NAF. É bem provável que quase todos, nos mais variados níveis de aprendizagem, a toquem nos mais diversos estilos.

Minha Flauta Nativa Americana feita em bambu
Para esta eu tive que usar arduamente a Tablatura Nakai. Em todos os sites especializados, não havia nenhuma tablatura para flauta de 5 furos, somente para as de 6. Tive que adequar todas as notas. O resultado você confere abaixo.

Espero que gostem!

P.S.: antes eu usava o player do 4Shared. Infelizmente, este não quis funcionar hoje aqui na plataforma Blogger. Então, minha gravação está no meu canal do Youtube.



Atualização em 10/11/2016
Player do 4Shared


Colors of the Wind
Flauta (em madeira) Nativa Americana, chave em F, pentatônica
Tocada por T.S. Frank

Colors of the Wind
Native American Flute (wood), Key F, pentatonic, 

Performed by T.S. Frank









Um flautista NAF profissional tocando Colors of the Wind (flauta em madeira)



Para matar a saudade do filme e da música...



terça-feira, 5 de julho de 2016

A megera domada

Dentro do meu peito caberia outra de mim.
Tão leve e cheia de intensidade,
reluzente a milhas de distância.
Um farol incandescente
e transbordante em desejo.

Em mim, tracejados e rabiscos
desse eu altivo e audacioso.
Em tons de ruge,
sedento em cores,
dos mais quentes e selvagens
amores.

Intrépido ser enjaulado,
ferido, acuado e agora
desmotivado.
Febril e doente,
convenientemente
domado e desmitificado.

Dos nuances flamejantes,
restos de cores azuis,
fúnebres e medrosos,
altamente pueris
e jocosos.

Meu eu é metade de mim,
do antes vívido e esfuziante futuro.
Que nunca foi vivido,
mas nunca esquecido.

Sou sombra, passado e
decadência.
Transformei-me em quimera,
sou meu tormento
e minha ruína.

Sou cisma
e solidão.

T.S. Frank