Entretanto percebo que os melhores dias foram os de anteontem; distantemente saborosos loucos e solitários, permeados pela esperança e movidos por uma chama ardente no meio do peito. Sim, eu poderia devorar o mundo, tirando pedaços macios feitos de crepúsculos, planetas e constelações.
Eu amei. E nunca fui amada. E tive que aprender a me reconstruir em um universo em que o amor não me é permitido. Dos homens só tive destrato, violência e o mal-querer. E nunca entenderei o porquê. O segundo plano é amargo demais para suportar. Então optei pela solidão; dessas que são até que muito intessantes: uma xícara de café bem quente, um cheiro suave amadeirado, um livro e uma sessão de cinema.
Se antes a tristeza me corroía e, ao mesmo tempo, criava em mim movimentos, hoje, com mais de dois anos de antidepressivo e terapia, sou um pouco inerte, com uma chama gélida estagnada em azul mórbido.
Sinto falta das paixões, do toque, dos sorrisos e das mensagens que arrancavam sorrisos. Fiquei mais velha e sumiram todas essas mentirosas devoções. A farsa era libido. E, pelo pecado de ser mulher, para eles, o meu tempo se extinguiu.
Antes eu era cinza. Agora sou tons a mais.
Estou no Mestrado e fiquei decepcionada. Aliás, a decepção é uma constante em uma equação cheia de variáveis ingratas.
Vergonha. Pudor. Desaparecimento. Não há espaço para mim. Pelo menos não um que faça parte dessa realidade tão líquida, tão raivosa e superficial.
Sou feita de sono, de pesadelos e de dormência muscular. Bendito e maldito remédio! Sem ele, muita dor; com ele, muito pesar.
De verdade... Talvez eu seja atualmente uma projeção do que fui - uma simulação do eu de ontem.
Eu escrevo e finalizo. A base de inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina.
Queria uma conversa - de verdade, sem modernidades, luz da lua ou de vela.
Preciso de presença. E não de simulacros.
Sim. Estou cansada.
Fim. (por enquanto...).