segunda-feira, 24 de abril de 2017

Tenebrae

Lá bem distante, no infinito passado, eu olhava o céu do meio-dia, escondida do mundo ao meu redor. Aquelas nuvens brancas passavam calidamente por entre um azul de um fulgor intenso e infindável. Eu tinha o meu próprio universo e este era protegido dos dragões que cuspiam palavras de terror e de ofensas. Dia após dia, todos esses monstros, com faces humanas, tentavam arrancar minha armadura. Algumas partes foram destruídas e feridas e suas cicatrizes rugosas ainda doem. Porém eu consegui caminhar um pouco além e desbravar alguns novos mundos mais adiante.

Eu pensei, muitas vezes, como seria chegar aos 30 anos E nesses lampejos cerebrais eu não tinha forma nem de homem ou mulher. Eu via-me apenas como um indivíduo sentado em meio a um monte de livros, analisando a passagem do próximo cometa. O mais impressionante é que não havia mais ninguém por perto - apenas uma casa de madeira, a quietude de uma floresta densa e umas parafernálias altamente tecnológicas.

Pobre criança, perdida em seus sonhos pueris...

Hoje eu tenho um pouquinho mais de 30 e sinto-me uma prisioneira em um inferno que, como as estrelas azuis, parece, a olhos alheios, calmaria do mar, enquanto por dentro é uma agonia fervente.

Assim como em O Feitiço do Tempo, o mesmo dia repete-se numa cadeia cíclica sem fim. E esse é triste e cheio de acusações. Todos os dias escuto que o tempo está passando, que minha idade está avançada, que as mulheres da minha idade já têm filhos e maridos. É a mesma fala, como um mantra, para assim não esquecer-me de quem eu realmente sou: uma aluarada balzaquiana vencida.

Às vezes eu odeio-me o bastante para pensar que todos esses fatos tristes são merecidos até por demais.

Ninguém mandou-me sonhar com o céu e seus pontos brilhantes inatingíveis. Enquanto todas as meninas sonhavam com suas famílias, eu queria mesmo era encontrar um disco voador (ou aquela nave do Carl Sagan) e navegar pelas poeiras cósmicas e nebulosas. Eu também queria caçar um tornado e esperar a próxima tempestade à leste, cheia de nuvens gorduchas e cinzentas. 

Poucos entendem a minha paixão por cinema e livros. Ali as histórias românticas e policiais, grandes épicos e jornadas de vidas levam-me a ter outra existência, um novo corpo, mantendo-me com a mesma mente. Ora, o que quer um escravo senão algumas horas de autonomia? O que mantém um cativo vivo senão a utopia de liberdade? Apesar de ouvir que vivo perdendo meu tempo com essas inutilidades que não me tirarão da sarjeta do desemprego ou trarão o status que uma sociedade pede a um cidadão, é esse dito desperdício que conserva-me de pé em meio a tanta desvalorização dos outros para comigo.

Há uma cena no filme O Jovem Andersen em que o já adolescente Hans Christian Andersen acha-se incapaz de satisfazer seu tutor. Depois de tentarem arranca-lhe os sonhos, podarem sua liberdade artística, além da morte do seu melhor amigo, e a um passo da demência total, ele resolve dar cabo da própria vida. Vai a um cais e joga-se ao mar. E entre a vida e a morte, numa espécie de limbo, ele vê seu falecido grande amigo Tuck no paraíso. Tuck fala a Andersen que ele tinha que viver e contar suas histórias. Aquele menino do fundo mar salvou Andersen da morte. E ele emergiu para escrever A Pequena Sereia, que não só deu-lhe fama mundial e o colocou no Olimpo dos melhores escritores de todos os tempos, como também emocionou o seu algoz. 

A alegoria de Tuck no paraíso do fundo do mar mostra que um fio de crença em nós mesmos, pode, até no mais nefasto purgatório, ser a nossa redenção. E ao repassar essa cena em minha mente, fico-me a perguntar se em mim, ou lá fora, também existe um Tuck.

Eu vivi histórias reais infelizes, cheias de ódio e rancor. Mas eu também vivi histórias fantásticas em minha mente. E graças a elas, e a uma esperança que não deveria existir, eu posso escrever neste hoje.

Eu queria não ser delimitada por padrões. Eu queria não ter dor crônica e amar muito e receber, ao menos, um pouquinho de afeição ou longas cartas manuscritas de amores e amantes. De fato, eu queria muito desse muito que é o mundo real.

Se é uma ousadia... Quiçá...

Custa-me acreditar que, como uma mercadoria, eu tenha um prazo de utilidade. E como uma mentira contada muitas vezes pode tornar-se verdade, meu medo futuro é que essa ESCURIDÃO aposse-se de mim.

No fundo eu sei que nada disso que acontece pertence-me. Muitos não sabem o que fazer com o diferente, com a bolinha vermelha destacando-se das azuis, tomando rumos contraditórios e sendo apenas ela mesma.

Longe de mim ser uma unanimidade. Sou para poucos e tão vermelhos como eu. O mais difícil é saber se eu vou conseguir não sucumbir até que todo esplendor do inatingível atinja de vez a minha alma.

sábado, 15 de abril de 2017

O samaritanismo - um convite aos caos interior

Uma das coisas que mais detesto em minha vida é ajudar casais que estão em processo de separação. Mas mesmo não gostando dessa tarefa, procuro fazê-la com a maior destreza e máximo empenho.

Porém, no final das contas, basta um pequeno comentário, alguma coisa despercebida e tudo volta-se contra àquele que estava com o papel mais injusto de todos os tempos: o bom samaritano.

Nas minhas relações amorosas complicadas e abusivas não existiu absolutamente uma única pessoa que pudesse oferecer-me uma palavra de conforto ou levantar a minha auto-estima. Isso não me impediu de tentar obter ajuda fracasso após fracasso e essa missão foi quase suicida. Muito do que foi dito-me fez com que, hoje, eu fechasse as portas para qualquer começo de interatividade e perdesse o interesse no ser humano em geral.

Entretanto refleti que o que faltava para mim eu poderia oferecer aos outros. As palavras ditas no momento certo podem reerguer almas do fundo do poço. Não seria justo fazer com que os que precisassem fossem vítimas de uma vingança pessoal.

Sempre que posso eu escuto as pessoas, seus problemas e aflições. Deixo-as falar bastante e quase sem cortes, pois sou, naquele momento, apenas os ouvidos. Eu sei o quanto isso é importante. E como eu sei? Porque nunca tive esse privilégio - de alguém que pudesse sentir todas as minhas angústias. As vezes que eu naveguei por essas águas turvas, a minha voz foi abafada, dando lugar a comparações e a tomada de lugares. Não me recordo de ter finalizado uma história minha um momento sequer. E assim eu desisti. Por isso eu gosto de escrever. Não treinei minha própria voz e passei a entender que nada do que eu pudesse falar poderia ser assimilado por outrem.

Talvez eu já tenha ajudado muita gente. Isso é um conforto em meio a tanto dissabor e tristeza. Só que esse fato não me exime de sofrer as consequências e as distorções por parte de alguns que ofereço o meu auxílio.

E foi isso que aconteceu ontem. Fui ajudar um casal de conhecidos e, no final, tudo reverteu-se contra mim.

Não entrarei em detalhes e não contarei a história. O que posso dizer é que a injustiça, traição e mal entendidos partem, na maioria das vezes, daqueles a quem ofereceu-se socorro, ombro amigo e, principalmente, muita paciência.

Que isso sirva de lição.

O mundo não passa de uma embuste, com fanáticos religiosos, hipocrisia e muita deslealdade.

Por isso a solidão não é uma inimiga - ela é a única digna de confiança.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Proscrição

Assola-me uma tristeza sem precedentes.

Não há confiança.

Não há amor.

A vontade de tudo esvaiu-se.

O mundo nada mais é do que um amontoado de cinzas humanas.

E olho suas fogueiras de onde saem nuvens de mentira, discórdia e injustiça.

Queimei todos.

Amei todos.

Odeio todos.

Ignoro muitos.

Poderia alçar um longo e definitivo voo dentro de mim mesma.

Levar-me para longe e para uma outra existência.

Mas trespassa-me o medo absoluto

De encontrar somente o abismo onde um dia a minha alma residiu.

T. S. Frank

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Carnyx - A Trombeta Celta de Guerra

Reconstrução da Carnyx de Deskford por John Creed.
Foto retirada do site do Museu Nacional da Escócia.
Lívio Tito escreveu: "Então notícias vieram que os gauleses estavam nos portões e tão logo gritos parecidos com uivos de lobos e sons bárbaros foram escutados." (apud Neil Oliver em Os Celtas: Sangue, Ferro e Sacrifício/The Celts: Blood, Iron and Sacrifice, episódio 01, BBC, 2015)

Essa descrição de Lívio (Titus Livius, 59 a.C. - 17 d.C.) sugere que esses sons bárbaros podem ter sido produzidos por uma peculiar trombeta de bronze usada como uma espécie de arma psicológica para aterrorizar o inimigo em incursões de guerra entre 300 a. C. e 200 a. C.

Esse instrumento belíssimo é um dos muitos que fazem parte da Cultura Celta. E para conhecê-lo melhor é necessário também saber um pouco mais sobre aqueles que o utilizavam - o povo da antiga região da Gália.

1. Os Celtas

Um druida, sacerdote Celta,
na visão de William Stukeley
em 1740. Figura retirada do
Livro The Ancient Celts de
Barry Cunliffe. P. 12,
1997.

Os celtas foram um grupo de povos que habitou uma vasta região da Europa. Compartilhavam muitas ligações em comum, dentre elas os costumes sociais, artes, práticas religiosas, e, principalmente, a língua. Eles são considerados os introdutores da metalurgia do ferro no Continente Europeu, dando origem, nesta região, a Idade do Ferro.

1.2 Os Gauleses

Famosa estátua em homenagem a
Vercingetórix. Localiza-se em Alise-
Sainte-Reine, leste da França. Foi
construída por Aimé Millet a pedido do
imperador Napoleão III e instalada em
1865.
Os gauleses formavam um conjunto de populações celtas que habitava a Gália, provavelmente, a partir da Primeira Idade do Ferro (cerca de 800 a.C.). Esta região, hoje, corresponde a França, Bélgica, Suíça, Inglaterra e uma parte da Itália. Eles dividiam-se em diversas tribos e cada uma dessas possuía sua própria cultura e tradições. Os arqueólogos acreditam que as raízes celtas desses povos da Gália derivam da expansão territorial de uma outra civilização - os celtas de La Tène (La Tène é um sítio arqueológico no município de mesmo nome, localizado na Suíça).

Um grande e importante chefe gaulês (da tribo dos arvernos) foi Vercingetórix (80 a.C. - 46 a.C.). Ele liderou a revolta gaulesa contra os romanos. Porém acabou por render-se a Júlio César após perder a famosa Batalha de Alésia, último confronto armado da Guerra das Gálias.

É comum achar que os gauleses eram um bando de guerreiros frustrados, saqueadores e brigões até que Júlio César os transformou em um povo civilizado sob a égide de Roma. A má reputação dos gauleses deve-se a textos antigos. Porém nada disso é verdade. Eles eram até muito evoluídos para a época, com uma refinada arte dos metais, emprego de técnicas sofisticadas para a agricultura e até mesmo um certo domínio de Astronomia e Medicina.

Há também de mencionar-se que algumas pessoas confundem os gauleses com os vikings - povos totalmente diferentes uns dos outros. Os vikings também povoavam a Europa, contudo em outra parte - a região da Escandinávia - que engloba, agora, a Suécia, a Dinamarca e a Noruega.

Se você, caro (a) leitor (a), é dessa turma, então vamos a um macete para não errar mais:

Somos GAULESES!
Sou um VIKING!

ASTERIX e OBELIX são GAULESES!


HAGAR, O HORRÍVEL é um VIKING!

MEMORIZE ISSO!





Agora que você sabe um pouco mais sobre O Povo Celta da Gália, vamos passar para o nosso ponto principal.

2. A Carnyx

Reconstrução de dois tipos de Carnyxes.
Foto tirada no Museu Celta em Hallein,
Áustria. 
Como já foi mencionado, a Carnyx era uma arma de guerra e os celtas levavam milhares delas para os campos de batalha.

A Carnyx consistia em um fino tubo de bronze curvado em ângulos retos em ambas as extremidades. A inferior terminava em um bocal e a superior alargava-se para encaixar-se em uma cabeça de bronze de um javali selvagem. Os historiadores acreditam que dentro dessa cabeça havia uma espécie de língua que vibrava de acordo com o ruído produzido pelo instrumento. A trombeta era tocada em uma posição vertical para que a cabeça do javali ressoasse bem acima das cabeças dos guerreiros.

Sobre isso o renomado trombonista britânico e o único tocador de Carnyx no mundo, John Kenny, fala:

"A Carnyx, claramente, foi usada para provocar medo nos inimigos na batalha. O som é produzido da mesma forma que uma moderna trombeta, trombone, trompa, tuba - você vibra seus lábios. Mas com esse instrumento o som é aprisionado no crânio de bronze e ele trabalha exatamente como nosso crânio porque nossas cordas vocais são amplificadas por todas as passagens nasais e pelo formato do nosso crânio. Esse é o porquê de nós podermos fazer um som sem abrir nossas bocas. É exatamente o mesmo com esse instrumento. O som não é projetado para frente, é radial e isso é extremamente incomum no mundo dos instrumentos musicais. O som dessas trombetas, acompanhadas por uivos e tiros, é considerado como uma intencional parte do plano de guerra designado para aterrorizar o inimigo. O mundo naquela época era um lugar muito quieto e esses instrumentos podem intimidar os seres humanos e tocar alto como um trovão e tão alto como o mar. Além disso, quando elas são tocadas na vertical, estão a 12 pés de altura (aproximadamente 3,6576 metros) e têm uma cabeça, então se você vê 12 ou mais delas saindo da névoa na manhã gritando como loucas, é bem possível imaginar que você está sendo atacado por uma raça de gigantes." (fala extraída de Os Celtas: Sangue, Ferro e Sacrifício/The Celts: Blood, Iron and Sacrifice, episódio 01, BBC, 2015)
 
John Kenny tocando uma réplica de uma Carnyx.
Foto extraída do site Carnyx & Co.

O historiador grego Diodoro Sículo (Diodorus Siculus,  90 a.C. - 30 a.C.) também menciona que:

"Suas trombetas são de um tipo peculiar e bárbaro que produzem um som desagradável."

2.1 A Carnyx de Deskford


Aquarela feita há 50 anos com os pedaços da Carnyx de Deskford.
Foto retirada do site do Museu Nacional da Escócia.

A Carnyx de Deskford é a cabeça de uma trombeta da Idade do Ferro. Encontrada no Nordeste da Escócia por volta de 1816, ela é uma obra-prima da antiga Arte Celta. Tem a forma de um javali selvagem, porém estava sem a juba, a língua e o tubo de bronze. Caracteriza-se por uma construção complexa, forjada por chapas de bronze e latão. Isso ajudou a datá-la, pois o latão não é nativo da Escócia, ou seja, isso significa que o material era metal reciclado romano. Com essa e outras evidências, um período entre 80 d.C. e 250 d.C. foi estimado para a sua construção. 

2.1.1 Réplica da Carnyx de Deskford

John Creed trabalhando na reconstrução da Carnyx. Quase
todas as ferramentas utilizadas nesse processo foram
usadas pelos artesãos da Idade do Ferro.
Foto retirada do site do Museu Nacional da Escócia.
A ideia para a reconstrução de uma Carnyx veio pelo compositor, músico e historiador musical Dr. John Purser. Seu desejo consistia em construir uma nova trombeta celta para trazer a música do passado e mantê-la viva. Com o financiamento do Glenfiddich Living Scotland Awards, do Hope-Scott Trust e do Museu Nacional da Escócia, este projeto foi realizado por John Creed.

As partes que faltavam foram reconstruídas a partir de comparações com outras achadas em diferentes partes da Europa. Embora os exemplares remanescentes sejam poucos, há muitas representações da Carnyx, especialmente nas esculturas e cunhagens romanas.

Alguns elementos são inevitavelmente especulativos, como, por exemplo, o comprimento e o diâmetro originais do tubo, embora as dimensões estejam dentro do intervalo conhecido. No entanto, a reconstrução é precisa no que tange o conhecimento atual.

O processo e o resultado da construção podem ser vistos no vídeo abaixo feito pelo Museu Nacional da Escócia (legendado em inglês).


2.1.2 A voz da Carnyx de Deskford

O vídeo a seguir, feito pelo Museu Nacional da Escócia, mostra o som da réplica da Carnyx de Deskford.



2.2 O Projeto Europeu de Arqueologia Musical - EMAP

O Projeto Europeu de Arqueologia Musical (EMAP em inglês) é um programa que visa realçar as antigas raízes culturais da Europa a partir de uma perspectiva inusitada: a musical, a científica e a sensorial. O ponto de partida escolhido foi a música, pois a música sempre foi percebida como uma necessidade primária de qualquer civilização digna desse nome. 
John Kenny com a réplica da Carnyx de Tintignac.
Foto tirada do site do Projeto Europeu de Arqueologia
Musical - EMAP

Com a duração de cinco anos (2013-2018), ela visa condensar a investigação científica e a criatividade artística, usando tecnologias modernas. Conta com a participação de sete países e dez instituições europeias.

Para esse projeto foram recrutados arqueólogos, musicólogos, pesquisadores, fabricantes de instrumentos musicais, compositores, músicos, cineastas, designers de som e artistas de multimídia, contando com o apoio científico e organizacional de universidades, museus, órgãos públicos, festivais de música, academias, centros de pesquisa e de arquivos de música. A União Européia financia 50% do programa (cerca de 4 milhões de euros.). O restante fica a cargo das dez instituições que participam e por várias outras iniciativas ligadas ao programa.

As principais atrações são alguns dos dispositivos musicais mais fascinantes criados pelo homem durante períodos históricos diferentes e as muitas interconexões que os produziram. E dentre flautas feitas de ossos, rombos, conchas e outros instrumentos musicais espalhados por toda a Europa, há a Carnyx, especificadamente a de Tintignac (uma região da França onde foram encontrados muitos artefatos arqueológicos.).

O representante desta parte é o já mencionado músico John Kenny. Ele ajudou a reconstruir a Carnyx de Tintignac. E desde 2014 ele apresenta-se em recitais e palestras por toda a Europa com a réplica. O instrumento foi reconstruído por Jean Boisserie, baseado na pesquisa de uma equipe de cientistas francesa, esta liderada pelo arqueólogo Christophe Maniquet.

O processo e o resultado da construção da Carnyx de Tintignac podem ser vistos no vídeo abaixo feito pelo Projeto Europeu de Arqueologia Musical.


O vídeo a seguir, feito pelo Projeto Europeu de Arqueologia Musical, mostra o som da réplica da Carnyx de Tintignac.


2.3 A Carnyx na Cultura Popular

O melhor exemplo encontra-se no famoso quadrinho francês Asterix. Há um personagem chamado Assurancetourix (também chamado Chatotorix ou Cacofonix) que é o músico da tribo gaulesa. Além da famosa harpa, ele também toca a Carnyx, como podemos ver na tirinha abaixo:

Tirinha retirada do artigo Instrumentos Musicais da
Antiguidade ilustrados nas Aventuras de Asterix,
o Gaulês, de Daniel A. Russel. Curso de
Engenharia da Universidade Estadual
da Pensilvânia/EUA.

Observação: a Carnyx desse quadrinho assemelha-se mais a Carnyx encontrada em Tintignac.

2.3 Considerações finais

A Arqueologia revela, todas as vezes que acha artefatos novos, que o mundo antigo era extremamente rico culturalmente. E que esse campo de estudo, juntamente com a História, é indispensável para entendermos nossa própria existência no contexto da mudança dos milênios até onde estamos hoje.

A combinação de Arqueologia, artesanato e música também mostrou-se uma poderosa ferramenta para decifrar esses pequenos fragmentos que surgem em áreas que já foram a morada de grandes e misteriosas civilizações.

O exemplo da Carnyx mostra que a sua recriação possibilita (mesmo que seja apenas uma réplica e que não possa garantir a fidedignidade ao som da originais da Idade do Ferro) uma visão mais apropriada aos usos e costumes de sociedades que foram marginalizadas e relegadas ao barbarismo pelos escritores gregos e romanos.

De fato, a descoberta, remontagem e apresentação da Carnyx é um tributo aos artesão e músicos que viveram e lutaram por sua sobrevivência e liberdade há quase 2000 anos.

***


Parte do documentário Os Celtas: Sangue, Ferro e Sacrifício/The Celts: Blood, Iron and Sacrifice, episódio 01, BBC, 2015 (legendado em Português e Inglês)




Fontes

Documentário

Os Celtas: Sangue, Ferro e Sacrifício (The Celts: Blood, Iron and Sacrifice), episódios 01-03, BBC, 2015. Em Inglês.

Livros

Ancient Celts. Barry Cunliffe. Várias páginas consultadas. Editora Penguin Books. ISBN-10 0140254226. Em Inglês.
Kingdoms of the Celts A History and Guide. John King. Várias páginas consultadas. Editora Brandford. ISBN 0-7137-2693-8. Em Inglês.



Meio Eletrônico - E-books

História de Roma Antiga: vol. I: das origens à morte de César. Francisco Oliveira, José Luís Brandão. Google Livros. Várias páginas consultadas. Em Português.


Meio Eletrônico - Sobre gauleses e celtas

O verdadeiro Asterix foi derrotado por César. Site da Revista História Viva (Fora do ar). Em Português. 
Os gauleses eram bárbaros?. Site da Revista História Viva (Fora do ar). Em Português. 
Vercingetórix - Wikipédia em Português.
Cultura de La Tène - Wikipédia em Inglês.

Meio Eletrônico - Sobre a Carnyx

Instrumentos Musicais da Antiguidade ilustrados nas Aventuras de Asterix, o Gaulês - Por Daniel A. Russel. Curso de Engenharia da Universidade Estadual da Pensilvânia/ EUA. Em Inglês.

Meio Eletrônico - Sobre o Projeto Europeu de Arqueologia Musical - EMAP

sábado, 18 de março de 2017

Ortvs (Ortus)

Habita-me uma alma inquietante, cerceada e solitária. Talvez ela tenha muitas histórias para contar, de séculos e milênios - grandes batalhas, amores e vidas intrépidas intercaladas por quietudes.

Seria esta minha existência uma jaula diamantada? Longe de todos que um dia amei? Estão eles espalhados em outros terrenos tão pedregosos como estes que caminho? Resta-me somente a especulação diante de pulsares latejantes - sensações intermitentes de que a vida passa-me como expiação

A Queda de Faetonte/1604 - Peter Paul Rubens
Sinto falta de amar algum ser humano de uma forma mais frenética, dedicar-lhe versos e prosas pueris e inocentes como o desabrochar das rosas na primavera. Ah, sim, é uma lacuna estranha, um ninho abandonado, uma sinfonia bela com algum instrumento desafinado ao fundo. 

Onde eu fui parar? Será que, sem perceber, eu cruzei uma outra dimensão onde os aborrecimentos reinam? Não, não... Quero o meu bizarro de novo, o meu frio na barriga, a neblina gélida do mistério. 

O amor morreu e seria assim capaz de ressuscitar? Quantas perguntas ei de fazer-me até descobrir mais caminhos de tédio puro? 

As pessoas falam e suas vozes ecoam lentamente como fluxos distorcidos e não têm significado algum. Seus semblantes são de bonecos de cera derretidos. Todas as cores esvaíram-se e sinto uma grande onda soprando em tons cinzas melancólicos. 

Eu queria o meu nascer do Sol novamente, apesar de muito detestar as manhãs. Porém não o cobiço como um juvenil Faetonte que, por puro êxtase e inexperiência, acabou fulminado por um raio do controle alheio. 

Desejo que coágulos dourados e brilhantes incidam sobre a minha pele, penetrando e transformando-a em um fluido.

Anseio por libertação e por grandes e majestosos voos.

Nos meus devaneios eu sou um raio de Sol; nos meus pesadelos não passo de uma caricatura de mim mesma. 

E, ao final, constato que sou uma prisoneira que escreve nas paredes, dia após dia, a palavra Utopia.


quarta-feira, 15 de março de 2017

Prece da Lua (Moon Prayer) - Flauta Nativa Americana - NAF


Prece da Lua
Flauta (em bambu) Nativa Americana, chave em F, pentatônica
Tocada por T.S. Frank

Moon Prayer
Native American Bamboo Flute, Key F, pentatonic,
Performed by T.S. Frank








quarta-feira, 1 de março de 2017

Maneiras de comunicar-se comigo

Bem, ao longo dos anos fui ficando cada vez mais reclusa. Fico mais tempo em casa e o restante na universidade. Quando saio, geralmente, é para comer ou ler algo, tomando um café.

Quanto mais o tempo passa, menos vontade eu tenho de sair, ou de ver as pessoas.

Hoje eu não possuo mais redes sociais, como Facebook. Não tenho Instagram e nem outra coisa do tipo. Somente este blog.

Alguns conhecidos e amigos talvez ainda leiam esse espaço. Portanto, a quem desses interessar, aviso que troquei o meu número de telefone, mais uma vez, e consequentemente o Whatsapp.

A razão é bem simples: o chip foi bloqueado. E não pude sequer voltar para pegar recados antigos, pois não havia como receber o SMS de confirmação deste aplicativo. E eu perdi TODA A MINHA LISTA DE CONTATOS, pois meu celular estava com um pequeno problema.

Também comunico que se alguém deseja falar diretamente comigo para perguntar algo, tirar uma dúvida, apontar algum erro do Blog, fazer uma crítica, dizer um olá... Pode mandar e-mail para:

cqesherlock@hotmail.com

Sim! Este e-mail funciona e eu sempre vejo o que tem por lá. Claro, algumas vezes eu demoro um pouco, meses até, para olhá-lo, mas antes tarde do que nunca, não é mesmo? Porém, de agora em diante, prometo ver, senão diariamente, ao menos semanalmente.

Então, é isso!

Abraços a todos!

T.S. Frank

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Bill Paxton (1955-2017)



Bill Paxton sempre será, para mim, o HOMEM do TEMPO, o cara que conseguia saber os pensamentos de um TORNADO, o grande STORMCHASER (Caçador de Tornados) do filme Twister/1996.

Ele é o único ator do mundo que foi morto, nos filmes, pelos três maiores monstros de todos os tempos do Cinema:

Pelo Exterminador/T-800 - O Exterminador do Futuro (The Terminator/1984)
Pelo Alien - Em Alien 2 (Aliens/1986)
Pelo Predador - Em Predador 2 (Predator/1990)

Descanse em paz!!!



Um análise sobre a 89ª Premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas - Oscar 2017


Tivemos mais uma cerimônia do Oscar. E vou logo adiantando - antes do final desastroso, um café de orfanato da década de 30 seria muito mais atraente. 

Há algum tempo venho perdendo o interesse por essa premiação. Antes eu era fascinada e esforçava-me para ver a maioria dos filmes que foram premiados. Só que os tempos mudaram e existem pontos que devem ser abordados. E esta postagem tem esse propósito.

PRIMEIRO PONTO

É inegável que os serviços de streaming e os seriados de TV ganharam milhares de fãs alucinados e, o mais importante, fiéis. A Netflix tornou-se gigante e uma referência, agora, da cultura pop. A sua eficiência, trabalhos de qualidade, modo de exibição, com seriados que saem logo com temporadas fechadas, apontam uma nova era. Os roteiristas tem mais liberdade, diversos assuntos são abordados, sem cortes e sem frescura. O preço ainda é justo e você pode assistir seu conteúdo a qualquer momento, onde quiser, nas smart TVs, tabletes e smarthphones. O conforto de não sair de casa, ter uma imagem tão boa quanto a do cinema e não irritar-se com plateias acéfalas que tiram todo o prazer das salas de exibição são convites atrativos.

CONCLUSÃO - os festivais que premiam séries estão tornando-se mais importantes que o Oscar.

SEGUNDO PONTO

Os críticos de cinema em tempos de Oscar, formados por youtubers famosos (que têm até mesmo canais ditos especializados em cinema), possuem um conhecimento tão raso da Sétima Arte como uma poça de água formada no sereno. Eles multiplicam-se como preás na época do cio. Cinema não é para qualquer um e informação nunca é demais. Não basta ter uma faculdade de jornalismo, falar inglês fluentemente e achar que sabe algo da área. É um convite ao descrédito. Ontem presenciei verdadeiros embustes que não sabiam dizer nem 1/3 do nome dos homenageados da noite, que só preocupavam-se em fazer propagandas, comer e gritar ao microfone.

Claro, salvo somente o Rubens Ewald Filho, mestre dos mestres, culto e um verdadeiro crítico de cinema, que estava pela TNT Brasil. Ao menos a Glória Pires, ano passado, foi verdadeira ao dizer que não sabia comentar. É muito melhor do que acreditar ser aquilo que não se pode ser.

CONCLUSÃO - a grande maioria dos comentaristas brasileiros são pífios.

TERCEIRO PONTO

As produções cinematográficas ainda são muito importantes, mas estão padecendo com safras fracas ou com filmes blockbusters de quadrinhos, cuja a memória não vai sobreviver ao passar das eras. Podem até faturar muito, porém dificilmente terão a mesma importância dos antecessores. O cinema independente tem chamado mais a atenção e despertado mais a curiosidade. O cinema de outros países, fora do circuito americano, também está ganhando mais adeptos. Esse tipo de filme não precisa mais ser lançado primeiramente nos cinemas. E é aqui que a Netflix e a Amazon, por exemplo, entram novamente. E é aqui que, também, outros festivais ganham cada vez mais repercussão.

CONCLUSÃO - o circuito americano, aos poucos, poderá perder uma boa fatia do mercado.

DESTAQUES NO OSCAR 2017

Positivos

1 - A aparição do Michael J. Fox;
2 - A comemoração dos 50 anos do filme Bonnie & Clyde com a participação de Faye Dunaway e Warren Betty;
3 - A aparição da Shirley MacLaine;
3 - A Viola Davis, rainha e musa, ganhando seu Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Fences e arrasando com seu vestido vermelho;
4 - A aparição do Lázaro Ramos e do Seu Jorge comentando, em uma pequeno filme da premiação, sobre os filmes que mais gostavam; 
5 - A volta do Mel Gibson;
6 - Brian Larson não ter aplaudido o Casey Afleck quando foi entregar o prêmio de Melhor Ator por Machester By The Sea a ele. Ela é uma ativista no que compete à proteção das mulheres quanto a violência sexual. Casey envolveu-se em acusações seríssimas nesse aspecto em 2010.
7 - Os protestos e os prêmios para quem foi atingido diretamente pelo veto de imigração do atual presidente dos EUA.

Negativos

1- Todos os prêmios ganhos por La La Land;
2 - A cobertura brasileira, tirando os comentários do Rubens Ewald Filho;
4 - Ninguém diretamente, fora os atingidos pelo veto de imigração, protestou contra Trump, vulgo Satanás, nos discursos de premiação;
3 - E, claro, A GRANDE GAFE DO SÉCULO, a entrega do Prêmio de Melhor Filme para La La Land quando era para Moonlight!!! Que eu faço questão de postar aqui:



E não foi culpa nem de Betty e muito menos de Dunaway. O erro foi da auditoria do Oscar mesmo. 


E não há nem como não lembrar da Gafe do Miss Universo 2015... É, La La Land foi a Miss Colômbia da vez... 



ALGUNS CONSELHOS...

Caro (a) leitor (a), é melhor você assistir filmes e séries da BBC, da ITV, ver as premiações do BAFTA, ver as premiações do TONY, do Laurence Olivier, ir aos bons festivais nacionais, prestigiar os grandes atores e as grandes atrizes do Brasil e do Mundo.

Mesmo que não possa ir ao Teatro, procure no youtube alguns trechos de peças, veja entrevistas sobre o assunto. Leia bons livros sobre Cinema e Teatro, leia a boa LITERATURA.

Procure conhecer os grandes compositores da História do Cinema, como o Ennio Morricone,
Miklós Rózsa...

Assista muita Netflix e, enquanto o Oscar não voltar para o SBT, não esforce-se tanto para assistir a próxima Cerimônia. E nem vá arrumar dívidas com TV por Assinatura. Talvez seja mais uma grande perda de tempo, assim como foi no domingo.

É... O ano já começa assim...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Mais um Carnaval!!!

Desejo a todos os leitores (as) um ótimo feriado e muita diversão!




sábado, 11 de fevereiro de 2017

Por dentro

Ao acordar, desejei tantos devaneios,
muitos e intangíveis, feitos de açúcar
e um pouco de amargor
com uma xícara de café bem quente.

Não sou de amores monocromáticos
ou mesmo multicoloridos,
nem de azedumes e
hordas de juras e promessas.

Sou daquelas bi coloridas,
uns tonzinhos pastéis, quem sabe.
Com melancólicos passeios
noturnos e sorrateiros.

Sou dos amores nos ônibus
e de encontros repentinos
de promessas de um dia
e dias por promessa.

Sou saudade e aconchego
Sou conversa e quietude
Sou quem deveria ser

E você, que eu nunca conheci,
ou bem que eu já vi
por aí, talvez...

Conversamos algum dia?
Olhei-te nos olhos?
Trocamos ao menos
duas palavras?

Se soubesses dos meus anseios
e eu dos teus...
Muito do teu pesar
também seria meu.

Se eu sou você
e você está em mim
Digo-te, meu desvario,
O amor nunca
foi tão injusto.

T. S. Frank


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Tracklist da semana - Via Spotify - Hoje é dia de OLDIES, bebê! Part. II

Bem, cá estou eu em mais uma madrugada. Tomei umas vacinas e sinto-me febril como um bebê.

Está quente e ao mesmo tempo chuvoso. Por que o clima não pode se decidir por uma coisa ou outra?

Enfim...
Bobby Vee na sua era dourada das Oldies

Tem um certo tempo que não falo sobre Oldies, um dos meus gêneros musicais favorito. A primeira tracklist que eu fiz para o Blog foi exatamente com elas, em 11 de dezembro de 2011. E tem apenas 10 músicas.

Resolvi fazer um listão com mais ou menos todas as músicas que eu gosto. Nela você, leitor (a), poderá ter um resumo dessa época que engloba o finalzinho da década de 40 e as décadas de 50 e 60.

Aqui fica minha homenagem ao grande e fofíssimo Bobby Vee que morreu em outubro de 2016, ao 73 anos. Suas músicas fazem parte do repertório da minha vida. 



Golden Oldies - Playlist do Spotify feita por T.S. Frank 
Seleção de músicas por T.S. Frank




Lembrete: provavelmente você irá escutar somente 30 segundos de cada música se não tiver o Spotify instalado. Então eu recomendo que o tenha - uma das melhores plataformas para se escutar música, de rápida e fácil instalação - disponível para PC, tabletes e celulares - GRATUITO!


Quer saber mais de Oldies aqui no CQ&Sherlock? Então leia:

Recomendação Musical - The Ventures
Tracklist da semana - Hoje é dia de OLDIES, bebê!
Glenn Miller
Devil or Angel?

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Crítica da Semana: A Chegada (Arrival)/2016

A Chegada não é uma a unanimidade. É como observar um lindo balão no céu que, ao alcançar o ápice, lentamente, esvazia-se até cair murcho e sem graça no chão. 

A Chegada (Arrival/EUA/2016) é um dos filmes mais elogiados do ano passado - pudera - não foi um ano bom nem mesmo para o cinema, então, qualquer película acima da média, como esta, ganharia muitos louros.

O filme narra a chegada de seres extraterrestres em doze naves que pousam em pontos diferentes da Terra. Após as autoridades americanas perceberem que eles querem fazer contato, a Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma renomada linguista, e o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner) são procurados por militares para interagirem com as criaturas, traduzir os sinais e desvendar se os visitantes representam uma ameaça ou não. O filme conta ainda com a presença do grande ator Forest Whitaker (ganhador do Oscar de Melhor Ator pelo filme O Último Rei da Escócia/2007) como general Weber.

Parece uma ótima premissa para um Sci-Fi digno de figurar ao lado de ícones como Alien - O Oitavo Passageiro (Alien/1979) e Contatos Imediatos de Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind/1977). E você, leitor (a), encontrará muitas maravilhas e honras em 90% das críticas especializadas, como o Rotten Tomatoes (94% de aprovação), e seus amigos, parentes e vizinhos também glorificarão este trabalho do diretor Denis Villeneuve. Mas aqui será exatamente o contrário. E vamos por partes.

A Trilha Sonora é o melhor do conjunto - simplesmente impactante. É uma experiência auditiva que faz jus ao Olimpo. O compositor Jóhann Jóhannsson é certeiro ao empregar um ar de suspense e apreensão que uma Ficção Científica pede. Trilhas sonoras são diferentes para Sci-Fi - elas raramente contêm hinos galopantes, como nos Épicos Históricos. Nesse aspecto, o Gênero Científico é bem mais parecido com o Terror e o Suspense, pois é o desconhecido que reina nessas partes. A fotografia é boa, com tomadas de tons frios, por exemplo, que contrastam com o laranja das roupas de proteção dos personagens. E isso faz, e muito, lembrar cenas dos astronautas de 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey/1968). O filme conta com lindas cenas aéreas, efeitos visuais decentes e um elenco digno.

O filme foi baseado no livro História da Sua Vida (Story of Your Life/1998) de Ted Chiang. O título do livro é sincero e dá uma primeira ideia do que realmente pretende. E esse é exatamente o problema do filme - ele vende algo que não é o seu objetivo e suas partes são ótimas em relação ao todo.

Narrativas que usam o argumento do artifício cíclico para encontrar chaves de linguagem não são novidade. O exemplo mais brilhante é o livro Contato (Contact/1986) do Carl Sagan (que virou filme de mesmo nome em 1997). Só que este é um Sci-Fi que trabalha também temas com relação à natureza humana, assim como vários outros do gênero. Contudo A Chegada é um filme sobre a natureza humana que usa a Ficção Científica como pano de fundo. E não há nada de errado nisso, pelo contrário. Só que neste caso, o erro foi levar a pensar outra coisa.

Em um filme que trabalha a importância do entendimento da linguagem do outro para saber seus reais propósitos, chega a ser paradoxal o fato do próprio filme não dizer a que veio antes que o espectador caia em si e sinta-se frustrado. 

Para ser mais clara - temos um filme que como Sci-Fi é um ótimo drama filosófico. 

Trailer - A chegada (Legendado em Português)


Fontes


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Desistência e Mudança

Hoje pensei em um outro cenário. E foi assustadora a sensação de alívio e leveza por uns instantes. Eu até consegui imaginar como não é mais ter dor crônica.

Eu descobri o valor da desistência.

E da mudança urgente com suas nuances.

E eis que eu explico...

Muitas postagens desse blog falam sobre a realização de um sonho e esse era o curso de Astronomia. Só que, devido as imensas dificuldades, tive que optar por Física. E é inegável que, ao longo dos anos, tornou-se ela mais um dos grandes pesadelos da minha vida.

Sim, eu arrependo-me. E ao mesmo tempo sei que foi necessário.

Não há nada no curso que faça-me feliz. Não há ninguém para admirar, nem para seguir e muito menos para conversar.

Só há uma imensa infelicidade, dores de cabeça, doenças psicológicas que viraram físicas, inimizades, desconfiança, falsos amigos, baixa auto estima, cobranças extremas e muita culpa.

Sinto-me incapaz e bem deslocada. E é bem difícil admitir que eu deveria ter feito uma mudança quando ela era necessária.

Sofro com dor lombar crônica desde o primeiro dia de aula nesse curso. Foi como um grande aviso da tormenta que viria do leste. E essa dor, quase certamente, não cessa por eu viver ameaçada e amedrontada, sem ter com quem compartilhar todas as minhas angústias.

São 6 anos de médicos, fisioterapias inúteis, uma rizotomia que não surtiu efeito, remédios fortíssimos e o mais agravante - aquele velho sentimento de que eu não tenho o direito de falhar nem sequer com a minha própria doença. Que apesar do martírio que eu vivo, são os outros que vivem atormentados pelos problemas que eu causo.

Hoje estou sem plano de saúde. E não posso ir tão cedo ao médico.

Cotidianamente eu escuto que tornei-me um fardo, um descrédito, alguém que PASSOU DO PRAZO DE VALIDADE.

Por mais que eu ame a ideia de trabalhar com Ciência, o lugar, o curso oferecido, o material humano, colegas e professores tiraram todo o brilho do meu sonho. Aliás, tiraram muito mais do que isso - eu não sinto-me digna de um dia possuir algo bom ou de merecer alguma estabilidade e felicidade.

Estou vazia e trincada.

É hora de mudar, inevitavelmente.

Preciso de liberdade, respeito e consideração. Eu não tenho isso na faculdade e muito menos na minha vida.

E é a partir desse ponto que terei que fazer algo que não gosto muito, mas que a necessidade faz-me reconsiderar - estudar para concursos públicos. E se eu passar em algum, sim, eu poderei refazer a minha vida e tentar colocar algum sentido nela.

Quem sabe eu não chore mais, todas as noites, por ter dor crônica.

Não quero ser mais o estorvo.

Quero apenas ter a chance de ser eu mesma.

E não levarei ninguém da minha antiga vida. A lembrança de seus rostos é, gradualmente, queimada em uma grande fogueira, um por um...

Se eu pudesse, eu trocaria até mesmo de nome, desapareceria por um longo tempo e sentiria o gosto de tudo o que me foi negado.

Daqui por diante não escreverei mais sobre esse devaneio que não mais existe.

Pretendo apenas relatar a minha luta pela minha própria sobrevivência.

E no dia que eu disser que finalmente sinto-me liberta, eis que a velha roupa cinza nunca mais será vestida.

domingo, 22 de janeiro de 2017

De quem é a culpa?

Eu tenho muitos sonhos recorrentes. A maioria é como ver um filme do David Lynch. Eu até já descrevi um aqui no Blog (link para a postagem aqui). Só que há um cenário que entra em um modo chamado looping.

Eis o relato...

"Eu acordei bem angustiada. De fato, o sonho todo foi sufocante e intenso. Eu estava revivendo um terror juvenil – a escola. Lá estavam as mesmas pessoas que um dia transformaram minha vida em um inferno sem precedentes, deleitando-se todos em pura maldade. Tudo era igual, a sala, as árvores, as ruas... Eu estava imersa no fracasso total, questionando os métodos, não entendendo o conteúdo, odiando os professores, faltando às aulas. Eu fui uma aluna exemplar na vida real. Só que, neste pesadelo, eu era um ponto fora da curva. A sensação de inquietude e desespero reinavam. Eu estava na ponta de um abismo de conflitos existenciais. Eu tinha medo que meus perseguidores arrancassem os meus desejos, afinal, eles estavam novamente ali, tão próximos. Parecia mais um jogo sádico. E, mesmo com toda a tristeza que pesava dentro de mim, eu estava perseguindo a Lua - grande e paradoxal - que estava aproximando-se. Meus olhos não saíam do céu. E era uma espera conflitante, cheia de dúvidas. Pedi a quem estava próximo para chamar-me quando ela surgisse. Mas não fizeram isso por mim - eu mesma tive que achá-la no firmamento. Eu, finalmente, estava prestes a colocar minhas mãos naquele astro imenso e significativo - tudo que eu sempre quis. Porém, de repente, saí e deixei para os outros, pois tinha medo e uma sensação de frustração. Eu estava abandonando as recompensas de toda uma espera. Não existia mais prazer e muito menos olhos para contemplá-la."

Após despertar, eu tive um lampejo de felicidade ao constatar que não era real. Só assim todo o peso e angústia foram dissipando-se. Fiquei horas pensando no que tinha acabado de acontecer e o que tudo aquilo significava. Então eu pesquisei no Google, achando alguns significados:

Sonhar com o passado - o sonho de viver no passado indica reflexão sobre alguma coisa que não foi resolvida e que, aos poucos, vai descortinando-se na própria mente. Sonhar vivendo no passado possui o significado de uma possível regressão e de uma vida diferente.

Sonhar com pessoas do passado - ver pessoas do passado em um sonho indica incertezas profundas quanto ao futuro. Somente quando estamos preocupados com o futuro é que nos voltamos para o passado. A incerteza é uma das maiores tiranas dos homens e os persegue para sempre, posto que a única coisa que temos de concreto é que um dia deixaremos esta vida. Sonhar com pessoas do passado é desnudar anseios e vê-los diante de nós com um ponto de interrogação enorme, fazendo a velha pergunta existencial: ser ou não ser!

Sonhar com a Lua - sonhar que procura a Lua e não a encontra significa que o seu momento é de baixa e de grandes decepções. Sonhar que está contemplando a Lua significa que sua alma está sentindo-se mais livre e espontaneamente carregada de boas energias. Neste contexto, pode-se abrir um precedente que nos faz refletir sobre a capacidade de evolução.

Apesar de todo o misticismo envolvido nas interpretações, não pude deixar de notar a grande semelhança com os acontecimentos atuais e o meu próprio estado de espírito.

Há um tempo eu venho fazendo-me a pergunta: de quem é a culpa pela tristeza da minha vida que reflete-se até mesmo no sono?

Se eu fosse uma religiosa fervorosa, eu diria que a culpa é totalmente minha. Talvez se eu fosse a um psicólogo, ele diria a mesma coisa, mas de uma maneira mais suave.

Quase cotidianamente, convidam-nos a achar que somos exclusivamente o nosso próprio inimigo. E que, para aniquilar essa personalidade destrutiva, perdoar em massa é a única solução. O resto é seguir em frente. Parte dessa cartilha de martírio e desnudez é necessária sim. Mas segui-la à risca é tornar-se um bobo desnecessariamente.

É claro que perdoar e apagar as mágoas passadas retira um peso do próprio corpo. Afinal ninguém quer ser Atlas. Contudo estes dois atos devem ser feitos com cuidado e refinamento justamente para ajudar e não deixar a sensação de vulnerabilidade e de uma pessoa que esquece tudo facilmente.

Eu não posso retirar o passado e a lembrança das pessoas más de mim. Eu gostaria, entretanto não posso.

Eu consigo, somente, amenizar algumas dores e desculpar algumas que mostraram merecimento. Tolice grande é perdoar aqueles que não admitem o erro, que acham que estão certos e orgulham-se de ser opressores.

Está semana, como comentei em uma postagem anterior, estava preparando-me para conversar e pedir desculpas para alguém que há muito não falava. De fato, eu também o perdoei por uma história do passado. E sabe por quê? Pois, passados 4 anos, eu descobri os que realmente foram responsáveis por incentivarem o rancor.

E sobre as outras pessoas? Talvez eu nunca as perdoe. Por que eu trataria a mim mesma como vilã quando na verdade fui vítima? É algo que muitos fazem e eu não consigo entender. Isso é bem diferente de quando há redenção, pedido de desculpas. É uma outra história quando você sente que magoou alguém.

Hoje mantenho-me o mais longe possível daqueles que um dia fizeram-me algum tipo de mal. Eu convivo bem com a solidão. O que não suporto é a proximidade dos iconoclastas, falsos admiradores e críticos destrutivos.

Concluí que a culpa não é minha somente.

E depois do devido reconhecimento, o que fazer?

Não sei, de fato. Tudo é tão incerto. É um sabor amargo, um desprazer...

Não sintam pena, seria humilhante. Se for para sentir algo, que seja empatia e compreensão.

E é isso que todos os que são magoados precisam...

E todo mundo se magoa às vezes.
Às vezes tudo está errado. (REM, Everybody Hurts, 1992)



terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Crime & Castigo

São apenas alguns minutos para a metade do dia. Mas bem antes disso, eu já estava desfeita em minúsculos pedaços. E cada um desses tinha algum rosto, donos de tristes lembranças e muita desilusão.
Minha vida é um carrossel, girando, girando... Intensamente pela vida... Porém cavalgando presa em meus erros.
Decidi comer fora. Apenas saí sem muito alarde. Só que, como sempre, até mesmo esse pequeno ato cotidiano tem seus pesares. E é extremamente bizarro o porquê disso. Talvez eu, um dia, consiga achar as palavras certas para explicar o que ocorre.
Sentei-me só. E isso foi de uma paz inexplicável. Nunca entenderei essa imensa necessidade alheia, quase doentia, de fazer qualquer refeição acompanhado.
Aliás, a solidão seria mesmo um castigo? Ou as companhias erradas, as migalhas de sentimento e a eterna busca da aceitação são bem piores? Perguntei-me isso anteriormente. E a resposta está em meu próprio comportamento.
Quando desapareço da vida de alguém é, de fato, a sentença máxima para muitos dias e minutos pela busca da verdade - por que esta criatura entrou em minha vida para fazer isso? É claro que eu deixei e não vou me eximir dessa contribuição. Só que muitos crimes e atrocidades são cometidos exatamente por aqueles em que deposita-se a fé.
Como em um grande tribunal, a investigação é cheia de sofrimento. E mesmo a punição máxima não é capaz de apagar as marcas - somente amenizar as sequelas.
Só há uma ressalva nisso tudo. Apesar de copiar o Mr. Darcy na afirmação de que minha boa opinião uma vez perdida é para sempre, tenho que falar claramente sobre uma única exceção.
E a seguir relato...
Há muito tempo eu gostei de alguém. Não é o mesmo de tantas histórias tristes, não trata-se do grande e inesquecível amor, o destrutivo e amargo. Foi um relacionamento brevíssimo, uma tentativa... Contra tudo e todas as opiniões.
Só que várias desventuras e confusões sobre o que sentíamos e o que realmente éramos causaram um grande rompimento. A maior e, talvez, única ira partiu de mim, alimentada por afirmações de inúmeras pessoas.
E assim foi até outro dia.
Entretanto a vida sempre dá um jeito de revelar o que estava escondido e as reais intenções daqueles que circudam, os próximos... Sempre eles.
Desnudada a acre verdade, tive que reconsiderar a redenção, afinal eu estava cega e envenenada, cheia de rancor e extremamente quebrada.
Todas as máscaras caíram. E o único que permaceu intacto diante desse terromoto foi justamente ele.
Alguém já agiu como mediador dessa tarefa um pouco estranha para mim. E ele, em um primeiro contato, mostrou-se disposto a conversar.
Agora mesmo, tento pensar em como desculpar-me pelo imenso engano. A angústia da espera pelo perdão equivale a pedi-lo. Entretanto não deixo de considerar se minhas mágoas também não mereceriam consolo.
Mesmo assim, é um peso que preciso tirar da minha alma.
Dito tudo isso acima...
A premissa básica para o entendimento do meu próprio ser passa longe até mesmo de mim. E não há nada mais egoísta e opressor do que a fala "conheço-te bem..." proferida ousadamente por pessoas que são ou foram próximas.
Todos os que já utilizaram tal falácia agora residem em outras dimensões trancadas por mim e longe do meu olhar.
Não sou uma pessoa fácil. E, se fosse, não teria consciência do maravilhoso universo de possibilidades, longe da vulgaridade e extravagância.
Não há nenhum erro que não deixe cicatriz. Mas também não há nenhuma personificação dele que não possa ser extinta.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Lágrimas Por Um Amor Perdido (Tears For Lost Love) - Flauta Nativa Americana - NAF

Lágrimas Por Um Amor Perdido
Flauta (em bambu) Nativa Americana, chave em F, pentatônica
Tocada por T.S. Frank


Tears For Lost Love
Native American Bamboo Flute, Key F, pentatonic,
Performed by T.S. Frank














quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Faltas

Hoje o amanhecer teve sabor atômico de um laranja sufocante.

Gritos, indagações... Minha liberdade nunca existiu. Não tenho privacidade e nem incentivos. E por tudo, depois de toda a sarjeta jogada em mim, querem que eu, forçosamente, erga-me e siga em frente. De fato, eu sou o peso que pretendem livrar-se.

Quantas pessoas sentem-se hoje como eu me sinto todos os dias. Eu queria muito encontrar os meus iguais. Eu desejei. Aliás, foi um dos primeiros pensamentos dessa manhã tenebrosa.

Somente uma coisa mudaria a minha vida neste momento: um emprego. Talvez eu tivesse algum valor. Estou escarnecida, bem de fato. 

O ano começa assim - com brigas, dissabores e falta de diálogo. E dentro desse cenário, angustia-me as acusações. Eu pergunto-me, "sou um ser humano péssimo assim?".

É como uma espécie de maldição familiar, ou talvez muitas pessoas entendam por maldizeres.

Desde sempre eu escuto os meus próprios defeitos, dia após dia, como um mantra - as recriminações começam do âmago.

Sinto falta do amor em sua essência, porém esta falta é desde sempre, do tempo imemorial, daquele que nunca pode ser sentido, mas sabe-se que existe.

Quando falo em amor, não é aquele proferido por bêbados, ou por namorados abusivos, ou por pessoas que querem apenas sexo, ou por familiares e suas obrigações. Não, não é nada disso e nunca será.

Todas estas relações acima são vazias e ferem profundamente, deixando cicatrizes ano depois de ano.

Sinto falta de cumplicidade, de amizades no sentido da palavra e de proteção.

Sinto falta de compreensão, de conversas adequadas para resolver problemas.

Sinto falta de sentir-me um ser humano completo. Hoje tenho apenas pedaços mal formados, degradados por chicotadas.

Por Deus, como estou cansada de tudo isso.

Eu fico perguntando-me se o dinheiro e status fazem uma pessoa feliz. Talvez não. Só que a falta dos dois, quando você está no círculo errado de todas as relações da vida, podem levar à loucura sem precedentes.

E pior do que a loucura, é ter a sensação da sarjeta, de alma inferior, de perda do brilho e da vontade de viver.

Todos os dias formam-se as comparações injustas.

Todos os dias é como morrer. Ir ao inferno e voltar apenas para dormir.

E o ciclo vicioso recomeça nos primeiros raios de Sol.

É como gritar e ter uma sacola plástica na cabeça.

Desejei morrer tantas vezes e desejei viver outras mais.

Eu só quero uma vida diferente. Mas para que ela aconteça, eu preciso apenas que deixem-me livre, que não coloquem pesos de crimes e o peso da hereditariedade.

Sou uma pessoa na fogueira. Meu crime foi ter pensado em cruzar o horizonte e alcançar o céu com as minhas mãos.