domingo, 13 de outubro de 2013

Novas vozes da Soul - Charles Bradley

Mas antes de tudo...

Querido (a) leitor (a), você deve estar cansado de escutar as mesmas frases clichês sobre o chafurdado cenário musical atual. São mais e mais lamentações de viúvos e viúvas querendo um revival do antes.

Porém o que se tem não é mais do que o reflexo da nova geração que não gosta de ler e acha que as regras gramaticais deveriam ter o mesmo destino do Latim. Meninos e meninas que vivem ornamentados com todos os aparatos que os tonam fisicamente porta-vozes de uma geração superficialmente rica: sua bases são fracas como um edifício construído com material de quinta, têm asco do passado e não possuem bagagem para analisar o impacto, por exemplo, de um disco do Marvin Gaye. Todavia entendem tudo de tecnologia e destroem os 1000 níveis de um videogame em menos de um mês. São muito bons em algo, mas só nisso. São robozinhos que ficam ouriçados por qualquer asneira. E compram brigas que levam mais de 500 comentários no Facebook para acabar. Não raro hasteiam a bandeira de que tudo que refere-se a cultura deveria ser destruído porque não é tecnológico. 

E por que eles têm tanta influência hoje? Porque são uma geração forte economicamente e que detém o poder de compra. Maravilha mesmo para os mesmos é viajar escutando a nova banda do último minuto e que vai envelhecer na velocidade em que o Benjamim Button ficou novo. E se assim é, segundo a lei que rege o mercado, que agradar essas mãozinhas tão benevolentes é mais do que esperado. Mídia é isso, reflexo das gerações. E não adianta lamentar ou esbravejar tempos que já foram-se. O problema é mais profundo e a perspectiva muito sombria, afinal, quem vai ensinar a sucessora dessa geração a redescobrir os valores da polivalência?  Música boa há aos montes, acredite! E hoje vou apresentar um belo exemplo. Agora cabe a você usar a sua internet para algo melhor do que bisbilhotar o mundo azul.

***

Charles Bradley saiu das ruas para nos mostrar que a Soul continua viva. Sua história parece mais um enredo de filme: fugiu de casa na adolescência e morou durante dois anos nas ruas e nos metrôs. Arrumou emprego como cozinheiro-chefe, através de um programa do governo. Foi aí que alguém disse que ele parecia com James Brown. Mesmo com medo de cantar, montou uma banda que fez alguns shows, mas que teve que se desfazer porque seus colegas foram convocados para Guerra do Vietnã. Depois disso continuou no emprego de cozinheiro por 10 anos. Decidiu viajar, passou por Nova Iorque, Seattle, Alasca, Canadá até se estabelecer na Califórnia onde manteve empregos temporários e fez pequenos concertos durante 20 anos. Voltou para Nova Iorque em 1996 para se apresentar como sósia do James Brown com o nome de Black Velvet. Passou perrengues e quase morreu por um erro médico. Durante o período como Black Velvet foi descoberto por Gabriel Roth, co-fundador da Daptone Records. Mais tarde, em 2011, veio seu álbum de estreia. Na primavera de 2012 foi lançado Soul of America, um documentário dirigido por Poull Brien, que conheceu Bradley quando dirigiu o videoclipe para a música The World (Is Going Up In Flames). O filme conta a história de Bradley desde sua infância na Flórida, passando por seus dias de mendigo e seus shows como Black Velvet. O filme termina com sua primeira turnê e a gravação do disco pela Daptone.

Então, com um Charles Bradley enchendo o cenário musical com a vivacidade da Soul, você ainda vai se lamentar por ter que ouvir forçosamente as músicas descartáveis da Lady Gaga ou de qualquer outra pessoa que se diz artista? Espero que não. Mova-se! Pegue um soultrain e trate de comprar os dois ótimos álbuns que estão abaixo. Divirta-se!


No Time for Dreaming - 2011

Ficha técnica:

Data de lançamento: 25 de janeiro de 2011
Duração: 42:30
Gênero: R&B
Estilo: Retro-Soul
Críticas: 4 estrelas das 5 possíveis (All Music)
Prêmios/Nomeações: a revista Mojo classificou o álbum como #40 dos 50 Melhores Álbuns de 2011.

Faixas

1. The World (Is Going Up in Flames) (Bradley, Brenneck, Mike Deller, Leon Michels) 3:22
2. The Telephone Song (Brenneck, Dave Guy, Michels, Homer Steinweiss, Fernando Velez) 3:48
3. Golden Rule (Bradley, Brenneck, Michels, Nick Movshon, Steinweiss) 3:29
4. I Believe in Your Love (Bradley, Brenneck, Michels) 3:54
5. Trouble in the Land (Brenneck, Michels) 1:02
6. Lovin' You, Baby (Bradley, Brenneck) 5:27
7. No Time for Dreaming (Joe Quarterman) 2:52
8. How Long (Bradley, Brenneck, Guy, Michels, Steinweiss) 3:54
9. In You (I Found a Love) (Bradley, Brenneck, Michels) 3:21
10. Why Is It so Hard? (Bradley, Brenneck, Michels, Steinweiss) 4:09
11. Since Our Last Goodbye (Brenneck, Michels, Steinweiss) 4:16
12. Heartaches and Pain (Bradley, Brenneck)

Victim of Love - 2013

Ficha técnica:

Data de lançamento: 02 de abril de 2013
Duração: 40:21
Gênero: R&B
Estilo: Retro-Soul
Críticas: 4 estrelas das 5 possíveis (All Music)
Considerações: aclamação universal dos críticos de música

Faixas

1.  Strictly Reserved For You (Charles Bradley, Thomas Brenneck, Adam Feeney) 3:43
2. You Put the Flame On It (Bradley, Brenneck, David Guy, Leon Michels, Nick Movshon) 3:49
3. Let Love Stand A Chance (Bradley, Brenneck) 3:59
4. Victim of Love (Bradley, Brenneck) 3:29
5. Love Bug Blues (Brenneck, Lamont Dozier, Guy, Michels, Brian Holland, Eddie Holland, Movshon, Homer Steinweiss) 3:00
6. Dusty Blue (Victor Axelrod, Brenneck, Guy, Michels, Movshon, Steinweiss) 3:22
7. Confusion (Bradley, Brenneck, Guy, Michels) 3:45
8. Where Do We Go From Here (Bradley, Brenneck, Guy, Daniel Foder, Michels, Adam Feeney, Steinweiss) 3:11
9. Crying in the Chapel (Bradley, Brenneck) 3:55
10. Hurricane (Bradley, Brenneck, Guy, Michels, Mavshon, Michael Deller, Steinweiss) 3:32
11. Through the Storm (Bradley, Brenneck) 4:32

Vídeos





Fontes: 


3 comentários:

  1. Querida Ticy, realmente o cenário comercial da música - e da literatura, do cinema, enfim, da cultura - não é animador. Felizmente, a internet propicia encontrar coisas muito boas. O finado Kurt Cobain falava (antes da popularização da internet) que era só procurar para encontrar coisas boas - em termos de bandas de rock, para situar o contexto. E no contexto atual, percebo que há uma falta de curiosidade para descobrir tais coisas seja na música ou na literatura, pois é mais confortável recebê-las já "mastigadas" - é o desejo de "estar antenado" ao que acontece. Felizmente ainda há muita gente que mantém a curiosidade e vai atrás de novos sons, novas letras, novas películas e sem querer pagar uma de "cult", mas apenas pelo prazer em apreciar vozes como a de Charles Bradley e tantos outros.

    Beijo!

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  2. A música Dusty Blue mudou a minha vida desde a primeira vez que a vi tocar no seriado de televisão Suits. Mesmo sem falar nem se quer uma palavra, essa música toca o mais profundo da minha alma me dando desejo de continuar a vida e conquistar meus objetivos.

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    1. Há músicas que marcam e mudam a nossa vida, até mesmo nosso modo de pensar. É como se elas nos chamassem. Pra mim, agora, são várias músicas da banda Clannad, que é irlandesa! Abraços!

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Querido (a) leitor (a), obrigada por ler e comentar no Café Quente & Sherlock! Espero que tenha sido uma leitura prazerosa. Até a próxima postagem!