domingo, 28 de maio de 2017

O peixe fora d'água

Cai uma leve e deliciosa chuva lá fora. Lembro-me que clamei por essa sensação de frescor anteriormente. Porém aqui dentro é como uma pequena guerra cheia de feridos e sangue. E este cenário é uma tela em que memórias amargas ressurgem.

De todas as palavras que aprendi cedo, a primeira e mais esquisita foi egoísmo. E ela surgiu em um dia ordinário que, por ordem natural, deveria ser uma celebração com doces momentos infantis. Era a minha primeira festa de aniversário e eu já tinha uns nove anos.

Chegado o momento de cortar o bolo e dar o primeiro pedaço, eis que a intensa e férvida vontade de falar algo extraordinário e digno de admiração saiu como dentes de leão na primavera:

 - O primeiro pedaço de bolo vai para mim mesma!

Ah, como eu senti-me orgulhosa, brava e intrépida. Só que não foi totalmente original, pois eu tinha ido a uma festa de uma menina bem mais nova e esta fez exatamente essa declaração de auto consciência de si mesma. Nossa, eu achei aquilo um máximo! E lembro que todos riram e mostraram sinais de aprovação e uma eufórica surpresa com aquela criaturinha tão cheia do próprio amor. Eu queria a mesma sensação, sim, eu queria.

Mas comigo foi um imenso desastre. E até hoje eu não entendi o porquê. Olhares de reprovação e de vergonha, uma verdadeira mancha em um tecido que deveria estar imaculado. Tive um ataque de pânico e o medo tomou meu coração - eu sentia o que estava vindo... O inverno perpétuo.

 - Que menina egoísta. Desde sempre!

Foi o fim do meu brilho e talvez um dos primeiros acontecimentos-base para minha eterna reprovação crônica. Até hoje detesto sussurros por conta desse episódio (e por outros que escutei uma vida inteira). Eu passei a associar o amor-próprio auto declarado a uma espécie de maldição, uma marca de nascença e a uma afronta desmedida.

Eu só tinha nove anos e ninguém ouviu minhas explicações... Não, espera... Eu não expliquei nada... Eu estava muito aterrorizada.

Eu acredito que nessa minha existência atual eu sou um completo peixe fora d'água, bem longe do mar de empatia ideal para uma vida plena. Estou em uma obra misteriosa para resolver pendências de um tempo imemorial.

Claro, foi-me negado o bem-estar com o meu verdadeiro ser, considerado muito errado, extremamente não altruísta, divergente e abominável na maioria das vezes. E sobre isso só há uma saída - o abandono da culpa imposta e o recomeço bem longe. 

Contudo é devastador colocar-se diante do espelho e olhar-se terrivelmente desfigurada pela má interpretação.

Sinto que o abismo está bem mais perto do que eu imagino - justamente nesse salto arriscado para um outro mundo.


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