quinta-feira, 30 de junho de 2016

Esse quam videri (Ser ao invés de parecer!)

"Já ocorreu a você que nós nos iludimos? Que nós podemos ver mais claramente e distante de dia? Mas o sol fica no caminho. A noite é quando se vê melhor... Quando nós olhamos as estrelas brilhando, a muitas milhas de nós. A noite é como um voo alto, alto dentro do céu - enxergando tudo claramente... Do jeito como é." (Diálogo entre o jovem Hans Christian Andersen e Jonas Collin no filme O Jovem Andersen/Unge Andersen - Dinamarca - 2005, direção de Rumle Hammerich)

Há alguns dias resolvi traduzir a legenda de O Jovem Andersen (Unge Andersen), um filme sobre um dos meus escritores favoritos - Hans Cristian Andersen. É uma película difícil de achar, apesar de ser de 2005. Dez dias foram necessários para que ela ficasse pronta.

Então, mesmo com o mundo que temos hoje, onde é de mais interesse da massa conseguir algo sobre qualquer pseudo-escritor do que ler as obras dos verdadeiros gênios e mágicos da literatura mundial, pensei em ajudar a ínfima parcela que gosta de ir contra a corrente, que sabe menos inglês do que eu e que gostaria de saber sobre a trajetória de Andersen. 

Traduzir legendas de filmes raros é um ato franciscano. Não muito diferente de escrever quase regularmente neste blog. Ou seja, nenhum desses ofícios conta com um público expressivo. Mas há, sempre, essa invisível e incrível força motriz - a esperança em uma única pessoa, aquela que não sabe-se o nome, a  raça, a cor, a condição social, nem se é menino, menina, ambos ou todos. Se esta única pessoa utilizar e gostar, o trabalho foi válido.

E pensando no diálogo do começo, na legenda e nos acontecimentos dessa semana (e por que não em outras épocas?), cheguei a conclusão que é sempre bom partilhar experiências e situações. É entre os iguais que acha-se a compreensão.

Não sou uma pessoa difícil e tampouco fácil. Para a primeira, trato de exagero e pouco conhecimento sobre mim. A segunda, consideraria uma afronta e até mesmo uma crítica, afinal, nunca serei uma samaritana e não gosto nenhum pouco dessa ideia. Talvez muitos achem-me louca (eu mesma, de vez em quando, também considero este fato), pois abraço e defendo causas que, muitas vezes, nem dizem-me respeito. E isso custa-me muito, pois, além de ficar sozinha no campo de batalha, percebo que as pessoas (até mesmo as que são alvo das situações) não procuram envolver-se mesmo que acreditem que estão sendo injustiçadas ou que há injustiça.

De repente, caí em mim. Neste mundo cão, o único que importa-se e pode defender-me sou eu mesma. E, nesse ínterim, meu desespero faz com que eu cometa erros primários - algumas pessoas, até mesmo as mais próximas, uma hora ou outra, vão usar todos os meus pontos fracos como tinta para um quadro cruel.

Essa semana briguei com um colega de trabalho acadêmico. Porque fui defender o coletivo (a alma sindical gritando). Contudo a vida não é como os filmes: não apareceram outras reclamações, não tocou o fundo musical e ninguém uniu-se e deu as mãos. Virei um conjunto unitário. E foi um 7x1. 

Não tolero ameaças - a não ser em casos parecidos com o de Irene Adler em Sherlock Holmes - você precisa usá-las para defender-se dos verdadeiros vilões. Bem, eu mesma, nesta vida, já fui alvo de algumas, das mais graves, partindo de pessoas de antigos relacionamentos, as mais corriqueiras, como de colegas que usaram desabafos e confissões para tirar-me o sono. Com elas aprendi que o melhor é se precaver e só baixar a guarda para quem realmente for de confiança (o que não é tarefa fácil, talvez, se usarmos uma regra como cumprir todos os Trabalhos de Hércules...).

A vida é um padrão. E assim mais histórias surgem... Um baú de memórias.

Há algum tempo, muito tempo, uma determinada turma fazia a cadeira de Cálculo II. E com exceção de um aluno, todos os outros estavam indo muito mal. Falta de estudos? Não. A didática do professor era terrível - robotizada e insustentável (e a mais utilizada e aceita no curso de Física). A primeira prova veio e notas ruins apareceram como uma miríade de estrelas. Então, combinamos todos de não fazer a segunda avaliação para forçar, assim, o professor a nos dar mais tempo para contornar esse déficit de aprendizado. Poderia dar certo ou não. A vida é um jogo mesmo. Só que, infelizmente, um dos alunos, justamente a exceção, apareceu para fazer a prova - apesar das inúmeras súplicas e mensagens. Ele tinha facilidade e queria fazê-la, não importava o acordo. Direito dele? Sim, claro. Ele fez o que teve vontade e achava correto. Resultado - todos tiraram zero e ele tirou uma nota acima de sete. Tomei as dores para mim (elas também eram minhas, ora!), briguei e não falo mais com este desde então. Afinal, o mesmo direito que ele tem de fazer o que convém, eu também tenho - e com motivos bem plausíveis. Um dia ele tentou justificar seu erro, mas não existiu um pedido de desculpas. E hoje TODOS os que foram traídos falam com esta pessoa como se nada tivesse acontecido. Sim, o mundo é feito dessas estranhas relações. Mas só que o meu não é. E a vida seguiu.

Eu sempre uso as guerras como comparação - se um do meu pelotão trai a estratégia do grupo em benefício próprio, todos correm o risco de morrer. E alguém que trai, seja em qual situação for, pode repetir isso em outros momentos - com maior ou menor impacto - mas as sequelas existirão.

Traição tem uma significado tão forte para mim que nunca entenderei o porquê de ter tornado-se algo banal. Honra, fidelidade e compromisso podem não encher barriga, mas dignificam. Brinco que se eu fosse da Antiguidade, eu seria a 1 de Esparta. 

E nessa mundo lamacento e cheio de vermes e poços profundos, as ilusões são irremediáveis. Todos nós adentramos este véu momentaneamente confortável. Ficamos inertes sem saber onde aplicar nossos dons e nossas qualidades e duvidamos inúmeras vezes que essas existam. Sentimos raiva e sofremos injustiças.Tudo que achamos correto, aos olhos dos outros, é errado, inapropriado e o caminho mais rápido para o mais profundo isolamento e descrédito. E assim contentamos-nos e ser passíveis, medrosos e cabisbaixos.

A vida como deve ser é bizarra - é um resto de uma fogueira de conto de fadas, devaneios e perda momentânea da visão. De dia, uivamos, perdidos, clamando por uma direção e a noite, com os faróis de Andersen, alcançamos voos longínquos.

A verdade, de fato, nunca foi tão paradoxal. 

4 comentários:

  1. "Honra, fidelidade e compromisso podem não encher barriga, mas dignificam." Se bem que nestes tempos tais conceitos são (ou parecem ser) ilustres desconhecidos. Vivemos sob a égide do "utilitarismo": usamos o que for útil, descartamos o que não "serve mais". E isso tem valido para as relações pessoais também. Injustiças são cada vez mais comuns. A vida é estranha... mas nós conseguimos torná-la mais estranha. :-/

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    1. Nunca foram ditas mais sabias palavras, querido amigo Jaime! Beijos***

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  2. Pelo discurso, já imaginei a cena, o "trairá" e o professor... No nosso curso coisas como estas são comuns e permanecem despercebidas, intocadas...
    Também guardo mágoa, raiva, e não esqueço das maldades dos outros. Alguns dizem que isso é ruim, mas fingir que está tudo bem, que nada aconteceu...Ainda não tenho essa sabedoria..

    Ticy, adoro seus texto... Parabéns....

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    1. Olá, querida amiga Fatiminha! Que prazer tê-la por aqui! O discurso de quem diz que guardar mágoas faz mal, é, talvez, dado por aqueles que já chatearam muitas pessoas e não pretendem pedir desculpas. Beijos***

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Querido (a) leitor (a), obrigada por ler e comentar no Café Quente & Sherlock! Espero que tenha sido uma leitura prazerosa. Até a próxima postagem!