sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Crítica da Semana: A Fonte da Vida (The Fountain)/2006 - Com explicação da história

Eis um filme cheio de simbolismo. Aqui a chave do entendimento passa pelos conceitos de reencarnação e aceitação da morte para semear a vida. Sua não linearidade é um convite para aqueles que pensam e gostam de cinema muito além do lugar-comum.

A Fonte da Vida (The Fountain/EUA/2006), quando foi lançado, recebeu muitas críticas espinhosas. O tempo passou e eu só assisti agora. E tive a sorte de ver logo após O Universo no Olhar (I Origins/2014) (crítica aqui), um filme muito ruim com uma ideia muito boa. E, ao contrário desse último, os assuntos mostrados, como a Ciência e Espiritualidade, caminham juntos sem que um tema desfavoreça o outro. A ideia de reencarnação, juntamente com a aceitação da morte para propagar a vida, tem seu próprio espaço, trabalhada de uma forma filosófica e na dosagem certa.

Mesmo antes das filmagens começarem, Darren Aronofsky, o diretor, enfrentou problemas. Ele planejou, originalmente, dirigir a obra com um orçamento de R$ 70 milhões e contava com Brad Pitt e Cate Blanchett para os papéis principais. Porém a saída de Pitt e o aumento nos custos levaram a Warner Bros. a encerrar a produção. Depois desses imbróglios, o diretor remodelou o script e ressuscitou o projeto com um orçamento quase pela metade do inicial (cerca R$35 milhões). O casal principal agora era outro, com os atores Hugh Jackman e Rachel Weisz. As locações de cenários passaram para Montreal e Quebec e a macrofotografia foi um dos artifícios usados para criar os efeitos visuais fundamentais do filme a um baixo custo.

A alma da película gira em torno das boas interpretações de Hugh e Rachel. A química dos dois é cativante. A versatilidade e talento de Jackman são notáveis. Seus três personagens são distintos entre si, mas procuram atingir o mesmo ponto e achar as mesmas respostas. E ele nos entrega exatamente isso com muita maestria. Weisz é mais contida, suas duas personagens são muito diferentes e não tem muito em comum. Entretanto isso apenas ressalta seu próprio talento na obra.

A Fonte da Vida alterna momentos entre o belo e o confuso. O que assusta os telespectadores mais ávidos pelo imediatismo. Contudo, como toda obra com um intuito mais profundo, faz-se necessário um olhar mais instigante e pessoal. Somente com esses dois elementos, seus segredos são revelados. Linguagens rebuscadas e consultas a obras acadêmicas (há artigos em português sobre o filme recheados de conceitos assustadoramente difíceis!) não são necessárias para seu entendimento, acredite!

Um filme tocante e visualmente deslumbrante, um daqueles que permeia os pensamentos por muito tempo. Muitíssimo recomendado!

Trailer de A Fonte da Vida
Legendado


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Para um melhor embasamento, utilizarei aqui um bom artigo em inglês chamado A Fonte Explicada (The Fountain Explained) do site Philoscifi. A partir deste momento coloco o selinho de:



Explicações e organização

O filme é fragmentado, seguindo uma ordem não cronológica. Assim temos uma bela bagunça para arrumar. Isso pode ser reduzido um bocado se aceitarmos a reencarnação como o elemento primordial da narrativa.

Dessa forma, Tomás/Tommy/Tom são reencarnações da mesma alma em um período dentro de mil anos até a descoberta da chave da imortalidade. Isabel/Izzy também reencarnou muitas vezes. E esse ciclo só é interrompido quando Tommy (o marido de Izzy) deixa a semente no túmulo dela, tornando-a uma Árvore da Vida.

Com essas premissas, podemos então reordenar as sequências do enredo para produzir uma linha cronológica:

Isabel e Tomás
Cena de A Fonte da Vida/2006
Passado - Isabel envia Tomás para uma viagem em busca da chave da vida eterna. Nessa missão ele encontra a Árvore da Vida, porém morre logo em seguida, pois sua ambição o torna indigno. Ambos, Rainha Isabel e Tomás, reencarnam até o presente.

Presente - Izzy está morrendo, mas aceita o diagnóstico pacificamente. Só que Tommy, seu marido, não aceita este fato . Izzy escreve A Fonte (The Fountain), um livro inacabado sobre seu passado, e pede ao marido para finalizá-lo. Ela morre. Tommy começa a investigar a Árvore da Vida e desvenda o segredo da imortalidade. Ele deixa uma semente no túmulo de Izzy e ela torna-se uma Árvore.

Futuro - Tom e a Árvore estão se aproximando da estrela moribunda Shibalba. A Árvore começa a morrer. Tom desespera-se, mas finalmente entende o significado da vida eterna. Ele abandona a Árvore e lança-se ao seu destino. Tom e a Árvore morrem na explosão da Estrela, espalhando a vida e criando o universo. Tom é o último homem e o Primeiro Pai.

A busca

A busca pela vida eterna é o esforço humano por excelência, atravessando todas as culturas e atividades ao longo do tempo. No filme, Tomás procura o Santo Graal (A Árvore da Vida) e Tommy a cura para o câncer. O primeiro corre atrás do místico e o segundo quer uma resposta científica. Tomás começa na selva, caçando uma lenda, e acaba no laboratório, perseguindo o científico. No entanto, o objetivo de ambos os personagens é o mesmo - a Árvore.

A história também pode ser vista como uma abordagem sobre a obsessão pela grandeza e o quanto essa jornada é solitária. Por mil anos, Tomás/Tommy/Tom estão, na maior parte do tempo, sozinhos. Eles só enxergam o que amam por partes e nunca como um todo. Tomás vê seus soldados morrerem na selva. Os pesquisadores que trabalham com Tommy esforçam-se sempre para acompanhar seu ritmo vertiginoso. E Tom, o último homem, sabe que todos que já conheceu e gostou estão mortos. E isso torna-se um fardo e uma agonia.

Trata-se, por assim dizer, de uma expedição pessoal para enfrentar nosso maior medo - a morte. Apesar de todo nosso conhecimento científico e crenças religiosas, a maioria das pessoas ainda têm medo de morrer quando esta hora chega. Assim como Tom, o viajante espacial, despido de todo o materialismo, cada pessoa deve aceitar seu destino sozinha, ou seja, ninguém pode fazê-lo por outra, mesmo que a ame profundamente.

A Jornada através dos nomes

Izzy e Tommy
Cena de A Fonte da Vida/2006
A evolução dos nomes do herói através da linha do tempo é uma parte importante da obra - Tomás, Tommy Creo e Tom. No Novo Testamento, em João 20:24-29, a aparição mais famosa de Tomé (ou Tomás) dá-se quando ele duvida da ressurreição de Jesus e afirma que necessita sentir Suas chagas antes de convencer-se. Essa passagem é a origem da expressão "Tomé, o Incrédulo" bem como de diversas tradições populares similares, tal como "Fulano é feito São Tomé, precisa ver para crer". Após ver Jesus vivo, Tomé professa sua fé em Jesus e então passar a ser considerado "Tomé, o Crente".
No filme, Tomás, o Conquistador, é um seguidor da Rainha Isabel. Este aceita a missão que a soberana destina-lhe. Mais tarde, como Tommy Creo, ele passar a ter dificuldades em aceitar a morte de Izzy. Este é um ponto interessante porque "Creo" em espanhol significa "Eu acredito". No final, Tom, o viajante espacial, sem título ou mesmo sobrenome, passar a acreditar e torna-se simplesmente um homem.

A Árvore

A Árvore é um grande símbolo neste filme. Não só tem laços religiosos (Árvore da Vida no Jardim do Éden, por exemplo), como também científicos. Muitos dos nossos medicamentos são extraídos de plantas. E esta é uma das razões pela qual os cientistas estão tão preocupados com a destruição das florestas. Pode ser que muitas delas, até então desconhecidas, sejam chaves para tratar doenças que no momento são incuráveis. As árvores são seres vivos muito próximos da imortalidade. Sabe-se que algumas espécies existem há mais de mil anos.

O Conquistador

O Ocidente tem uma visão extremamente polarizada do mundo - preto e branco, o bem e o mal e o certo e o errado. No começo, o conquistador é a religião, portanto a mão da justiça que está disposta a matar todos os que se opõem a ela. Nos dias atuais, o Conquistador é a Ciência, cuja a determinação de desmistificar o mundo enfrenta as fronteiras do fervor religioso.

O pensamento oriental é mais circular aceitando mais a pluralidade e a ambiguidade. E por seguir essa Filosofia, na maioria das vezes, é desvalorizado pelo Ocidente. Essa tensão pela busca do meio termo e da reconciliação permeia a obra de Aronofsky.

Tempo

A Fonte da Vida, de alguma forma, distorce nossa percepção do tempo. O filme parece ter mais tempo do que os 96 minutos de sua duração. Existem duas possíveis razões para isso. Primeiro, três histórias distribuídas em uma grande escala de tempo, contribuindo para um sentimento de épico. Em segundo lugar, o nível de intensidade emocional sustentada ao longo do filme e que deixa muitos espectadores exauridos até o final.

A Roda ou o Círculo

Tom, o viajante espacial
Cena de A Fonte da Vida/2006
Este é um símbolo muito comum no pensamento oriental. Não há começo ou fim, tudo está relacionado, fazendo parte do mesmo conjunto. Dessa maneira, destacam-se alguns dos seus usos e aparecimentos no filme:

Roda do tempo - A história inteira é um círculo. Tom é o primeiro pai e o último homem. Ele, presume-se, reencarnou muitas vezes (círculos dentro dos círculos) até tornar-se efetivamente imortal no final.

Ciclo de vida e morte - A morte gera vida e a vida leva à morte. Sem um, não existe o outro. Esta não é apenas uma ideia religiosa, na ciência há muitos exemplos, tais como o ciclo do carbono e a criação de elementos mais pesados ​​através de múltiplas explosões estelares.

Anéis do tempo - Uma ótima cena mostra como Tom, o viajante espacial, conta o tempo tatuando-se com anéis. É uma boa alusão aos anéis de crescimento, como os que uma árvore possui. Quando o tronco de uma árvore é cortado, nota-se que existem círculos escuros. Cada anel corresponde a um ano de vida desta. Nas árvores que vivem em regiões de clima temperado, esses anéis são bem fáceis de contar. Já nas espécies de regiões tropicais, como é o caso do Brasil, os anéis são difíceis de definir. Isso porque o clima influencia diretamente na formação desses anéis. A análise desses anéis de crescimento também comprovou que é possível reconstruir as oscilações de fatores do clima em certos períodos. Assim também acontece com os moluscos, que possuem anéis que dizem sua idade.

Anéis concêntricos - Quando Tom voa em direção a Shibalba, uma série aparentemente interminável de anéis concêntricos surge.

Nave espacial esférica - A esfera é basicamente a versão 3D do círculo.

O anel - O símbolo tradicional de amor e compromisso infinito. Tomás e Tommy, cada um, perdem o anel, uma vez como conquistador e outra como cientista. Isso acontece porque eles não estavam preparados e não tinham aprendido a verdadeira lição sobre seu significado. A lição só é absorvida por Tom, o viajante espacial, que recupera o anel do Conquistador para completar o ciclo (a roda) da vida.

Música - A música é minimalista, repetindo, insistentemente, os mesmos temas em ciclos.

Mais dicas

Iluminação progressiva – O filme fica mais leve à medida que a linha do tempo progride. Por exemplo, escuro (selva), tons silenciosos e neutros (laboratório) e brilhante (Shibalba).

Ouro - A cor dourada é usada porque simboliza o desejo e a obsessão e encaixa-se particularmente bem com o tema maia e espanhol. Também está conectado com o "ouro de tolo", algo que você cobiça, mas depois percebe que não é o que você queria.

O mapa das estrelas - A maioria das pessoas não se preocupa com os créditos (a não ser que seja um filme da Marvel), entretanto, neste filme, é uma parte interessante. Podem ser observados aglomerados de luz em segundo plano. Isso é, de fato, o que os cientistas dizem que aconteceu após o Big Bang.

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Fontes

A Fonte Explicada. Site Philoscifi. Artigo em inglês
A Fonte da Vida. Site Omelete.
A Fonte da Vida. Wikipédia em Português.
A Fonte da Vida. Wikipédia em Inglês.
A Fonte da Vida. Rotten Tomatoes. Site em Inglês.
A Fonte da Vida. IMDb. Site em Inglês.
Macrofotografia. Wikipédia em Português.
Dúvida de Tomé. Wikipédia em Português.
Você sabia que é possível descobrir a idade de uma árvore olhando o interior do tronco. Site EBC. 
Anéis de crescimento de árvores indicam histórico do clima. Hemocentro/USP.

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