sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Crítica da Semana: A Fonte da Vida (The Fountain)/2006 - Com explicação da história

Eis um filme cheio de simbolismo. Aqui a chave do entendimento passa pelos conceitos de reencarnação e aceitação da morte para semear a vida. Sua não linearidade é um convite para aqueles que pensam e gostam de cinema muito além do lugar-comum.

A Fonte da Vida (The Fountain/EUA/2006), quando foi lançado, recebeu muitas críticas espinhosas. O tempo passou e eu só assisti agora. E tive a sorte de ver logo após O Universo no Olhar (I Origins/2014) (crítica aqui), um filme muito ruim com uma ideia muito boa. E, ao contrário desse último, os assuntos mostrados, como a Ciência e Espiritualidade, caminham juntos sem que um tema desfavoreça o outro. A ideia de reencarnação, juntamente com a aceitação da morte para propagar a vida, tem seu próprio espaço, trabalhada de uma forma filosófica e na dosagem certa.

Mesmo antes das filmagens começarem, Darren Aronofsky, o diretor, enfrentou problemas. Ele planejou, originalmente, dirigir a obra com um orçamento de R$ 70 milhões e contava com Brad Pitt e Cate Blanchett para os papéis principais. Porém a saída de Pitt e o aumento nos custos levaram a Warner Bros. a encerrar a produção. Depois desses imbróglios, o diretor remodelou o script e ressuscitou o projeto com um orçamento quase pela metade do inicial (cerca R$35 milhões). O casal principal agora era outro, com os atores Hugh Jackman e Rachel Weisz. As locações de cenários passaram para Montreal e Quebec e a macrofotografia foi um dos artifícios usados para criar os efeitos visuais fundamentais do filme a um baixo custo.

A alma da película gira em torno das boas interpretações de Hugh e Rachel. A química dos dois é cativante. A versatilidade e talento de Jackman são notáveis. Seus três personagens são distintos entre si, mas procuram atingir o mesmo ponto e achar as mesmas respostas. E ele nos entrega exatamente isso com muita maestria. Weisz é mais contida, suas duas personagens são muito diferentes e não tem muito em comum. Entretanto isso apenas ressalta seu próprio talento na obra.

A Fonte da Vida alterna momentos entre o belo e o confuso. O que assusta os telespectadores mais ávidos pelo imediatismo. Contudo, como toda obra com um intuito mais profundo, faz-se necessário um olhar mais instigante e pessoal. Somente com esses dois elementos, seus segredos são revelados. Linguagens rebuscadas e consultas a obras acadêmicas (há artigos em português sobre o filme recheados de conceitos assustadoramente difíceis!) não são necessárias para seu entendimento, acredite!

Um filme tocante e visualmente deslumbrante, um daqueles que permeia os pensamentos por muito tempo. Muitíssimo recomendado!

Trailer de A Fonte da Vida
Legendado


***

Para um melhor embasamento, utilizarei aqui um bom artigo em inglês chamado A Fonte Explicada (The Fountain Explained) do site Philoscifi. A partir deste momento coloco o selinho de:



Explicações e organização

O filme é fragmentado, seguindo uma ordem não cronológica. Assim temos uma bela bagunça para arrumar. Isso pode ser reduzido um bocado se aceitarmos a reencarnação como o elemento primordial da narrativa.

Dessa forma, Tomás/Tommy/Tom são reencarnações da mesma alma em um período dentro de mil anos até a descoberta da chave da imortalidade. Isabel/Izzy também reencarnou muitas vezes. E esse ciclo só é interrompido quando Tommy (o marido de Izzy) deixa a semente no túmulo dela, tornando-a uma Árvore da Vida.

Com essas premissas, podemos então reordenar as sequências do enredo para produzir uma linha cronológica:

Isabel e Tomás
Cena de A Fonte da Vida/2006
Passado - Isabel envia Tomás para uma viagem em busca da chave da vida eterna. Nessa missão ele encontra a Árvore da Vida, porém morre logo em seguida, pois sua ambição o torna indigno. Ambos, Rainha Isabel e Tomás, reencarnam até o presente.

Presente - Izzy está morrendo, mas aceita o diagnóstico pacificamente. Só que Tommy, seu marido, não aceita este fato . Izzy escreve A Fonte (The Fountain), um livro inacabado sobre seu passado, e pede ao marido para finalizá-lo. Ela morre. Tommy começa a investigar a Árvore da Vida e desvenda o segredo da imortalidade. Ele deixa uma semente no túmulo de Izzy e ela torna-se uma Árvore.

Futuro - Tom e a Árvore estão se aproximando da estrela moribunda Shibalba. A Árvore começa a morrer. Tom desespera-se, mas finalmente entende o significado da vida eterna. Ele abandona a Árvore e lança-se ao seu destino. Tom e a Árvore morrem na explosão da Estrela, espalhando a vida e criando o universo. Tom é o último homem e o Primeiro Pai.

A busca

A busca pela vida eterna é o esforço humano por excelência, atravessando todas as culturas e atividades ao longo do tempo. No filme, Tomás procura o Santo Graal (A Árvore da Vida) e Tommy a cura para o câncer. O primeiro corre atrás do místico e o segundo quer uma resposta científica. Tomás começa na selva, caçando uma lenda, e acaba no laboratório, perseguindo o científico. No entanto, o objetivo de ambos os personagens é o mesmo - a Árvore.

A história também pode ser vista como uma abordagem sobre a obsessão pela grandeza e o quanto essa jornada é solitária. Por mil anos, Tomás/Tommy/Tom estão, na maior parte do tempo, sozinhos. Eles só enxergam o que amam por partes e nunca como um todo. Tomás vê seus soldados morrerem na selva. Os pesquisadores que trabalham com Tommy esforçam-se sempre para acompanhar seu ritmo vertiginoso. E Tom, o último homem, sabe que todos que já conheceu e gostou estão mortos. E isso torna-se um fardo e uma agonia.

Trata-se, por assim dizer, de uma expedição pessoal para enfrentar nosso maior medo - a morte. Apesar de todo nosso conhecimento científico e crenças religiosas, a maioria das pessoas ainda têm medo de morrer quando esta hora chega. Assim como Tom, o viajante espacial, despido de todo o materialismo, cada pessoa deve aceitar seu destino sozinha, ou seja, ninguém pode fazê-lo por outra, mesmo que a ame profundamente.

A Jornada através dos nomes

Izzy e Tommy
Cena de A Fonte da Vida/2006
A evolução dos nomes do herói através da linha do tempo é uma parte importante da obra - Tomás, Tommy Creo e Tom. No Novo Testamento, em João 20:24-29, a aparição mais famosa de Tomé (ou Tomás) dá-se quando ele duvida da ressurreição de Jesus e afirma que necessita sentir Suas chagas antes de convencer-se. Essa passagem é a origem da expressão "Tomé, o Incrédulo" bem como de diversas tradições populares similares, tal como "Fulano é feito São Tomé, precisa ver para crer". Após ver Jesus vivo, Tomé professa sua fé em Jesus e então passar a ser considerado "Tomé, o Crente".
No filme, Tomás, o Conquistador, é um seguidor da Rainha Isabel. Este aceita a missão que a soberana destina-lhe. Mais tarde, como Tommy Creo, ele passar a ter dificuldades em aceitar a morte de Izzy. Este é um ponto interessante porque "Creo" em espanhol significa "Eu acredito". No final, Tom, o viajante espacial, sem título ou mesmo sobrenome, passar a acreditar e torna-se simplesmente um homem.

A Árvore

A Árvore é um grande símbolo neste filme. Não só tem laços religiosos (Árvore da Vida no Jardim do Éden, por exemplo), como também científicos. Muitos dos nossos medicamentos são extraídos de plantas. E esta é uma das razões pela qual os cientistas estão tão preocupados com a destruição das florestas. Pode ser que muitas delas, até então desconhecidas, sejam chaves para tratar doenças que no momento são incuráveis. As árvores são seres vivos muito próximos da imortalidade. Sabe-se que algumas espécies existem há mais de mil anos.

O Conquistador

O Ocidente tem uma visão extremamente polarizada do mundo - preto e branco, o bem e o mal e o certo e o errado. No começo, o conquistador é a religião, portanto a mão da justiça que está disposta a matar todos os que se opõem a ela. Nos dias atuais, o Conquistador é a Ciência, cuja a determinação de desmistificar o mundo enfrenta as fronteiras do fervor religioso.

O pensamento oriental é mais circular aceitando mais a pluralidade e a ambiguidade. E por seguir essa Filosofia, na maioria das vezes, é desvalorizado pelo Ocidente. Essa tensão pela busca do meio termo e da reconciliação permeia a obra de Aronofsky.

Tempo

A Fonte da Vida, de alguma forma, distorce nossa percepção do tempo. O filme parece ter mais tempo do que os 96 minutos de sua duração. Existem duas possíveis razões para isso. Primeiro, três histórias distribuídas em uma grande escala de tempo, contribuindo para um sentimento de épico. Em segundo lugar, o nível de intensidade emocional sustentada ao longo do filme e que deixa muitos espectadores exauridos até o final.

A Roda ou o Círculo

Tom, o viajante espacial
Cena de A Fonte da Vida/2006
Este é um símbolo muito comum no pensamento oriental. Não há começo ou fim, tudo está relacionado, fazendo parte do mesmo conjunto. Dessa maneira, destacam-se alguns dos seus usos e aparecimentos no filme:

Roda do tempo - A história inteira é um círculo. Tom é o primeiro pai e o último homem. Ele, presume-se, reencarnou muitas vezes (círculos dentro dos círculos) até tornar-se efetivamente imortal no final.

Ciclo de vida e morte - A morte gera vida e a vida leva à morte. Sem um, não existe o outro. Esta não é apenas uma ideia religiosa, na ciência há muitos exemplos, tais como o ciclo do carbono e a criação de elementos mais pesados ​​através de múltiplas explosões estelares.

Anéis do tempo - Uma ótima cena mostra como Tom, o viajante espacial, conta o tempo tatuando-se com anéis. É uma boa alusão aos anéis de crescimento, como os que uma árvore possui. Quando o tronco de uma árvore é cortado, nota-se que existem círculos escuros. Cada anel corresponde a um ano de vida desta. Nas árvores que vivem em regiões de clima temperado, esses anéis são bem fáceis de contar. Já nas espécies de regiões tropicais, como é o caso do Brasil, os anéis são difíceis de definir. Isso porque o clima influencia diretamente na formação desses anéis. A análise desses anéis de crescimento também comprovou que é possível reconstruir as oscilações de fatores do clima em certos períodos. Assim também acontece com os moluscos, que possuem anéis que dizem sua idade.

Anéis concêntricos - Quando Tom voa em direção a Shibalba, uma série aparentemente interminável de anéis concêntricos surge.

Nave espacial esférica - A esfera é basicamente a versão 3D do círculo.

O anel - O símbolo tradicional de amor e compromisso infinito. Tomás e Tommy, cada um, perdem o anel, uma vez como conquistador e outra como cientista. Isso acontece porque eles não estavam preparados e não tinham aprendido a verdadeira lição sobre seu significado. A lição só é absorvida por Tom, o viajante espacial, que recupera o anel do Conquistador para completar o ciclo (a roda) da vida.

Música - A música é minimalista, repetindo, insistentemente, os mesmos temas em ciclos.

Mais dicas

Iluminação progressiva – O filme fica mais leve à medida que a linha do tempo progride. Por exemplo, escuro (selva), tons silenciosos e neutros (laboratório) e brilhante (Shibalba).

Ouro - A cor dourada é usada porque simboliza o desejo e a obsessão e encaixa-se particularmente bem com o tema maia e espanhol. Também está conectado com o "ouro de tolo", algo que você cobiça, mas depois percebe que não é o que você queria.

O mapa das estrelas - A maioria das pessoas não se preocupa com os créditos (a não ser que seja um filme da Marvel), entretanto, neste filme, é uma parte interessante. Podem ser observados aglomerados de luz em segundo plano. Isso é, de fato, o que os cientistas dizem que aconteceu após o Big Bang.

***

Fontes

A Fonte Explicada. Site Philoscifi. Artigo em inglês
A Fonte da Vida. Site Omelete.
A Fonte da Vida. Wikipédia em Português.
A Fonte da Vida. Wikipédia em Inglês.
A Fonte da Vida. Rotten Tomatoes. Site em Inglês.
A Fonte da Vida. IMDb. Site em Inglês.
Macrofotografia. Wikipédia em Português.
Dúvida de Tomé. Wikipédia em Português.
Você sabia que é possível descobrir a idade de uma árvore olhando o interior do tronco. Site EBC. 
Anéis de crescimento de árvores indicam histórico do clima. Hemocentro/USP.

Meio Eletrônico - E-books

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Passagens

Imersa em minha grande arrogância, muitas vezes pensei dominar todos os meus sentidos, inibindo e liberando-os como pingos milimetrados em um frágil conta gotas de vidro. Santo Deus, que ilusão patética!

A certeza mesmo é somente da minha incendiária passionalidade. Poderia amar mais e mais e morrer na mesma intensidade, assim como odiar com o fervor das fornalhas ardentes das piras da antiga Grécia.

Toda essa jornada, com picos de calma, oscila ao compasso da passagem das estrelas pelo céu noturno.

E viver assim, neste carrossel desvariado, não causa-me desconforto. O que assusta-me é a monotonia, juntamente com os cumprimentos matinais vazios, as aparências, os corações satisfeitos e o conformismo com uma vida ordinariamente normal.

Toda a malícia deliciosa esvaiu-se. Os homens possuem apenas olhares carnais e ávidos pela quantidade e as mulheres, bobas como são, caem nessa historieta como vespas na lareira.

Acumulam-se alguns convites sobre a minha mesa. Jantares, cafés... Alguns muitos na surdina, de sexo rápido e a domicílio em forma de cappuccinos.

Deixei-os em aberto, bem provavelmente para sempre. Meus instintos não seriam satisfeitos com tão pouco. De fato, nenhum homem arrancou de mim gemidos impetuosos desprovidos de obrigação, receio ou chateação. Assim, cabe-me apenas tecer aquele que, longe da perfeição, povoa a minha imaginação e penetra-me corpo e alma.

Ao olhar o passado, tão pouco significou. E com as poucas fagulhas douradas de êxtase de outrora, posso apenas construir com palavras as histórias para entretenimento de desconhecidos mais próximos do que aqueles que um dia tocaram por entre
meus lábios.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Zeca Camargo, por que não te calas?

Hoje eu estava a ouvir Altemar Dutra. Sim, eu não coloco minha descrição aqui do lado à toa. Eu tenho uma alma bem velha, bem à moda de Dorian Grey (com um pouco menos de pecados do que o próprio) e amo os boleros brasileiros. Dessa maneira, eu também escuto muitas canções do filho dele, o Altemar Dutra Jr., cuja a herança genética não pode ser questionada, o timbre de voz é bem parecido mesmo. E é neste ponto que lanço uma pergunta:

Entre Altemar Dutra e Altemar Dutra Jr., quem você prefere? Você teria coragem e a prepotência de comparar um com o outro e menosprezar o mais novo por ter uma voz parecida e também ser um cantor?

Se você é sensível, tem bom senso e classe, mesmo que seu âmago nutra algum tipo de espinhosa rejeição por heranças genéticas marcantes, em hipótese alguma isto tornaria-se público, não é mesmo? A não ser que... Você seja o Zeca Camargo.

Esta criatura, conhecida pelo seu repertório de afrontas e desserviços ao jornalismo, foi o centro de discussões acaloradas após sua desastrosa participação como jurado no programa Popstar da Globo no último domingo, dia 13/08.

Na postagem anterior, eu falei da minha torcida para o Cláudio Lins. E neste fatídico dia de apresentação, justamente Dia dos Pais, ele prestou uma bela homenagem "ao seu véio" com a emblemática canção Lembra de Mim. Todos gostaram, inclusive o ácido, mas não tão menos ótimo, João Marcelo Bôscoli (sim, falando em pais, filho da Elis Regina). Só que o embuste viajado do Zeca Camargo foi contra a corrente de uma forma, digamos, bem controversa e emburrecida. Você, leitor (a), deve estar pensado: "Ah, mas isso é a opinião dele. E gosto é gosto!". De certo! Mesmo eu sendo quase uma tiete do Cláudio, eu ainda tenho as faculdades perfeitas para considerar isso. Porém o problema residiu na justificativa do candidato a Boneco de Judas. Ora, preste bem atenção nas linhas que reproduzo abaixo tiradas do discurso dele no programa:

"Eu sou fã dessa família inteira. Mas quando você canta uma música do Ivan a referência é fortíssima. Eu fiquei lembrando mais do seu pai do que de você. É uma homenagem lindíssima, mas eu fiquei com aquela referência, mas no gol a gol eu sou o Ivan."

"E por isso eu não merecia o seu voto? Poxa!", lamentou Claudio, deixando Zeca sem palavras.

Nossa, eu fiquei chateada e desliguei a TV. "Ah, eu não vou perder meu tempo com isso mais não!", pensei! Porém não tardou para que as avalanches de críticas, repúdios, xingamentos e hostilizações começassem a aparecer nas redes sociais do Popstar e do próprio Zeca. E este último foi obrigado a deixar um texto tentando justificar o injustificável:

"[...] Minha expectativa era altíssima com todos - que acompanho desde o início do programa, que sou fã... Mas... e talvez por isso, deixei de dar duas estrelas para dois astros e explico. [...] E de Claudio Lins - que é um dos melhores atores da sua geração -... o risco foi ele ter escolhido uma música do próprio pai, que é um dos maiores nomes da nossa #MPB. É uma baita responsabilidade - e... bem, segue minha admiração absurda por ele, e o desejo sincero de que ela vá muito longe nesse #Popstar." (Texto publicado no Perfil do Facebook O Zeca Camargo, em 13 de agosto de 2017)

Adiantou nada. Na segunda, 14/08, todos os programas de fofocas estavam com essa pauta. E não é a primeira vez que este ser humano torna-se alvo de críticas duras. Basta buscar um pouco mais na memória sobre o texto que ele escreveu em um momento bem inoportuno a respeito do cantor sertanejo Cristiano Araújo (logo após sua morte trágica). Este é o carma dele até hoje, sendo constantemente alvo de boicotes por parte de vários músicos conhecidos. Entretanto, dada a nova história, tenho a impressão de que ele não aprendeu a lição.

Cabe-me, agora, dizer que Cláudio Lins cantou lindamente, bem linear, ao piano, com graça e estilo (como vocês poderão conferir no vídeo de react que deixarei no final da postagem). A trajetória dele tem sido irrepreensível até aqui. Contudo o somatório da última nota o deixou quase no rabicó da classificação. Mesmo com todo o empenho que ele coloca para ser um bom ator e cantor e imprimir suas próprias impressões nas interpretações das músicas, nada disso parece ser suficiente para calar a boca de quem tem algum olhar torto sobre sua carreira. É bem comum em entrevistas perguntarem como ele sente-se sendo filho do Ivan Lins. A resposta dele é genial:

"Eu não sei como é não ser!".

Sabe disso a Maria Rita também. E tantos outros filhos de pessoas consagradas. A grama dos vizinhos sempre parecerá mais verde do que realmente é.

***






Vou deixar também uma entrevista da Maria Rita, junto com seu irmão João Marcelo, ao Jô Soares em 2012. Ela fala muito bem dessa cobrança e comparação e como lida com isso. Vale lembrar que Maria Rita gravou uma canção escrita por Cláudio chamada Cupido.


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Popstar - Rede Globo - Torcida para o Cláudio Lins - #TeamClaudioLins


De uns tempos para cá a Globo tem investido em umas atrações menos pífias. A começar pelo Ding Dong do Faustão. Agora temos esse novo programa, Popstar, que nos mostra a faceta musical de famosos que são mais conhecidos em outras áreas. Se a situação brasileira, no geral, anda degradante, com figuras assombrosas como o golpista vampiresco Michel Temer, os defensores do Bolsonaro e a burguesia classe média arcaica a todo vapor, imagine a Cultura... Meu Deus, as pessoas andam a ofender de forma veemente Chico Buarque, Caetano e Gil, chamado-os de nomes inconfessáveis quase todos os dias, e a juventude está no fundo do poço fazendo companhia para a Samara do filme O Chamado. Então, qualquer pontinho fora da reta, mesmo sendo dessa emissora, já é um alento.

Sim, eu gosto de televisão. E assisto muito. Eu fui criada assim, lá na década de 90, assistindo reprises de boas coisas porque, graças a Deus, minha mamãezinha incentivou bastante o meu começar cultural. Sendo assim, o meu novo divertimento é esse programa do Plim-Plim,  aos domingos, lá pelas tantas do meio-dia.

E nessa onda dos pais, eu tenho que dizer que a minha torcida é todinha para o lindo aí do lado - o Cláudio Lins. Se você não sabe, caro (a) leitor (a), ele é ator, cantor, compositor, pianista e mais além. Já assisti muitas novelas com ele, aliás, todo mundo aqui de casa. Entretanto, neste momento, o lado musical dele está em evidência e o que tenho visto defini-se pelo deleite.

Bem, só pelo sobrenome já dá para ter uma noção. Ele é filho do grande Ivan Lins, que, por favor, dispensa apresentações (olha aí a playlist do lado para saboreá-lo.) e da Lucinha Lins, uma grande atriz consagradíssima, que também é cantora. O DNA familiar bateu e agregou geral, pois o moço tem a voz quase igual ao do pai, sério mesmo, e, se duvidar, é a versão geneticamente modificada para melhor, pois ele é bem mais afinado que o Mestre Pai.

Eu não sei se ele ganhará essa edição. Depois de umas cinco semanas, o público, acostumado à zoeira e a péssima MPB atual, devagarzinho, quase parando, começa a entendê-lo e conhecer a sua história. Eu detesto a participação do público quando trata-se de talentos musicais, pois é como dar o poder de decisão para um gambá com demência.

Enquanto ele durar no programa, estarei vidrada na TV.

Vou deixar os vídeos das apresentações dele com a Reação (React) de um youtuber muito bom, o músico Márcio Guerra Canto. As performances na íntegra estão no site e no aplicativo do GloboPlay (clique aqui). Tenho quase certeza que vão amar!

Primeira Semana - Com a música Dinorah, Dinorah, Ivan Lins (a voz está igualzinha!)


Segunda Semana - Com a música Corsário, João Bosco/Elis Regina


Terceira Semana - Fé Cega, Faca Amolada, Milton Nascimento & Beto Guedes


Quarta Semana - Fora da Ordem, Caetano Veloso


Quinta Semana - Expresso 2222, Gilberto Gil


terça-feira, 25 de julho de 2017

Crítica da Semana: Universo no Olhar (I Origins)/2014

Um filme ruim com uma ideia ruim pode ser até divertido, mas quando temos um trabalho péssimo advindo de uma ótima ideia, o único sentimento que fica é de um grande aborrecimento. Eis a definição exata para essa película.

Meu Deus do Céu... Fazia um certo tempo que um filme não despertava em mim um sentimento de antipatia. Algo um pouco perto disso veio com À Noite Sonhamos (A Song to Remember/1945). Portanto Universo no Olhar (I Origins/EUA/2014) conseguiu superar todas as minhas expectativas negativas. Ele, arrisco-me a dizer, deveria ser uma cartilha para todos os alunos de cinema, pois é sempre bom ter exemplos vívidos de como desperdiçar uma ideia interessante no campo da Sétima Arte.

Apesar de ser muito elogiado por aí e até ganhar uns prêmios no cenário independente, o filme tem uma construção que peca pela não profundidade em temas que insiste o tempo todo em comprar para si, como o encontro de almas, a morte e o luto. E, de quebra, ainda trata a Reencarnação muito superficialmente, tanto pelo lado da Religião como da Ciência. E a culpa resvala para tudo que é canto: direção, elenco e, principalmente, roteiro.

Vamos por partes...


O diretor Mike Cahill erra a mão feio, viu. Com quatro filmes no currículo, o seu A Outra Terra (Another Earth/2011) já o colocava no cenário cult promissor sem muito merecimento. Sua assinatura é o apelo pelo dramalhão travestido com uma roupinha mais descolada, underground e jovial, digamos assim. Essa sua obra de 2014 ratifica isso. 

O elenco é bem mediano, salvando-se somente Archie Panjabi (que interpreta Priya Varma) que ganha no quesito carisma e faz um grande esforço para dar credibilidade ao seu personagem, mesmo que este esteja relegado aos momentos finais da película. Michael Pitt (que interpreta Ian Gray) está deslocado e não causa empatia, piorando ainda mais quando um luto muito estranho, por parte dele, é revelado; na primeira oportunidade, atraca-se com sua assistente porque esta leva-lhe uma sopinha quente. Seu personagem melhora no final apenas, quando liga-se justamente à personagem mais sensata do filme, Priya Varma. Brit Marling interpreta Karen, a personagem oportunista de pesares. Ela não destaca-se além disso. Uma analogia ao urubu caberia muito bem aqui.

Dedico agora um parágrafo a personagem Sofi (interpretada por Àstrid Bergès-Frisbey). Sua presença tem uma grande parcela de culpa pelo desastre que o filme é. Ela deveria ser a parte espiritual, iluminada e sensata, passando uma serenidade típica àqueles que estão em um nível mais elevado em suas próprias crenças. Só que ao invés disso, a moça é enjoativa por demais. Seu ar misterioso do começo beira o ridículo, muito ajudado pela sua tentativa de inserir sexo em um contexto bem falso. E daí por diante a ladeira é lucro. Ela restringe-se a partes de seminudez e nudez. Seu jeito de modelo sem cérebro é parecido com alguém que foi criada dentro desses cultos malucos. Com frases saídas de livros baratos de auto ajuda, ela mira na parte divina e acerta o new hippie chic. A cena em que ela morre, pelo amor... Lembrou-me os filmes do antigo Cinema em Casa do SBT. Poxa, se era para a garota passar dessa para outra por causa de um elevador, que fizesse com ele caindo, lentamente, dando espaço para analogias e reflexão. Cortá-la ao meio, deixando-a em uma poça de sangue foi uma mistura de gore com impacto zero.

O final é insosso. Nosso desbravador descontextualizado finalmente encontra a íris única de Sofi na Índia. O renascimento é a prova que abala um universo inteiro. Era para ser majestoso... Entretanto não é. 

Aqui não cabe-me julgar as Crenças e a Ciência. Se o filme fosse bom, assim como a ideia que o cerca, um debate razoável seria estabelecido. 

Se quer um conselho, melhor assistir outro filme, talvez Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time/1980) na Netflix. Ao menos tem o Christopher Reeve e é de época. 



Trailer Legendado

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Conversa Cafeinada - Minhas novidades e algumas histórias sobre o comportamento de muitos seres humanos pequenos


Há algum tempo não venho por aqui. Então vamos, você e eu, tomar uma xícara de café quentinha, viajar no tempo e ir para uma época em que tudo era muito mais romântico e simples. 

Deixe que comece eu, por assim dizer...

Mudei de médico e agora é uma médica. Estava muito aflita pelas dores na coluna terem piorado e precisava, mesmo que fosse pagando, de palavras mais acolhedoras sobre o meu estado. Achar um bom profissional é uma loteria e nisso tenho experiência. Essas visitas para tratar a saúde são um desgaste só. Pelo menos, dessa vez, achei alguém com mais suavidade e que explicou-me com mais detalhes o que tenho.

Isso foi há quase um mês e estou bastante medicada com todos esses remedinhos coloridinhos e pomposos, dignos de uma boa hipocondríaca como eu. Uma segunda visita está agendada para semana que vem.

Essa é um das partes corriqueiras da vida e para qual não há escapatória - uma hora ou outra ela irá acontecer.

Já outras... Por Deus! São momentos bizarros protagonizados por criaturas saídas das profundezas abissais da falta de classe e de trato. Mas nem por isso deixam elas de ser as protagonistas de histórias curiosas sobre o modus operandis desses bufões modernos. Eis uma...

Em um dia qualquer, quente e enfadonho, foi-me apresentado um moço estudante de pós-graduação. E antes que eu entre nas linhas principais, não preciso dizer que sou quem sou. De nada importa-me a presença de novas pessoas, serei o mais formal possível e respeitosamente distante, observo primeiro, olhos e língua, e não vai sair de mim (a não ser que esteja sofrendo com encefalopatia espongiforme) sorrisos escancarados e expressões histriônicas (Ai, como isso é cansativo!).

Continuemos...

Depois de conversas e deste mesmo ser vivente apresentar-me um conhecido seu, nessas andanças pela busca de bons lugares para tomar um brisa fresca na face, lá pelas tantas da noite e já quase na despedida, ele fala que pareço arrogante e um tanto convencida. Que belíssimo julgamento, não é mesmo?

Você pode agora falar: "Tu mesmo gostas de sinceridade!".

Sim, é claro. Se os julgamentos forem concisos e bem fundamentados, as críticas, mesmo as mais espinhosas, não podem ser desvalidadas. Porém leia só as bases deste energúmeno, que eu digo certamente, são as mais rasas e míopes que já ouvi...

Esta pobre alma disse que eu fui muito distante, que não sorri muito, ou no popular mesmo, "Não mostrei meus dentes". E que isso era ruim e tornava-me uma pessoa prepotente. Em um único momento de lucidez nessa desfaçatez todinha, ele supôs que poderia ser um modo de defesa ou um jeito único. Ora só, temos um Sherlock!

Gente, que patacoada! Era só o que faltava, ser julgada como um péssimo ser humano apenas por não pavonear por aí... Prefiro ser odiada milhões de vezes então.

E a cereja desse bolo podre é que este mesmo homem é um desses galanteadores deslizantes esperando só uma oportunidade para fazer-se, um antagonista no quesito charme e detentor de um jeito malandro nada buarquiano.

Como diria Kurtz no livro O Coração das Trevas (Heart of Darkness/1899):

O horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror, o horror...

No mais, comprei uma camiseta com o desenho de Moby Dick e veio-me um moletom danadíssimo de feio. Enviei para troca, o que foi até descomplicado. Estou aguardando a chegada do produto ao destino para ter meu vale compras. Também tenho estudado para as primeiras provas da minha pós em Contabilidade Pública. Às vezes acho que deveria não ficar tão chateada por estar formada nessa área, afinal, eu tenho um diploma por uma universidade federal e fui uma ótima estudante nessa área, mesmo que a não queira de jeito nenhum. Talvez tenha que orgulhar-me mais dos meus feitos e parar de dar combustível para as dragas de plantão.

Esse semestre de Física está altamente desinteressante. O mais do mesmo, um bocado de gente jovem com uma personalidade tão fútil como as das irmãs Kardashians e o conhecimento mais ralo que sopa no final da madrugada. Trata-se, só pode, de uma epidemia descontrolada de pessoas assim. Parece até mau uso da modernidade, ou a preguiça reinante ou a falta de uma genética mais favorável, vai lá saber-se sobre esses mistérios nada desejáveis da vida.

O meu maior desafio tem sido controlar a minha vontade de agir como iconoclasta de algumas figuras discentes de Física - as lendas do bom coração e do humanitário e que de tão falsas fazem as declarações de inocência do Michel Temer e do Aécio Neves orações para São Francisco de Assis. Eu poderia ser o Snowden desse curso... Só que... Eu quero apenas a paz... E quem quiser sair da ilusão... Que procure desconfiar dessa benevolência desmedida.

Comprei alguns livros que há tempos tenho vontade de ler, um é Coração Desnudado, do francês Charles Baudelaire, e o outro é Música na Noite e Outros Ensaios, do inglês Aldous Huxley. Estou só esperando a Amazon entregar.

Sobre os homens, bem... Eles ainda parecem muito instigantes para observação e, vez ou outra, bons para degustação. Todavia o material ao redor, salvo uma ou duas exceções, não ajuda muito.

Das exceções, confesso que estou com saudades de observar um certo jovem, na casa de seus quase 20 anos. Ele é um desses espécimes raros, brejeiro todo, com um sorriso que faria qualquer velho e petrificado coração bater por uns bons minutinhos. Por onde quer que ande este Adônis, conserve Deus ele na aura do natural e na ignorância dessa idolatria. Aquela tez dourada não necessita de envaidecimentos e muito menos teatralização.

Comprei um DVD de um dos últimos concertos do Everly Brothers. Sim, eu ainda compro DVDs.

Por hora, é isso que tenho para contar. Espero que as suas histórias sejam menos desafortunadas e mais saborosas que as minhas.


sábado, 17 de junho de 2017

Tracklist da semana - Via Spotify - Canções de Amor e Baladas (Love Songs and Ballads)

Muito bem... O Dia dos Namorados passou... Graças a Deus! Pois é pavoroso ver o amor transformado em um monte de promessas sem graça, presentes caros, futilidade e postagens em redes sociais.

Sim, eu sou muito old school. E posso muito bem ter sido, na existência passada, um homem ou mulher dos anos 20 ou 60, escrevendo longas cartas apaixonadas e saudosistas durante as guerras.

Eu tenho um coração. Não sou a bruxa má que faz poções para matar a princesa loira e da voz de arranha disco e ficar, assim, com o príncipe ainda mais insosso.

Pensando bem...
... As feiticeiras são bem mais sexies e atraentes hoje em dia.

Linus Larrabee
Harrison Ford
Sabrina - 1995
Eu sou como o Linus Larrabee em Sabrina (1995). E um dos melhores diálogos do filme apresenta exatamente o que eu penso sobre o mundo dos relacionamentos:

Sabrina pergunta a Linus:

 - Foi por esta razão que você nunca se casou? Você provavelmente não acredita no casamento.

E Linus sabiamente responde:

 - Sim, eu acredito. É por isso que eu nunca me casei.

Espero que gostem dessa tracklist, pois aqui estão quase todas as músicas que eu desejaria dançar com alguém em um desses encontros que o destino prepara maliciosamente...

Jamie Fraser
Sam Heughan
Outland - 2014
Vou ressaltar que eu montei essa lista totalmente DROGADA por remédios para dor crônica... E... Sinceramente... Eu acho que estou vendo o Jamie Fraser da série Outland na minha janela...

Oh... Meus Deus... Eu não estou sentindo o meu rosto... E nenhum ossinho do meu corpo... Estou flutuando... Acho que virei um raio de luz. 

Love Songs and Ballads - Playlist do Spotify 
feita por T.S. Frank 
Seleção de músicas por T.S. Frank


Lembrete: provavelmente você irá escutar somente 30 segundos de cada 
música se não tiver o Spotify instalado. Então eu recomendo que o tenha
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terça-feira, 6 de junho de 2017

Tartarus

Frias e brilhantes reinam lápides de mármore.

E jazem silenciosamente todos os restos de corações pueris. 

Todos eles brutalmente assassinados.

É um lugar amaldiçoado, cheio de pesar. 

Mas sutilmente realista.

É a tragédia do saber-se desnudado e humilhado.

Um alvorecer de vergonha em cada nota de despertar.

Pois aqueles que amaram muito

[por dias infinitos de imaginação] 

vivem seu próprio inferno. 

Enterrados estão seus sentimentos. 

E seus corpos são preenchidos por um vazio catalítico.

Em meu epitáfio, apenas meu nome. 

Em minha cova, pérolas e ossos metálicos.

Não sou mais quem deveria ser.

E minha alma apenas vagueia...

Estão todos avisados - não teçam ilusões!

Apaguem as luzes e rasguem as poesias.

Bati a pesada porta...

E tranquei-me para sempre.

T.S. Frank

domingo, 28 de maio de 2017

O peixe fora d'água

Cai uma leve e deliciosa chuva lá fora. Lembro-me que clamei por essa sensação de frescor anteriormente. Porém aqui dentro é como uma pequena guerra cheia de feridos e sangue. E este cenário é uma tela em que memórias amargas ressurgem.

De todas as palavras que aprendi cedo, a primeira e mais esquisita foi egoísmo. E ela surgiu em um dia ordinário que, por ordem natural, deveria ser uma celebração com doces momentos infantis. Era a minha primeira festa de aniversário e eu já tinha uns nove anos.

Chegado o momento de cortar o bolo e dar o primeiro pedaço, eis que a intensa e férvida vontade de falar algo extraordinário e digno de admiração saiu como dentes de leão na primavera:

 - O primeiro pedaço de bolo vai para mim mesma!

Ah, como eu senti-me orgulhosa, brava e intrépida. Só que não foi totalmente original, pois eu tinha ido a uma festa de uma menina bem mais nova e esta fez exatamente essa declaração de auto consciência de si mesma. Nossa, eu achei aquilo um máximo! E lembro que todos riram e mostraram sinais de aprovação e uma eufórica surpresa com aquela criaturinha tão cheia do próprio amor. Eu queria a mesma sensação, sim, eu queria.

Mas comigo foi um imenso desastre. E até hoje eu não entendi o porquê. Olhares de reprovação e de vergonha, uma verdadeira mancha em um tecido que deveria estar imaculado. Tive um ataque de pânico e o medo tomou meu coração - eu sentia o que estava vindo... O inverno perpétuo.

 - Que menina egoísta. Desde sempre!

Foi o fim do meu brilho e talvez um dos primeiros acontecimentos-base para minha eterna reprovação crônica. Até hoje detesto sussurros por conta desse episódio (e por outros que escutei uma vida inteira). Eu passei a associar o amor-próprio auto declarado a uma espécie de maldição, uma marca de nascença e a uma afronta desmedida.

Eu só tinha nove anos e ninguém ouviu minhas explicações... Não, espera... Eu não expliquei nada... Eu estava muito aterrorizada.

Eu acredito que nessa minha existência atual eu sou um completo peixe fora d'água, bem longe do mar de empatia ideal para uma vida plena. Estou em uma obra misteriosa para resolver pendências de um tempo imemorial.

Claro, foi-me negado o bem-estar com o meu verdadeiro ser, considerado muito errado, extremamente não altruísta, divergente e abominável na maioria das vezes. E sobre isso só há uma saída - o abandono da culpa imposta e o recomeço bem longe. 

Contudo é devastador colocar-se diante do espelho e olhar-se terrivelmente desfigurada pela má interpretação.

Sinto que o abismo está bem mais perto do que eu imagino - justamente nesse salto arriscado para um outro mundo.


quinta-feira, 25 de maio de 2017

No palco da dor crônica e outras tristezas cotidianas

A vida, em um dia qualquer, foi soprada em nossas narinas e, como um presente delicado e nobre, não pode ser rejeitada e muito menos amaldiçoada. E qualquer ação que a danifique por vontade do novo proprietário é vista como um ultraje dantesco, não importando que este vento motriz seja um vale cheio de estradas navalhadas, com um horizonte cinzento, árvores mortas e águas turvas de lamentações e lágrimas.

Estive pensando nessa descrição e como ela é caprichosa e cheia de mistérios nas entrelinhas. Antes de possuirmos essa consciência, talvez fervorosamente pedimos pelo renascimento e por outra chance. Contudo a hipótese mais condizente é aquela do grande empurrão inesperado para tentarmos aprender o que foi deixado de lado ou incompleto.

Dizem alguns que somos todos concebidos pelo amor. Bem utópica esta ideia, mas não há de negar-se a beleza de tal proposição. É como adentrar a história de Psiquê e o Cupido.

Sim, existem alguns afortunados originários dessa fonte - e como são eles cobertos por olhares de inveja. Porém emergimos, recorrentemente, por consequência somente do prazer alheio unilateral e egoísta. É como ser contratado, por tempo indefinido, para uma peça teatral. E nessa turnê há toda sorte de atores e atrizes, um poço de não empatia, além da encenação que pode ser uma tragédia grega ou um drama satírico.

Fiquei a repassar todo este cenário e a maneira como ele encaixa-se nesta minha atual existência.

Em qual ato está a minha dor crônica? Será que ela desaparecerá, se desaparecer, antes dos aplausos finais?

Há seis anos ela reina absoluta frente as ribaltas, regida por frenesis senoidais. E estou tão farta que eu gostaria de dissolver-me e virar, por alguns instantes infinitos, partículas douradas de luz.

Hoje estou em cartaz com este monólogo e minhas palavras atingem as vazias cadeiras. E eu chorei rios que desemborcaram em um mar rubro de angústia e medo.

O único lugar em que posso ser meu eu essencial, mesmo fragmentada, é por trás das cortinas, bem onde há os velhos caixotes. Minha imaginação e minha alma saem desse teatro em ruínas e condessam-se em uma nuvem que flutua por outros espetáculos que mostram vidas doces e normais, cheias de prazeres e sorrisos, amores e amantes, onde não há espaço para nenhum tipo de dor.

Entretanto há um grande perigo em visitar constantemente minhas próprias ilusões - elas são perfeitas e nascem do ato de vestir-me com roupas que não foram feitas para minhas medidas. A fantasia irá rasgar-se mais cedo ou mais tarde, quebrando as barreiras mal feitas da auto proteção. Rajadas de realidade ignorada matam tanto quanto a própria realidade cruel.

O meu mal crônico rasgou minhas vestes. E agora sinto-me prisioneira de um lugar repleto de veracidade que mostra manhãs de escárnio e noites de gritos sufocados.

E está proibida qualquer queixa sob pena de represálias. E falar sobre o que sente-se, segundo os diretores, é o maior sinal de fraqueza de uma atriz que enfrenta a linha tênue do fracasso e esquecimento.

E em quais outros tablados eu já pisei? Estas pessoas que conheço estavam lá? As mentes e corpos que amei também estão aqui? Amam eles, agora, outros daqui ou os que estão longe desses muros? Bem... Respostas faltam-me.

E essa dor duradoura esmaece meu coração e maltrata os pequenos brotos de sentimento. Lá estão eles, franzinos e temerosos. Famintos, precisam nutrir-se de uma confiança quebradiça que os levará ao declínio.

Eis que chega a noite com seu véu negro e brilhantemente pontilhado. Escuto o som de algumas luzes a serem desligadas. Mas há uma que nunca se apaga, mesmo envolta em grandes conflitos e males - uns chamam de felicidade... E eu de esperança.



segunda-feira, 15 de maio de 2017

Um namoro falido e violento

O amor não existe, pressupus um dia.

Talvez se eu tentasse apenas gostar de alguém...

E assim nasceu um namoro falido e violento. Desse Lembro-me bem.

Ele sempre dizia que eu não era interessada em crescer e se rica, apenas em sonhar com uma profissão nada rentável e gastar o que não tinha. Ele, filho de um juiz, um fanático religioso desviado que levava as mulheres para dormir em sua casa e suprir carências sexuais, afetivas e maternais dele, enquanto dizia-lhes sobre os deveres de uma esposa, o que ela poderia ser em um casamento.

Um dia ele reclamou que eu não usava maquiagem diariamente:
- Não vou ensinar você a ser UMA VERDADEIRA MULHER. Você já deveria ter aprendido! Ora, que sacrilégio não usar uma base nas unhas!

Em outro momento fez-me chorar copiosamente. Eu queria apenas comer fora em um domingo qualquer. Só que eu não poderia, tinha que cozinhar na casa dele:
- Você não possui dinheiro para esse luxo e eu não vou pagar!

Aliás, fez questão de deixar bem claro que só casaria comigo se eu pagasse minhas dívidas. Ele não iria trabalhar para pagar nada de ninguém. Quem falou em casamento? E em pagar dívidas? De onde saiu tudo isso?

Se eu ficasse doente ou muito cansada da faculdade e não pudesse ir para casa dele, escutava:
- Do que adianta uma namorada se não se pode ter sexo na hora em que se quer?

Ele, um estudante de psicologia, usava as minhas incertezas e angústias contra mim mesma.

Eu tinha que agradar a mãe dele, que desprezava-me porque eu morava em um bairro popular e não era da mesma religião da família. Uma vez ele brigou porque eu não fiz sala para a irmã.

Ele, com três meses de namoro, não convidou-me para a festa de aniversário dele na casa da família. O motivo era ridículo e escandaloso - eu não conhecia a tão famosa e intocável mãe. De último momento, resolveu mudar de idéia. Claramente recusei.

No dia dos namorados, depois de muito arrumar-me, ele levou-me para casa dele. Foi um jantar pavoroso e sem graça. Não ganhei presente e ele ainda reclamou do meu. Esse circo tosco foi a desculpa perfeita para que não houvesse despesas e eu dormisse lá.

Com seis meses eu resolvi terminar. Em uma viagem, senti-me atraída por outro homem.

No caminho para o lugar que marcamos, depois da minha chegada, ele queixava-se porque eu era a única e exclusiva culpada pelo namoro não estar indo bem, que eu tinha que mudar se quisesse mantê-lo. Ele salientou que quando começou a namorar comigo, saía com outras mulheres e tinha muitas opções. Eu deveria orgulhar-me por ele ter escolhido-me.

Assim que falei que estava acabado, ele quase teve um ataque cardíaco. Não acreditou que eu estava tendo aquela audácia. Ele repetiu várias vezes que foi um erro ter apresentado-me a mãe dele e toda a família (muito antes disso, eu tinha apresentado a minha!).

Tirei um grande peso das costas e acabei com uma farsa. Contudo fiquei com essa repulsa por compromissos e namoros, quase como um asco.

Depois de procurar saber mais e mais sobre o feminismo, descobri que fui vítima de abuso e violência psicológica.

Sinto-me mais segura e decidida hoje neste campo. Não tenho vontade alguma de enveredar-me por esse caminho novamente.

Minha solteirice tornou-se meu refúgio.

terça-feira, 2 de maio de 2017

In perpetuum mobile

O que se faz com um punhado de felicidade?
Uns docinhos merengues coloridos
com um gosto tão enjoativo
que dá uma certa azia.

E o que se faz com um bocado de tristeza?
Uma poção azul metálica bem venenosa
de amargar toda a boca
e morrer só de desgosto.

O nada nunca será suficiente
e muito menos o tudo.
É um acabar-se de exagero
de muitos que querem o mundo.

Eu rejeito a felicidade
como um gato preto
que sabe por instinto
da morte na encruzilhada.

Eu abraço a tristeza
como um peregrino
cego em sua fé
e vazio de confiança.

Um extremo, o oriente
E na outra ponta, o ocidente.
E nunca quero eu o centro
por teimar em não desvelar.

Mas não há como negar
que se um não agir
o outro não existirá.

No fim, meu coração dramático
é um poço de alquimia
que explode todo dia.

A felicidade tem fim
e a tristeza, bem...
Quem sabe.

T.S. Frank




segunda-feira, 1 de maio de 2017

Belchior (1946-2017) - O poeta das desventuras e a palo seco


Ah, Belchior... Agora que tu encerraste esta existência e foi preparar-te para uma outra, que será muito mais satisfatória e cheia de respostas para teus anseios, não poderia eu fugir das lembranças de tua companhia de uns oito anos atrás, tocando repetidamente A Palo Seco e por Medo de Avião em minhas madrugadas incertas e também preenchidas por conclusões nada floreadas da vida. Sim, essa realidade e essas desventuras também assolam-me, por isso tuas músicas caem-me como uma luva.

Tu fizeste-me rever João Cabral de Melo Neto hoje e este livro de capa verde que olho aqui do lado. Foi quase certo que o teu a palo seco também veio do mesmo dele. E eu fiquei refletindo sobre essa expressão tão significativa, que para ambos, representava seus navios com o mastro, mas sem vela, ou mesmo o cante flamenco unicamente com a voz, sem qualquer acompanhamento musical.

De onde tua faca veio, em forma de canto torto, também veio Uma Faca Só Lamina de nosso amigo escritor e poeta nordestino de uma Vida Severina.

Sabe... Eu também tenho medo de avião... E um montão de roupas velhas coloridas. E não possuo dinheiro no banco, muito menos parentes importantes e eu vim do interior.

Tu estás nas tuas canções e nós nelas também.

Ecoa em minha mente, com chiados daquele teu vinil numa vitrola, minha vida que começava a ser construída para meu bem e para meu mal.

Nunca esquecerei-te.

Sigas em paz e em direção à luz.

Con soidade já estou...












quarta-feira, 26 de abril de 2017

Delirium Tremens



Hoje pensei que poderia definir-me através de um turbilhão de sentimentos em forma de uma dessas pílulas que toma-se para distúrbios de personalidade e humor. Entretanto foi apenas uma tentativa fracassada. Ainda não há resposta coerente e satisfatória.

Um dia mais do que tedioso e meu peito pulsava, ao anoitecer, com o mesmo ódio enjaulado de sempre.

Nada mais sou do que uma pecadora que teima em não seguir a resignação de vida. E uma pobre tola que ainda fere-se com a reação alheia aos pequenos erros cometidos.

Talvez eu realmente mereça fenecer em tristeza. Porque sou uma dessas almas impuras que não aceita cortesias superficiais, trivialidades e vulgaridade.

Ah, meu Deus, como a vulgaridade é um monstro assustador e profano. E como eu a abomino veementemente.

Se eu pudesse, vestiria-me como um dândis... Não... Eu não posso, sou uma mulher. E até nisso eles criaram uma palavra bem mais pomposa e nobre que os expliquem com requinte. E só resta-me esperar que um dia surja uma definição assim tão majestosa para mulheres e que não as relegue a bonecas de luxo.

Eu queria sentir o mesmo que Oscar Wilde nos tempos de glória - um divino endeusamento de mim mesma.

Contudo cabe-me mais o retrato de Poe definhando na calçada, afogando-se em seus próprios desvios e revendo, pela última vez, seus contos de terror em meio ao delirium tremens.

Como eu anseio por deleites com cores sibilantes, por pessoas com a mente de Atenas e o corpo de Aquiles. É quase como uma sede agonizante e silenciosa, um pequeno desespero, um pedido de socorro.

Devo ser punida por querer outra realidade e está cansada de todos ao redor. Porém não hei de calar-me apenas para satisfazer a vaidade daqueles que só enxergam-me como casa de passagem.

Eu quero muito mais em exuberância, membros desenhados em linhas fortes e seguras, quiçá um tantinho de devoção e muitas noites prazerosas e crepitantes.

Não, ninguém, até hoje pode oferecer-me o que anseio. Muitos chegaram a ser grandes promessas e terminaram como ejaculações precoces.

Estou sucumbido no vazio do que desejo. E o pior é saber que esse abismo pode ser infinito. E uma queda que não tem fim é pior até do que a própria morte.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Tenebrae

Lá bem distante, no infinito passado, eu olhava o céu do meio-dia, escondida do mundo ao meu redor. Aquelas nuvens brancas passavam calidamente por entre um azul de um fulgor intenso e infindável. Eu tinha o meu próprio universo e este era protegido dos dragões que cuspiam palavras de terror e de ofensas. Dia após dia, todos esses monstros, com faces humanas, tentavam arrancar minha armadura. Algumas partes foram destruídas e feridas e suas cicatrizes rugosas ainda doem. Porém eu consegui caminhar um pouco além e desbravar alguns novos mundos mais adiante.

Eu pensei, muitas vezes, como seria chegar aos 30 anos E nesses lampejos cerebrais eu não tinha forma nem de homem ou mulher. Eu via-me apenas como um indivíduo sentado em meio a um monte de livros, analisando a passagem do próximo cometa. O mais impressionante é que não havia mais ninguém por perto - apenas uma casa de madeira, a quietude de uma floresta densa e umas parafernálias altamente tecnológicas.

Pobre criança, perdida em seus sonhos pueris...

Hoje eu tenho um pouquinho mais de 30 e sinto-me uma prisioneira em um inferno que, como as estrelas azuis, parece, a olhos alheios, calmaria do mar, enquanto por dentro é uma agonia fervente.

Assim como em O Feitiço do Tempo, o mesmo dia repete-se numa cadeia cíclica sem fim. E esse é triste e cheio de acusações. Todos os dias escuto que o tempo está passando, que minha idade está avançada, que as mulheres da minha idade já têm filhos e maridos. É a mesma fala, como um mantra, para assim não esquecer-me de quem eu realmente sou: uma aluarada balzaquiana vencida.

Às vezes eu odeio-me o bastante para pensar que todos esses fatos tristes são merecidos até por demais.

Ninguém mandou-me sonhar com o céu e seus pontos brilhantes inatingíveis. Enquanto todas as meninas sonhavam com suas famílias, eu queria mesmo era encontrar um disco voador (ou aquela nave do Carl Sagan) e navegar pelas poeiras cósmicas e nebulosas. Eu também queria caçar um tornado e esperar a próxima tempestade à leste, cheia de nuvens gorduchas e cinzentas. 

Poucos entendem a minha paixão por cinema e livros. Ali as histórias românticas e policiais, grandes épicos e jornadas de vidas levam-me a ter outra existência, um novo corpo, mantendo-me com a mesma mente. Ora, o que quer um escravo senão algumas horas de autonomia? O que mantém um cativo vivo senão a utopia de liberdade? Apesar de ouvir que vivo perdendo meu tempo com essas inutilidades que não me tirarão da sarjeta do desemprego ou trarão o status que uma sociedade pede a um cidadão, é esse dito desperdício que conserva-me de pé em meio a tanta desvalorização dos outros para comigo.

Há uma cena no filme O Jovem Andersen em que o já adolescente Hans Christian Andersen acha-se incapaz de satisfazer seu tutor. Depois de tentarem arranca-lhe os sonhos, podarem sua liberdade artística, além da morte do seu melhor amigo, e a um passo da demência total, ele resolve dar cabo da própria vida. Vai a um cais e joga-se ao mar. E entre a vida e a morte, numa espécie de limbo, ele vê seu falecido grande amigo Tuck no paraíso. Tuck fala a Andersen que ele tinha que viver e contar suas histórias. Aquele menino do fundo mar salvou Andersen da morte. E ele emergiu para escrever A Pequena Sereia, que não só deu-lhe fama mundial e o colocou no Olimpo dos melhores escritores de todos os tempos, como também emocionou o seu algoz. 

A alegoria de Tuck no paraíso do fundo do mar mostra que um fio de crença em nós mesmos, pode, até no mais nefasto purgatório, ser a nossa redenção. E ao repassar essa cena em minha mente, fico-me a perguntar se em mim, ou lá fora, também existe um Tuck.

Eu vivi histórias reais infelizes, cheias de ódio e rancor. Mas eu também vivi histórias fantásticas em minha mente. E graças a elas, e a uma esperança que não deveria existir, eu posso escrever neste hoje.

Eu queria não ser delimitada por padrões. Eu queria não ter dor crônica e amar muito e receber, ao menos, um pouquinho de afeição ou longas cartas manuscritas de amores e amantes. De fato, eu queria muito desse muito que é o mundo real.

Se é uma ousadia... Quiçá...

Custa-me acreditar que, como uma mercadoria, eu tenha um prazo de utilidade. E como uma mentira contada muitas vezes pode tornar-se verdade, meu medo futuro é que essa ESCURIDÃO aposse-se de mim.

No fundo eu sei que nada disso que acontece pertence-me. Muitos não sabem o que fazer com o diferente, com a bolinha vermelha destacando-se das azuis, tomando rumos contraditórios e sendo apenas ela mesma.

Longe de mim ser uma unanimidade. Sou para poucos e tão vermelhos como eu. O mais difícil é saber se eu vou conseguir não sucumbir até que todo esplendor do inatingível atinja de vez a minha alma.

sábado, 15 de abril de 2017

O samaritanismo - um convite aos caos interior

Uma das coisas que mais detesto em minha vida é ajudar casais que estão em processo de separação. Mas mesmo não gostando dessa tarefa, procuro fazê-la com a maior destreza e máximo empenho.

Porém, no final das contas, basta um pequeno comentário, alguma coisa despercebida e tudo volta-se contra àquele que estava com o papel mais injusto de todos os tempos: o bom samaritano.

Nas minhas relações amorosas complicadas e abusivas não existiu absolutamente uma única pessoa que pudesse oferecer-me uma palavra de conforto ou levantar a minha auto-estima. Isso não me impediu de tentar obter ajuda fracasso após fracasso e essa missão foi quase suicida. Muito do que foi dito-me fez com que, hoje, eu fechasse as portas para qualquer começo de interatividade e perdesse o interesse no ser humano em geral.

Entretanto refleti que o que faltava para mim eu poderia oferecer aos outros. As palavras ditas no momento certo podem reerguer almas do fundo do poço. Não seria justo fazer com que os que precisassem fossem vítimas de uma vingança pessoal.

Sempre que posso eu escuto as pessoas, seus problemas e aflições. Deixo-as falar bastante e quase sem cortes, pois sou, naquele momento, apenas os ouvidos. Eu sei o quanto isso é importante. E como eu sei? Porque nunca tive esse privilégio - de alguém que pudesse sentir todas as minhas angústias. As vezes que eu naveguei por essas águas turvas, a minha voz foi abafada, dando lugar a comparações e a tomada de lugares. Não me recordo de ter finalizado uma história minha um momento sequer. E assim eu desisti. Por isso eu gosto de escrever. Não treinei minha própria voz e passei a entender que nada do que eu pudesse falar poderia ser assimilado por outrem.

Talvez eu já tenha ajudado muita gente. Isso é um conforto em meio a tanto dissabor e tristeza. Só que esse fato não me exime de sofrer as consequências e as distorções por parte de alguns que ofereço o meu auxílio.

E foi isso que aconteceu ontem. Fui ajudar um casal de conhecidos e, no final, tudo reverteu-se contra mim.

Não entrarei em detalhes e não contarei a história. O que posso dizer é que a injustiça, traição e mal entendidos partem, na maioria das vezes, daqueles a quem ofereceu-se socorro, ombro amigo e, principalmente, muita paciência.

Que isso sirva de lição.

O mundo não passa de uma embuste, com fanáticos religiosos, hipocrisia e muita deslealdade.

Por isso a solidão não é uma inimiga - ela é a única digna de confiança.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Proscrição

Assola-me uma tristeza sem precedentes.

Não há confiança.

Não há amor.

A vontade de tudo esvaiu-se.

O mundo nada mais é do que um amontoado de cinzas humanas.

E olho suas fogueiras de onde saem nuvens de mentira, discórdia e injustiça.

Queimei todos.

Amei todos.

Odeio todos.

Ignoro muitos.

Poderia alçar um longo e definitivo voo dentro de mim mesma.

Levar-me para longe e para uma outra existência.

Mas trespassa-me o medo absoluto

De encontrar somente o abismo onde um dia a minha alma residiu.

T. S. Frank

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Carnyx - A Trombeta Celta de Guerra

Reconstrução da Carnyx de Deskford por John Creed.
Foto retirada do site do Museu Nacional da Escócia.
Lívio Tito escreveu: "Então notícias vieram que os gauleses estavam nos portões e tão logo gritos parecidos com uivos de lobos e sons bárbaros foram escutados." (apud Neil Oliver em Os Celtas: Sangue, Ferro e Sacrifício/The Celts: Blood, Iron and Sacrifice, episódio 01, BBC, 2015)

Essa descrição de Lívio (Titus Livius, 59 a.C. - 17 d.C.) sugere que esses sons bárbaros podem ter sido produzidos por uma peculiar trombeta de bronze usada como uma espécie de arma psicológica para aterrorizar o inimigo em incursões de guerra entre 300 a. C. e 200 a. C.

Esse instrumento belíssimo é um dos muitos que fazem parte da Cultura Celta. E para conhecê-lo melhor é necessário também saber um pouco mais sobre aqueles que o utilizavam - o povo da antiga região da Gália.

1. Os Celtas

Um druida, sacerdote Celta,
na visão de William Stukeley
em 1740. Figura retirada do
Livro The Ancient Celts de
Barry Cunliffe. P. 12,
1997.

Os celtas foram um grupo de povos que habitou uma vasta região da Europa. Compartilhavam muitas ligações em comum, dentre elas os costumes sociais, artes, práticas religiosas, e, principalmente, a língua. Eles são considerados os introdutores da metalurgia do ferro no Continente Europeu, dando origem, nesta região, a Idade do Ferro.

1.2 Os Gauleses

Famosa estátua em homenagem a
Vercingetórix. Localiza-se em Alise-
Sainte-Reine, leste da França. Foi
construída por Aimé Millet a pedido do
imperador Napoleão III e instalada em
1865.
Os gauleses formavam um conjunto de populações celtas que habitava a Gália, provavelmente, a partir da Primeira Idade do Ferro (cerca de 800 a.C.). Esta região, hoje, corresponde a França, Bélgica, Suíça, Inglaterra e uma parte da Itália. Eles dividiam-se em diversas tribos e cada uma dessas possuía sua própria cultura e tradições. Os arqueólogos acreditam que as raízes celtas desses povos da Gália derivam da expansão territorial de uma outra civilização - os celtas de La Tène (La Tène é um sítio arqueológico no município de mesmo nome, localizado na Suíça).

Um grande e importante chefe gaulês (da tribo dos arvernos) foi Vercingetórix (80 a.C. - 46 a.C.). Ele liderou a revolta gaulesa contra os romanos. Porém acabou por render-se a Júlio César após perder a famosa Batalha de Alésia, último confronto armado da Guerra das Gálias.

É comum achar que os gauleses eram um bando de guerreiros frustrados, saqueadores e brigões até que Júlio César os transformou em um povo civilizado sob a égide de Roma. A má reputação dos gauleses deve-se a textos antigos. Porém nada disso é verdade. Eles eram até muito evoluídos para a época, com uma refinada arte dos metais, emprego de técnicas sofisticadas para a agricultura e até mesmo um certo domínio de Astronomia e Medicina.

Há também de mencionar-se que algumas pessoas confundem os gauleses com os vikings - povos totalmente diferentes uns dos outros. Os vikings também povoavam a Europa, contudo em outra parte - a região da Escandinávia - que engloba, agora, a Suécia, a Dinamarca e a Noruega.

Se você, caro (a) leitor (a), é dessa turma, então vamos a um macete para não errar mais:

Somos GAULESES!
Sou um VIKING!

ASTERIX e OBELIX são GAULESES!


HAGAR, O HORRÍVEL é um VIKING!

MEMORIZE ISSO!





Agora que você sabe um pouco mais sobre O Povo Celta da Gália, vamos passar para o nosso ponto principal.

2. A Carnyx

Reconstrução de dois tipos de Carnyxes.
Foto tirada no Museu Celta em Hallein,
Áustria. 
Como já foi mencionado, a Carnyx era uma arma de guerra e os celtas levavam milhares delas para os campos de batalha.

A Carnyx consistia em um fino tubo de bronze curvado em ângulos retos em ambas as extremidades. A inferior terminava em um bocal e a superior alargava-se para encaixar-se em uma cabeça de bronze de um javali selvagem. Os historiadores acreditam que dentro dessa cabeça havia uma espécie de língua que vibrava de acordo com o ruído produzido pelo instrumento. A trombeta era tocada em uma posição vertical para que a cabeça do javali ressoasse bem acima das cabeças dos guerreiros.

Sobre isso o renomado trombonista britânico e o único tocador de Carnyx no mundo, John Kenny, fala:

"A Carnyx, claramente, foi usada para provocar medo nos inimigos na batalha. O som é produzido da mesma forma que uma moderna trombeta, trombone, trompa, tuba - você vibra seus lábios. Mas com esse instrumento o som é aprisionado no crânio de bronze e ele trabalha exatamente como nosso crânio porque nossas cordas vocais são amplificadas por todas as passagens nasais e pelo formato do nosso crânio. Esse é o porquê de nós podermos fazer um som sem abrir nossas bocas. É exatamente o mesmo com esse instrumento. O som não é projetado para frente, é radial e isso é extremamente incomum no mundo dos instrumentos musicais. O som dessas trombetas, acompanhadas por uivos e tiros, é considerado como uma intencional parte do plano de guerra designado para aterrorizar o inimigo. O mundo naquela época era um lugar muito quieto e esses instrumentos podem intimidar os seres humanos e tocar alto como um trovão e tão alto como o mar. Além disso, quando elas são tocadas na vertical, estão a 12 pés de altura (aproximadamente 3,6576 metros) e têm uma cabeça, então se você vê 12 ou mais delas saindo da névoa na manhã gritando como loucas, é bem possível imaginar que você está sendo atacado por uma raça de gigantes." (fala extraída de Os Celtas: Sangue, Ferro e Sacrifício/The Celts: Blood, Iron and Sacrifice, episódio 01, BBC, 2015)
 
John Kenny tocando uma réplica de uma Carnyx.
Foto extraída do site Carnyx & Co.

O historiador grego Diodoro Sículo (Diodorus Siculus,  90 a.C. - 30 a.C.) também menciona que:

"Suas trombetas são de um tipo peculiar e bárbaro que produzem um som desagradável."

2.1 A Carnyx de Deskford


Aquarela feita há 50 anos com os pedaços da Carnyx de Deskford.
Foto retirada do site do Museu Nacional da Escócia.

A Carnyx de Deskford é a cabeça de uma trombeta da Idade do Ferro. Encontrada no Nordeste da Escócia por volta de 1816, ela é uma obra-prima da antiga Arte Celta. Tem a forma de um javali selvagem, porém estava sem a juba, a língua e o tubo de bronze. Caracteriza-se por uma construção complexa, forjada por chapas de bronze e latão. Isso ajudou a datá-la, pois o latão não é nativo da Escócia, ou seja, isso significa que o material era metal reciclado romano. Com essa e outras evidências, um período entre 80 d.C. e 250 d.C. foi estimado para a sua construção. 

2.1.1 Réplica da Carnyx de Deskford

John Creed trabalhando na reconstrução da Carnyx. Quase
todas as ferramentas utilizadas nesse processo foram
usadas pelos artesãos da Idade do Ferro.
Foto retirada do site do Museu Nacional da Escócia.
A ideia para a reconstrução de uma Carnyx veio pelo compositor, músico e historiador musical Dr. John Purser. Seu desejo consistia em construir uma nova trombeta celta para trazer a música do passado e mantê-la viva. Com o financiamento do Glenfiddich Living Scotland Awards, do Hope-Scott Trust e do Museu Nacional da Escócia, este projeto foi realizado por John Creed.

As partes que faltavam foram reconstruídas a partir de comparações com outras achadas em diferentes partes da Europa. Embora os exemplares remanescentes sejam poucos, há muitas representações da Carnyx, especialmente nas esculturas e cunhagens romanas.

Alguns elementos são inevitavelmente especulativos, como, por exemplo, o comprimento e o diâmetro originais do tubo, embora as dimensões estejam dentro do intervalo conhecido. No entanto, a reconstrução é precisa no que tange o conhecimento atual.

O processo e o resultado da construção podem ser vistos no vídeo abaixo feito pelo Museu Nacional da Escócia (legendado em inglês).


2.1.2 A voz da Carnyx de Deskford

O vídeo a seguir, feito pelo Museu Nacional da Escócia, mostra o som da réplica da Carnyx de Deskford.



2.2 O Projeto Europeu de Arqueologia Musical - EMAP

O Projeto Europeu de Arqueologia Musical (EMAP em inglês) é um programa que visa realçar as antigas raízes culturais da Europa a partir de uma perspectiva inusitada: a musical, a científica e a sensorial. O ponto de partida escolhido foi a música, pois a música sempre foi percebida como uma necessidade primária de qualquer civilização digna desse nome. 
John Kenny com a réplica da Carnyx de Tintignac.
Foto tirada do site do Projeto Europeu de Arqueologia
Musical - EMAP

Com a duração de cinco anos (2013-2018), ela visa condensar a investigação científica e a criatividade artística, usando tecnologias modernas. Conta com a participação de sete países e dez instituições europeias.

Para esse projeto foram recrutados arqueólogos, musicólogos, pesquisadores, fabricantes de instrumentos musicais, compositores, músicos, cineastas, designers de som e artistas de multimídia, contando com o apoio científico e organizacional de universidades, museus, órgãos públicos, festivais de música, academias, centros de pesquisa e de arquivos de música. A União Européia financia 50% do programa (cerca de 4 milhões de euros.). O restante fica a cargo das dez instituições que participam e por várias outras iniciativas ligadas ao programa.

As principais atrações são alguns dos dispositivos musicais mais fascinantes criados pelo homem durante períodos históricos diferentes e as muitas interconexões que os produziram. E dentre flautas feitas de ossos, rombos, conchas e outros instrumentos musicais espalhados por toda a Europa, há a Carnyx, especificadamente a de Tintignac (uma região da França onde foram encontrados muitos artefatos arqueológicos.).

O representante desta parte é o já mencionado músico John Kenny. Ele ajudou a reconstruir a Carnyx de Tintignac. E desde 2014 ele apresenta-se em recitais e palestras por toda a Europa com a réplica. O instrumento foi reconstruído por Jean Boisserie, baseado na pesquisa de uma equipe de cientistas francesa, esta liderada pelo arqueólogo Christophe Maniquet.

O processo e o resultado da construção da Carnyx de Tintignac podem ser vistos no vídeo abaixo feito pelo Projeto Europeu de Arqueologia Musical.


O vídeo a seguir, feito pelo Projeto Europeu de Arqueologia Musical, mostra o som da réplica da Carnyx de Tintignac.


2.3 A Carnyx na Cultura Popular

O melhor exemplo encontra-se no famoso quadrinho francês Asterix. Há um personagem chamado Assurancetourix (também chamado Chatotorix ou Cacofonix) que é o músico da tribo gaulesa. Além da famosa harpa, ele também toca a Carnyx, como podemos ver na tirinha abaixo:

Tirinha retirada do artigo Instrumentos Musicais da
Antiguidade ilustrados nas Aventuras de Asterix,
o Gaulês, de Daniel A. Russel. Curso de
Engenharia da Universidade Estadual
da Pensilvânia/EUA.

Observação: a Carnyx desse quadrinho assemelha-se mais a Carnyx encontrada em Tintignac.

2.3 Considerações finais

A Arqueologia revela, todas as vezes que acha artefatos novos, que o mundo antigo era extremamente rico culturalmente. E que esse campo de estudo, juntamente com a História, é indispensável para entendermos nossa própria existência no contexto da mudança dos milênios até onde estamos hoje.

A combinação de Arqueologia, artesanato e música também mostrou-se uma poderosa ferramenta para decifrar esses pequenos fragmentos que surgem em áreas que já foram a morada de grandes e misteriosas civilizações.

O exemplo da Carnyx mostra que a sua recriação possibilita (mesmo que seja apenas uma réplica e que não possa garantir a fidedignidade ao som da originais da Idade do Ferro) uma visão mais apropriada aos usos e costumes de sociedades que foram marginalizadas e relegadas ao barbarismo pelos escritores gregos e romanos.

De fato, a descoberta, remontagem e apresentação da Carnyx é um tributo aos artesão e músicos que viveram e lutaram por sua sobrevivência e liberdade há quase 2000 anos.

***


Parte do documentário Os Celtas: Sangue, Ferro e Sacrifício/The Celts: Blood, Iron and Sacrifice, episódio 01, BBC, 2015 (legendado em Português e Inglês)




Fontes

Documentário

Os Celtas: Sangue, Ferro e Sacrifício (The Celts: Blood, Iron and Sacrifice), episódios 01-03, BBC, 2015. Em Inglês.

Livros

Ancient Celts. Barry Cunliffe. Várias páginas consultadas. Editora Penguin Books. ISBN-10 0140254226. Em Inglês.
Kingdoms of the Celts A History and Guide. John King. Várias páginas consultadas. Editora Brandford. ISBN 0-7137-2693-8. Em Inglês.



Meio Eletrônico - E-books

História de Roma Antiga: vol. I: das origens à morte de César. Francisco Oliveira, José Luís Brandão. Google Livros. Várias páginas consultadas. Em Português.


Meio Eletrônico - Sobre gauleses e celtas

O verdadeiro Asterix foi derrotado por César. Site da Revista História Viva (Fora do ar). Em Português. 
Os gauleses eram bárbaros?. Site da Revista História Viva (Fora do ar). Em Português. 
Vercingetórix - Wikipédia em Português.
Cultura de La Tène - Wikipédia em Inglês.

Meio Eletrônico - Sobre a Carnyx

Instrumentos Musicais da Antiguidade ilustrados nas Aventuras de Asterix, o Gaulês - Por Daniel A. Russel. Curso de Engenharia da Universidade Estadual da Pensilvânia/ EUA. Em Inglês.

Meio Eletrônico - Sobre o Projeto Europeu de Arqueologia Musical - EMAP