
Tristeza está fora de moda - ficou na década de 40. Nada romântica e sim doentia, ou sem sentido. Tanto faz. Dessa maneira, vão recomedar-lhe um livro de auto-ajuda, ou, na melhor das hipóteses, algum psquiatra vai receitar-lhe algum remédios tarja preta.
Ninguém mais suspira e faz longos discursos à respeito da decadência humana, da falta de sentimento e do vazio existencial. Simples! Não há tempo, é chato e, com tantas possibilidades, você precisa ser coerente, colorido e ter muita energia - Be Happy!
Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!
(Mario Quintana. A Cor do Invisível - 1989)
Essas palavras flutuaram na minha cabeça, após o almoço. Fiquei horas jogada no banco da faculdade, pensando no meu próprio vazio e nesse tempo que põe e tira a esperança com a regularidade de um Pulsar. Pensei na beleza das equações que andam a correr do meu entendimento, do descontentamento e da vontade apenas... quem sabe... não, não...
Alguns chamam Mario de 'o poeta da dor'. Algumas vezes, ele me pareceu muito mais meigo e gentil do que triste, com aquela veia solitária, dos que, de alguma forma, transformam essa dor em palavras saborosas.
Eu estou junto à correnteza, olhando o que acontece. Não consigo ter mais envolvimento e alegria.
Sinto um pouco de vergonha por tudo isso, ou seria culpa? É desconcertante ser 'boring' e so 'boring'.
Se pudesse, durante 1 ano, procuraria uma razão, em algum lugar, quem sabe no Chile, lá em Frutillar, ou na terrinha meiga da Galícia.
Eu sei que existem mais pessoas em busca dessa própria razão de ser. Quantas, nesse exato momento, não estão, como eu, a contemplar o horizonte com o olhar perdido.